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2. Dimensões do desenvolvimento pessoal do professor

2.1 O professor enquanto aprendente adulto: princípios e estilos de aprendizagem

2.2.2 Teoria do desenvolvimento do ego de Loevinger

Loevinger (1976, 1982, 1987) também se debruçou sobre o desenvolvimento humano, centrando, contudo, a sua atenção numa dimensão que designou por ego. Embora a autora tenha retomado o termo da psicanálise, na teoria que formulou este assume novos contornos, sendo perspectivado no quadro do seu desenvolvimento. Nos vários estudos efectuados neste domínio, quer pela autora quer por outros investigadores que se basearam na sua teoria, o desenvolvimento do ego aparece muitas vezes referido por outras denominações, nomeadamente como desenvolvimento do carácter, desenvolvimento do self (Loevinger & Knoll, 1983), crescimento intrapessoal ou ainda como conhecimento de si próprio (Reiman & Thies-Sprinthall, 1998). Dada a proliferação de designações para o mesmo conceito e em virtude das diversas conotações que o próprio vocábulo pode adquirir nas diferentes áreas de estudo, Loevinger (1987) esclareceu que reservava a utilização do termo para se referir a uma determinada sequência de estádios hierarquicamente organizados em que o desenvolvimento humano se processa, constituindo-se cada um deles a partir do anterior e transmutando-se em sucessivos graus de complexidade, no que diz respeito à compreensão que o indivíduo possui de si próprio, à sua adaptação ao meio envolvente, bem como à organização e integração da experiência que possui. Assim, e não obstante a concepção do ego parta da esfera intrapessoal, as convicções do sujeito sobre si próprio acabam por ser inevitavelmente pautadas pela sua relação com o mundo exterior e com o outro, havendo também, por isso, uma dialéctica constante com as esferas contextual e interpessoal.

No sentido de fundamentar um quadro teórico que descrevesse a dinâmica e os níveis de complexidade da personalidade do indivíduo, a autora efectuou vários estudos, recorrendo,

95 numa primeira fase, à entrevista de uma amostra significativa de mulheres, na qual foram abordados temas relativos à sua vida familiar. Destas investigações inaugurais surgiu a primeira versão do WUSCT (Washington University Sentence Completion Test), um instrumento que possibilita a identificação do nível de complexidade que caracteriza a actividade psicológica do indivíduo. Embora tenha iniciado as suas investigações pelo estudo de um público feminino, a autora reformulou continuadamente o WUSCT e alargou o âmbito da sua pesquisa ao sexo masculino, tendo acabado por validar a sua teoria para ambos os géneros (Reiman & Thies-Sprinthall, 1998). A análise dos dados permitiu a identificação de dez patamares de desenvolvimento, que integram estádios e níveis de transição entre os mesmos, e que passamos a descrever.

O primeiro estádio da sequência identificada por Loevinger (1976), designado por estádio pré-social (I-0), é o que possui um menor nível de complexidade do ego. É o estádio típico da criança recém-nascida, cuja percepção não vai além do anseio pela satisfação das suas necessidades físicas, acabando também por associar a figura materna à saciedade das mesmas. Num segundo momento, no estádio simbiótico (I-1), e embora já haja alguma capacidade de diferenciação da realidade exterior, a criança sente ainda dificuldade em considerar a mãe como uma entidade em si mesma, encarando-a mais como um prolongamento de si própria e com a qual está envolvida numa aparente simbiose. O estádio seguinte, ou estádio impulsivo (I2), também é característico da criança pequena e é o primeiro acessível através da linguagem. O sujeito ainda é movido pelo impulso, concebendo o outro meramente como alguém que tem o dever e a responsabilidade de dar resposta às suas necessidades imediatas. Neste sentido, ainda não existe qualquer reciprocidade nas relações interpessoais e, ao classificar o outro com base no grau em que este consegue atender às suas exigências e veleidades, o sujeito demonstra uma cognição simplista e regulada pelo profundo sentimento de egocentrismo que ainda o caracteriza. O estádio auto-protector (Δ) também é caracterizado por uma complexidade do ego bastante limitada. Embora seja considerado pelos investigadores como o nível mínimo para que haja no indivíduo adulto alguma capacidade de adaptação à sociedade, esta é manifestamente insuficiente para dar resposta aos desafios com

que o mesmo se poderá deparar9. No que diz respeito às regras e às convenções sociais, a atitude do sujeito é normalmente de aceitação. Contudo, esta não resulta de uma aquiescência efectivamente sentida pelo indivíduo, mas sim do seu egocentrismo que contempla, acima de tudo, as vantagens que tal atitude lhe pode trazer a título pessoal.

Segue-se um estádio em que domina o conformismo (I-3). Neste patamar, o sujeito identifica-se com as figuras de autoridade e a sua aceitação, estima e aprovação por parte dos elementos do grupo em que se insere são de importância capital, pelo que as suas preocupações se centram em aspectos como a aparência, o estatuto, a reputação, a observância, a conformidade, etc. Assim, o seu pensamento aproxima-se de formas de expressão concretas, estereótipos, generalizações e classificações dicotómicas, sendo as regras normalmente aceites porque os outros também as parecem aceitar e, acima de tudo, pelo facto de a desaprovação social ser encarada como uma forte sanção. Entre este e o estádio seguinte, Loevinger identificou um nível de transição designado por consciente/conformista (I-3-4), em que o indivíduo ainda não se afastou da resignação que caracteriza o estádio anterior, verificando-se, porém, uma ligeira evolução no sentido de uma maior consciencialização que é típica do estádio seguinte. Efectivamente, no estádio consciente (I-4) o sujeito deixa de depender da aprovação e aceitação do outro, começando a analisar as situações com base no contexto em que estas se inserem e procedendo à apreciação das mesmas com base nos seus próprios parâmetros. Assim, caso haja desarmonia, ou mesmo cisão entre os seus valores e aqueles que são socialmente aceites, o sujeito poderá optar pelos primeiros, sentindo, contudo, algum desconforto por não agir em consonância com o sistema social. De referir ainda que, e no que diz respeito em especial às relações interpessoais, o indivíduo sente um excessivo sentimento de responsabilidade em relação ao outro, o que origina um desejo exagerado de

9 Como afirma Simões (1996), embora os estádios não correspondam linearmente a determinadas idades cronológicas, é possível identificar tendências no desenvolvimento do indivíduo em várias etapas da vida. Por exemplo, associamos naturalmente às crianças em início de vida os estádios pré-social e simbiótico, e às crianças pequenas o estádio impulsivo, devido a determinados factores, entre os quais se destaca o aparecimento da linguagem. Assim, e se o enquadramento das crianças nestes três estádios é concebido como um percurso normal do seu desenvolvimento na infância, no estado adulto tal seria sintomático de uma psicopatologia grave. Num estudo em que relacionam as dimensões da personalidade com os níveis de desenvolvimento do ego, Pals & John (1998) concluem também que, embora nas fases conformista e superiores a saúde mental do indivíduo e o nível de desenvolvimento do ego sejam independentes, na fase pré-conformista estes encontram-se muito associados.

97 protecção, que pode, inclusivamente, assumir uma tónica de controle sobre o agir do mesmo, num esforço obstinado que tem como objectivo evitar que este cometa erros.

Entre o estádio consciente e o seguinte, Loevinger estabeleceu um novo nível de transição, que designou por individualista (I-4-5). Neste patamar assiste-se a um aprofundamento do sentido de reciprocidade das relações interpessoais, havendo também um maior reconhecimento pelas idiossincrasias que caracterizam as diferentes pessoas, bem como uma maior tolerância pela diversidade. Segue-se o estádio autónomo (I-5), que é caracterizado por uma complexidade elevada de desenvolvimento do ego, em que o sujeito já é capaz de reconhecer e aceitar não só a sua singularidade, mas também a individualidade e autonomia do outro em relação a si próprio, pelo que já não estamos na presença de um ser controlador do agir dos que o rodeiam, como se verificava no estádio consciente. Outra diferença entre este e o estádio actual diz respeito ao facto de o indivíduo aceitar, sem sentimentos de culpa, o não cumprimento das leis e normas sociais quando estas não se adaptam com situações específicas. Finalmente, no último e mais complexo estádio de desenvolvimento, designado por estádio integrado (I-6), verifica-se um aprofundamento e consolidação das características do estádio anterior, assistindo-se também a uma maior consciencialização do sujeito sobre si próprio. Esta consciencialização facilita-lhe aceitar-se tal como é, reconhecendo as suas limitações e potencialidades, o que lhe permite não só aceitar com naturalidade e comedimento o inevitável, gerir os problemas com que se depara, sejam estes de natureza interna ou externa, mas também, e como afirmam Pals & John (1998), sentir um maior interesse e apreço pela sua vida interior e pelo seu crescimento.

Na perspectiva de um corpo muito significativo de investigadores, as descrições empíricas de Loevinger (1976, 1982) sobre as fases de desenvolvimento do ego fazem parte das descobertas mais importantes da psicologia do desenvolvimento e da personalidade, permitindo uma maior compreensão do indivíduo e do seu agir. A este respeito, Loevinger (1987: 242) afirma que os seus estádios são “patterns of more or less probable characteristics rather than a set of necessary and sufficient characteristics, (...) where each person progresses from one stage to the next as a result of his or her own patterns of interest and social circumstances”. Embora, e devido às variáveis referidas, os comportamentos específicos do

indivíduo em determinado estádio não possam ser previstos com total exactidão, os vários estudos realizados pela autora permitiram-lhe concluir que existe uma correspondência bastante estreita entre o nível de desenvolvimento do ego e o modo de pensar e agir do indivíduo. Esta conclusão é reiterada pelas pesquisas realizadas por inúmeros investigadores, dos quais destacamos os estudos de Helson & Roberts (1994), Westenberg & Block (1993), York & John (1992), e os de Robins et al. (1996), que também verificaram que a complexidade que caracteriza a organização da experiência em níveis diferentes de desenvolvimento do ego é manifestada no modo como a pessoa pensa, sente e resolve problemas.