3.6 Categorias discursivas da análise
3.6.1 Significado Representacional
3.6.1.1 Sistema de Transitividade
Relacionado ao significado representacional (Vieira & Resende, 2016), o sistema de transitividade, advindo da Linguística Sistêmico-Funcional, de Michael A. K. Halliday e consolidado por Halliday e Matthiessen (2004, p. 175), trata das relações entre os componentes que formam uma oração, então denominada “figura”. Embora a simplicidade da estrutura de
uma oração, ela exerce papel central na linguagem, dada sua capacidade de explicar como fenômenos da experiência do mundo do sujeito são construídos na estrutura linguística.
O sistema de transitividade vai se valer da análise das relações entre: a) o processo que se desenrola na oração (representado pelos grupos verbais), b) os participantes envolvidos nesse processo (representados pelos grupos nominais) e c) as circunstâncias a ele associadas (representadas pelos grupos adverbiais). Juntos esses elementos formam uma figura, ou seja, o significado produzido pelo processo. Salienta-se que o uso da transitividade como categoria de análise buscou fundamentação na origem dos seus conceitos e operacionalização (Halliday & Matthiessen, 2004), além de muito aparado pela obra de Fuzer e Cabral (2014).
Os processos, conduzidos pelos grupos verbais, representam as experiências e ações dos atores sociais no mundo, traduzindo aspectos do mundo físico, mental e social. Os principais tipos de processo são materiais, mentais e relacionais, sendo que, nas suas fronteiras, outros três tipos de processos secundários irão surgir, os comportamentais, existenciais e verbais. Sendo a transitividade uma categoria muito recorrente e explorada nos resultados da tese, faz-se importante uma breve descrição de cada um desses processos. Ressalta-se que todas as orações que compõem os exemplos dos processos de transitividade foram extraídas do corpus das entrevistas com os policiais.
a) Processos materiais
Como afirmam Halliday e Matthiessen (2004, p. 179), “as orações ‘materiais' são orações de fazer e acontecer, capazes de provocar mudanças no fluxo de eventos, provocada por algum investimento de energia” feito por um participante, inerente ao processo. Nessa articulação, são selecionados como participantes o ator (aquele que faz acontecer o processo); a meta (que é afetada pelo processo); e a circunstância (podendo indicar modo, tempo, lugar, causa etc. da efetivação da ação), assim como apresentado no Exemplo 1.
Exemplo 1: “O doutor fez a consulta ontem.”
O doutor fez a consulta ontem.
ator processo material meta circunstância
b) Processos mentais
As orações que descrevem os processos mentais estão relacionadas às experiências do mundo da consciência dos atores envolvidos. Elas podem representar processos mentais perceptivos, cognitivos, afetivos ou desiderativos. Esses processos apresentam como
participantes: o “experienciador” (quem sente, percebe, deseja ou pensa) e o “fenômeno” (o que é sentido, pensado, desejado ou percebido), como se observa no Exemplo 2.
Exemplo 2: “Eu imaginava que a polícia militar fosse outra coisa.”
Eu imaginava que a polícia militar fosse outra coisa. experienciador processo mental cognitivo fenômeno
c) Processos relacionais
Halliday e Matthiessen (2004, p. 210) descrevem que “as orações relacionais servem para caracterizar e identificar”, estabelecendo, obrigatoriamente, uma relação entre dois participantes da oração. Elas podem ser atributivas ou identificativas, do tipo intensivas, possessivas ou circunstanciais.
As orações atributivas estabelecem uma relação entre os seus participantes, o “portador” (aquele que possui a característica) e o “atributo” (a característica). Semanticamente, essas orações não são reversíveis. O Exemplo 3 ilustra esse processo.
Exemplo 3: “Eu tinha um problema de alcoolismo.”
Eu tinha um problema de alcoolismo.
portador processo relacional atributivo atributo
As orações identificativas também estabelecem uma relação entre os seus participantes, agora o “identificado” (aquele que recebe uma identidade) e o “identificador” (a identidade a ele atribuída). Particularmente, verifica-se que essas orações são necessariamente reversíveis semanticamente, como ilustrado no Exemplo 4.
Exemplo 4: “Ele é ‘o cara’ quando põe a farda.”
Ele é ‘o cara’ quando põe a farda.
identificado processo relacional identificativo identificador
d) Processos verbais
Os processos verbais também são processos secundários e se encontram na fronteira entre o “mental” e o “relacional”. Nesse processo, “as relações simbólicas são construídas na consciência humana e promulgadas na forma da linguagem, como dizendo e significando” (Halliday & Matthiessen, 2004, p. 258). Os processos verbais “contribuem para variados tipos de discurso, por sua característica de fala” (Fuzer & Cabral, 2014, p. 72).
Os participantes das orações verbais são tipicamente: o “dizente” (aquele que diz), a “verbiagem” (o que é dito), o “receptor” (aquele que recebe a verbiagem) e o alvo (o que é atingido pela verbiagem) (Fuzer & Cabral, 2014; Halliday & Matthiessen, 2004). Os processos verbais podem ainda conter “citação” ou “relato”, que são orações que substituem a verbiagem. O Exemplo 5 apresenta uma oração que ilustra o processo verbal.
Exemplo 5: “O outro sargento disse para um colega que ia me prender.”
O outro sargento disse para um colega que ia me prender. dizente processo verbal receptor verbiagem
Exemplo de oração verbal com verbiagem e receptor.
e) Processos comportamentais
Também secundários, os processos comportamentais encontram-se entre os processos materiais e mentais, representando comportamentos físicos (dormir, sorrir, chorar etc.) ou psicológicos (sonhar, observar, preocupar etc.) tipicamente relacionados aos modos de agir e comportar dos seres humanos. O participante característico do processo comportamental é o comportante, que é tipicamente um ser consciente (Fuzer & Cabral, 2014; Halliday & Matthiessen, 2004). A oração do Exemplo 6 retrata esse processo.
Exemplo 6: “Eu chorei a sexta-feira a tarde toda.”
Eu chorei a sexta-feira a tarde toda.
comportante processo comportamental circunstância temporal
f) Processos existenciais
“Na fronteira entre o ‘relacional’ e o ‘material’, estão os processos relacionados com a existência, o existencial, pelos quais fenômenos de todos os tipos são simplesmente reconhecidos como ‘ser’ – existir ou acontecer.” (Halliday & Matthiessen, 2004, p. 171). Esses processos representam algo que existe ou acontece. Seu único participante é chamado de “existente” e pode ser representado por algum tipo de fenômeno “como uma ‘coisa’: pessoa, objeto, instituição, abstração; mas também como qualquer ação ou evento” (Halliday & Matthiessen, 2004, p. 258). O Exemplo 7 clarifica esse processo.
Exemplo 7: “Houve momentos muito difíceis da minha vida (...).”
Houve momentos muitos difíceis na minha (...) Processo existencial Existente
Traçados os elementos descritivos da categoria transitividade, a próxima seção discorre sobre uma segunda categoria do significado representacional utilizada para ADC da tese, a interdiscursividade.