• Nenhum resultado encontrado

Proposi�oes

No documento [Download integral] (páginas 154-158)

Os significados de frases e de discursos representam-se normalmente em termos de proposi<;iies, cujas estruturas (par exemplo, um Predicado, varies Argumentos a de­

sempenhar v.irios ''papeis" e uma ou mais modalidades) eram, segundo se supunha,

controladas par esquemas de modelos mentais. Tai coma sucede com os modelos,

tambem as estruturas proposicionais podem ser controladas por ideologias, por exempla, da seguinte maneira:

• as Moda/idades de "necessidade" e "probabilidade" podem depender da

farma como um determinada grupa "define a situa�ao,,;

• os Predicados, seleccionados enquanto significados para descrever (ac­

tares saciais de) grupas externos, podem incorporar opini6es controladas par ideologias, coma se verifica no uso de "terroristas" e "combatentes da

liberdade". A lexicaliza<;ao-que mais adiante desenvolveremos -pode servir

para ilustrar este panta.

Os papfis semanticos de argumentos proposicionais (Agente, Paciente, Objecto, etc.) podem estar dependentes dos papeis que, num modelo, siio atribuidos por mo­ tivos ideol6gicos. Assim, num conflito social, podem atribuir-se a diferentes grupos diferentes tipos ou graus de responsabilidade ou envolvimento em acc;Oes positivas ou negativas. Tal como depois veremos em maior pormenor, os actores dos grupos internos sao quase sempre considerados Agentes respons:iveis por actos positivos e Pacientes nao-respons:iveis pelos actos negativos de Outros, e vice-versa, em relac;ao aos actores de grupos externos.

Estas e outras propriedades "tendenciosas" <las proposic;Oes tambfm podem ser resumidas pelas no,6es de perspectiva, ponto de vista ou posi,ao. As proposi,6es sao continuamente construfdas a partir de modelos mentais em func;ao da posic;ao (contextualizada) do falante e, portanto, possivelmente em fun,iio de cren,as contro­ ladas por ideologias. Uma perspectiva coma esta controlara tambem a representa,ao proposicional do espa,o e do movimento, da dirm;ao, da proeminencia, do realce e de outros aspectos do significado.

Lexicaliza1,iio

Embora nos concentremos numa semantica discursiva especffica,

e

importante re­ al,ar que a selec,iio dos significados das palavras-feita atraves da lexicaliza,ao- e, provavelmente, a dimensiio primordial de um discurso controlado por ideologias. Podemos, deste modo, partir do principio de que uma ideologia de teor ecol6gico controla um elemento lexical como ''perigosos1' em frases de iimbito geral como "As centrais nucleares produzem detritos perigosos" e em frase rnais especfficas coma "A central nuclear X produz detritos perigosos". A primeira frase deriva prova­ velmente de uma atitude em rela,ao

a

energia nuclear, e a segunda de um modelo esclarecido por essa ideologia (Van der Pligt 1992). Note-se que a segunda pode nao ser ideol6gica. Desta forma, se a frase se apresentar coma uma descric;ao de um acontecimento excepcional e se o seu autor nao acreditar que todas as centrais nucleares produzem detritos perigosos, trata-se da afirmac;ao de uma opiniao que se baseia numa conclusiio tirada a partir das propriedades locais de uma central, niio sendo uma "instanciac;ao" de uma atitude mais geral acerca de centrais nucleares. Em sfntese, e segundo esta teoria, os elementos lexicais que codificam opini6es representadas apenas em modelos, e nao na cognic;ao social, nao sao ideol6gicos. Podemos afirmar que o nosso vizinho

e

um canalha, mas semelhante expressao s6 ser:i ideol6gica se, par exemplo, o nosso vizinho for negro e se n6s pensarmos que ele

e

um canalha porque, coma outros racistas, acreditamos que todos os negros, ou a sua maioria, sao canalhas.

Como demonstram exemplos conhecidos da utiliza,ao da linguagem ideol6gica -e tal coma atr:is sugerimos -, apelidar um grupo de "terroristas" em vez de "com­ batentes da liberdade" (ou vice-versa) niio e apenas o resultado nominal de uma

categoriza\ao e de uma identifica\ao de car.icter avaliativo, mas igualmente uma decisiio ideol6gica, devido a posic;iio polftica do falante e do grupo a que (ele ou ela) pertence. Ilustraremos esta ideia com os seguintes exemplos retirados de editoriais do New York Times (sempre que for necess.irio, apresentar-se-.i um breve resumo do texto precedente):

(1) A expulsiio de membros do Hamas.

Os defensores de Israel afirmam, com toda a legitimidade, que o mundo presta muito pouca atenr;ao aos crimes terroristas cometidos por extremistas isl3.micos e a deter­ minar;ao fan.itica destes Ultimos de bloquear qualquer solur;ao de compromisso entre 3.rabes e israelitas. Mas a expulsao desvia os olhares da denllncia feita por Israel. Itzhak Rabin considera acertada a decisao de reduzir os prejuizos rectificando a ordem de expulsao. (NYT, edic;ao de 29 de Janeiro de 1993)

(2) 0 ataque bombista ao World Trade Center. Tres dias ap6s a explosao mortifera que transformou os edificios-simbolo de Nova Iorque em simbolos nacionais de vulne­ rabilidade urbana, duas quest6es persistem:

Poderao as autoridades fazer algo mais para evitar que os terroristas e outros socio­ patas tenham acesso a explosivos?

Havera formas de detectar uma arma gigantesca como aquela antes que expluda? (NYT, edic;ao de 2 de Marc;o de 1993)

(3) Ap6s o terramoto que o Cairo sofreu no ano passado, por exemplo, o Governo mos­ trou-se praticamente incapaz de uma ajuda efectiva. Grupos isl3.micos independentes intervieram rapidamente, oferecendo alimentar;.io e abrigo. A cidade do Cairo ve-se obrigada a reagir a pulso face aos terroristas que agora atacam os turistas, a policia e as igrejas copras em nome de um regime isl3.mico. No entanto, a nao ser que a sua capacidade de reacr;ao aumente muitfssimo, o Governo estara, na melhor das hip6teses, a exercer um controlo provis6rio da situar;.lo. (NYT, edir;ao de 7 de Abril de 1993) (4) Pois bem, esquer;am as suposir;Oes. Quer seja ou n.lo um direito constitucional, as

mulheres n.io podem recorrer ao aborto se n.io houver ninguCm que dele se ocupe. E

e

cada vez mais o que acontece, gra<.;as a uma unidade de terroristas domesticos, que assediam os clinicos, e as autoridades mCdicas, aparentemente pouco dispostas a instruir os futuros medicos acerca de todos os aspectos relatives a sallde de uma mulher. (NYT, edic;ao de 12 de Maio de 1993)

No exemplo (1), o termo '1terroristas" est.i, conforme

e

hclbito no mundo ocidental,

associado aos fundamentalistas .irabes ou mu\ulmanos, tal coma as palavras "ex­ tremista" e "fan.itico, aplicadas em especial a pessoas que fazem uso da violencia ao resistir contra a ocupac;iio israelita da Palestina (Chomsky 1984, 1986, 1989; Herman 1992; Herman e Chomsky 1988; Said 1981). Dadas as lexicalizac;oes desta opiniao acerca dos palestinianos ou outros .irabes, a posi�ao ideol6gica do enunciador levanta muito poucas duvidas. Uma analise feita sob o ponto de vista palestiniano 155

teria recorrido a outros termos. Contudo, o editorial n;'io estci incondicionalmente do

!ado de Israel e condena a expulsiio dos membros do Hamas. No entanto, a forma como e feita esta condenac;iio faz lembrar a crftica moderada que dirigimos a um

amigo ou a um aliado ideol6gico: pelo menos neste excerto, os actos do governo israelita niio sao apelidados de "fan.iticos', ou "terroristas", nem se sugere uma

violac;iio do direito internacional enquanto crime perpetrado por um Estado (cf. outros estudos sabre a representa�iio dos .irabes e palestinianos e sabre o conflito no

Medio Oriente nos meios de comunicac;ao social: Alexander e Picard 1991; Barranco e Shyles 1988; Ghareeb 1983; Harsent 1993; Kresse! 1987; Lederman 1992; Schmid

1982; Shadeen1984; Simmons e Lowry 1990; Wilson 1991).

Encontramos expressas nos outros exemplos posic;oes ideol6gicas semelhantes a

esta. Tambem no extracto (2) se reservam os termos "terroristas" e "sociopatas"

para aqueles (supostamente muc;ulmanos) que atacaram o World Trade Center em Nova Iorque; e no extracto (3) categorizam-se da mesma forma os fundamentalistas islamicos no Egipto. Apenas no extracto (4) encontramos uma aplicac;iio menos

estereotipada deste termo: "terroristas" sao aqueles que atacam violentamente as

clinicas de aborto.

Vemos que os significados de frases, ora�Oes, substantivos, nominaliza�Oes e adjec­ tivos sao alvos possiveis para a expressao de contelldos que normalmente tomam a forma de conceitos avaliativos. No entanto, em qualquer dos casos, semelhante representa<;:'io semintica de opini6es em atitudes ou modelos carece de uma an.ilise contextualizada: a mera utiliza�ao ou aplica<;iio de uma palavra como "terrorista" nao leva a crer, por si s6, que o enunciador acredite que a palavra deva ser aplicada

dessa forma, ou que um grupo social seja digno de tal tratamento. Isto significa que em codas as formas do uso da linguagem que sejam indirectas, citadas ou sub­

metidas a qualquer outro tipo de "codificar;:'io", a utiliza�ao de termos avaliativos

enquanto tais niio e indicio de uma posic;ao ideol6gica: quern escreve pode mesmo

rejeitar a relevancia da aplicac;iio de tais palavras. Nos exemplos (1) a (4) niio se

verifica nenhuma "codificar;:'io" do uso de "terrorista". Todos os usos sao literais, intencionais, deliberados, embora a expressiio "terrorista domestico" possa ser

interpretada como uma hiperbole, quando se refere a actividades contra o aborto:

raramente se apelidam de "terroristas" os criminosos, homicidas ou adverscirios politicos violentos norte-americanos.

Podemos entender que o exemplo (4) exprime uma opiniiio a favor da "Liberdade de Esco Iha" no ambito da controversia gerada pela questiio do aborto: as mulheres devem ter a possibilidade de fazer um aborto sem serem assediadas (Nice 1988).

Para alem da palavra "terroristas", esta atitude controla tambem o elemento lexi­ cal "assedio", que um discurso controlado por uma atitude de "Defesa da Vida" provavelmente evitaria, devido a forma negativa coma sao qualificadas as acr;Oes

anti-aborto (Colker 1992; Vanderford 1989). Por fim, este exemplo exprimia tam­

bem uma opiniao negativa relativamente as "autoridades medicas": o facto de serem

incapazes de prestar atenc;iio a este aspecto da saiide de uma mulher. 0 uso do termo

"autoridades" exprime uma opiniao ideol6gica, se partirmos do pressuposto de que o autor se identifica com um grupo (clientes, doentes, cidadaos) que se opiie ao poder dos medicos e dos profissionais da saude.

No documento [Download integral] (páginas 154-158)