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Colegialidade artificial

Capítulo 3 – Metodologia de investigação

3.4. Desenho do estudo, instrumentação e procedimentos

3.4.1. Técnicas e procedimentos de recolha de dados

- Entrevista

O recurso à entrevista em investigações qualitativas é bastante frequente. Esta implica o contacto direto entre entrevistador e entrevistado, e Natércio Afonso (2005, p.97) define-a como sendo “uma interação verbal entre o entrevistado e o respondente, em situação de face a face ou por intermédio do telefone.”

Segundo Bogdan & Biklen (1994, p. 134), esta é “utilizada para recolher dados descritivos na linguagem do próprio sujeito, permitindo ao investigador desenvolver intuitivamente uma ideia sobre a maneira como os sujeitos interpretam aspetos do mundo”. Assim sendo, pela aplicação das entrevistas, pretendemos recolher dados que através da simples observação seriam de difícil compreensão, nomeadamente, no que se

relaciona com as representações e conceções pessoais dos elementos deste departamento.

As entrevistas podem, de uma maneira geral, ser agrupadas em três tipos, segundo o modo como são concebidas: entrevista estruturada – estrutura fixa e inflexível desenvolvida pelo entrevistador; entrevista não estruturada – questões ou pontos principais organizados pelo entrevistador mas sem perguntas específicas, apresentando grande flexibilidade estrutural; entrevista semiestruturada – estrutura intermédia, temas e questões específicas que servem de instrumento de gestão do discurso do respondente. Normalmente este tipo de entrevista parte da construção de um guião com objetivos, tópicos principais e itens subsequentes (Afonso, 2005, pp. 98 – 99).

Na nossa investigação, optamos pelo tipo semiestruturado para entrevistar todas as educadoras do DCEP. Através de entrevistas semiestruturadas procuramos aceder à informação que nos permitisse compreender os elementos culturais da profissionalidade dos docentes do DCEP em relação ao modo como desenvolvem o seu trabalho e às lógicas de ação implícitas no desenvolvimento de práticas de educação intercultural. Recorremos à utilização de entrevistas semiestruturadas uma vez que estas permitem ao entrevistador orientar a entrevista seguindo um quadro de referência de conceitos e situações concretas sobre os quais pretende inquirir, mas, como afirma Estrela (1994, p.342) sem limitar as respostas dos entrevistados, deixando-os expor livremente os seus pensamentos e as suas ideias.

Não obstante, as entrevistas como método de recolha de dados, também apresentam aspetos negativos dos quais temos plena consciência. Afonso (2005, p. 101) argumenta que duas das dificuldades da aplicação das entrevistas é a atração dos entrevistados por dar respostas que vão de acordo com o “socialmente desejável”, gerando, desta forma um enviesamento das respostas, fugindo à descrição rigorosa da realidade que se pretende analisar.

No âmbito da presente investigação, preparamos previamente a realização da entrevista com a construção de um guião (Anexo 3) que teve como objetivo orientar o entrevistador durante a entrevista.

A entrevista teve 4 objetivos específicos sendo cada um deles correspondente de forma literal a uma das questões de investigação inicialmente estabelecidas. Do mesmo modo,

cada um desses objetivos se tornou, posteriormente, o identificador de cada um dos quatro blocos temáticos que definimos. Estes encontram-se inseridos dentro de dois blocos temáticos mais gerais que identificam cada uma das duas partes da entrevista. Assim, de forma a tentar permanecer num esquema simples optamos por fazer corresponder de forma direta, questões de investigação, objetivos e blocos temáticos (ver quadro 5).

Quadro 5 – Relação eixos, questões, objetivos, blocos temáticos

Eixos de análise Questões de investigação Objetivos Blocos temáticos (BT)

Eixo A - Formas da cultura docente

BT1 - Características culturais das relações profissionais dos docentes do DCEP

Quais as características culturais das relações profissionais dos docentes do DCEP?

Identificar e analisar as características culturais das relações profissionais entre os docentes do DCEP.

BT1.1 - Características culturais das relações profissionais dos docentes dentro DCEP.

Quais as características culturais das relações profissionais estabelecidas entre os docentes do DCEP e os demais departamentos?

Identificar e analisar as características culturais das relações profissionais que os docentes do DCEP estabelecem com os demais departamentos.

BT1.2 - Características das relações profissionais que os docentes do DCEP

estabelecem com os demais departamentos. Eixo B - Orientação das lógicas de ação dos educadores perante a diversidade étnico- cultural BT2 - Diversidade étnico- cultural do contexto educativo.

De que modo os docentes do DCEP interpretam a diversidade cultural que caracteriza o agrupamento/escola onde lecionam? Compreender como os docentes do DCEP interpretam a diversidade cultural que caracteriza o agrupamento/escola onde lecionam.

BT2.1 - Perceção da diversidade étnico-cultural do contexto social onde o DCEP se insere. Quais as lógicas de ação

subjacentes à prática profissional dos docentes do DCEP em relação à diversidade cultural que o caracteriza?

Identificar e analisar as lógicas de ação subjacentes à prática profissional dos docentes do DCEP em relação à diversidade cultural.

BT2.2-Prática profissional dos docentes face à diversidade étnico-cultural dos alunos.

Apesar de ter sido criada uma série de questões para cada bloco temático, que se fazem acompanhar de tópicos de aprofundamento, o guião da entrevista serviu, conforme a literatura refere, para nos orientar na gestão da mesma. De facto, cada entrevista acabou por se desenrolar de uma forma original, dependendo do discurso do entrevistado, das experiências e dos pontos de vista que quis partilhar, bem como das intervenções de clarificação ou de especificação introduzidas pela entrevistadora.

As entrevistas foram desenvolvidas entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013. Uma vez que nem sempre o guião desenvolvido permite a recolha da informação necessária a um

determinado estudo, no final do mês de novembro, fizemos o ensaio da entrevista a duas educadoras que até há cerca de 3 anos pertenciam ao departamento estudado e que, estando em situação de destacamento para a intervenção precoce do mesmo agrupamento, se disponibilizaram para fazer o ensaio da entrevista. Como resultado deste exercício, procedemos a algumas alterações estruturais e de linguagem.

Tendo consciência de que o local da entrevista não detém um papel neutro na forma como esta se desenrola, optamos por desenvolvê-las num local confortável para as educadoras, por opção das mesmas sempre na sua escola, mais concretamente na sala de reuniões ou na sua sala de aula.

Foram realizadas, então, 10 entrevistas a toda a população do departamento estudado. O guião da entrevista constitui-se por duas partes, cada uma associada a um eixo de análise. Todas as entrevistas foram realizadas em dois momentos distintos, traduzindo- se, na prática, em duas entrevistas por educadora. A primeira parte da entrevista foi planeada para ter uma duração de 30 a 40 minutos e a segunda de 20 a 25 minutos. A maioria das entrevistas durou, efetivamente, o tempo planeado.

Como garantia de anonimato, os nomes das entrevistadas foram substituídos por letras de A a J. Após transcritas, os protocolos das entrevistas foram apresentados às entrevistadas que tiveram oportunidade de ler, confirmar e, eventualmente, corrigir, algum detalhe da informação recolhida.

- Pesquisa documental

A pesquisa documental pode revelar-se um instrumento valioso na abordagem qualitativa, pois permite o enriquecimento das informações recolhidas através de outras técnicas, complementando-as (Ludke & André, 1986. p.13). Na nossa investigação a pesquisa documental apresenta-se precisamente, como um recurso complementar de recolha de dados.

Selecionamos para consulta e análise o Projeto Educativo do Agrupamento (PEA), o Plano Anual de Atividades (PAA), o Regulamento Interno (RI) e o Projeto Curricular de Agrupamento (PCA), com o objetivo de neles encontrar elementos complementares reveladores tanto das dinâmicas e das culturas profissionais dos docentes do DCEP,

como da orientação das lógicas de ação em relação à diversidade étnico-cultural do agrupamento.

No caso do PEA, este é definido no Decreto-Lei n.º 75/2008 como sendo

«“Projeto educativo” o documento que consagra a orientação educativa do agrupamento de escolas ou da escola não agrupada, elaborado e aprovado pelos seus órgãos de administração e gestão para um horizonte de três anos, no qual se explicitam os princípios, os valores, as metas e as estratégias segundo os quais o agrupamento de escolas ou escola não agrupada se propõe cumprir a sua função educativa.»

Assim, a importância deste documento prende-se com o facto de poder clarificar acerca do contexto do agrupamento, das suas características, das preocupações dos atores escolares e dos objetivos que se propôs, estrategicamente, a atingir. Neste documento, pode-se recolher, de um modo global, não só números acerca dos seus alunos e das suas especificidades, mas também a forma como é vista e como se pretende lidar com a diversidade cultural que o caracteriza.

Segundo o mesmo DL, o PAA e o plano plurianual de atividades, quando existem, são “os documentos de planeamento, que definem, em função do projeto educativo, os objetivos, as formas de organização e de programação das atividades e que procedem à identificação dos recursos necessários à sua execução”. Ou seja, é no PAA que se explicitam os modos de operacionalização e de desenvolvimento de estratégias para que se atinjam os objetivos propostos no PEA, nomeadamente, no que respeita ao desenvolvimento de práticas interculturais.

Por seu turno, o RI é

“[…] o documento que define o regime de funcionamento do agrupamento de escolas ou da escola não agrupada, de cada um dos seus órgãos de administração e gestão, das estruturas de orientação e dos serviços administrativos, técnicos e técnico - pedagógicos, bem como os direitos e os deveres dos membros da comunidade escolar”

Através da sua consulta pudemos analisar não só a existência de entidades escolares ou extraescolares criadas no âmbito da educação intercultural, como orientações no modo de funcionamento dos diversos departamentos e dos modos de trabalho dos seus professores, na tentativa de vislumbrar eventuais incentivos de práticas profissionais mais individuais ou mais colaborativas.

Decidimos ainda, recorrer à consulta do PCA, com o objetivo de analisar os procedimentos e adaptações curriculares no âmbito do contexto de diversidade cultural

que caracteriza o agrupamento estudado. Assim, é importante esclarecer que, no DL n.º 6/2007, de 18 de janeiro se estipula o que

“No quadro do desenvolvimento da autonomia das escolas estabelece-se que as estratégias de desenvolvimento do currículo nacional, visando adequá-lo ao contexto de cada escola, deverão ser objecto de um projecto curricular de escola, concebido, aprovado e avaliado pelos respectivos órgãos de administração e gestão, o qual deverá ser desenvolvido, em função do contexto de cada turma, num projecto curricular de turma, concebido, aprovado e avaliado pelo professor titular de turma ou pelo conselho de turma, consoante os ciclos.”

Estes documentos, todos de índole pública e disponíveis no sítio da Internet do agrupamento, possibilitam de forma mais indireta a clarificação da postura da comunidade docente, por um lado, em relação aos modos de desenvolvimento do seu trabalho e, por outro, em relação ao modo como percecionam a diversidade cultural que caracteriza os alunos com quem trabalham.