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Sub-caso Três “Sentir no Parque Dr Manuel de Braga”

Capítulo Quatro – Projecto: dinâmicas de formação 1 Interacções com instituições e pessoas

4. Sub-casos unidades de trabalho associadas

4.3 Sub-caso Três “Sentir no Parque Dr Manuel de Braga”

A unidade de trabalho a que se refere este Sub-caso, teve por referência o Parque Dr. Manuel de Braga, unidade patrimonial já caracterizada anteriormente, tendo sido planificada e projectada pelas alunas estagiárias implicadas e pelos alunos de uma turma do 2.º Ciclo do Ensino Básico da Escola Eugénio de Castro.

4.3.1 Unidade de trabalho - planificação e material de apoio

Acentuando a procura de coerência e de sentido integrador, a definição do tema da unidade de trabalho, bem como, as finalidades, os objectivos, os conteúdos e a estratégia a adoptar no âmbito da planificação, considerou as orientações programáticas da disciplina de Educação Visual e Tecnológica, o contexto patrimonial e a especificidade do grupo de alunos que iriam desenvolver o conjunto de acções predefinidas.

Da leitura e análise do documento, salientam-se os seguintes aspectos:

1 – Foi adoptado o tema “Sentir no Parque Dr. Manuel de Braga”, na sequência da reflexão e decisão de estagiários e alunos do 2.º Ciclo do E.B. ;

2 - Quanto aos Campos de abordagem, foram considerados Ambiente e Comunidade; 3 - Relativamente às Áreas de Exploração, foram definidas o Desenho, a Pintura e a Construção, como abordagens técnicas essenciais à concretização do projecto;

4 - Entre as Finalidades e os Objectivos Gerais correspondentes, referem-se:

- Desenvolver a percepção – Ser sensível às qualidades do envolvimento, dos objectos e dos materiais, (…), mobilizando para isso todos os sentidos;

- Desenvolver o sentido social – Apreciar os produtos de expressão e de tecnologia de tempos antigos;

- Desenvolver a criatividade – Utilizar intencionalmente os elementos visuais e as suas interacções, para o enriquecimento da expressão e da recepção de mensagens visuais;

- Desenvolver a capacidade de intervenção – Intervir em iniciativas para defesa do ambiente, do património cultural e do consumidor, no sentido da melhoria da qualidade de vida.

A planificação da unidade de trabalho constituiu referência para a elaboração posterior dos vários Planos de Aula, os quais, tiveram em conta uma gestão curricular aberta, flexível, reflexiva e ecológica do processo32.

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As várias acções ocorrentes ao longo da unidade de trabalho, implicaram a produção de material de apoio complementar, designadamente:

- Acetatos com texto e imagem de sensibilização e motivação para a reflexão sobre a problemática do património cultural;

- Embalagem pedagógica com material de apoio e identificação dos alunos para utilização na visita de estudo;

- Produção de um jogo intitulado “Investigadores”, que teve por objectivo o conhecimento prático do Parque através de uma atitude de diálogo directo e questionante com a realidade;

- Documentos multimédia de abordagem ao método de resolução de problemas, aos conteúdos programáticos e a técnicas apresentados em várias aulas;

- Produção de peças tridimensionais referenciadas aos cinco sentidos; - Certificados de participação dos alunos que visitaram o Parque; - Cartazes de abordagem a conteúdos e acções;

- Convites aos encarregados de educação para visita à mostra de trabalhos no âmbito do projecto;

- Comunicações às entidades directivas da escola e directora de turma das iniciativas implementadas no âmbito do projecto;

- Grelhas de auto-avaliação e avaliação dos alunos.

4.3.2 Unidade de trabalho - estrutura sequencial da acção

1 – Visita de estudo ao Parque Dr. Manuel de Braga, como recurso essencial à apropriação do contexto pelos participantes;

2 – Recolha de amostras de objectos e ideias presentes no Parque a partir de um jogo “Descobre os Sentidos”;

3 – Levantamento, na escola, das observações realizadas na visita de estudo; 4 – Processo de pesquisa dos alunos em várias fontes sobre o local;

5 – Apresentação dos trabalhos de pesquisa, sob a forma de registos gráficos escritos e desenhados;

6 – Concepção de um jogo de abordagem à forma e aos sentidos implicados;

7 – Realização de projectos gráficos pelos alunos que retratam o processo de observação em aspectos muito pessoais e particulares;

8 – Criação de um módulo gráfico-pictórico registado sobre vidro, recorrendo às imagens previamente produzidas – este módulo constituiu por ampliação a face de um cubo, suporte da produção de cada aluno;

9 – Realização de objectos tridimensionais de carácter biónico, tendo por referência o contexto, as composições gráficas produzidas e os sentidos; objectos a integrar no interior do cubo atrás referido;

10 – Mostra pública dos trabalhos no Parque Dr. Manuel de Braga no âmbito do projecto “Da Escola Cultural à Cidade Patrimonial – gestos e manifestos”;

11 – Mostra pública dos trabalhos na Escola Superior de Educação de Coimbra no âmbito da apresentação do projecto “Da Escola Cultural à Cidade Patrimonial – gestos e manifestos”;

12 – Final do ciclo de acções - integração de algumas peças no contexto físico da sua escola.

4.3.3 Síntese do processo – Conhecimento em processo de emergência

(leituras e inferências do supervisor institucional)

À semelhança dos casos anteriores, também neste se procedeu a uma prévia incursão virtual no local através do diálogo apoiado em material didáctico-pedagógico produzido pelas professoras estagiárias. Material decorrente da recolha, tratamento e produção de informação sobre esta unidade morfológica patrimonial da cidade de Coimbra, material elucidativo das suas características espaciais, formais, simbólicas e sensoriais. O interesse pelo conhecimento directo do sítio, logo se revelou no desejo de contacto e apropriação pelos alunos.

A visita de estudo, muito bem estruturada, sublinhou com destaque aspectos essenciais à percepção do lugar nas suas múltiplas vertentes. A associação e implicação dos sentidos no reforço da captação de mensagens que o Parque encerra, revelaram-se cruciais para perceber um contexto de ecologia muito particular.

A urbe, enquanto entidade de inserção, o rio como protagonista do seu limite, o jardim como desenho da sua imagem, orientaram a estratégia de contacto com o espaço através da leitura atenta ora do conjunto, ora do detalhe. Mas também dos seres que o habitam, da natureza que lhe pinta a cor, do cheiro verde da relva, do ruído urbano que ali se transforma em murmúrio, da textura dos troncos que invadem as copas, do sabor das águas que o Mondego lhe empresta.

Sentir, mobilizando a autonomia de cada sentido, foi um exercício de concentração e conhecimento profundo do Parque para os alunos. Depois…, jogar…, jogar com perguntas, jogar com a procura, jogar com o desconhecido, jogar com o imprevisto, jogar consigo, jogar com todos, correr com os olhos, correr com as mãos, correr com os ouvidos, correr, correr, procurar, encontrar, aprender - sentir-se feliz33.

À distância, lia-se o presente e aprendia-se acerca do futuro – uma medição não convencional, que cada um em cada tempo há-de tornar singular e fascinante – no fim, abandonaram o local olhando, como que observando a estrutura do tempo que lhes suportou a acção – brincadeira muito séria feita de retalhos de infância e saber acrescentado.

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As futuras professoras testemunharam o cirúrgico olhar dos alunos, a projecção convexa dos sentidos, o jogo-ferramenta de aprendizagem, as dúvidas que se lhes acrescentaram, a exigência que lhes impuseram…, o desafio que a seguir se temia.

As aulas transformaram-se no prolongamento do momento activo da visita. O diálogo aconteceu…muito… e quando desafiados a manifestar o sentir vivido no Parque, revolveu-se-lhes a memória - desenharam no papel e coloriram em tons emotivos. A sua alma cresceu-lhes nos olhos e o corpo nas mãos – um grande projecto sensorial registado na modéstia desértica de uma folha A4, ao som de música que riscadores imitavam num envolvente fervor infantil. Dos desertos agora povoados de sons e imagens, subtraíram um momento particular da sua visão, do seu discurso, e ampliaram-no num quadrado que haveria de animar o tardoz de um espelho também quadrado - face de um cubo.

A esse cubo chamámos-lhe Sputnik – ocorrência de que não se conhece objectivamente a razão…, talvez a postura…, talvez o apelo a outras dimensões - uma caixa de faces regulares, quatro em aglomerado de alta densidade, uma em vidro transparente, a restante em vidro espelhado – uma espécie de objecto estenopeico.

A face espelhada voltou-se para dentro da caixa – considerou-se o “voyeurismo” natural do espelho. No seu tardoz, os alunos pintaram as suas leituras, os seus enfoques, as suas reflexões gráficas…, os seus sentidos.

Da bidimensionalidade da pintura quiseram corpo, volume…, metamorfose. Formas escultóricas que povoassem o interior da caixa – como que formas biónicas, que de sentidos, se transformassem em ideias bebidas na natureza do Parque Dr. Manuel de Braga…, foi-se muito para além do visível34.

O regresso ao jardim que lhes iluminou os actos, era o tributo mínimo a prestar à cidade e aos seus cidadãos – a Alameda das Tílias converteu-se numa galeria de acções que sintetizaram visões a duas e três dimensões, sínteses de leituras reais e imaginárias deste micro-universo, que estabelece pontes entre o homem e a natureza – cada uma das vinte e seis caixas era o território íntimo de um jogo, que permitia obter o reflexo do olhar de cada leitor face ao estímulo-objecto legitimado pela fusão entre autores e realidade vivencial – o Parque Dr. Manuel Braga que transportaram para a sua escola, enquanto testemunho de acção e intervenção qualificante, e que guardarão para si, como memória grata, a alicerçar identidades ecologicamente referenciadas.

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