Tendo como pano de fundo o quadro te6rico do poder da imprensa anteriormente delineado, irei centrar-me agora em dominios mais especificos da dominancia. Come�o com um sum::irio da investiga�ao critica sobre os modos coma os media estao envol vidos na reprodui;iio e na manutenc;iio subsequentes e na legitima<;iio do poder do grupo dos brancos.16Esta analise serve entiio como um paradigma para uma expli ca<;iio breve do papel dos media noutras formas de dominilncia de elite, como as de genero, classe e regiiio do mundo.
O poder persuasivo da imprensa
e
particularmente efectivo se o seu relato for con sistente com os interesses da maioria dos leitores. A cobertura da ra�a e dos assuntos ftnicos nos Estados Unidos, na Europa e noutros paises europeizados, constitui um caso evidente. Desde o Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos, nos anos 60 e dos 'motins' urbanos da Gra-Bretanha nos anos 80 ate its actuais guerras civis de origem ftnica na Europa do Leste e noutros lugares, os conflitos raciais e ftnicos tern sido um t6pico maior das noticias. A imigra�ao e a integra�ao estao entre os assuntos sociais mais alarmantes das politicas europeias actuais e das reportagens mediaticas. A rebeliao dos negros pobres que atearam o fogo a partes de Los Angeles em Abril de 1992 foi uma hist6ria que chegou aos titulos dos jornais em toda a parte do mundo.As an::ilises da cobertura dos assuntos ftnicos mostram um alinhamento evidente da imprensa com o poder das elites brancas dominantes, hem coma com o ressentimento popular entre a popula<;iio branca em geral, cujos protestos contra mais imigra<;iio ou politicas serias de direitos iguais siio mostrados de uma forma proeminente pelos media e assim mais exacerbados.
E verdade que, desde os anos 60, com a mudan<;a geral de atitude sobre os assuntos de direitos civis, os media ocidentais tornaram-se menos abertamente racistas. Um apoio moderado aos direitos das minorias parece ter-se tornado o consenso domi- 16 Este sumario e em grande medida baseado no meu livro sobre racismo e imprensa (Van Dijk 1991), onde se encontram mais referencias sobre o papel dos media nos assuntos Ctnicos.
nante, nem que seja apenas em teoria, e podemos assumir que a imprensa liberal de qualidade teve um papel particular nesta rnudan,a ideol6gica global.
Ao mesmo tempo, a discrimina<;ao ftnica e racial est.i longe de ser erradicada. As minorias permanecem genericamente em posii;5es socioecon6micas frequentemente caracterizadas coma sendo as de uma underclass. Os ataques contra as minorias e os emigrantes no Reino Unido, Alemanha, Fran<;a e It.ilia estao ainda, ou de nova, na ordem do dia e sao combatidos pelas autoridades de uma forma pouca energica. Em suma, o racismo e o etnicismo permanecem um dos maiores problemas das sociedades brancas.17
Este retrato complexo, cheio de contradiqoes que colocam valores humanitarios de direitos iguais contra a domin3ncia racial e etnica em virtualmente todos os dominios da sociedade, tambfm se reflecte na cobertura dos assuntos ftnicos na imprensa da Europa e dos Estados Unidos. Os media tern tido um papel crucial na reprodu,ao do
statu quo ftnico, hem coma na perpetua<;:'io do racismo e do etnicismo.18 Hoje, isto
e
abertamente evidente, por exemplo, nos media sfrvios, cujo nacionalismo feroz e hist6rias de terror alimentam a agressao contra a Cro.icia e a B6snia-Herzegovina, ou nos media romenos (e outros) que incitam o 6dio contra judeus, ciganos e mino rias hllngaras. Pouco diferente e a cobertura anti-emigrante nacionalista e xen6foba da imprensa da direita no Reino Unido, Alemanha e Fran,a. 0 poder da imprensa popular da ala direita deve-se especialrnente ao seu acesso a uma audiencia vasta, e nao ao seu prestfgio intelectual. A sua legitima,ao deriva do facto de reivindicar que fala "em name da gente comum", uma popula<;ao cujas opini6es ftnicas j.i foram formadas com a sua ajuda.A (muito mais pequena) imprensa liberal tern uma posi,ao mais complexa sobre assuntos ftnicos. Nao advoga abertamente a discriminai;ao, o preconceito e o racismo e usualmente mantfm uma dist3ncia critica relativamente
a
direita racista. Defende a tolerancia e a compreensao e pode ocasionalmente prestar aten,ao aos problemas dos emigrantes ou de outras minorias. No entanto, ao mesmo tempo, desempenha um papel mais subtil na reprodu,ao da desigualdade etnica, mostrando assim quee
parte do problema do racismo e nao da sua solu,ao. Fa-lo por partilhar e contribuir para o consenso dominante da elite branca sabre assuntos ftnicos, segundo o qual as sociedades ocidentais nao sao racistas. De facto, a nega<;3o do racismo constitui uma <las estratfgias maiores dos media e de outras elites brancas na sua auto-apre senta,ao positiva como lfderes morais da sociedade.17 Dos muitos estudos contempor.ineos sobre racismo na Europa e na America do Norte, s6 menciono os de Barker {1981), Dovidio e Gaertner (1986), Essed (1991), Gilroy (1987) e Mlies (1989), cada um deles com o seu modo de abordagem especifico.
18 Dos muitos volumosos livros que mos tram em detalhe este papel dos media na reprodm;ii.o do racismo, ver, por exem
plo, Bonnafous (1991), Ebel e Fiala (1983), Hartmann e Husband {1974), Indra {1979), Martindale (1986), Merten et
al. (1986) e Wilson e Gutierrez (1985). 0 sum3.rio da investigai;iio que faremos mais adiante inregra resultados destes
e de outros estudos.
grupo minorit.irio
e
cuidadosamente evitado, senao censurado. As excep\6es aqui definem estruturalmente a regra, mostram que sao acidentais e nao amea\adoras para a dominiincia do grupo branco e ao mesmo tempo sinalizam que os outros e nao a maioria devem ser culpabilizados pelo insucesso.Conclus6es similares resultam das an.ilises de outros niveis e dimens6es dos relatos das noticias sabre assuntos Ctnicos. A forte derrogar;ao estilistica e ret6rica das mino rias Ctnicas e especialmente dos anti-racistas
e
um tra\o normal di.irio dos tabl6ides britanicos. Os editoriais estao repletos de lances usuais de auto-apresenta<;ao posi tiva dos brancos e de apresentar;ao negativa do outro, coma a sobejamente conhecida nega\80 aparente "n6s nao temos nada contra os negros (turcos, etc.), mas ... ", cujas vers5es tambem aparecem nas conversa\5es di.irias entre brancos. Da mesma forma, as concess6es aparentes ou elogios aparentes tambfm servem para a salvaguarda moral da face quando a mensagem global sobre minorias ou imigrantes se pretende negativa. Frases coma "a vida dos negros nos bairros sociaise
muito dificil, mas ... "e
uma manobra que organizou muitos dos editoriais dos media brancos e outros comentarios sobre a revolta de Los Angeles em 1992.Os leitores
Nao
e
surpreendente que, em resultado dessa cobertura, os leitores brancos ad quiram uma versao seriamente tendenciosa dos assuntos Ctnicos. Porque os leitores mfdios nao tern acesso a defini\6es alternativas da situa\80 Ctnica, e porque as defini\6es alternativas sao dificilmente consistentes com os seus melhores interesses, eles aceitam genericamente essas defini<;6es dominances e habituais (mainstream)como auto-evidentes.
Inversamente, coma indic.imos antes, a imprensa usar.i mais uma vez esse ressen timento popular para apoiar a sua pr6pria cobertura. Apesar <las normais gerais e oficiais contra a discrimina\80 e o racismo, poucas transgress6es populares dessas normas tern tanto acesso
a
imprensa coma as dos assuntos Ctnicos. Cartas ao editor que algumas vezes expressam abertamente preconceitos explicitamente racistas ou Ctnicos quase nao sao rejeitadas, e certamente nao o sao na imprensa da ala direita. As entrevistas a brancos dos bairros sociais com ressentimentos siio prfltica habitual no "relato sobre a ra\a". De facto, os mesmos brancos teriam pouco acessoa
imprensa se a sua ira fosse dirigida a classes e niio a ra\as. Por outras palavras, o ressentimento popular contra a imigra\iio ou contra os direitos das minorias tern valor de notfcia ee
bem-vindo, ao mesmo tempo que permite tambfm aos jornalistas publicarem opini6es que seriam inconsistentes com a sua auto-imagem mais liberal e moderada. O que seriam opini6es estritamente locais, pessoais ou de bairro tornam-se assim opini6es nacionais devido ao vasto alcance de ac\a'.o dos mass media.Quer seja de uma forma intencional, quer seja de uma forma nao premeditada, a imprensa desempenha assim um papel crucial na reprodU<;ao do racismo na sociedade. Fa-lo nao s6 por simplesmente dar voz a atitudes do publico branco, mas em primeiro lugar por definir a situac;ao ftnica de uma forma que influencia persuasivamente o publico para adoptar estes modelos das elites sobre acontecimentos etnicos. Em condic;6es especfficas de crise socioecon6mica, politica e sociocultural e de incerteza, esses modelos podem ser mais exacerbados por determinadas partes da popula�ao branca numa direcc;ao mais abertamente racista, contra a qual a imprensa respeit:ivel pode enta.o reagir demasiadamente tarde e com pouca energia. Uma vez evocado o ressentimento racial, e dificil repeli-lo ouconte-lo. E porque o anti-racismo explicito e consistente nao e a politica da maioria dos jornais do Ocidente, niio ha um quadro alternativo para combater o consenso ernico dominante que a imprensa ajudou a pre-formular.