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Qual a razão de ser do museu hoje? Etapa 2 (A.A.1)

1. Organizações Museais e Emancipação: uma aproximação conceitual

1.4. Arranjo Argumentativo 1 (A.A.1)

1.4.2. Qual a razão de ser do museu hoje? Etapa 2 (A.A.1)

A pergunta “qual a razão de ser do museu contemporâneo” ainda não pode ser respondida de forma conclusiva, mas a argumentação anterior permite aventar possíveis respostas a partir dos diferentes pontos de vista interessados: os gestores dos museus e os museólogos, as pessoas que frequentam por algum motivo esses espaços e os interesses dos investidores ou financiadores desses espaços, que se subdividem entre público e privados. Por isso, e para tornar um pouco mais clara a argumentação, vou manter as orientações e perspectivas da etapa 1 da análise: orientação econômica, orientação política, orientação sociológica, perspectiva dos curadores e gestores de museus. Então, podemos prever que a organização se justifica de forma diferente a esses diferentes interesses.

Parece que, de forma geral, os gestores, que muitas vezes são museólogos, têm um compromisso com a preservação da memória, com a conservação e exposição do

acervo, com a escolha da parte da herança cultural que será valorizada e lembrada.

Aí está, para mim, um caminho para entender porque eles, junto com os acadêmicos mais ligados à museologia e à arte acreditarem que o museu carece de público. Um público que não quer dizer um fluxo de pessoas, mas sim de olhares qualificados para apreciar o conteúdo10 guardado e exposto com tanto esmero e técnica nesses locais especiais. Então, para esses gestores, eu acredito que a razão de ser dos museus ainda esteja muito ligada ao conteúdo do museu.

No entanto, na literatura, as orientações sociológica, econômica e política parecem imbricadas ao mesmo tempo em que oscilam entre elogios, possibilidades e críticas. De um lado, autores que aventam as grandes possibilidades de democratização da cultura,

salvaguarda e inclusão das minorias por meio dos museus criticam o consumo dos museus, das culturas e das cidades. De outro lado, outros autores veem nessas

instituições grande potencial para alavancagem de planos de desenvolvimento econômico de zonas das cidades, criticando a presença ostensiva do Estado e seus valores, e enfatizando a necessidade de uma predominância de estratégias mercadológicas. É nesse contexto nada harmônico que Guimaraens e Iwata (2001) irão afirmar que o consumo de museus ocupa o lugar que há pouco tempo foi o da igreja, em uma alusão a produção de mitos que influenciam fortemente as relações de poder na sociedade:

Pode-se, então, afirmar que não foi à toa nem em vão que a instituição da cultura do consumo de museu, particularmente integrada à instituição da cultura do consumo da cidade e de seu centro, hoje ocupa com muito mais competência o lugar que a igreja manteve até há bem pouco tempo (GUIMARAENS e IWATA, 2001, s/p).

Como já foi citado na introdução, a partir da literatura, os museus são tidos como organizações capazes de promover a cidadania e a inclusão social, via desenvolvimento econômico (QUEIRÓS, 2007), via desenvolvimento humano e social (VERGARA, 2007; CANCLINI, 2009), ou via fomento e salvaguarda da cultura e como promotores de educação (CHAGAS, BEZERRA, BENCHETRIT, 2008). Pesam ainda nessas organizações a crítica de alguns quanto ao seu desempenho e a sua instrumentalidade face

10 O conteúdo pode ser tangível ou não. A ampliação da própria definição de cultura e as cartas e encontros

da Unesco enfatizando a cultura intangível e também a cultura dos povos dominados torna a temática quase resolvida no contexto das práticas e teorias ligadas à cultura. Portanto o conteúdo será tratado aqui de forma irrestrita.

aos objetivos sociais (GUIMARAENS e IWATA, 2001; BRUNO, 2002; TOSTES e NASCIMENTO JR., 2008; BRIGOLA, 2008).

Os museus são organizações que vêm sofrendo pressões para se adequarem ora à atender demandas econômicas (BRIGOLA, 2008) ancorando projetos maiores de

revitalização e ora para atender às demandas de inclusão e salvaguarda das multiplicidades culturais (DECLARAÇÃO... 2008; CHAGAS, BEZERRA,

BENCHETRIT, 2008), apoiadas em uma ideia de educação mais ampla e emancipatória. A despeito de todas as mudanças, os museus mantêm seu caráter e propriedade de criação e manipulação ideológica. Eles ainda são espaços onde se escolhe e se apresenta arbitrariamente objetos que contam a história de uma determinada cultura.

Os museus são um dos melhores exemplos de como as culturas dominantes reproduzem e representam a si mesmas, desdenhando de tudo que não esteja em conformidade com a sua ordem canônica, condenando a ausência daquelas manifestações culturais que não têm lugar neles. Às vezes, armazenar ou arquivar fragmentos das culturas relegadas pode tornar-se também – como sabemos muito bem porque temos analisado a manipulação da cultura popular – uma forma de ‘enterro’ do que se pretende reivindicar: a sua ocultação e esquecimento (VIANA, 2008, p. 16).

Também por essa razão, Wood (apud BRIGOLA, 2008, p. 33) expõe que é preocupante alterar conceitos tradicionais, ou a finalidade da organização, e “questionar a essência do museu enquanto serviço público”. Isso porque os museus foram espaços onde outrora se deu alimento espiritual, ensino, memória, preservação, hierarquia e arquitetura per se, e mediante essas mudanças, as práticas evidenciam que essas finalidades vêm sendo substituídas por formas de consumo e hedonismo imediatistas e espetacularizadas (BRUNO, 2002).

Essa função de prestar um serviço público torna-se ainda mais relevante quando se pensa na relação de poder instituída dentro dessas organizações. Um poder que é assimétrico por natureza (CHAGAS, BEZERRA, BENCHETRIT, 2008, p. 12), já que o jogo entre memória e esquecimento é fruto de conflitos, mas que serviu muito mais para

dominar e manipular do que para libertar e dialogar. O poder, que se deu pela

capacidade e privilégio da escolha do que mostrar, manipulando a história, faz com que o museu ocupe “com muito mais competência o lugar que a igreja manteve até há bem pouco tempo” (GUIMARAENS e IWATA, 2001, s/p) e hoje some-se ao seu status, a

ideia de “espaço de distinção e prestígio” (BRIGOLA, 2008, p. 27). A importância do museu de servir ao público é resgatada por Bittencourt (2008, p. 36), que define sua função em “reorganizar a captura e interpretação da realidade humana pelo próprio homem”.

Soma-se a esses argumentos a função central da educação e da cultura para o desenvolvimento pleno do indivíduo e da sociedade, criando um novo paradigma no início do século XXI (VIEIRA e VIEIRA, 2004). “O sujeito, individual e social, só romperá os grilhões da pobreza hereditária, da pobreza por exclusão social e da pobreza pela reprodução irracional se tiver diante de si oportunidades de educação” (VIEIRA e VIEIRA, 2004, p. 171). A análise parcial que busca responder a pergunta: “qual a razão de ser do museu hoje” pode ser resumida no quadro abaixo:

Quadro 2: resumo da análise do Arranjo Argumentativo 1, etapa 2 - Qual a razão de ser do museu hoje?

Orientação / perspectiva Categorias

Orientação econômica  Servir de âncora para os projetos de desenvolvimento econômico

 Valorizar economicamente o entorno  Atrair investimentos

 Fomentar a economia

 Promover inclusão social via geração de emprego e renda

 Ser mais um objeto de consumo

# Foco nas possibilidades de valorização econômica da região

Orientação política  Servir para manipular ideologicamente  Promover cidadania

 Promover inclusão social de minorias  Servir ao público

 Promover a democratização da cultura

# Foco nas possibilidades políticas do resultado do uso do conteúdo

Orientação sociológica  Melhorar indicadores humanos e sociais  Promover a educação

 Promover a inclusão social  Dinamizar a diversidade cultural  Dominar e manipular

 Libertar e dialogar

# Foco nas possibilidades sociais do resultado do uso do conteúdo Perspectiva dos curadores e gestores de museus  Preservar a memória  Conservar e expor o acervo

 Escolher parte da herança cultural que será valorizada e lembrada

 Promover a educação

# Foco no conteúdo

Fonte: elaboração própria.

Então, já que as categorias se sobrepõem, e em muitas vezes, assumem conotações diferentes a partir de orientações diferentes, acredito que o resultado mais interessante dessa análise não foi exatamente as categorias que respondem a pergunta “qual a razão de ser da organização”, mas as unidades (famílias) que resumem de certa forma o foco das respostas (categorias) possíveis. Dessa forma, o foco pode se dividir em uma lógica crescente desde o conteúdo do museu até seu entorno, como a figura abaixo ilustra:

Figura 2: resumo organizado por famílias de categorias da análise do Arranjo Argumentativo 1, etapa 2 - Qual a razão de ser do museu hoje?

Fonte: elaboração própria.

Orientação econômica

Orientação política

Orientação sociológica

Perspectiva dos curadores e gestores de museus

• Foco nas possibilidades de valorização econômica da região

• Foco nas possibilidades políticas do resultado do uso do conteúdo

• Foco nas possibilidades sociais do resultado do uso do conteúdo

1.4.3. Qual racionalidade deve embasar as ações administrativas dos museus para que