CAPITULO 1 O PARADIGMA CIENTÍFICO DO DESENVOLVIMENTO
1.1 O momento sociológico contemporâneo: as causas e os efeitos da crise ambiental
1.1.2 A sociedade do risco como o modelo sociológico diante da crise ambiental
No mundo contemporâneo, a grande intervenção do homem na natureza é uma realidade que ultrapassa as suas necessidades físicas e, por ser assim, provoca determinadas reações no meio. A realidade cultural está ligada à socialização da natureza. Por sua vez, a cultura também é transformada ou limitada pelas possibilidades físicas de determinado espaço.
A simples ação cotidiana de consumo de um produto pode significar a contribuição para o crescimento econômico, emprego, dumping social e ecológico em partes distantes do planeta (GUIDDENS, 1997, p. 75). Também decisões no âmbito da política internacional podem determinar efeitos sobre o indivíduo singular e a conservação da natureza.
A sociedade moderna acreditou que a informação e a tecnologia permitiriam maior controle sobre o processo histórico e o ciclo da natureza e, com isso, que a História da humanidade se orientasse sempre no sentido da felicidade. Até então, apontava-se como característica da Modernidade uma normalidade baseada na segurança e certeza, acreditava-se que as escolhas preveniriam determinados efeitos e o futuro seria facilmente representado.
Percebe-se, no entanto, que a previsibilidade do futuro é só um mito, pois, por mais que se tente dirigir o futuro, ele sempre causará surpresas. Começa-se, então, a questionar se os benefícios da sociedade industrial compensam os riscos criados, os quais poderão ir além das fronteiras nacionais e serem potencialmente catastróficos, em relação àqueles de outrora.
A certificação da inexistência de risco tem sido atribuída à ciência. Porém, não se pode ignorar que a ela também contribui para aumentar alguns riscos, além de não ser capaz de conhecer todos os perigos, de modo que deve ser reconhecida a sua falibilidade e incompletude. A própria escolha da teoria científica é um risco, haja vista a existência de diferentes posições sobre um tema, como acontece na discussão sobre o aquecimento global.
A situação ainda é pior se for considerada a ciência de um ponto de vista holístico, pois saber de uma área não significa conhecer o sistema global. Se o pesquisador for leigo no todo, uma posição unidimensional pode ser catastrófica, apesar de parecer confiável segundo os métodos da sua área de pesquisa. O cientista não pode prever todas as interconexões do seu objeto. Por isso, o máximo que a ciência consegue é uma aproximação da realidade.
Desse modo, a ciência não é exata, e muito menos completa e irrefutável. Até a sua pretensa imparcialidade é questionável, pois uma teoria científica só ganha grande respeitabilidade pelo consenso entre cientistas; logo, diante de certa subjetividade. Apesar dessas críticas, o conhecimento científico ainda tem grande relevância para diagnosticar a crise ambiental e as tendências e, sobretudo, ajudar nas decisões políticas e na construção do Direito.
Esse contexto de incertezas que acompanha a sociedade moderna agrava ou provoca os problemas que formam a crise ambiental, que é o resultado da impossibilidade e indolência quanto à concepção ou compreensão do conhecimento sobre o meio.
Algumas idéias da sociedade industrial originaram alguns perigos, como a crença do progresso e a abstração da questão ecológica (BECK, 1997, p. 16). No entanto, aqueles que têm criado os perigos na sociedade contemporânea não assumem a sua responsabilidade; pelo contrário, constroem um conjunto de discursos de isenção, a fim de tornar esses “perigos” circunstâncias normais ou riscos assumidos, involuntariamente, por toda a sociedade.
Esse contexto provocado pelo sistema produtivo atual começa a ser questionado do ponto de vista da sua legitimidade e viabilidade, e não poderia ser diferente. Questiona- se, por exemplo, a “injustiça” de cercear o crescimento dos países subdesenvolvidos para conservar a biodiversidade, quando as grandes economias não o fizeram. Questiona-se, também, o potencial de transformação da natureza pelo uso das novas tecnologias (GUIDDENS, 1997, p. 215).
O cenário de crise ambiental relacionado ao perigo de existência e dignidade humana não é necessariamente novo, apesar de só recentemente ser compreendido pela sociedade. Tal momento, marcado pela dificuldade de efetivar a precaução, tem recebido o nome de sociedade do risco, que é um modelo sociológico defendido principalmente por
Ulrich Beck. Esse modelo representa a sociedade capitalista pós-fim do socialismo de Estado no século XX, a qual aceitou produzir riscos pela necessidade de atingir fins produtivos e lucros.
A sociedade industrial se autodestrói e produz uma outra Era - denominada sociedade do risco. Da preocupação com o risco concreto passou-se à preocupação com os riscos abstratos, globais e imprevisíveis. Essa sociedade é, portanto, o resultado da modernização de uma realidade marcada pelos males da industrialização, como a poluição, os riscos econômicos de mercado, e a dependência financeira. As bases da sociedade industrial, como o controle linear e a crença no progresso, são substituídas por um modelo de incerteza e estruturação dos riscos.
A sociedade do risco está ligada à imprevisibilidade de situações que podem causar insegurança à coletividade. Ocorre perda da certeza e previsibilidade científica dos resultados e perda até da capacidade de identificar ou responsabilizar aqueles que causam os riscos. Essa dimensão dos riscos cria uma situação na qual não é fácil eliminar as conseqüências indesejadas e que coloca em questionamento a capacidade do Estado de proporcionar segurança. Até porque os perigos foram globalizados e não existe um sistema internacional capaz de garantir a gestão dos riscos. Antes o controle estava a cargo dos Estados Nacionais; agora não existem instrumentos materiais e processuais para a devida proteção ambiental em nível internacional.
Boaventura de Sousa Santos (2000, p. 181) observa que a situação de novos riscos é o resultado do aumento da capacidade de ação sem a igual possibilidade de previsão. Essa constatação será comprovada se for dada a devida atenção ao processo de criação e aplicação tecnológica, e à destruição ambiental decorrente da intensificação das atividades econômicas.
O perigo é o resultado de uma atividade onde há possibilidade de se gerar danos. Os
perigos conhecidos e compreendidos são considerados riscos15. Embora o risco pudesse ser
afastado com atitudes alternativas, não se consegue prever a sua real ocorrência. Nesse sentido, Raffaele De Giorgi (1998, p. 14) entende o risco como a probabilidade de ocorrência de um dano futuro que uma outra decisão poderia evitar.
A sociedade dos riscos é o resultado do reconhecimento da crise ambiental e da impossibilidade do crescimento econômico como proposto pela modernidade. O ponto central desse modelo sociológico é que os membros da comunidade humana são incapazes de
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“O risco tem sido entendido como eventualidade de sofrer um dano, de forma mais incerta do que aquela contida no perigo. O risco é comumente definido como a probabilidade de certo efeito adverso, levando-se em conta o nível de certeza.” (MACHADO, 2007, p. 44).
solucionar os riscos criados por eles mesmos. A sociedade chegou a uma situação de irresponsabilidade organizada em virtude da falência dos valores dos próprios paradigmas da modernidade: antropocentrismo, individualismo, progresso econômico e científico.
Segundo Ulrich Beck (1997, p. 12), a sociedade industrial destrói a si própria pela forma como ocorre a produção de mercadorias e a orientação do desenvolvimento científico. A mudança dessa sociedade moderna foi menos em razão de uma revolução proletária, do que em virtude do processo tecnológico da indústria e dos seus mecanismos de exploração da natureza.
Na sociedade do risco, as pessoas aprendem a conviver com riscos particulares (como a instabilidade no emprego) e até globais (por exemplo, o efeito estufa, que produz mudanças climáticas capazes de atingir a todos, mesmo as sociedades não-poluidoras). A sociedade é marcada pela constante ameaça sem garantias quanto ao futuro.
A sociedade é paradoxal, pois, simultaneamente, reforçam-se opostos: certeza e incerteza. Um conhecimento potencializa um desconhecimento (DE GIORGI, 1998, p. 192). Se, de um lado, se consegue compreender e calcular a probabilidade de alguns perigos a partir da previsibilidade das circunstâncias fáticas, humanas ou naturais, incidentes no cotidiano de uma coletividade, de outro lado, há uma situação de impotência do Estado e da sociedade civil para evitar ou diminuir a probabilidade de ocorrência das expectativas não desejadas, ou mesmo para oferecer segurança e estabilidade em relação à aplicação do novo conhecimento.
Acreditava-se que a alternativa para o risco era a segurança, a qual seria possível a partir do uso de tecnologias adequadas e do controle das conseqüências das decisões. Porém,
percebeu-se que não se criava segurança, mas novos riscos de outro gênero16. Na sociedade
contemporânea, o risco é visto como normal, tornou-se estrutura (DE GIORGI, 1998, p. 194). O padrão cognitivo, a partir do qual se orientam as ações, não é mais a segurança jurídica, mas as incertezas quanto ao futuro (AYALA, 2004, p. 237). A Sociedade depende da gestão de riscos que, de forma dinâmica e permanente, são criados e superados. O futuro é só uma possibilidade diretamente relacionada com os riscos presentes e os processos decisórios atuais. Conhecer esses riscos é de extrema relevância para a adequada regulação jurídica.
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Nota-se que a questão da energia ganhou fôlego neste milênio. O álcool foi destaque no ano de 2007, inclusive na grande imprensa norte-americana, a qual destacou a importância do combustível e da tecnologia desenvolvida no Brasil na substituição da energia fossilizada. No entanto, esse conhecimento tecnológico cria novos riscos. A questão do álcool, do biogás obtido do vinhoto da cana nas destilarias, e do programa brasileiro de biodiesel e H-bio será preocupante se for acompanhada de uma expansão da fronteira agrícola com base no padrão moderno patronal, que tende a ser estimulado com o aumento da frota de carros flexíveis ou mudança da estrutura dos transportes, ou mesmo com o aumento na exportação desses combustíveis. Se o aumento da produção de biocombustível pode representar importante conquista ambiental, sobretudo no meio urbano, por outro lado, favorece a expansão da fronteira agrícola dos canaviais para fins de produção de energia e, logo, o aumento da devastação florestal e da degradação do solo.
Quando se fala em perigo real, a primeira idéia é evitá-lo, mas os riscos normalmente são aceitos, porque a atividade se tornou necessária; por exemplo, o uso de automóveis é visto como indispensável, apesar do efeito atmosférico. Além da necessidade de aceitar determinados riscos na sociedade contemporânea, a imprevisibilidade também pode estar associada a um acidente, a uma sabotagem, ou a uma vontade política autoritária.
Na sociedade do risco, o futuro é uma possibilidade que depende dos compromissos jurídicos, éticos, políticos e da solidariedade social. Riscos são imprevisíveis, até irreversíveis em curto prazo, e de difícil dimensionamento quanto ao tempo/espaço/vítimas, de modo que todos devem estar comprometidos com a proteção de gerações não-presenciais.
Apesar da imprevisibilidade das conseqüências de algumas atividades, a compreensão dos perigos possibilita uma atuação racional do Estado e dos particulares no sentido de criar modelos alternativos de segurança. Em havendo esses modelos alternativos, também se faz necessário o comprometimento político, a fim de retardar ou diminuir os riscos, de maneira que as escolhas ponderem o conhecimento da periculosidade do comportamento, bem como apreciem a ofensividade e a extensão do dano potencial de uma atividade econômica.
Sabendo que os acontecimentos sociais decorrem de decisões incertas dentro de certa quantidade de possibilidades de escolha, quanto maior o conhecimento do risco, melhor será a decisão para retardá-lo. Uma escolha diferente, com base na precaução, como exigir licenciamento para autorizar plantio de sementes transgênicas, poderia evitar outros prejuízos. O desenvolvimento da ciência e da informação diminui a probabilidade de perigos - enquanto conseqüência previsível de uma ação externa/decisão. Mas não ocorre a superação dos riscos, pois nem todas as possibilidades são antecipadamente testadas de forma empírica. Nem a normatividade jurídica, nem o controle rigoroso da escassez pela Economia conseguem responder pela estruturação dos riscos. O novo espaço de ignorância, resultante do avanço do conhecimento, representa a potencialização de novos riscos, os quais não serão superados apenas com medidas preventivas.
Um novo paradigma deve pautar-se na precaução, de forma a ser possível a utilização do conhecimento e da nova ignorância no intuito de elaborar os programas políticos, definir uma maior participação social e a atuação dos Poderes Públicos, bem como a fim de orientar o exercício de direitos e deveres dos particulares.
Ainda que os riscos não possam ser eliminados, não há dúvida de que podem ser geridos. Contudo, este breve estudo não almejou se aprofundar na Teoria da Sociedade do Risco, muito menos questionar a existência desse modelo sociológico. A intenção foi apenas
mostrar a existência de incertezas capazes de indicar como deve ser a construção e a aplicação do Direito para afastar ou gerir determinados riscos.
Como analisado acima, a incerteza quanto ao futuro impede a real prevenção, no sentido de excluir determinadas expectativas a partir de decisões presentes, embora seja possível verificar situações nas quais os riscos serão menores. O Direito, por exemplo, poderia operar como um sistema social decisório capaz de impedir que as incertezas sociais e econômicas se tornem estrutura. Isso porque ele pode controlar tais incertezas através do tratamento das expectativas, com base em decisões ou também com base no controle da escassez de recursos.
O Direito tem uma função profilática. Quando um risco se torna tema político, está próximo de sofrer regulação jurídica com o objetivo de proibir as atividades cujos riscos não são percebidos ou são relevantes. No entanto, consoante Raffaele De Giorgi (1998, p. 245), ao proibir a atividade porque os riscos não são conhecidos, pode-se criar uma regulação jurídica desnecessária e que força a utilização de práticas alternativas e, por conseguinte, geram-se outros riscos ainda não proibidos, como ocorre no caso dos transgênicos. É difícil saber qual é o risco mais grave entre o proibido e aquele alternativo. Ao criar o direito (escolha), também se cria o não-direito - conseqüência das ações permitidas, mas não conhecidas juridicamente.
O Direito permite a criação de vínculos com o futuro e em seu simultâneo condicionamento por mecanismos normativos. No entanto, ele não resolve problemas, apenas cria procedimentos para estabilizar as expectativas, embora não se saiba quais são as normas necessárias na efetivação de um controle adequado dessas expectativas:
O Direito passa a ser vislumbrado não apenas como elemento corretivo, de incidência post factum, mas também como instrumento de gestão de risco, atuando preventivamente à efetivação de danos ambientais. O dano ambiental futuro consiste exatamente na noção dogmática produzida pelo Direito Ambiental para potencializar uma comunicação acerca dos riscos ambientais no Direito. A formação de uma comunicação de risco no Direito, a que se destina a noção de dano ambiental futuro, potencializa o Direito Ambiental, fomentando a construção de observações e vínculos com o futuro, com o escopo de gerir os riscos ambientais produzidos pela Sociedade de Risco (CARVALHO, 2007, p.73).
Os riscos se tornam jurídicos por meio de decisões políticas. Mas como há possibilidade de as escolhas serem erradas, o futuro continua incerto. Ao mesmo tempo, a sociedade toma conhecimento dos riscos do futuro diante de comportamentos proibidos e permitidos, ou seja, estabelece vínculos do presente com o futuro (intergeracionais) a partir das decisões políticas.
As atividades humanas, quando possuírem relevância social decorrente dos seus efeitos e do seu titular, estarão orientadas pelo Direito a realizar as expectativas escolhidas politicamente para afastar os perigos. Inclusive com imposição de funções às atividades econômicas para a realização do bem-estar atual e a possibilidade de uma existência humana digna no futuro (BENJAMIN, 1993, p. 22).
Por isso, é preciso saber o conteúdo jurídico de um termo, pois certamente ele poderá ter significados diferenciados no tempo. O fato de dizer que algo é direito subjetivo não garante que os usos de instrumentos de ação serão suficientes para protegê-los; basta verificar a inefetividade da proteção ambiental, apesar de toda a proteção jurídica ao bem.
A teoria dos riscos interfere na discussão da responsabilidade jurídica, pois não há mais a necessidade da concretização prévia de um dano para aceitar o risco; exige-se antecipação do controle e, talvez, da responsabilidade, como se verifica nos crimes de perigo e na exigência de estudo prévio de impacto ambiental. A sociedade do risco exige uma mudança de paradigma ou mentalidade na produção e aplicação do Direito, por exemplo, estabelecendo a responsabilidade civil com base no risco abstrato - sem necessidade de prova do dano real.