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Etapa 8 Conclusão do estudo.

2 PARTICIPAÇÃO POLÍTICA E COMUNICAÇÃO PÚBLICA: CONCEITOS E INTERFACES

2.2 TEORIA DEMOCRÁTICA E INTERNET

2.2.3 Procedimentos Democráticos e Engajamento Social

A outra questão, segundo Maia (2008), é que o fortalecimento da democracia não depende apenas de estruturas comunicacionais eficientes ou de instituições propícias à participação. Na sua visão, a motivação correta, o interesse e a disponibilidade dos próprios cidadãos para engajar-se em debates, é condição essencial para que este processo aconteça de fato. As novas aplicações tecnológicas, independentemente de favorecer ou dificultar a democracia, devem ser pensadas de maneira associada aos procedimentos da comunicação estabelecida, entre os sujeitos comunicantes concretos e seus respectivos contextos sociais e históricos.

Maia (2008, p. 279) defende que a topografia da rede e o procedimento da interação comunicativa são elementos simultaneamente autônomos na sua origem, mas interdependentes no efeito que provocam. Na sua concepção, a internet não pode ser tomada, em si, como uma esfera pública. O modo pelo qual o suporte tecnológico da internet configura as condições da comunicação depende do “procedimento” da comunicação democrática.

Transpondo a concepção de espaço público e teoria da deliberação de Habermas para o espaço virtual, Maia (2008) entende que as condições de deliberação devem ser pensadas numa dimensão cultural mais ampla. Neste novo ambiente, o discurso é concebido num sentido mais abrangente, na medida em que visa, em parte, à formação de preferências e de convicções e não apenas à agregação de interesses.

A dinâmica argumentativa está articulada a uma rede de conversação que opera de maneira distinta do discurso singular do encontro dialógico. A formação da vontade é o produto cumulativo de um conjunto de discussões sobre determinado tempo. Trata- se de um processo de interpretação coletiva de longo prazo, e não apenas um procedimento de tomada de decisão (MAIA, 2008, p. 278).

Já a racionalização do debate deve ser entendida como avaliação crítica das razões que os interlocutores apresentam para sustentar ou não um sistema de proposições, regras ou normas. Na perspectiva da política deliberativa, portanto, os atores devem perseguir e especificar o próprio interesse, mas devem também ser responsáveis e justificar seus propósitos.

Segundo a autora, muitas das práticas comunicativas que acontecem nos contextos socioculturais da vida diária e nas esferas públicas periféricas não alcançam as instâncias formais do sistema político e permanecem sem expressão política e, consequentemente, sem eficácia política. Contudo, no quadro da sociedade em rede, com as novas tecnologias da informação e da comunicação, que ultrapassam a perspectiva dos meios massivos e o monopólio da informação, os processos conversacionais e de aprendizagem social devem ser seriamente considerados. O processo discursivo e a negociação de interesses, por meio de práticas comunicativas com maior ou menor de grau de formalidade, acontecem dentro de um campo de oportunidades e constrangimentos.

Shirky (2011) argumenta que as conversas efêmeras que acontecem no pátio da escola e na cantina adquiriram dois aspectos antes reservados aos profissionais da mídia: acessibilidade e permanência. Acessibilidade, segundo ele, significa que outras pessoas podem ler o que alguém escreve. Já permanência refere-se à duração de determinado texto escrito. Tanto um quanto o outro aumentam quando as pessoas se conectam à internet.

De acordo com Gomes (2011, p. 19-45), a participação política on-line, ou seja, mediada por tecnologias digitais, envolvem um conjunto de abordagens interessadas em verificar se e em que medida a internet (entendida como mega-ambiente de conexões via computadores), as ferramentas e iniciativas apoiadas em tecnologias digitais contribuem para resolver o déficit de participação política que afeta as democracias liberais contemporâneas. O sistema político, segundo esse autor, tende a se desconectar da base civil da sociedade (da cidadania), exceto no período eleitoral, quando os

cidadãos entram com os votos e o sistema político9 provê o pessoal especializado para ser votado e escolhido para constituir a esfera da representação política.

A excessiva autonomia do sistema político traz consigo frequente e crescentemente uma autonomia da esfera de decisão política, que controla a forma institucional da comunidade política, que é o Estado, praticamente sem liame que a mantenha atada e submetida ao controle daquele que desta comunidade deve ser o único soberano (GOMES, 2001, p. 25-26).

Para esse mesmo autor, o conceito de democracia comumente aceito no padrão dos estados democráticos modernos inclui alguns aspectos essenciais: a) garantia e /ou aumento das liberdades de expressão, de opinião, de participação; b) garantia e/ ou aumento dos meios e oportunidades de accountability ou de transparência pública dos governos via internet; c) garantia e/ou aumento das experiências de democracia direta, numa base on-line; d) mais instrumentos e oportunidades de participação do cidadão nas esferas de decisão sobre políticas públicas e administrativas dos governos; e) incremento do pluralismo, da representação e da consolidação dos direitos de indivíduos e dos grupos socialmente vulneráveis (GOMES, 2011, p. 28).

As iniciativas digitais democraticamente relevantes, de acordo com o seu pensamento, são aquelas voltadas, portanto, para, pelo menos, três propósitos: fortalecimento da capacidade concorrencial de cidadania, com o empoderamento do cidadão e aumento da transparência do Estado e das formas de responsabilização dos agentes políticos; a consolidação de uma sociedade de direitos; e, por fim, a promoção da diversidade e da capacidade concorrencial das minorias (GOMES, 2011, p. 29).

Para analisar o uso das tecnologias informacionais e comunicacionais no campo político, Pippa Norris (2001) cunhou a expressão sistema político virtual, que designa a tendência dos diferentes atores e instituições que integram os sistemas políticos contemporâneos, especialmente nos países democráticos, de transferirem suas atividades para plataformas virtuais.

Para essa autora, o papel político da internet reflete e reforça as características estruturais do sistema político de cada país. Mas, em alguns casos, as organizações voluntárias de grupos comunitários podem mobilizar as pessoas para a política. Em outros, os cidadãos podem se tornar ativos, através das organizações dos partidos políticos ou dos movimentos sociais, que passam a envolver as pessoas na política de

9 Sistema político é aqui entendido pelo autor como o campo e agentes profissionais encarregados da

protesto. Nesse sentido, a internet se torna um recurso comum, que diferentes agências podem usar na tentativa de gerar apoio público e de influenciar o processo político. Na sua concepção, a principal contribuição da rede é que as suas condições operacionais alteram a estrutura de mobilização e oferecem novos pontos de acesso ao sistema político, criando, assim, novas possibilidades para a ação coletiva (NORRIS, 2001).

As propostas metodológicas de análise do uso das tecnologias no campo político, segundo Norris (2011), devem levar em conta algumas questões, como as desigualdades de acesso à internet entre os países; a divisão social entre os grupos de uma mesma sociedade; e também entre a diferenciação os países que fazem e os que não fazem uso de recursos políticos na internet, além da categorização das comunidades on-line, incluindo as lacunas de gênero, classe e faixa etária (NORRIS, 2001).

A visão de Ferber; Foltz; Pugliese (2007), a grande preocupação de análise de projetos políticos em plataformas virtuais deve ser concentrada na extensão da interatividade proporcionada pelos instrumentos e ferramentas colocados à disposição dos cidadãos pelos sistemas políticos, que, de acordo com Lévy (1999, p. 79), devem possibilitar a participação ativa do beneficiário de uma transação de informações, através da substituição de formas monologais por formas dialogais.

. Tomando por base o modelo de análise concebido por McMillan (2002), denominado four-party model of Cyber-Interactivity, Ferber; Foltz; Pugliese (2007) propõem a sua extensão em seis partes, nominado a six-part model of Cyber- Interactivity, ambos demonstrados nos Anexos deste estudo.

Na concepção dos três autores, a comunicação pode se estabelecer em mais uma via, além das duas propostas por MacMillan: a comunicação de uma única via, denominada monólogo e feedback, que ocorre quando somente um dos comunicantes (emissor) se manifesta, e a de duas vias, chamadas de responsive dialogue (diálogo responsivo) e mutual discourse (discurso mútuo) que acontece quando apenas um dos comunicantes se manifesta (emissor) e o outro a responde (receptor).

A terceira via (three-way), proposta por Ferber; Foltz; Pugliese (2007), nominadas controlled response (resposta controlada) e public discourse (discurso público) ocorre quando as condições de comunicação permitem que os papéis do emissor e do receptor sejam intercambiáveis, transformando todos os comunicantes em participantes (FERBER; FOLTZ; PUGLIESE, 2007). No primeiro caso (controlled response), os instrumentos colocados à disposição da população dão oportunidades aos cidadãos de participarem de discussões, mas a instituição mantém significativo controle

sobre o conteúdo publicado. No segundo (public discourse), os cidadãos têm oportunidades quase irrestritas de determinar o conteúdo. O controle é exercido apenas para apagar comentários que violem as normas e direitos, como conteúdos obscenos ou difamatórios (FERBER; FOLTZ; PUGLIESE, 2007).

Como pode ser percebido nesta revisão da literatura, o debate sobre participação política e internet envolve um conjunto amplo de temas que vão desde o desenvolvimento de conceitos e noções até as condições operacionais, passando pelos objetivos, intenções, propósitos, usabilidade e alcance. Nesta perspectiva, deve-se considerar o caráter plural das novas tecnologias, que abrangem tanto aspectos culturais quanto políticos.

Sem dúvida, a comunicação política mediada pelas novas tecnologias digitais assumiu uma nova feição, levando os meios de massa e os sujeitos da esfera política a repensar seus modelos de comunicação com a sociedade e suas práticas de interatividade e participação. Entretanto, o exercício pleno da democracia digital depende de vários fatores, como a disposição dos sujeitos da esfera política em compartilhar o poder político, a apatia dos indivíduos nas questões relacionadas à participação política e a intensidade e a velocidade da incorporação dos valores dessa nova cultura pela sociedade.

Além disso, é preciso destacar que, da mesma forma que os meios tradicionais de comunicação de massa são influenciados por forças econômicas estruturais, como referem Dryzek (2000), Wilhelm (2000) e Maia (2009), o debate público proporcionado pelas novas tecnologias de informação e comunicação é controlado pelas elites que têm mais acesso aos novos meios e dominam tanto a sua produção como as condições de operação dos seus instrumentos.