4 METODOLOGIA
4.2 CONTEXTO DE PESQUISA
4.2.2 Perfil dos alunos do curso em 2017
Os alunos participantes do pré-PEC-G foram convidados a participar da presente pesquisa e, diante da aceitação de todos, foi-lhes entregue o questionário aberto em sua língua
de instrução (francês ou inglês) para que respondessem em uma semana. Todos os dezenove alunos o responderam e entregaram.
Para a criação de um dossiê com as respostas de cada um dos alunos e para preservar seu anonimato na pesquisa, eles foram identificados com números e passaram a ser denominados Aluna 1, Aluno 2, Aluno 3 e assim sucessivamente até a Aluna 19. Posteriormente, eles foram convidados a contribuir com uma entrevista sobre os assuntos abordados. Apenas uma aluna (Aluna 12) não participou desta etapa da pesquisa. No entanto, como ela demonstrou, no decorrer do curso, muito pouca interação com os colegas de outras nacionalidades e pequena disposição em se relacionar com a comunidade-alvo fora do contexto de aulas, foi mantida entre os sujeitos da pesquisa em virtude das informações fornecidas no questionário. Os alunos eram de cinco nacionalidades diferentes (Benim, Gana, Jamaica, República Democrática do Congo e Senegal,) e usuários de duas línguas de instruções distintas (francês e inglês), conforme o Quadro 1 a seguir:
Quadro 1 – Origem e língua de instrução dos alunos da pesquisa
Alunos País de origem Língua de instrução
1, 3, 6, 11, 13, 14, 18, 19 Benim Francês
4, 5, 8, 10, 16, 17 Gana Inglês
7, 9, 12 Rep. Dem. do Congo Francês
2 Senegal Francês
15 Jamaica Inglês
Fonte: Dados coletados no questionário
A faixa etária dos alunos é de 18 a 26 anos e a percepção resultante das observações durante as aulas é a de que a idade não constitui um fator que influencie a interpretação de suas crenças e opiniões, não sendo assim uma característica relevante para a análise dos sujeitos. Como candidatos a integrantes do PEC-G, todos vieram ao Brasil com o intuito de fazer o curso de graduação em cursos das mais diversas áreas – os únicos cursos que têm mais de um candidato são Relações Internacionais (3), Farmácia (3) e Engenharia da Computação (2). Não há vinculação obrigatória entre a instituição à qual o aluno é direcionado para fazer o pré-PEC-
G e a universidade em que irá cursar a graduação. Portanto, em que pese fazerem seu curso preparatório para o Celpe-Bras na UFPA, as instituições em que irão cursar a graduação também são diversas: além da UFPA, Unesp, UnB, UFRJ, UFES, UNEMAT, IFCE, UFF, CEFET-RJ e UFG18.
A maior parte dos alunos vem de um contexto plurilíngue, em que utilizam mais de uma língua em sua terra natal. Para se ter uma ideia, em uma aula, ao serem questionados acerca do número de línguas que falavam rotineiramente em suas relações no dia a dia, todos os quinze alunos presentes mencionaram falar fluentemente mais de uma língua. Mais precisamente, cinco alunos informaram utilizar duas línguas; três alunos, três línguas; cinco alunos, quatro línguas; e dois alunos, cinco línguas. Dois alunos (Alunos 2 e 13) inclusive abordaram, em uma das perguntas do questionário, por que, no Brasil, “só se falava uma língua”, denotando surpresa (que depois se repetiria em uma aula sobre a formação da população brasileira ministrada por este pesquisador) por não encontrarem a mesma realidade aqui.
Entretanto, pelo que se observa, a experiência de vida em um ambiente de contato com pessoas com outras línguas maternas e culturas diferentes por parte dos sujeitos da pesquisa parece ocorrer em nível doméstico, apenas, dentro de seu país, e não se estende a relações com estrangeiros e seus diferentes substratos culturais, pois onze deles informaram que a viagem ao Brasil é sua primeira experiência internacional.
O choque inicial no contato com a(s) cultura(s) brasileira(s) é perceptível nos depoimentos de alguns, o que pode talvez ser justificado pelo fato de ser, para a maioria, uma primeira experiência em viagem ao exterior (para todos os africanos, a primeira vez em que saem de seu continente), pelo distanciamento entre as culturas ou pela posição de vulnerabilidade em que se encontram, não só por estarem em um país de que têm pouca ou nenhuma informação, mas também pelo fato de ainda estarem aprendendo a língua local.
No questionário, apenas seis alunos responderam ter tido algum contato prévio com a língua portuguesa. Os outros chegaram ao Brasil sem saber nada da língua. Dos que tiveram algum contato, a Aluna 6 informou ter feito um pequeno curso de português; o Aluno 7 relatou ter conhecido algumas palavras em português por ter amigas angolanas e também ter feito um curso pela internet; o Aluno 8 alegou ter utilizado um aplicativo de aprendizagem colaborativa para aprender algumas palavras; o Aluno 14 restringiu seu contato a ter escutado funcionários
18 No ano de 2019, a coordenadora solicitou a inscrição de alunos que iriam preencher vagas em Belém e foi
atendida. Porém, esta foi a primeira vez que ocorre tal solicitação no curso, não podendo ser considerada a regra do programa.
da embaixada brasileira em seu país, mas que não entendia nada; e o Aluno 18 afirmou ter feito algumas buscas no site de vídeos Youtube e que chegou aqui sabendo se apresentar em português.
O único aluno que alegou ter algum conhecimento mais consistente sobre a língua portuguesa foi o Aluno 11. Ele afirmou ter pesquisado na Internet alguns alunos da universidade e ter mantido contato com eles, com o auxílio de um programa de tradução no início, mas que conseguia ligar para eles e ouvi-los antes mesmo de vir ao Brasil. Vale mencionar que ele, de fato, era um dos alunos mais proficientes.
Obviamente, todos os alunos relataram ter como objetivo principal estudar aqui no Brasil, o que confirma a observação inicial, por este pesquisador, de uma carga motivacional para o engajamento nas aulas de PLA bastante alta, especialmente no início do curso. Dois alunos ainda complementaram dizendo que teriam vindo ao Brasil para assegurar seu futuro (Aluno 11) e para realizar um sonho (Aluno 14). Essas informações levam ao descarte de uma eventual hipótese da demora na interação com a comunidade local em virtude de falta de motivação ou interesse em aprender a língua ou conviver em nossa sociedade.
Outro aspecto que deve ser apontado como relevante para a presente pesquisa é a concepção pelos alunos de que o programa em que estão inseridos não se resume a uma preparação para o exame de proficiência que farão ao fim, mas que também é necessário para a sua própria experiência de vida no país em que cursarão sua graduação, caso sejam aprovados. Esse aspecto será abordado de uma forma mais aprofundada no capítulo de análise de dados, quando questionados sobre a importância que dão à abordagem de cultura nas aulas.
Os alunos não tinham quase nenhuma informação sobre cultura brasileira, salvo alguns estereótipos (os brasileiros são gentis, gostam de festa e não gostam de trabalhar são alguns exemplos). O desconhecimento da língua portuguesa e das culturas brasileiras acaba por resultar em um agravamento do choque cultural vivenciado e em uma maior sensação de fragilidade e vulnerabilidade do estrangeiro face à comunidade em que está inserido.