2.1. Política Externa e Inserção Internacional Chinesa: A ascensão (ou reinserção) chinesa no sistema internacional (Zhongguo)
2.1.4. Surgimento e desenvolvimento do eixo sino-americano.
No campo da economia e política internacional, o final da década de 2010 foi marcado pela instabilidade econômica resultante da crise financeira que abalou o sistema internacional em 2008 e 2009. Após a sua “estabilização”, ficou evidente a
importância interdependente de dois atores na economia mundial. De um lado temos os Estados Unidos, considerado largamente como a grande potência político-financeira do sistema internacional, que a partir da década de 1990, firmou-se como o grande articulador financeiro do sistema produtivo mundial. Do outro lado temos a República Popular da China, uma nação comunista, que a partir do final da década de 1970 iniciou um processo de reformas institucionais do seu sistema econômico-produtivo, tornando- se gradativamente uma economia de mercado socialista22 controlada pelo Estado detentora de grande parte produção industrial mundial de produtos manufaturados e de baixo valor agregado. A inter-relação siamesa23 entre globalização Financeira americana e o “milagre” econômico chinês, possibilitou um crescimento econômico mundial bastante intenso, porém desigual durante os anos 1990 (tabela 1). Vejamos como este relacionamento se conformou.
22
BRESLIN, Shawn (2007). “China and the Global Political Economy”.New York, NY. PalgraveMacmillan, PP. 40-81.
23
FIORI, José Luis (2008). “O sistema interestatal capitalista no início do século XXI”. In:O Mito do
Tabela 1: Taxas de crescimento real do PIB – 1990-2009 (em %)
Fonte: PINTO, 2010
Em linhas gerais, os Estados Unidos iniciaram no final da década de 1970 um processo de transformações estruturais no intuito de recuperar a competitividade do seu capital. Medidas de reestruturação política e econômica foram implementadas inserindo novos elementos que desconfiguraram a dinâmica keynesiana constituída entre a crise financeira de 1929 e o fim da segunda guerra mundial. Este caminho abriu espaço para a promoção de nova rota de acumulação e de poder para os capitais norte-americanos por meio do modelo de (des) regulação econômica de cunho neoliberal baseado na transnacionalização de partes do seu setor produtivo na e da ampliação da acumulação com predomínio das finanças24. Este novo padrão ocasionou um crescimento econômico estadunidense na década de 1990, basicamente liderado pelo seu setor financeiro25.
O outro polo de crescimento nos anos 1990 localizou-se na Ásia. O crescimento chinês foi possibilitado em partes pelo contexto das transformações regionais introduzidas pelo reenquadramento produtivo japonês, que foi forçado pelos EUA a readequar o seu sistema produtivo no leste asiático, deslocando o seu eixo industrial e produtivo para os “tigres asiáticos” – inicialmente – e subsequentemente para o sudeste asiático e para a China. Este processo ficou conhecido como modelo dos “gansos
24
PINTO, Eduardo Costa (2010). “O eixo sino-americano e a inserção externa brasileira: Antes e depois da crise”. In: Inserção Internacional Brasileira: Temas de Economia Internacional.
25
CHESNAIS, François (2005), “Doze teses sobre a mundialização do capital”. In O Brasil frente à ditadura do capital financeiro: Reflexões e alternativas. Rio de Janeiro, Univates
voadores” 26
. Com a crise asiática de 1997, este modelo entrou em crise, acarretado pelo colapso financeiro de grande parte de seus participantes. Devido ao que Chu (2010) denomina de “neoliberalismo Estatal”27
– política monetária e econômica controlada pelo governo e abertura seletiva e específica de mercado - a China foi o país que sofreu menos impacto e pode sair mais rapidamente da crise asiática.
Como resultado, o final do século XX e inicio do século XXI ficou marcado pela convergência entre investimentos financeiros americanos e o dinamismo da economia chinesa que acabou por captar grande parte do capital financeiro americano desde então. Se observarmos na tabela 1 os ciclos de crescimento da economia mundial entre 1990- 99 e 2003-07, observam-se momentos bem distintos da economia mundial, onde o primeiro é marcado por crises econômicas e crescimentos desiguais, enquanto que no segundo, o ciclo de expansão nos parece ser bem mais homogêneo. Neste segundo momento o novo contexto geopolítico internacional consolidou o eixo sino-americano, expandindo a sua área efetiva de atuação para todas as regiões do globo. Baseado em uma relação de complementaridade, interdependência e competição, este novo eixo se tornou o protagonista da dinâmica econômica mundial. A China, no plano comercial, se firmou como principal exportador para o mercado americano, enquanto que no plano financeiro, tornou-se a principal fonte de investimentos (diretos e indiretos) do capital financeiro americano. Este processo resulta em uma situação interessante onde a China aparece como devedora dos Estados Unidos (devido aos investimentos externos americanos no país) e por outro lado como credora dos Estados Unidos (pela compra de títulos da dívida pública estadunidense).
Assim, as relações de complementaridade financeiro-produtivas entre China e Estados Unidos no campo da economia internacional nos anos 1990 possibilitaram um aumento exponencial da taxa de crescimento e das reservas financeiras internacionais em todo o mundo, durante grande parte da década de 2000. Este aumento se deu pela condução do eixo sino-americano de uma operação macroeconômica articulada pela ação destes dois países, como mostraremos abaixo.
26
PALMA G. (2004). “Gansos Voadores e Patos Vulneráveis: A diferença da liderança do Japão e dos Estados Unidos no desenvolvimento do Sudeste Asiático e da América Latina”. In: FIORI, José Luís (Org.). O Poder Americano. Petrópolis, Vozes.
27
CHU, Yin-wah & SO,Alvin Y.(2010).”State neoliberalism: The Chinese Road to Capitalism”In: CHU, Yin-wah [ED.] Chinese Capitalisms: Historical Emergence and Political Implications. London, PalgraveMacmillan.
TABELA 2 - Indicadores Macroeconômicos – mundo, Estados Unidos e China, 1990/2009
Fonte: PINTO, 2010
Do lado americano destaca-se o avanço da política macroeconômica expansionista, em virtude de dois grandes acontecimentos: a crise financeira da bolsa de valores Nasdaq e o atentado de 11 de setembro em Nova Iorque. A resposta governamental foi uma política monetária de redução de juros enquanto que no setor fiscal foram reduzidos os impostos e aumentaram-se os gastos públicos, principalmente no setor de defesa28. Esta combinação permitiu a rápida recuperação da economia americana, como visto na tabela 2.
No âmbito chinês, destaca-se o realinhamento de sua política econômica no tanto no nível nacional como no internacional. Internamente, a China optou por alargar a sua inserção na economia de mercado, ampliando as zonas econômicas especiais, junto com a expansão do seu programa de investimentos públicos em infraestrutura e desenvolvimento rural. Como política monetária manteve sua taxa de câmbio fixa e desvalorizada perante o dólar. Estas políticas possibilitaram a expansão do seu mercado interno. No nível internacional, a China optou por ampliar as suas relações comerciais
28
SERRANO, Franklin. (2008) "A economia americana, o padrão 'dólar-flexível' e a expansão mundial nos anos 2000", in FIORI, SERRANO e MEDEIROS. O mito do colapso americano, Editora Record, Rio de Janeiro, p. 83.
em busca de maiores mercados para seus produtos industrializados e de fontes de produtos primários necessários para o prosseguimento de sua política interna de expansão infra-estrutural.
Com isso, a política econômica chinesa, somada à política expansionista financeira americana possibilitou um processo de acumulação financeira, e expansão produtiva que resultou em um arranjo geoeconômico durante a década de 2000 que “(...) permitiu o aumento das importações chinesas de máquinas e equipamentos originários da Alemanha, Estados Unidos e Japão, de produtos industriais dos demais países asiáticos e de matérias-primas e alimentos dos países em desenvolvimento da África e América Latina.” (PINTO 2010:93). Se olharmos na tabela 2 o crescimento do volume de comércio mundial, verifica-se claramente que a configuração deste eixo sino- americano gerou impactos positivos no volume de comércio internacional. Este novo contexto permitiu que países desenvolvidos e em desenvolvimento se beneficiassem desta expansão através de superávits primários decorrentes da liquidez internacional e do aumento efetivo da demanda produtiva.
Este novo quadro econômico liderado pelo eixo sino-americano afetou a geopolítica internacional de forma importante, alterando a relação de poder e a estrutura hierárquica do sistema mundial. A China tornou-se um ator político e econômico de grande importância, assim como o elevado crescimento das taxas de intercâmbio comercial possibilitaram aos países em desenvolvimento, como Brasil, por exemplo, a resolverem seus problemas de financiamento e restrições externas aos crescimentos nacionais, possibilitando um maior poder de barganha e autonomia nos assuntos internacionais.
As implicações políticas desta reordenação econômica oriundas do eixo sino- americano podem ser analisadas a partir de duas perspectivas teóricas. A primeira enfatiza a questão da distribuição de poder no SPI. De um modo geral, a abordagem neorrealista enfatiza a distribuição de poder material como elemento principal de um sistema, e, neste sentido, os Estados Unidos mantêm-se como o poder dominante da realidade política desde o fim da Guerra Fria. A interpretação neorrealista/realista enfatiza a questão da balança e do balanceamento do poder global. Com o fim da União Soviética, nenhuma outra grande potência foi capaz de assumir o seu lugar como
possível contrabalanceador da hegemonia americana29. Neste sentido a ascensão econômica da China é vista pelos analistas de política externa americana como uma ameaça velada à posição dos Estados Unidos. De uma forma geral a perspectiva neorrealista trabalha com a questão da concentração de poder como fator determinante de política externa, e neste sentido, as opções para potencias emergentes para a integração no sistema político internacional seriam ou de oposição ou de alinhamento ao Estado ou coalizão de Estados hegemônica no sistema30.
Para esta corrente a ascensão do eixo sino-americano é vista como uma ameaça relativa, posto que a dependência econômica entre Estados Unidos e China ainda não extrapolou o campo da economia no sentido de causar tensões no campo da política31. Os EUA ainda detêm o controle do ponto de vista da segurança estratégica tanto a nível regional quanto global. Este modo de análise, porém, é bastante limitado posto que seja interpretado unilateralmente a partir da perspectiva norte-americana, preocupando-se estritamente com as estratégias que este país deve adotar para manutenção de sua hegemonia. Neste sentido, esta corrente falha ao pressupor que as opções estratégicas dos países de segunda ordem sejam polarizadas entre o alinhamento ou o confronto irrestrito32.
A perspectiva liberal enfatiza que novos tipos de lógica sistêmica têm ganhado força e estariam se desenvolvendo, alterando as relações clássicas entre Estados. De forma geral, a corrente liberal-institucionalista entende que a globalização e a formação de redes de trocas de informação e comunicação transnacional fizeram emergir no cenário internacional novas instituições e formas de governança. Neste sentido, o aumento da integração de países na economia e na sociedade global tenderia a uma convergência para instituições internacionais pautadas por normas internacionais mais igualitárias e abrangentes. Por este ponto de vista, pode-se dizer que a articulação do eixo sino-americano foi estabelecida, dentro da política internacional, através de uma convergência para o uso de instituições internacionais multilaterais como foros
29
HURREL, Andrew, (2009). “Hegemonia, Liberalismo e Ordem Global” In: HURREL, Andrew (et al). Os Brics e a Ordem Global. Rio de janeiro, Editora FGV.
30 SORENSEN, Georg (2009). “Big and Important Things’ in IR: Structural Realism and the Neglect of
Changes in Statehood” In: International Relations, Vol 23(2):p.223–239. Disponível em:
<http://ire.sagepub.com/content/23/2/223>Acessado em: 22 de Junho de 2010.
31
KIM, Samuel, S (2004). “China in World Politics”. In: BUZAN, Barry & FOOT, Rosemary (ED.). Does China Matter? A Reassessment Essays in memory of Gerald Segal. London, Routledge.
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legítimos de resolução de conflitos entre países. Esta convergência atuou como mecanismo regulador do eixo sino-americano ao “coagir” a China a se adequar às normas internacionais de comércio e de mercado, assim como foram largamente utilizadas pelo Estado norte-americano para legitimar e difundir os seus interesses político-econômicos33.
2. Politica Externa e Inserção Internacional brasileira nos anos 1990 e 2000: