Tendência III: significados tendem a ser gradualmente mais situados nas crenças, estados/atitudes subjetivas do falante em relação à situação.
3.2 TEORIA DA VARIAÇÃO E MUDANÇA
3.2.1 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS E PROBLEMAS EMPÍRICOS
A Teoria da Variação e Mudança162 se assenta na ruptura da identificação da estrutura com a noção de homogeneidade, propondo que a mudança linguística deva ser descrita a partir da diferenciação ordenada existente nas línguas. Nessa abordagem ganham destaque: i) o uso linguístico variável e os aspectos externos à língua, sociais163 e estilísticos, como motivadores da mudança; e ii) a metodologia de pesquisa empírica e contextualizada em que a fala, tal como é usada na vida diária dos seus falantes, é vista como base para o estudo linguístico (LABOV, 2006 [1966], 2008 [1972], 2010; WEINREICH; LABOV; HERZOG; 2006 [1968]).
Weinreich, Labov e Herzog (2006 [1968]) se opõem ao pensamento neogramático e às correntes estruturalistas e gerativistas que, com foco nas relações internas dos componentes da estrutura gramatical, deixaram de lado as explicações históricas e sociais sobre a natureza mutável e variável da estrutura linguística164.
Nessa perspectiva, interesses sincrônicos e diacrônicos andam juntos e a língua, inerentemente dinâmica e variável, é entendida como um sistema heterogêneo constituído por regras categóricas e outras
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A Teoria da Variação e Mudança passou a ser conhecida também como Sociolinguística Variacionista, contando com resultados percentuais e probabilísticos como subsídios para análises linguísticas, mas Labov confessa ter resistido ao termo sociolinguística por vários anos, por acreditar que não há prática linguística possível de caráter não-social (LABOV, 2008 [1972]).
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Labov (2008 [1972]) afirma que, quando atribuímos aos fatores sociais um lugar na evolução linguística, não devemos esquecer o grau de contato ou sobreposição entre valores sociais e estruturas da língua. De qualquer modo, é preferível que aprendamos a lidar com essas possíveis sobreposições do que marginalizarmos a atuação de fatores sociais que motivam a mudança linguística.
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Paul, um dos expoentes do pensamento neogramático, é criticado por estabelecer o idioleto (a língua do indivíduo) como objeto de investigação da linguística sem estabelecer relação entre o indivíduo e a sociedade, assumindo o pressuposto de homogeneidade linguística. Saussure também é criticado pelo tratamento homogeneizante da língua e pelo foco sincrônico de seus estudos, além de desconsiderar os fatores externos (sociais e estilísticos) ligados à lingua. Além deles, Bloomfield e Chomsky são alvos de críticas, o primeiro por tratar o indivíduo como imitador dos hábitos linguísticos de seus interlocutores e o segundo por desconsiderar a importância da diversidade linguística e por centrar suas investigações em dados intuitivos, deixando de lado a empiria (WEINREICH; LABOV; HERZOG, 2006 [1978]).
variáveis – condicionadas por fatores internos à lingua (linguísticos: ligados ao funcionamento do próprio sistema) e por fatores externos (extralinguísticos: relacionados a aspectos sociais, regionais e estilísticos) –, sendo que até mesmo nessa porção variável da língua padrões de uso podem ser identificados (WEINREICH, LABOV e HERZOG, 2006 [1968]).
O objetivo maior de WLH é estabelecer os fundamentos empíricos de uma Teoria da Mudança Linguística e, ao final da obra, alguns princípios gerais são elencados:
1. [...] A mudança linguística começa quando a generalização de uma alternância particular num dado subgrupo da comunidade de fala toma uma direção e assume o caráter de uma diferenciação ordenada.
2. [...] A estrutura linguística inclui a diferenciação ordenada dos falantes e dos estilos através de regras que governam a variação na comunidade de fala; o domínio do falante nativo sobre a língua inclui o controle destas estruturas heterogêneas. 3. Nem toda variabilidade e heterogeneidade na
estrutura linguística implica mudança; mas toda mudança implica variabilidade e heterogeneidade. 4. A generalização da mudança linguística através da estrutura linguística não é uniforme nem instantânea; ela envolve a co-variação de mudanças associadas durante substanciais períodos de tempo e está refletida na difusão de isoglossa por áreas do espaço geográfico. 5. As gramáticas em que ocorre a mudança
linguística são gramáticas da comunidade de fala [...], os idioletos não oferecem a base para gramáticas autônomas ou internamente consistentes.
6. A mudança linguística é transmitida dentro da comunidade como um todo; não está confinada a etapas discretas dentro da família [...].
7. Fatores linguísticos e sociais estão intimamente inter-relacionados no desenvolvimento da mudança linguística [...]. (WEINREICH; LABOV; HERZOG; 2006 [1968], p. 125) Fica evidente que variação e mudança caminham juntas, que a comunidade de fala tem papel de destaque na mudança linguística, que
as mudanças são graduais e contínuas, que os falantes têm papel ativo na transmissão da mudança, que aspectos estilísticos também influenciam nas escolhas das formas em variação e que tanto fatores linguísticos quanto sociais estão relacionados com o desenvolvimento da mudança.
Esses princípios estão ligados aos cinco problemas empíricos considerados como alvo das investigações linguísticas sobre a variação/mudança. Apesar de serem intimamente correlacionados e interdepentendes, passamos, a seguir, a explicar os problemas e a correlaciná-los com os uso dos RADs em análise a partir dos textos de WLH (2006 [1968]), de Labov (2008 [1972], 1982) e da arejada rediscussão feita em COELHO et al., no prelo).
O problema da restrição refere-se ao conjunto de mudanças possíveis e às condições possíveis para a mudança, ou seja, está centrado na busca por princípios universais que determinam a estrutura e a mudança linguística, possibilitando previsões sobre os rumos da mudança. Não se trata de estabelecer as regras ou normas absolutas, mas de encontrar tendências gerais de uso e da direção da mudança através de um conjunto de condicionadores linguísticos e extralinguísticos. A ideia é que, a partir de análises focadas em fenômenos específicos em uma língua, é possível estabelecer correlações com outros fenômenos de natureza semelhente (ou relacionados) na mesma língua ou entre outras linguas e chegar a generalizações sobre a mudança. Como vimos no capítulo 2 do presente trabalho, há uma tendência em várias línguas de que verbos de cognição dêem origem a usos ligados à requisição de apoio discursivo.
O problema da restrição está intimamente ligado com o problema do encaixamento, o qual diz respeito a como fenômenos são encaixados na estrutura linguística e social, levando-se em conta os condicionadores linguísticos, sociais e estilísticos do fenômeno; as causas, efeitos e direções da mudança; e a correlação entre fenômenos em mudança em uma mesma língua. Importante também é a assunção de que a mudança linguística não é repentina, ocorre em grupos de fenômenos que vão se encaixando, promovendo a mudança do sistema sem comprometer sua estrutura.
Coelho et al. (no prelo) ressaltam a importância do encaixamento social dos fenômenos em variação/mudança, ilustrando seu argumento com os trabalhos de Labov em Martha‟s Vineyard, em que o encaixamento social é peça fundamental para explicar as mudanças fonológicas na ilha. Cabe destacar que nesse caso o encaixamento não é explicado por categorias sociais mais gerais (como sexo, idade, classe
social, etc.) mas por aspectos sociais que se vinculam às especificidades da comunidade em análise.
Um de nossos objetivos na presente tese é descrever os condicionadores linguísticos e extralinguísticos do uso dos RADs em análise a fim de estabelecer conexão com os resultados encontrados em trabalhos com itens de natureza semelhante no português do Brasil e em outras línguas. Vale salientar que a escassez de trabalhos de cunho variacionista (e até mesmo de trabalhos quantitativos) sobre os RADs, bem como de pesquisas sobre itens discusivos em geral, limita nossas possibilidades, mas, ainda assim, esperamos encontrar tendências de uso para o fenômeno em análise que, replicadas em trabalhos futuros, poderão desenhar princípios mais gerais sobre as condições que guiam o uso e a mudança desses itens e das unidades discursivas em geral.
Tanto condicionadores linguísticos quanto extralinguísticos atuam no uso dos RADs. A literatura disponível sobre esses itens aponta para fatores de natureza linguístico-discursiva como fortes condicionadores de uso. Aspectos como a posição dos itens, a presença ou ausência de estímulos e o tipo de relação estabelecida no contexto em que o item se insere podem nos fornecem informações relevantes não somente para a descrição dos RADs, como também para sugerir possíveis direcionais de mudança. Além disso, acreditamos que o encaixamento social dos RADs pode ser observado através do controle de variáveis sociais pensadas especificamente para a comunidade em análise.
O problema da transição envolve dois aspectos centrais, a transmissão e a incrementação da mudança, e está ligado a como as mudanças passam de um estágio a outro “pela expansão dos contextos linguísticos de uso das formas, pela sua transmissão de uma geração a outra, pela sua difusão de um período de tempo a outro ou de um grupo social a outro” (COELHO et al., no prelo, p. 105). Considerando-se o caráter gradual e contínuo da mudança, a transição pode ser descrita observando-se as seguintes etapas: i) o surgimento e aprendizado de formas inovadoras; ii) estágios intermediários em que duas ou mais formas coexistem e competem; iii) substituição das formas antigas pelas inovadoras. Alguns RADs, como é o caso para entendesse?, que estão ligados a aspectos identitários, parecem perder espaço na comunidade investigada para o uso de RADs com funções mais generalizadas, como sabe?, percebendo-se tendência à substituição da forma com traços de identidade por formas mais neutras entre os mais jovens.
O problema da avaliação diz respeito a como os falantes avaliam as formas linguísticas de modo subjetivo e mais, ou menos,
consciente e como essa avaliação afeta os rumos da mudança. A atitude do falante se manifesta em dois níveis: no linguístico – relacionado à avaliação da utilidade das formas linguísticas em contextos comunicativos; no social – através da atribuição de significado social às formas linguísticas. Coelho et al. notam que “enquanto a avaliação social tem caráter mais coletivo (dependente da reação do grupo), a avaliação linguística tem um caráter mais individual (dependente da reação do indivíduo” (no prelo, p. 114).
Nesse sentido, os falantes, avaliando linguisticamente os RADs em análise, podem adequar o uso de algumas das formas em relação ao contexto e também ao interlocutor. O falante pode considerar que, dependendo do interlocutor e da relação de intimidade/proximidade estabelecida entre eles, certas formas sejam mais apropriadas que outras165, ou até mesmo que o uso dos RADs em geral seja mais ou menos apropriado a depender da situação comunicativa de maior ou menor proximidade entre os interlocutores.
Em relação à avaliação social, acreditamos que alguns dos RADs em análise, como é o caso de entendesse?, possam carregar significado social ligado a aspectos identitários e, portanto, têm grande potencial para acelerar ou frear a mudança, na medida em que os falantes se identificam com a forma ou a rejeitam.
O problema da implementação é dependente de todos os demais problemas acima descritos, já que se refere ao passo final da mudança, às razões pelas quais certas mudanças ocorrem em determinadas línguas e em dada época. Nesse caso, para além dos resultados numéricos e fatores condicionantes, interessa todo tipo de explicação mais ampla tanto de ordem linguística, quanto social. Coelho et al. (no prelo) ressaltam que aspectos relacionados à identidade e hierarquia social dos falantes, por exemplo, podem interessar para explicitar a implementação, vista atualmente muito mais como mudança em curso do que como mudança completada166.
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Ou até mesmo que o uso dos RADs em geral seja mais ou menos apropriado a depender da situação comunicativa de maior ou menor proximidade entre os interlocutores.
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Coelho et al. (no prelo) assinalam que dada a dificuldade para o tratamento de mudanças implementadas, Labov (2001) reconsidera a abordagem do problema da implementação, dando destaque à mudança em curso, propondo também que o termo seja revisto como “problema da continuação”.
Acreditamos que em maior ou menor medida podemos explicar o uso dos RADs e as mudanças ocorridas nas suas trajetórias verbo > itens discursivos tendo em mente os problemas levantados por WLH.