6.4 Poder Constituinte Originário
6.4.2 Natureza do Poder Constituinte Originário
6.4.2.1 Teoria Positivista
A teoria positivista, fundada no positivismo jurídico, identifica-se com a afirmação de que todo o direito é resultado do Direito Positivo, aquele posto pelo Estado, de modo que o Poder Constituinte seria fruto de uma atividade social, consistindo num fato, já que não encontraria fundamento jurídico anterior à elaboração da Constituição que disciplinou o direito vigente em determinada sociedade774.
772 TAVARES, André Ramos. Curso de Direito Constitucional. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 33. 773 É um direito do povo o exercício do Poder Constituinte, de modo que, se lhe for negado, de nada adiantará
lhe reconhecer, por meio de uma Constituição da qual esse povo não participe, outros direitos de caráter secundário (VANOSSI, Jorge Reinaldo. Uma visão atualizada do Poder Constituinte. Entrevista concedida a Celso Ribeiro Bastos e Gastão Alves de Toledo. Trad. de Susana Maria Pereira dos Santos de Nóbrega. Revista de
Direito Constitucional e Ciência Política. Ano I – n. 1. Rio de Janeiro: Forense, 1983, p. 25).
774 “Para o positivismo jurídico, a Constituição é um mero fato, o Poder Constituinte é u’a força social e a
ordem jurídica se apóia simplesmente num pressuposto lógico-transcendental. O Poder Constituinte é simplesmente uma força social, a ser estudada pela Sociologia, e não algo que deva ser estudado estritamente pelo Direito.” (BARRUFINI, José Carlos Toseti. Revolução e Poder Constituinte. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1976, p. 39-40)
Deve-se esclarecer que, conforme analisado anteriormente, o Direito Positivo da uma sociedade surge com a Constituição, que inaugura a ordem jurídica e funda o próprio Estado. Neste caso, a Constituição é reconhecida como um fato, do qual o Poder Constituinte representa apenas uma força social.
Logo, de acordo com a teoria positivista, o exercício do Poder Constituinte e a Constituição por ele criada representam apenas um fato decorrente daquela força social, razão pela qual não deveriam ser estudados pelo Direito, mas sim pela Sociologia775 do Direito, pois a Constituição é objeto de estudo da Ciência do Direito, repositório de normas jurídicas por ela expressadas.
A obrigatoriedade da observação da Constituição é explicada, para o positivismo jurídico, por meio da Sociologia776 e da Psicologia, ou ainda logicamente, como Hans Kelsen frisou.
Kelsen analisa o Direito isoladamente, apartado de qualquer influência social, política, moral, retirando dele todos os aspectos valorativos, como a ética, política, religião, filosofia, e deixando a norma do direito livre de qualquer interferência, para o estudo da Ciência do Direito como base no princípio da pureza metodológica777.
Ainda de acordo com Kelsen, o Direito identifica-se com o ordenamento jurídico, no qual a Constituição está posta no grau mais elevado, conferindo sistematização e hierarquia às normas jurídicas. Imagina-se uma pirâmide – pirâmide de Kelsen778 – onde na base se localizam as normas infraconstitucionais, editadas de acordo com as normas constitucionais, postas no topo da pirâmide, validando o ordenamento. Acima da Constituição, no ápice da pirâmide, está a norma hipotética fundamental, fictícia (Grundnorm), que determina o cumprimento da Constituição.
775 “A sociologia jurídica é a ciência que, por meio de métodos e técnicas de pesquisa empírica, visa estudar
as relações recíprocas existentes entre a realidade social e o direito, abrangendo as relações jurídicas fundamentais, as camadas sedimentares ou níveis da realidade jurídica, a tipologia jurídica dos grupos particulares e das sociedades globais, a ação da sociedade sobre o direito e a atuação do direito sobre a sociedade.” (DINIZ, Maria Helena. Compêndio de Introdução à Ciência do Direito. 11. ed. São Paulo: Saraiva, 1999, p. 226)
776 “A Sociologia Jurídica estuda o direito como um fato social”, que tem por objetivo descrever a realidade
jurídica e a sua relação com os fatores sociais (MONTORO, André Franco. Introdução à Ciência do Direito. 25. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999, p. 519).
777 DINIZ, Maria Helena. Op. cit., p. 118-119.
778 “A estrutura lógica da ordem jurídica é piramidal, uma vez que as normas, que são os seus elementos
constitutivos, são colocadas pela ciência do direito sob a forma de uma pirâmide, estabelecendo uma hierarquia, uma relação de subordinação, de tal modo que a norma do escalão inferior se harmonia com a que lhe seja imediatamente superior. Logo, o fundamento de validade de uma norma apenas pode ser a validade de uma outra, figurativamente, designada como norma superior, por confronto com uma norma que é, em relação a ela, a norma inferior.” (Ibidem, p. 127)
A norma hipotética fundamental impõe uma ordem no sentido de que “deve-se cumprir a Constituição”, razão pela qual a Constituição acaba sendo acatada porque assim prescreve a norma hipotética fundamental.
Neste caso, para a teoria positivista de Kelsen, a Constituição, apesar de resultar de um fato decorrente apenas da força social, tem sua obrigatoriedade fundada num pressuposto lógico-transcendental779.
De acordo com a teoria positivista, o Poder Constituinte é juridicamente ilimitado, ou seja, inexistindo Direito antes da sua manifestação, não há a necessidade da observação de quaisquer regras ou procedimentos para o exercício da laboração da Constituição. Porém, indaga-se se o Poder Constituinte não estaria limitado moralmente perante os ideais da sociedade. A resposta dada pela tese positivista é a de que se trata, apenas, de um problema metajurídico780 que não é passível de uma análise convencional, jurídica781, de vez que está fora do Direito posto, do sistema jurídico.
Portanto, com fundamento na teoria positivista, o Poder Constituinte deve ser compreendido apenas como um fenômeno social, com alicerce metajurídico, decorrente do fato manifestado pela produção da Constituição, refletindo os anseios da sociedade com o intuito de organizar seu ordenamento jurídico mediante a fundação do Estado de Direito.