Capítulo Três Projecto de Formação
SUPERVISOR INSTITUCIONAL
4. Projecto: Unidades Morfológicas Patrimoniais
4.4 Parque Verde do Mondego – margem e espaço
Parque Verde do Mondego - última unidade morfológica patrimonial implicada no estudo. Da autoria projectual do Arquitecto Camilo Cortesão, é um amplo e aprazível espaço contemporâneo de carácter urbano, concretizado no âmbito do Programa Polis.
Situado na frente ribeirinha da cidade de Coimbra, é limitado a nascente pela Avenida da Lousã, a norte pelo Parque Dr. Manuel de Braga, a sul pela linha de água do Vale da Arregaça e a poente pelo Rio Mondego. A transição Parque Verde / Parque Dr. Manuel de Braga é garantida por escadaria e fonte de anatomia contemporânea, que alimenta uma linha de água estruturante, que acentua a alameda longitudinal do parque.
Amplos espaços verdes, caminhos pedonais, plataformas sobre o rio, equipamentos de apoio e lazer, iluminação pública e mobiliário urbano, qualificam o espaço, tornando-o foco de interesse e de utilização pelos cidadãos de Coimbra (Programa Polis, 2003).
A intervenção descrita tem como objectivo a revitalização do centro ribeirinho da cidade e a aproximação das margens do Mondego através da construção de uma ponte pedonal e ciclável, que permitirá alcançar ambas as margens, “ Uma ponte para passear a pé. (…) Uma ponte que liga este lado àquele lado. Uma linha no rio. Um arco na água. Uma pedra que alcança o outro lado. Silêncio! Um espelho na água. Uma forma sem ruído. (…) No centro, no meio do rio, uma “praça”, um miradouro de descanso. De pausa! De meditação!” (Fonseca, p. 32, 2003).
Situado também sobre a antiga Ínsua dos Bentos, o Parque estabelece uma relação de grande intimidade com o Mondego, rio com o qual Coimbra tem “(…) uma relação física e memorial muito forte, marcada pela irregularidade do seu caudal que, com a recente regularização das águas do Mondego, veio criar um espelho de água permanente que constitui um potencial lúdico e desportivo” para a cidade (Programa Polis, p. 9, 2001).
O Mondego, presença “(…) inspiradora de lendas e poemas, palco de encontros e desencontros amorosos, esta linha de água foi perdendo a sua importância num contexto de desenvolvimento desordenado da cidade. Coimbra quer agora ver devolvido este espaço aos seus habitantes, tornando-o de novo uma das áreas mais emblemáticas da vivência urbana” (MAOT, p. 31, 2002). Assume-se com uma intervenção que pretende a integração do rio e da sua envolvente na urbe, centrando a cidade no rio e valorizando o património numa perspectiva de modernidade, conciliando renovação e revitalização urbanas (Programa Polis, p. 9, 2003).
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4.4.1 Parque Verde do Mondego – um olhar em silêncio
O mesmo Parque verde contemporâneo, vai beber ao rio a tranquila vibração da sua cor – rio que se passeia pelas margens de remanso, beijando as pedras e largando um rasto de luz que a brisa transforma numa tela de espelhos sobre a água, reflectindo imagens efémeras do sol, das nuvens, do dia que está de passagem...e nunca mais regressa para nos acrescentar a vida!
Os plátanos do Parque Dr. Manuel de Braga, dos quais já dissemos antes, reclinam-se sobre a amurada ostentando cabeças de um penteado efusivo, expressão de uma moda eterna - uma escada hi-tec regista a chegada sonora de movimentos apeados…, uma rampa de xisto, activa a textura hídrica de uma fonte contemporânea, que embala o passante para uma alameda de terra e água.
A rota solar marca a amplitude do chão que se desenrola ao nosso andar…, uma brisa fresca embala do rio e avança terra dentro sem atender ao corpo sensível do movimento humano…, irrepreensível, deixa-nos a textura na pele fria de Inverno…, os olhos fogem ao encontro de outros espelhos de água que cintilam ao silêncio ambiente, numa espécie de microdança hidroactiva, que sinaliza a presença da água refém da fonte escura de pedra.
Na generosidade do espaço, paira um laranjal que deixou um jardim cítrico... de laranjeiras perfiladas, magras de uma juventude que a idade há-de converter em laranjais que sinalizem a memória deste território, tantas vezes partilhado pelas águas furtivas do rio.
Um urso verde de espanto…, absolutamente verde, sossega a calma deste habitat urbano onde pais pastoreiam os sonhos activos e a alegria das crianças que os avós recordam numa revisitação impossível, … o sol está quase a pôr-se, …aprendizagem e descoberta em família. Outros…, amam o beijo em bancos de ternura…, vozes interceptam a atenção da nossa audição…, um livro, sorrisos, mágoas que se dissolvem no rio, um café que se derrama numa conversa amiga!
A esplanada é feita de cadeiras de um branco quieto…, uma caixa de vidro e betão, um batelão de arquitectura contemporânea…, de geometria racional num espaço verde…, natural…, humanizado.
As canoas fogem velozes ao som das pagaias21 que com golpes fatais aceleram o movimento de homens sobre o lençol de água. Esporões de madeira sobre o rio fazem uma tentativa de o conquistar…, lançam-se sobre ele, não ousam tocar o seu corpo…, também contêm pessoas que se apaixonam…, propalam um desejo íntimo ou simplesmente guardam silêncio sobre a água.
As margens olham-se sempre, desafiam-se, disputam a posse das águas que se entregam ao bordo dos seus corpos. As pontes atravessam o rio…, a de Santa Clara em passos saltitantes de um verde água…, a da Rainha Santa … a da Europa… num pulo arrancado à margem direita por um tronco possante feito de nervos de aço.
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Depois…, as gaivotas aventuram-se de vez em quando rio acima… e pousam em frente à cidade - trazem notícias de tempestade no mar…, restos de espuma marítima pintam-lhe as asas de branco…, flutuam num bailado intuitivo, ocasional … efeitos de água afogam-se na superfície do seu ventre.
Mas como elevar a beleza e a humanidade das coisas, devolvendo-as ás crianças e aos jovens professores, para que permaneçam como um bem seguro? O contributo deste projecto pretende desvelar e desenvolver dinâmicas de formação, pelas quais, este conhecimento do mundo e este sentir da beleza há-de passar!