7 Parcerias, motivações e inquietações
7.1 Professores e mediadores: perfil profissional
Para que os projetos sejam efetivamente realizados em caráter de parceria e não de submissão de uma instituição para com a outra, faz-se necessário que os profissionais de ambas as instituições tenham conhecimento dos processos educativos e estejam familiarizados, tendo um claro entendimento do que é um Projeto de Trabalho, pois será em torno deste que ambos concentram seus esforços. Nessa modalidade de articulação dos conhecimentos, é favorecida “a construção da subjetividade, longe de um prisma paternalista, gerencial ou psicologista”, levando “em conta o que acontece fora da escola, nas transformações sociais e nos saberes” (HERNÁNDEZ, 1998, p. 61).
Os perfis profissionais dos que trabalham com a educação artística nos museus e nas escolas são diferentes, sendo que ambos lidam com o campo educacional. Conforme já ressaltado no capítulo anterior, quando da apresentação dos serviços educativos e dos mediadores que atuam nesses espaços, estes têm formação em áreas correlatas aos museus, formação mínima exigida no Referencial Europeu das Profissões Museais (ICOM, 2008). A diversidade de formação no perfil dos mediadores que atuam no museu agrega valor e permite que diferentes áreas do conhecimento contribuam para os projetos, favorecendo a interdisciplinaridade, uma das características na elaboração de Projetos de Trabalho.
Em Portugal, apenas em 2006 foi criado o curso de Licenciatura em Mediação Artística e Cultural, na ESEL31, para atender a demanda de profissionais com formação específica para atuação em serviço culturais. No entanto, faz-se importante que profissionais que trabalhem nos museus e não tenham formação educacional ou experiência com crianças realizem cursos de capacitação, pois há particularidades em como as crianças se relacionam com propostas de trabalho e também entre si que devem ser levadas em consideração, tanto na elaboração dos projetos, como em seu desenvolvimento. “O objetivo do treinamento da equipe é valorizar a experiência das crianças em seu ambiente espontâneo e sensibilizar os
31 Escola Superior de Educação de Lisboa.
futuros animadores32 sobre os tipos de interação que podem enriquecer essa experiência” (PINUS, 1996, p. 53, tradução nossa)33.
O público escolar precisa de pessoal treinado e especializado em crianças e jovens [...] Nem todos os grupos chegam motivados e inquietos com o tema do museu - e há muitos desentendimentos entre as duas instituições. [...] A equipe deve estar preparada para trabalhar com diferentes públicos escolares (ALDEROQUI, S. 1996, p. 34, tradução nossa) 34.
Nesse sentido, “há muito ainda a fazer nos museus. Por exemplo, [...]. Reconhecer a necessidade de mais recursos humanos especializados em educação artística nos museus (EÇA, 2008, p. 35).
Quanto ao perfil do professor que atua no 1ª ciclo com a educação artística, esse pode ser generalista ou especialista, desde que trabalhe em coadjuvação com o primeiro. Ainda predomina em escolas públicas portuguesas a monodocência, sendo um professor responsável por todas as áreas curriculares. Conforme o Decreto-Lei nº55/2018: “É dada a possibilidade à escola de prever coadjuvações na Educação Artística e na Educação Física, sempre que adequado, privilegiando, para o efeito, os recursos humanos disponíveis” (PORTUGAL, 2018b).
Desde o Tratado de Bolonha, assinado em 1999 – porém com efeitos a partir de 2006 em Portugal –, os cursos de graduação passam a ter a duração de três anos, com a exigência de mestrado como profissionalizante para a docência. A graduação base é Licenciatura em Educação Básica, que dá acesso aos Mestrados de Habilitação para a Docência para Educadores de Infância e Professores do 1º e 2º Ciclo do Ensino Básico. Já os professores especialistas podem realizar graduação em artes correlatas às áreas artísticas e o mestrado em Educação Artística.
A coadjuvação ocorre em algumas escolas, sendo que na escola particular é mais fácil de fazê-lo, diante do planejamento, autonomia e disponibilidade de recursos; no entanto, nas escolas públicas, essa prática é condicionada à disponibilidade de um professor da área na escola, geralmente deslocado por questões de saúde, remanejado por diminuição de turmas e número de aulas ou responsável pela gestão daquela unidade escolar, conforme dados obtidos
32 O que temos chamado de mediadores.
33 El objetivo de la capacitación del equipo es valorirar la experiencia infantil en su entorno espontáneo y
sensibilizar a los futuros animadores sobre los tipos de interaciones que pueden enriquecer esta experiencia (PINUS, 1996, p. 53).
34 El público escolar necesita de personal capacitado y especializado en niños y jóvenes, dispuesto a soportar su
“ruído. No todos los grupos llegan motivados e inquietos con la temática del museo – y allí nacen muchos desencuentros entre ambas instituciones-. Sí el museo espera un tipo de grupo de alunos prototípico, ideal, que hable sólo cuando se le permite, podría marginar a muchos grupos escolares. El personal debería estar preparado para trabajar con diversos tipos de público escolar (ALDEROQUI, 1996, p. 34).
nas entrevistas pelos participantes. Uma das professoras especialistas relata sua situação na escola:
Neste caso, não tenho mesmo uma turma, mas estou, desde que estou lá, a trabalhar em apoio, desenvolver esses projetos relacionados com a parte da Educação Artística, com concursos que surgem... Esse apoio a nível do 1º Ciclo (Ana, professora, Apêndice AA, p. 477).
A coadjuvação por professores especialistas raramente acontece nas escolas públicas, “o que acaba por se traduzir numa realidade inegável (década após década): tanto professores como alunos são deficitários desta educação artística sobre a qual tanto se legisla e se pretende para todos, nomeadamente, no campo das artes plásticas” (BOTELHO, 2018, p. 62).
Rocha (2014, p.54) realizou uma pesquisa referente à formação de professores no 1ºciclo e à área da educação artística e obteve os seguintes resultados: “Dos 86% dos professores que tiveram formação em expressões artísticas no seu curso académico, 75% destes consideram que a formação foi insuficiente e só 25% é que acreditam que a formação foi suficiente”.
Dentre as entrevistadas, tivemos o caso do perfil profissional de duas professoras que atuam como titulares de turmas, uma no 1º (primeiro) e outra no 4º (quarto) ano; no entanto, ambas são também especialistas na área. Elas se formaram em uma graduação já extinta, que habilitava para atuar na Educação Básica, como professor generalista do 1º ciclo, e também como especialista na área de educação visual e tecnológica no 2º ciclo. Ambas atuavam na disciplina de educação visual e tecnológica, mas, após sucessivas reformas educacionais, a disciplina foi extinta e tiveram que migrar para o 1ºciclo.
Na prática, quando há a disponibilidade de um especialista em educação artística, raramente essa coadjuvação ocorre, pois o professor titular da turma, em sua maioria, sente-se desconfortável devido à deficiência em sua formação, de forma que aproveita o momento para realizar outras tarefas pendentes na escola e na turma, deixando que o especialista gerencie com autonomia aquele espaço.
Persiste, de facto, um certo desconforto dos educadores de infância e dos professores do 1.o ciclo relativamente à sua preparação para lecionarem esta área. No que respeita à formação de docentes, tanto de caráter inicial como contínuo, pode dizer -se que ela se ressente da falta de uma visão objetiva sobre a natureza e dimensões da educação artística nos diferentes níveis de ensino. Acresce que os candidatos à docência podem iniciar a sua formação com lacunas importantes neste domínio e com uma sensibilidade reduzida para alicerçar a formação que se entende desejável, graças ao facto de não ser assegurada a construção de uma cultura artística até ao final do ensino básico e de se agravar no ensino secundário a possibilidade de o conseguir (CNE-MEC, 2013, p. 4271).
Um dos mediadores ressalta que compreende a dificuldade de os professores generalistas entenderem e trabalharem a temática do Projeto Pergunta ao Tempo, pois, além da formação e do extenso currículo a ser cumprido, é um tema extra que se soma:
ser professor primário, logo à partida, é uma das profissões mais ingratas que há conhecimento, como toda a gente sabe, porque é uma profissão muito difícil. Os professores têm de ter a cabeça em muitos pontos do conhecimento ao mesmo tempo, não é? Eles têm que ensinar Matemática, têm que ensinar Geografia, têm que ensinar História, tem que ensinar Português, têm que ensinar… Portanto, os professores, eles têm um puzzle dentro da cabeça deles que têm que desmontar para as crianças. E nós inserirmos ainda mais um nódulo relativo ao património cultural é… (Raul, mediador, Apêndice O, p. 372 ).
A temática “Educação para o Patrimônio Cultural” também está contemplada como parte do currículo da educação, de temáticas transversais, via um protocolo assinado entre a Direção-Geral da Educação (DGE) e a Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) em 18 de novembro de 2013 que prevê a realização de uma série de iniciativas conjuntas nesse âmbito. Uma das iniciativas desse protocolo é a disponibilização na internet de materiais para os professores baixarem e de projetos entre museus e escolas, sendo que uma dessas ações é a criação e disponibilização do “Kit de Recolha do Patrimônio” imaterial, que foi adaptado como material de apoio no Projeto Pergunta ao Tempo pelo serviço educativo da Casa da Memória.