A Teoria do Poder Constituinte é uma doutrina de legitimação do poder, decorrente da nova forma de manifestação do poder político, fundada na soberania nacional e popular, e surgida depois dos movimentos históricos e revolucionários do século XVIII descritos anteriormente705.
Essa teoria confere dimensão jurídica às instituições produzidas pela razão humana, prendendo-se ao conceito formal de Constituição, identificando e separando o Poder Constituinte dos demais poderes constituídos e fundamentando o Constitucionalismo do final do século XVIII, com o advento das Constituições escritas706.
Conforme afirmado, a Teoria do Poder Constituinte é desenvolvida primeiramente por Emmanuel Sieyès, que fez uma distinção entre Poder Constituinte, que cria a Constituição, dispondo sobre os poderes que regerão a sociedade, e o Poder Constituído, que é criado por aquele para reger a sociedade. O Poder Constituinte é a justificativa para compreensão da superioridade da Constituição, cuja titularidade pertence, de acordo com Sieyès, à nação707.
Tal diferenciação dos poderes representou uma garantia de natureza formal conferida ao Poder Constituinte, responsável por proteger e resguardar os direitos garantidos constitucionalmente.
704 FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. O Poder Constituinte. 3. ed. rev. amp. São Paulo: Saraiva, 1999, p.
11.
705 BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 17. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2005, p. 141. 706 Ibidem, p. 145.
Trata-se de uma das medidas acauteladoras mais importantes para a organização constitucional de um país708, tendo em vista que somente o Poder Constituinte pode elaborar a Constituição e disciplinar a proteção e a garantia dos direitos fundamentais.
Importante esclarecer a diferença entre Poder Constituinte e sua teoria, pois o primeiro sempre existiu, como visto no histórico apresentado no item anterior, já que nunca deixou de existir um ato de vontade da sociedade em fixar os fundamentos de sua própria organização. Já a Teoria do Poder Constituinte surgiu e se desenvolveu apenas no final do século XVIII, com os estudos apresentados por Sieyès709.
Para compreender a importância da teoria desenvolvida por Sieyès, é preciso entender a situação histórica em que ela é desenvolvida, tendo em vista que seus estudos antecederam a eclosão da Revolução Francesa e permitiram a elaboração da nova Constituição da França710, conforme descrito no histórico exposto acima.
A França era um país basicamente agrário, com predomínio dos feudos produtores. Havia três classes sociais: o Primeiro Estado, representado pela nobreza, o Segundo Estado, representado pelo clero, e o Terceiro Estado, representado pela burguesia, pelos camponeses e pelos demais integrantes da sociedade, sendo o responsável pela manutenção desta, pois seu trabalho assegurava o sustento dos Três Estados711.
O governo de Luís XVI não andava bem financeiramente, devido à sua ausência de vontade para governar e sua ineficácia para controlar as finanças públicas712. O modelo feudal foi desgastando-se aos poucos e o Terceiro Estado foi se cansando de apenas pagar impostos para financiar um governo decadente. Por esse motivo, a nobreza foi convocada para pagar tributos, o que acarretou a “Revolta Nobiliária”, como meio de impedir a exigência de impostos713.
708 BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 17. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2005, p. 154. 709 Ibidem., p. 142.
710 AGRA, Walber de Moura. Fraudes à Constituição: Um atentado ao Poder Reformador. Porto Alegre: Sergio
Antonio Fabris Editor, 2000, p. 99.
711 Ibidem, p. 99. 712 Ibidem, p. 99-100. 713 Ibidem, p. 100.
Diante desse cenário, a nobreza convocou a reunião dos Estados Gerais, com a intenção de decidir não pagar mais tributos ao rei. Essa convocação foi intensificada com a reunião do baixo clero, parte do Segundo Estado (do qual Sieyès fazia), com a burguesia, representando o Terceiro Estado, o que acarretou a revolução contra os privilégios do Primeiro Estado e a convocação dos Estados Gerais, na qualidade de assembleia constituinte, dando início à Revolução Francesa714.
Sieyès exerceu um papel importante nessa convocação, quando elaborou seu manifesto715, dando início aos pensamentos dirigidos à elaboração de uma Constituição, provocando a reação da sociedade com os questionamentos mencionados sobre a função do Terceiro Estado e a necessidade de reformulação da organização social e estatal.
Os fundamentos da teoria desenvolvida por Sieyès estão na ideia de um Poder Constituinte originário e soberano, de titularidade da nação, exercido com plena liberdade para fazer uma Constituição sem a necessidade de observar quaisquer limites. Ao mesmo tempo em que trazia a ideia de Constituição do Estado, essa teoria desconstituiu a ordem jurídica anterior (monarquia absoluta), para a reconstrução de uma nova ordem716.
Sieyès diferencia a nação do povo. Enquanto este é representado pelo conjunto de indivíduos subordinados ao poder, a nação é mais abrangente, pois “é a encarnação de uma comunidade em sua permanência, nos seus interesses constantes, que eventualmente não se confundem nem se reduzem aos interesses dos indivíduos que a compõem em determinado instante”717.
De acordo com Sieyès, uma nação livre somente poderá terminar com suas diferenças por meio de uma Constituição, que depende da própria nação. Ainda que não haja a Constituição, a nação o tem direito de fazer uma718.
714 AGRA, Walber de Moura. Fraudes à Constituição: Um atentado ao Poder Reformador. Porto Alegre: Sergio
Antonio Fabris Editor, 2000, p. 100.
715 O que é o Terceiro Estado? Tudo. Que tem sido até agora no ordenamento? Nada. O que pede? Chegar a
ser algo. (SIEYÈS, Emmanuel Joseph. L´Que es el tercer Estado? Trad. por Francisco Ayala. Madrid: Aguilar Ediciones, 1973, p. 3)
716 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 7. ed. Coimbra: Livraria
Almedina, 2003, p. 73.
717 FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. O Poder Constituinte. 3. ed. rev. amp. São Paulo: Saraiva, 1999, p.
23.
718 SIEYÈS, Emmanuel Joseph. L´Que es el tercer Estado? Trad. por Francisco Ayala. Madrid: Aguilar Ediciones,
A importância da diferenciação feita por Sieyès está no fato de que, mantendo a titularidade do Poder Constituinte, a nação representa a força maior do soberano, desobrigada da sujeição às vontades dos indivíduos que a compõem, mas submetida apenas às vontades da própria sociedade, no determinado tempo, como um todo719.
Diversamente da doutrina anterior de Rousseau, Sieyès defende que a soberania está somente nas mãos da nação, pois nenhum indivíduo pode deter sozinho a soberania, cuja titularidade é indivisível720.
Na teoria desenvolvida por Sieyès há ainda uma diferenciação entre as leis fundamentais, que dão origem ao texto constitucional, e as demais leis que compõem o ordenamento jurídico da sociedade.
De acordo com Sieyès, as leis positivas da sociedade somente podem surgir da vontade da nação. Diante disso, têm-se as leis constitucionais, divididas numa parte responsável por regular a organização e as funções do corpo legislativo, e em outra parte, que determina a organização e as funções dos diferentes órgãos estatais. Tais leis são consideradas fundamentais, dependentes da vontade da nação721.
A primeira parte traz as leis fundamentais que estabelecem a legislação, fundadas na vontade nacional, antes da Constituição, classificada como de primeiro grau. A segunda parte traz as leis fundamentais estabelecidas pela vontade representativa especial, consignando todas as partes do governo, remetendo-se à vontade da nação. As demais leis são obra do corpo legislativo, que é formado e age de acordo com a Constituição722.
O responsável pela elaboração das leis fundamentais, que se fundem na Constituição, é o Poder Constituinte, que, de acordo com Sieyès, está nas mãos da nação que responde pela sua Constituição723. Cada parte da Constituição é obra do Poder Constituinte e nenhuma espécie de poder delegado pode modificar as condições de sua delegação724.
719 FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. O Poder Constituinte. 3. ed. rev. amp. São Paulo: Saraiva, 1999, p.
23.
720 Ibidem, p. 25.
721 SIEYÈS, Emmanuel Joseph. A Constituinte Burguesa. Qu´est-ce que lê Tiers État? Trad. por Norma Azevedo.
4. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2001, p. 48-49.
722 Idem. L´Que es el tercer Estado? Trad. por Francisco Ayala. Madrid: Aguilar Ediciones, 1973, p. 77.
723 Idem. A Constituinte Burguesa. Qu´est-ce que lê Tiers État? Trad. por Norma Azevedo. 4. ed. Rio de Janeiro:
Lumen Juris, 2001, p. 49.
O Poder Constituinte realiza sua obra – a Constituição – e não desaparece depois dela, permanecendo na respectiva nação, que poderá modificar sua obra quando desejar. O Poder Constituinte confere ao poder constituído a obrigação de cumprir a Constituição. Por isso não se pode dissociar a ideia de que a nação existe antes de tudo, por ser a responsável pela elaboração do texto constitucional, e não está refreada pela Constituição, já que possui o poder de modificá-la e substitui-la por uma nova725.
“A nação existe antes de tudo, ela é a origem de tudo. Sua vontade é sempre legal, é a própria lei. Antes dela e acima dela só existe o direito natural.”726