• Nenhum resultado encontrado

5. O golpe institucional

5.5 Temer no olho do furacão: Odebrecht e JBS

Duas delações orientadas pela Lava Jato colocaram o governo Temer à beira do colapso: a da Odebrecht, em dezembro de 2016, e a da JBS, em maio de 2017.

O documento produzido pela delação do ex-vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht, Cláudio Melo Filho, mostrou que a Lava Jato começava a tomar como alvo, naquela nova fase em que o golpe institucional já estava assegurado, o núcleo duro do PMDB195. Pode-se ver isso pelo movimento simultâneo feito pela Lava Jato no RJ, apanhando a cúpula do PMDB carioca, com Eduardo Paes e Fernando Pezão envolvidos nas delações (depois dos eventos que envolveram Sérgio Cabral e sua esposa).

O segundo ponto que saiu por todos os poros desta delação é que a corrupção não é privilégio apenas dos políticos tradicionais, mas também é inerente às empresas capitalistas,

194Para não mencionar todo o rol de empreiteiras envolvidas nos escândalos da Petrobrás, como OAS, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, UTC Engenharia, Engevix, IESA Óleo e Gás. A maioria das quais enriquecida durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985). As propinas das grandes construtoras e seus cartéis, de acordo com o que aponta Pedro Henrique Pedreira Campos em seu excelente livro “Estranhas Catedrais – As

Empreiteiras Brasileiras e a Ditadura Civil-Militar", editora da UFF, 2014.

195A lógica do documento é citar sem prejuízo de detalhes como as cúpulas do PMDB na Câmara e no Senado eram o “centro nevrálgico” do esquema de compra de medidas provisórias e projetos de lei que favoreciam a Odebrecht. No Senado, as negociações envolviam a cúpula do PMDB, personalizada em Romero Jucá, Renan Calheiros e Eunício Oliveira, que “praticamente ditam os rumos das matérias conduzidas no Senado”. Jucá, o “resolvedor-geral da República”, foi exímio funcionário da empresa no Congresso e atuava em nome de Renan. Centralizava a arrecadação financeira dos pagamentos da Odebrecht para posterior divisão no PMDB, soma que chegou ao valor de R$22 milhões. Na Câmara, o grupo político do PMDB era capitaneado por três nomes, à semelhança do Senado: Michel Temer, Eliseu Padilha (atual Ministro-chefe da Casa Civil) e Moreira Franco (Ministro de Parcerias e Investimentos). Padilha era o arrecadador financeiro e atuava “como verdadeiro preposto de Michel Temer e deixa claro que muitas vezes fala em seu nome”. Geddel Vieira Lima e Eduardo Cunha também faziam parte do grupo. Temer também atuava de “punho próprio” e é diretamente vinculado a pedido de dinheiro para o PMDB. “Eu participei de um jantar no palácio do Jaburu juntamente com Marcelo

Odebrecht, Michel Temer e Eliseu Padilha. Michel Temer solicitou, direta e pessoalmente para Marcelo, apoio financeiro para as Campanhas do PMDB no ano de 2014. [...] No jantar, acredito que considerando a importância do PMDB e a condição de possuir o Vice-Presidente da República como Presidente do referido partido político, Marcelo Odebrecht definiu que seria feito pagamento no valor de R$ 10.000.000,00. Claramente, o local escolhido para a reunião foi uma opção simbólica voltada a dar mais peso ao pedido de repasse financeiro que foi feito naquela ocasião”. Documento disponível em:

que utilizam seu poder econômico para comprar medidas parlamentares ou projetos de lei que beneficiem seus interesses privados, como a diminuição de impostos, incentivos tributários e a regulamentação de ataques trabalhistas. Mais uma vez vemos a correção da sentença de Karl Marx, de que o Estado burguês é um balcão dos negócios comuns de toda a burguesia.

Mas o maior dano foi causado pela delação da gigante mundial de carnes, a JBS. A 17 de maio de 2017, diante das dificuldades de Temer em aplicar os ajustes pró-empresariais prometidos (em especial a reforma da Previdência), a Rede Globo veiculou os áudios gravados pelo presidente da JBS, Joesley Batista, em conversa com Temerem que este teria incentivado o chefe do maior frigorífico do mundo a continuar comprando o silêncio de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados.

A ofensiva das corporações Globo, entretanto, não vingou. Temer se manteve no cargo presidencial, ainda que pendendo de um fio, na disputa entre estas frações da elite dominante. Tendo conseguido aprovar a já mencionada reforma trabalhista poucas semanas antes, sua posição se viu fortalecida nos mercados financeiros e nas grandes federações industriais, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Além disso, amedrontados com a possibilidade de que a Lava Jato sacrificasse seus próprios cargos em troca de manter de pé todo o regime político envolvido em corruptelas e escândalos, parlamentares se reuniram sob a bandeira da preservação de Temer.

Isso ficou comicamente patente na votação sobre a primeira denúncia feita pelo Procurador geral Rodrigo Janot contra Temer, no dia 3 de agosto de 2017, denúncia que para prosperar e ir para o Supremo Tribunal Federal precisava conseguir 324 votos na Câmara dos Deputados.

Para evitar seu afastamento, Temer foi pródigo: distribuiu aos deputados aliados R$3 bilhões do dinheiro público em emendas parlamentares, a fim de rejuntar algumas centenas de votos. É notório que isso tenha acontecido em meio a uma cifra de 14 milhões de desempregados no Brasil, e outras dezenas de milhões de trabalhadores ultra-precários, rotativos, terceirizados, sempre à beira do desemprego. Também em meio à campanha do governo por "acertar as contas públicas" com a reforma da previdência, atacando as aposentadorias de milhões de trabalhadores.

Atesta a funcionalidade específica dessa distribuição o fato de que houve um salto na compra das almas mortas dos parlamentares depois que Temer foi denunciado no “FriboiGate”. Em janeiro, o valor total repassado aos deputados somou pouco mais de R$ 900 mil. Em fevereiro, R$ 1,36 milhão. Em março foram R$ 4,06 milhões, e em abril R$ 5,32

milhões. Em maio, pulou para R$ 76,7 milhões. Nos últimos dois meses, segundo a Agência Lupa196, o governo federal encaminhou aos deputados federais R$ 2,34 bilhões.

No ranking por partidos, o PMDB apareceu como o maior beneficiário das emendas empenhadas pelo governo federal nos últimos dois meses. Seus deputados receberam R$ 284,3 milhões (12,1% do total). O PT ficou em segundo, tendo recebido R$ 266,4 milhões em emendas em junho e julho. Na sequência, os partidos mais beneficiados foram PP (R$ 237,5 milhões) e PSDB (R$ 218 milhões).

Essa é a "noz dentro da casca" desta farsa de democracia. Os princípios da "democracia formal" burguesa se encontram sujeitos ao controle das finanças, da chantagem, do roubo da riqueza nacional a serviço dos inimigos do povo. Assim atestava há muito, na década de 1920, um deputado conservador britânico, quando reconheceu que com alguns milhões por ano podia-se defender o que se desejasse no parlamento197.

Em meio a esta crise política, importantes porta-vozes da elite empresarial do país, como Fernando Henrique Cardoso, se mostraram à procura da versão brasileira do presidente francês, Emmanuel Macron. Banqueiro e ex-ministro da economia de François Hollande, do Partido Socialista francês, Macron representa o que as finanças estrangeiras qualificam como “populismo de centro”, que se afasta das alternativas à direita e à esquerda do chamado “consenso neoliberal”, profundamente golpeado pela crise de hegemonia dos partidos tradicionais da classe dominante, preservando o centro político com um discurso “renovado”.

Macron venceu as eleições presidenciais com sólida margem de votos contra Marine Le Pen, freou momentaneamente o perigo de ruptura da União Europeia e conseguiu ampla maioria parlamentar na França para aplicar uma dura reforma que flexibiliza os direitos trabalhistas. Banhado pela legitimidade das urnas, não encontrou no primeiro ano resistência às reformas, como encontrou seu predecessor.

Entretanto, nenhum político brasileiro conseguiu a projeção que Macron havia conseguido nas eleições de 2017. Pior: nem mesmo Macron logrou manter a popularidade inicial. A onda de greves do setor do transporte, especialmente dos ferroviários franceses contra a privatização da companhia ferroviária estatal (SNCF), e dos estudantes das principais universidades francesas contra a imposição de exames de admissão, projetou a melhor homenagem aos 50 anos do Maio Francês de 1968. A histórica entrada em cena dos gilets

196“Torneira aberta na Câmara: afinal, quem recebeu quanto do governo Temer?”, Leandro Resende e Juliana Dal Piva. Disponível em: http://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2017/08/02/denuncia-temer/.

jaunes (ou “coletes amarelos”) golpeou a figura de Macron a tal ponto que os editoriais da

classe dominante começavam a rediscutir, temerosos, o retorno do espectro da revolução. Disto, a burguesia brasileira, e a corte de Bolsonaro, buscam fugir como da peste, enquanto pode.

Documentos relacionados