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REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

2.1 Representações Sociais: Conceitos e Teorias

“As representações sociais são sistemas de valores, idéias, práticas, com uma dupla função: primeiro estabelecer uma ordem que possibilitará às pessoas orientár-se em seu mundo material e social e controlá-lo, e em segundo lugar, possibilitar que a comunicação seja possível entre os membros de uma comunidade, fornecendo-lhes um código para renomear e classificar, sem ambiguidades, os vários aspectos do seu mundo e da sua história individual e social”.

(Moscovici, 2000,p.12).

No intuito de conhecer e analisar as representações sociais de professoras e pais numa instituição de educação infantil, têm sobre a morte, faz-se necessário revisar como as representações sociais da morte foram se constituindo, dentro de um contexto histórico-sócio-cultural.

Almeida (2006) afirma que para investigar um objeto no campo da teoria das representações sociais implica em três questões fundamentais: O que pensam os indivíduos? Por que pensam? E como pensam? Nesse caso em particular, sustentar esse objeto nesse campo de estudo significa investigar o que pensam professoras e pais sobre a morte (a natureza da representação), por que pensam (que funções as representações da morte assumem nessa dinâmica social) e como pensam (quais são os processos ou os mecanismos psicológicos e sociais que permitem a construção e/ou criação desse fato).

Quando Moscovici propõe a teoria das representações sociais (1961) ele reconhece e legitima o saber popular, o senso comum, uma vez que este era visto como algo redundante e ingênuo. Não se valorizava esse saber, o qual era visto como inferior à propósitos científicos. A teoria das representações sociais parte da premissa que existem

formas diferentes de se conhecer e de se comunicar, orientadas por objetos diferentes, como o conhecimento consensual e o científico, cada um gerando seu próprio universo.

O universo concensual são os conhecimentos submetidos a lógica natural, constitui-se principalmente na conversação informal, na vida cotidiana, enquanto que o universo reificado são os conhecimentos submetidos a lógica formal, presente no espaço científico. Nas representações sociais o que prevalece é uma lógica natural, a qual usamos no dia-a-dia para dar conta do nosso lugar no mundo, comportando os nossos sentimentos, idéias, valores, mas isto não é negar a lógica formal.

Nesse sentido, é importante situar o leitor na historicidade em que se formou a teoria das representações sociais, podendo-se dividir esses estudos em duas fases. Durkheim foi quem primeiro apresentou o termo “representação coletiva”, para ele as categorias básicas do pensamento teriam origem na sociedade, e que o conhecimento só poderia ser encontrado na experiência social, ou melhor, a vida social seria a condição de todo pensamento organizado e vice-versa (MOSCOVICI, 1978).

A segunda fase dos estudos sobre as representações foi influenciada pelos trabalhos de: Levy-Bruhl, o qual aponta as influências que os indivíduos sofrem da sociedade a qual pertencem e por isso manifestam sentimentos comuns, o que ele denomina de representação; Piaget, com a teoria das representações infantis, trazendo as diferenças lógicas na forma de pensar entre adultos e crianças; e Freud com os estudos sobre histeria e tratamento psíquico, esclarecendo que a expressão de teorias concebidas pelas crianças, inicialmente junto à família vão sendo substituídas por outras, a medida em que as crianças vão ampliando as suas relações sociais, o que irá marcar o caráter da pessoa.

No entanto, as representações sociais têm em Moscovici11 sua primeira base teórica, em 1961, através da obra “A Psicanálise, sua imagem e seu público”. O objetivo da pesquisa era levantar as representações sociais de algumas categorias da população parisiense sobre a psicanálise. A pesquisa comparou as diferentes categorias da

11Psicólogo de origem romena, diretor da École des Hautes Études em Sciences Sociales de Paris e

estudioso das representações sociais. Foi responsável pela introdução desse conceito na psicologia social contemporânea. Dentre as suas várias obras sobre o tema, destaca-se Representações Sociais: Investigações em Psicologia Social (MOSCOVICI, 2003).

população, englobando amostras representativas, em geral, de profissionais liberais, estudantes secundaristas e universitários (ALEXANDRE, 2004.). Dessa forma, Moscovici buscava renovar e confirmar a especificidade da Psicologia Social, a partir de estudos que explicassem como se dá a mediação entre o individual e o social, negando assim, explicações essencialmente sociais como em Durkheim, ou as essencialmente cognitivistas, como em Piaget (COSTA E ALMEIDA, 1999).

Moscovici desenvolveu a sua teoria num contexto histórico-cultural, diferente do de Durkheim - que se interessava pelas questões da religião, costume, mito, mágica e fenômenos semelhantes. Moscovici, por sua vez, julgou ser mais adequado, substituir a magia pela ciência.

“A ciência é uma das forças que distinguem o mundo moderno do mundo medieval. Ela é como afirma Moscovici, uma fonte fecunda de novas representações. Com isso, ele estava modernizando a ciência social, ao substituir representações coletivas por representações sociais.” (FARR, 1995, p.45)

Moscovici também diverge de Durkheim, no sentido de que a “representação coletiva” teria como função principal a transmissão da herança coletiva de outras gerações, que acrescentaria às experiências individuais tudo que a sociedade acumulou de sabedoria e ciência ao passar dos anos, e para Moscovici não é apenas uma herança coletiva das outras gerações que é transmitida de maneira unilateral. O indivíduo tem papel ativo e autônomo no processo de construção da sociedade, pois ao mesmo tempo em que é criado por ela, participa da sua construção (ALEXANDRE, op. cit.). O que motivou Moscovici a desenvolver o estudo das representações sociais dentro de uma metodologia científica foi sua crítica aos pressupostos positivistas e funcionalistas das demais teorias que não explicam a realidade em outras dimensões (ALEXANDRE, op. cit.).

Para Oliveira (2004), substantivamente há pouca diferença entre os termos “coletivas” e “sociais”, pois ambos manifestam a diversidade das associações humanas na sociedade. Ele cita Moscovici, que disse: “Não espere que eu jamais seja capaz de explicar a diferença entre coletivo e social” (apud OLIVEIRA, p.4). Com relação a isso, Alexandre (op.cit.) relata que os estudos teóricos têm enfatizado os temas relacionados ao indivíduo, isolando-o do seu contexto histórico e sócio-cultural, restringindo a solução

dos problemas que afetam as populações mais necessitadas, prejudicando a sistematização de novos conhecimentos no campo da psicologia social e comunitária. Resumindo, pode-se apresentar o seguinte quadro, para melhor distinguir as representações sociais da representação coletiva:

Representação Coletiva (RC) Representações Sociais (RS)

Objeto da sociologia - dimensões mais cristalizadas, estruturadas.

Objeto da psicologia - as sociedades modernas são mais dinâmicas, fluidas. Durkheim – sociólogo. Moscovici – Psicólogo.

Importância no social - a RC teria como função principal a transmissão da herança coletiva de outras gerações.

Importância na mediação entre o indivíduo e o social - as RS são acões, movimento da interação entre as pessoas. Magia - os fenômenos são atribuídos a

magia. A RC interessava-se pela religião, costumes e mitos.

Ciência - os fenômenos são atribuídos à ciência. Em um contexto histórico- cultural, as RS substituem a magia pela ciência.

Indivíduo passivo – o indivíduo é produto passivo da sociedade. Transmissão da herança dos antepassados.

Indivíduo ativo – capaz de mudar a

sociedade, o indivíduo é autônomo e ativo no processo de sua construção, sendo, em contrapartida, formado por ela.

Endemia12 – RC se transmite vagarosamente por gerações, o que chamamos de tradições.

Epidemia – típica de culturas modernas, espalham rapidamente por toda a

população. São como modas com curto período de vida.

Observando o quadro acima, pode-se entender que as representações sociais estão entremeadas no nosso dia-a-dia, mediando as diversas relações nos diferentes espaços sociais, é uma forma de pensamento social que é produzido nos espaços de conversação que oriunda das trocas e práticas de linguagem, um conhecimento que possibilita articular o novo com o que ela dispõe para acomodar novos conhecimentos.

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Sperber em 1985 faz uma analogia da RC e as RS com a medicina, utilizando-se dos termos endemia e epidemia (apud Guareschi, 2002)

Sendo assim, em 1989, Moscovici conclui que tanto a sociologia, quanto a antropologia e a psicologia social têm muitas contribuições a dar ao estudo das representações, pois se as representações são geradas no social e reelaboradas pelo indivíduo, não são os substratos que devem nos interessar, mas a ação, o movimento, ou seja, as interações entre o indivíduo e o social (COSTA e ALMEIDA, op. cit.).

Em contrapartida, a representação social é um instrumento importante para a psicologia social, pois consegue juntar os processos social e psicológico de forma dinâmica, possibilitando a compreensão e a formação do pensamento social, como também sua transformação.

Daí, podermos dizer que a teoria das representações sociais é de origem transdisciplinar, pois estando situada na interface dos fenômenos individuais e coletivos, esta noção tem, como aponta Jodelet (1989), a vocação de interessar a todas as ciências humanas. Outra maneira de se entender esta perspectiva, seria explicitar as múltiplas dimensões do campo de estudos das representações sociais, que conforme Jodelet tem a vantagem de abandonar a divisão de territórios disciplinares e assinalar a importância da definição precisa do aspecto a ser abordado no estudo das representações sociais (apud SPINK, 1993).

Outro aspecto importante na compreensão do conceito de representações sociais é o seu papel na formação de condutas, as quais modelam o comportamento e justifica sua expressão. O que pode parecer inaceitável para alguns, pode ser, naturalmente, justificado por outros, esse fato pode ser visto claramente em algumas pesquisas de representações sociais. Nesse sentido, Andrade (1996) afirma:

“Representar um objeto significa criá-lo simbolicamente, fazer com que ele tenha um sentido para quem o representa, passando assim a fazer parte de seu mundo. Os objetos não são captados isoladamente pelos sujeitos, mas em determinados contextos e relações, portanto o sentido da representação de um objeto advém das relações com outras representações que formam um campo de representação” (p.25).

Fazer um estudo sobre as representações sociais da morte, que abreviaremos por RS, é reconhecer um saber popular que nos possibilita conhecer e entender a dinâmica dos processos que envolve a morte e que, ao longo da história, foram se construindo e se transformando.

Madeira (2000) nos coloca a importância teórica e histórica, no sentido social e político, de estudos no campo da educação que tomem a representação como categoria de análise, pois buscam descobrir e conhecer explicações para “além de certezas cristalizadas”. “Trata-se de procurar o lugar, de onde se move o gesto ou se articula a palavra, mesmo quando aquele está contido ou, esta, silenciada. Trata-se de afirmar a educabilidade como condição do ser humano, que se concretiza atualizando sentidos de diferentes ordens na circunscrição do espaço que a cada um cabe no mundo” (p.249).

Apesar de dispor de pouca literatura quanto ao tema RS da morte, as formas simbólicas em que a morte se revelou nos rituais fúnebres e nas atitudes humanas, em cada época, possibilitam revelar a maneira como diferentes sociedades perceberam a morte e deram a ela um significado cultural, garantindo o funcionamento e a reprodução da ordem social.

A seguir, procura-se fazer uma relação entre a teoria das representações sociais e as representações sociais da morte constituídas historicamente na cultura ocidental.