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Capítulo III – Estado de direito como valor referencial

POLÍCIAS

1.2 Diferentes visões de poder

1.2.7 Pierre Bourdieu

Os sistemas simbólicos – o poder simbólico e dominação simbólica, são referenciais na sua teorização. Em ‘O poder simbólico’ (1989) refere-se aos símbolos como instrumentos de integração social e com contribuição fundamental na reprodução da ordem social:

“os símbolos são os instrumentos por excelência da integração social. Enquanto instrumentos de conhecimentos e de comunicação, os símbolos tornam possível o consensus acerca do sentido do mundo social que contribui fundamentalmente para a reprodução da ordem social (p.10).

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Na explanação das suas ideias, defende que a construção da realidade social acontece fruto da interacção. Valoriza a naturalização do simbólico, tido como um poder que está em condições de se fazer reconhecer, de obter reconhecimento e que quando obtido se afirma como verdadeiro poder. Se a naturalização do simbólico tem esse peso, numa produção em conjunto com Teubner (2000) acrescenta que o efeito de universalização numa sociedade diferenciada, é um mecanismo importante “e sem dúvida está entre os mais poderosos, através dos quais se exerce a dominação simbólica, ou se assim se preferir, a imposição da legitimidade da ordem social!” (p. 209-210).

Na sua argumentação sustenta que o poder simbólico é o poder de constituir o dado pela enunciação (de fazer ver e fazer crer), de confirmar ou de transformar a visão do mundo, e, desse modo, a acção sobre o mundo; refere-se a um poder quase mágico que permite obter o equivalente àquilo que é obtido pela força (física ou económica), graças ao efeito específico de mobilização, que só é exercido se for reconhecido, entendido esse reconhecimento numa incorporação como sendo natural.

E conclui, afirmando que:

“o poder simbólico não reside nos “sistemas simbólicos” em forma de uma “illocutionary force” mas que se define numa relação determinada – e por meio desta – entre os que exercem o poder e os que lhe estão sujeitos, quer dizer, isto é, na própria estrutura do campo em que se produz e se reproduz a crença. O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou de a subverter, é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia, crença cuja produção não é da competência das palavras” (Bourdieu, 1989, p.15). Ainda na mesma obra, explica que os sistemas simbólicos são sistemas estruturados que exercem um poder (invisível), cumprindo como instrumentos de conhecimento baseados na comunicação, uma função política instrumental de imposição ou de legitimação da dominação. Contribuem para assegurar a dominação de uma classe sobre a outra, no que é tido como violência simbólica, entendida pelo próprio autor como como sendo “todo o poder que chega a impor significações e a impô-las como legítimas, dissimulando as relações de força que estão na base de sua força, acrescenta sua própria força, isto é, propriamente simbólica, a essas relações de força” (Bourdieu e Passeron, 1992, p. 19). Afirma que tornam possível o consenso (homogeneidade) de entendimentos acerca do sentido, contribuindo para a reprodução da ordem social com integração do sentimento ‘de correcto’, ‘de errado’ e por consequência ‘de dever’ (p. 9-11). É neste contexto que a actividade simbólica traduz a doação de sentido ao mundo, com o qual o homem torna significante tudo aquilo que o rodeia e se torna a si próprio significante (para si e para os outros), como refere Pissara Esteves (1993).

O poder simbólico constitui-se na acumulação de determinado capital que tem propriedades de ‘fazer ver’ e ‘fazer crer’ (capital simbólico). Liga-se ao prestígio, à

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liderança, ao carisma (enquanto constitutivos de distinção), que determinado indivíduo/instituição possuem num qualquer campo. Resulta uma posição proeminente, que é reforçada pelos signos distintivos que fortalecem a posse do capital em causa (vide o uniforme de gala do oficial da GNR com as charlateiras e os cordões com as agulhetas, ou o efeito resultante da abertura dos jornais da noite das televisões, com a presença da Manuela Moura Guedes ou mais actual com a Clara de Sousa, o José Rodrigues dos Santos ou a Judite de Sousa). Neste caso, as notícias apresentadas pela ‘pessoa x’ ganham uma força/credibilidade/peso adicional ao conteúdo em causa – conduz a um reconhecimento. Na medida em que é facilmente reconhecido, impõe-se como poder sobre todos aqueles que não são possuidores da mesma quantidade/qualidade de capital, tornando-se mesmo instrumento de violência simbólica (pela imposição de significados arbitrários, não reconhecidos enquanto tal, redundando na consequente anulação de alternativas) e que mais fortemente encontrará eco se o capital simbólico resultar de conversão de capital cultural, económico e/ou político, já que estes funcionam como amplificadores do prestígio e da autoridade resultante.

Os sistemas simbólicos são configurações estruturantes, porque são primeiramente estruturados. Ou seja, a organização lógica, interna, das produções simbólicas, capacita-as a organizar a percepção dos indivíduos proporcionando-se a comunicação entre eles. Isto, leva Alves (s/d) a afirmar que é por esta razão que elas (as produções simbólicas) estruturam as acções dos actores sociais na direcção da reprodução das estruturas de poder e dominação social, materializando as diferenciações e hierarquias presentes na sociedade. Mas esta característica das produções simbólicas, não reduz seu papel a um mero instrumento de manipulação e dominação política (ideologia). A síntese Bourdiana releva particularmente as funções de ‘comunicação e de conhecimento’ dessas produções.

Em conclusão, podemos notar interligações que permitem poder relacionar os posicionamentos dos diferentes autores visitados, sobressaindo algumas ideias principais, que marcam as suas produções. O poder pode traduzir-se em força (que pode ser resultante de dominação e de consentimento); acontece fruto da interacção; manifesta-se de diferentes formas e motiva relações de poder, que acontecem na esfera social, marcadas pela comunicação e pelo conhecimento. Na visão Arendtiana, o poder exige consentimento. Convoca a determinada reciprocidade, balançando entre responsabilidade e obrigações, implicando reconhecimento que garante a legitimidade e obrigando a considerar mecanismos de contenção de possíveis cometimentos de abusos do poder detido. Para Weber pressupõe reconhecimento, que encontra em Bourdieu uma faceta diferenciada. Apesar das diferenças, o poder funciona como influência68 legal e legítima, estabelecida por normas, crenças e

valores em vigor na sociedade da época.

68 Acção pela qual um actor leva os outros a agir de modo diferente daquele segundo o qual teriam

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Esta leitura conduz a outra ideia forte, pois mesmo Weber, com a sua classificação convoca a uma lógica de legitimação que é conditio sine daquilo que sustenta na sua perspectiva a aplicação de poder. É a sua força e a sua sustentação. Bobbio (1987) salienta isso mesmo ao referir que relativamente aos três tipos ideais de poder, Weber, pôs-se o problema de individuar e descrever as formas históricas do poder legítimo, definido – distinto da mera força – como o poder que consegue condicionar o comportamento dos membros de um grupo social emitindo comandos que são habitualmente obedecidos na medida em que o seu conteúdo é assumido como máxima para o agir (p. 92).

A legitimação no exercício do poder é o fundamento nuclear, qual trave mestra, que tomamos como referência, de modo a ser o fio condutor que se considera nos pressupostos que orientam este estudo. Por outro lado e funcionando como ponto de situação, pelo apresentado e na projecção e salvaguarda dos interesses da investigação, torna-se importante reforçar a manifestação da dupla relação entre os campos e a questão do poder, tanto mais que na sequência vão ser debatidos os poderes detidos/exercidos (simbólicos ou efectivos) dos campos alvo do estudo:

a) Por um lado, evidenciam-se as questões do poder no interior de cada campo, que o estruturam a partir de lutas entre forças relativas (este sentido aparece preponderantemente na produção de Bourdieu e nos seus seguidores, como foi visto) – interessa-nos sobretudo quando se pretende perceber como se instituem certas regras e determinadas práticas, dentro do campo mediático e/ou no campo policial;

b) Por outro lado, vinca-se a questão do poder que se coloca nas relações entre campos que surge de forma mais nítida na escrita de Adriano Duarte Rodrigues, como ficou evidenciado de início. Esta, assenta, nas questões que se prendem com o tema da legitimidade - na identificação do campo dos media com esfera pública, onde ocorrem frequentes disputas de poder entre os campos. A confrontação acontece sobretudo em assuntos em que se intersectam interesses específicos diversos – dá-se o exemplo da droga, onde se afirmam os interesses dos campos/subcampos jurídico, médico, sociológico, policial e mediático, disputando as suas diferentes legitimidades (numa luta pelo ‘poder simbólico’ segundo Bourdieu, ou de ‘definição da situação’, como sugere Goffman).

Salientadas estas ideias base, que poderes ou forma de exercício do poder se identificam em cada um dos campos em estudo? O poder detido pelos campos marca de alguma forma a relação que estabelecem entre si?

Vamos tentar encontrar sentido para as perguntas colocadas no debate que se considera a seguir, relativamente ao que se entende serem os tipos de poder que podem se detidos por cada um dos campos em estudo.

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