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Pressuposi1,iio

No documento [Download integral] (páginas 172-175)

A pressuposic;iio e um caso especifico e conhecido de implicac;iio semantica. Em ter­ mos formais, uma proposic;iio

q

e pressuposta por

p

se estiver implicita em

p

e em niio-p. Em termos algo mais adequados, mas menos formais: qualquer proposic;ao cuja veracidade seja aceite pelo enunciador de forma a permitir-lhe produzir um

enunciado, mas que niio se encontre declarada nesse enunciado,

e

uma pressuposi\iio do enunciado. Em termos ainda menos precisos, mas mais relevantes a nfvel cogniti­ vo, as pressuposi�Oes siio simplesmente o conjunto de conhecimentos culturais t.icitos

que diio signilicado ao discurso. A nfvel lingufstico, no entanto, as pressuposic;oes

resumem-se 3.s proposi\6es verdadeiras niio-expressas que siio assinaladas por sin­ tagmas estruturais ou outros elementos (como artigos definidos, orac;Oes relativas e

antepostas com that) ou ainda pelo significado de palavras especificas como "even" (Kempsen 1975; Oh e Dineen 1979; Petiiffi e Franck 1973).

As pressuposi,oes podem desempenhar, no discurso, func;oes ideol6gicas de grande relevo (Mosher 1991 ). E precisamente por dizerern respeito a conhecimentos ou outras

cren,as qne niio siio declaradas qne o locutor as toma simplesmente por verdadeiras e que sao capazes de "apresentar" proposi<;Oes ideol6gicas cuja verdade niio

e,

de forma nenhuma, incontestavel. Tai como no caso das implica,oes, permitem aquele que fala ou escreve n:io s6 fazer afirma<;6es sem que, na realidade, estas se encontrem expressas, como tambfm tomar por certas determinadas crenc;as que podem nao se-lo. As pressuposi,oes siio um dos elementos principais dos argumentos ideol6gicos. Assim, o juiz sexista retratado no exemplo (6) pressup6e que as pr6prias mulheres niio quereriam trabalhar para ele se niio houvesse luz suficiente no parque de esta­ cionamento. No texto (8), a pergunta "Teria o candidato sido fustigado por uma onda de crfticas populares?" pressup6e que Zoe Baird foi, de facto, fustigada por uma onda de crfticas populares. Esta pressuposi,iio pode, em parte, ser considerada verdadeira, tendo em considera,iio os conhecimentos dos leitores do New York Times (na sua maioria, provenientes de notfcias publicadas anteriormente), mas a forma como se encontra formulada exprime tambfm uma opiniiio (negativa) acerca destas reac<;Oes ("fustigada", "onda de crfticas',), tal como o autor do artigo as representa no seu modelo, evidenciando, ao mesmo tempo, uma atitude favorivel ao trabalho das mulheres, ou uma atitude antilegalista relativamente a contrata,iio de mulhe­ res. Duas frases mais adiante, o exemplo pressup6e tambem que "muit�as pessoas se insurgiram contra a nomear;io". A proposir;ao que encontramos no par.igrafo seguinte - e segundo a qua] Zoe Baird teria, na realidade, violado a lei - apresenta implfcitos e pressupostos muito menos marcados.

Segue-se um outro excerto de um e�itorial de opiniao acerca do mesmo caso, es­ crito par um conhecido cronista, Anthony Lewis. Sob o tftulo "Estrangeiras no pr6prio pafs: e tudo uma questao de sexo, seu idiota", o autor tece os seguintes coment.irios:

(a) E onde esta o movimento feminista? As organizac;Oes que dele fazem parte mantiveram­ -se em silencio durante o caso Baird. lr:lo acordar e perceber que o que esta a acontecer vem contribuir para afastar um elevado nllmero de mulheres do desempenho de altos cargos governamentais? Ja esta na hora de todas as pessoas sensatas acordarem e po­ rem fim a esta cac;a as bruxas. Esta na hora de dar atenc;ao ao verdadeiro problema: as leis que tornam t3o dificil encontrar pessoas competentes e em situac;3o legal para tomar conta das crianc;as. Esta na hora de parar de brincar com o que ha de politico em tudo isto e perceber a verdadeira questiio: os preconceitos contra as mulheres.

(New York Times, 8 de Fevereiro de 1993)

Neste excerto, estao, entre outras, pressupostas as seguintes proposir;Oes:

172

• 0 movimento feminista estcl a dormir.

• 0 que est::i a acontecer vem contribuir para afastar um elevado nl.J.mero de mulheres do desempenho de altos cargos governamentais.

• Houve uma car;a as bruxas.

• As pessoas tern andado a brincar.

• A verdadeira quest3o sao os preconceitos contra as mulheres.

Como acontece com a generalidade das pressuposic;6es, a maioria destas proposic;Oes e introduzida por um "que" relativo ou integrante. No entanto, nem todas as orac;Oes subordinadas exprimem pressuposic;6es, fazendo-o apenas consoante o significado da ora<;ao principal ou de express6es especificas nela contidas. Assim, a utiliza<;ao da express:io factiva "perceber que" pressup5e normalmente a veracidade da orac;:io subordinada ("nao perceber que" tern tambem esta consequencia). De igual modo, "parar" (ou "nao parar") pressup5e a veracidade da orac;ao subordinada. Em termos menos claros, o uso de express5es coma "o verdadeiro problema

e

que" (ou "que ... nao e um verdadeiro problema") pressup6e tambem geralmente a veracidade da orac;:io subordinada, embora, nestes casos, a orac;ao seja mais ou menos assertiva: Lewis declara realmente que a verdadeira questao sao os preconceitos contra as mulheres, n:io o pressup5e - embora possa "lembrar" aos leitores que a assistencia aos filhos e os preconceitos contra as mulheres s:io a verdadeira questao. "Lembrar"

e

um interessante caso intermfdio entre declarar e pressupor - diz respeito a um conhecimento partilhado e, consequentemente, fclcil de pressupor, mas, em termos cognitivos, esse conhecimento precisa, antes de mais, de ser "activado" pelo autor (Schank 1982).

Estas pressuposi<;6es sao parcialmente ideol6gicas, uma vez que implicam atitudes tambem elas ideol6gicas relativamente ao trabalho das mulheres e a assistencia aos filhos no enquadramento de uma ideologia liberal mais geral a favor dos direitos das mulheres. Isto torna-se evidente se formularmos um contra-argumento oposto ao de Lewis, baseado noutras ideologias - como a ja referida ideologia legalista, ou uma ideologia francamente conservadora e antifeminina susceptivel de questionar, para come<;ar, o direito ao trabalho das mulheres que tern filhos. Ideologias como estas nao aceitariam a pressuposi<;ao segundo a qual um elevado numero de mulheres seriam afastadas do desempenho de altos cargos governamentais: argumentariam, por exemplo, que nao podemos generalizar o caso Baird, que Zoe Baird tinha violado a lei, que poderia ter pago a uma pessoa em situac;ao "legal" ou ent:io - argumento ainda mais marcadamente ideol6gico - que Baird e outras mulheres com filhos nao deveriam ser adrnitidas em altos cargos governamentais.

Em resumo, muitas <las implicac;Oes e pressupostos de editoriais e artigos de opini3o baseiam-se em complexas atitudes e ideologias, relativas as normas sociais, valores, direitos e interesses dos grupos. Para que esses argumentos ideol6gicos possam ser entendidos, aprovados, ou rejeitados, os modelos subjacentes e as cognic;Oes sociais dos autores e dos leitores devem ser explicitos, de forma a que possa saber-se qua! das informa<;6es implfcitas e ideol6gica (Andsager 1990; Burkhart e Sigelman 1990).

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