5 UMA PROPOSTA DE MINICURSO PARA PROFESSORES E PLANETARISTAS
5.1 UMA EXPERIÊNCIA PILOTO
5.2.2. Implementação da Proposta
5.2.2.4. Terceiro encontro e atividades – Explorando representações sobre o
O terceiro e último encontro do Minicurso, realizado no dia 17 de junho de 2017, foi aberto com a apresentação da programação de atividades a serem realizadas naquele dia, as quais envolveriam: análises e discussões acerca de representações sobre os componentes e a organização do Universo encontradas em pesquisas na literatura e na investigação realizada pelos participantes; considerações sobre adequações das atividades didáticas exploradas no Minicurso para a prática dos educadores; e avaliação do Minicurso pelos participantes através de questionário e roda de conversa.
Após essa abertura iniciamos as reflexões concernentes a dificuldades de aprendizagem sobre o Universo. Primeiramente, por meio de slides (APÊNDICE K), fizemos uma apresentação dialogada de dados da literatura acerca de representações sobre o Universo, mais especificamente, dos dados dos estudos de Bisch (1998) e de Rodriguez e Sahelices (2005), que fundamentaram nossa pesquisa, bem como dos dados de nosso próprio estudo. Na apresentação explicitamos as metodologias utilizadas nas investigações, resultados obtidos e reflexões nossas sobre os dados coletados.
Alguns questionamentos surgiram nesse momento a respeito das metodologias utilizadas nas pesquisas apresentadas. P9, por exemplo, afirmou que a interpretação dos desenhos solicitados era muito subjetiva, não sendo possível, muitas vezes, inferir sobre a representação de um sujeito apenas pelos desenhos. Concordando com sua fala, ressaltamos a importância em se utilizar mais de um método de coleta e análise de dados para se chegar a uma conclusão mais consistente com o pensamento do sujeito investigado. Outro questionamento, feito por P5, foi se não seria interessante que nas pesquisas fossem investigados um número maior de sujeitos para que pudessem ser elaboradas conclusões de uma maneira generalizada e quantitativa sobre como eles pensam e representam o Universo. Esclarecemos que as pesquisas nessa área são de cunho qualitativo e exigem um maior detalhamento de cada sujeito investigado, sendo complexo caracterizar uma grande quantidade de pessoas, e enfatizamos ainda que a intenção, na maioria dessas pesquisas e particularmente no nosso estudo, é identificar as diferentes formas de pensar sobre o Universo apresentadas pelas pessoas, não importando se apenas um sujeito é identificado com
uma representação peculiar de Universo, como o modelo Terra-países encontrado por Bisch (1998), mas que independentemente da quantidade todas devem ser consideradas no desenvolvimento e planejamento de nossas práticas educativas. Também pudemos observar que durante esse momento alguns participantes manifestaram surpresa sobre as representações encontradas nos estudos, além de ter sido relatado por P3 uma semelhança entre os dados apresentados e a representação que havia feito no questionário, se referindo a localização das estrelas entre os planetas do Sistema Solar.
Entre os principais pontos que procuramos ressaltar acerca dos estudos apresentados, estavam as representações do Universo associadas ao Sistema Solar, as dificuldades na diferenciação entre planetas e estrelas e na localização destas últimas no espaço fora do Sistema Solar, com destaque ainda para a importância de se explorar o espaço e objetos tridimensionais no trabalho didático com os alunos.
Após essa introdução teórica os participantes foram organizados em pequenos grupos para fazerem a análise e sistematização dos dados que haviam coletado ao aplicarem o questionário sobre as representações do Universo com pessoas de seu convívio, conforme havia sido solicitado ao final do primeiro encontro. A análise deveria ser feita levando em consideração as representações discutidas no início do encontro.
Concluída a sistematização dos dados pelos participantes, foi feita a exposição das análises de cada grupo aos demais, através de uma roda de conversa. Ao longo dessas apresentações, um dado levantado por P8, também percebido por nós, chamou bastante a atenção, tanto dos participantes como a nossa: muitas das pessoas investigadas por eles elencavam uma diversidade de astros e componentes do Universo, mas quando eram solicitados desenhos que ilustrassem como esses componentes estão distribuídos espacialmente, se restringiam a poucos astros, principalmente àqueles associados ao Sistema Solar. Em certa medida, esse dado coincide com algo que também nos chamou a atenção nos resultados obtidos em nosso estudo com a turma do 6º ano do Ensino Fundamental, que foi o fato de encontrarmos muitas representações de Universo associadas de forma muito restrita ao Sistema Solar. Esse resultado, aliás, já é encontrado na literatura; mas o contraste entre o que é citado e o que é representado é algo a mais do que o resultado anterior e realmente chama a atenção, merecendo ser melhor investigado. A princípio, as possíveis causas levantadas para esse contraste em nossas reflexões e discussões
foram: a dificuldade em desenhar, que o sujeito que respondeu ao questionário poderia ter; e ele ou ela não ter informações e/ou representações sobre os componentes que haviam citado, mas não desenharam, e por isso preferiam se restringir ao que era de seu maior conhecimento, no caso, o Sistema Solar.
Também foi mencionado por dois participantes que eles próprios haviam mencionado estrelas, por exemplo, como componentes do Universo, e no entanto representaram apenas galáxias na organização dos componentes distribuídos pelo espaço. Contudo, consideramos que nesse caso, o fato de não se desenhar os objetos menores é porque implicitamente se está considerando a composição dos maiores por eles, como a ideia de galáxia que para os participantes em questão subentendia a presença de estrelas, ali.
Após essas discussões em torno dos dados, encerramos esse primeiro momento do encontro, referente às dificuldades de aprendizagem sobre o Universo. Fizemos então o intervalo, e após o mesmo iniciamos um segundo momento, mais avaliativo, com considerações sobre o Minicurso e sobre as atividades exploradas no mesmo. No retorno à sala, os participantes responderam individualmente ao questionário de avaliação do Minicurso (APÊNDICE H), o qual, como esclarecemos a eles, serviria para nossa análise posterior a fim de melhorarmos a proposta do Minicurso em edições futuras.
Por fim, como última atividade do Minicurso, reabrimos nossa roda de conversa com uma análise coletiva sobre o papel de cada atividade realizada ao longo do Minicurso e possíveis adequações sugeridas pelos participantes. Utilizamos para esse momento a apresentação de fotos com imagens dos participantes e de objetos utilizados nas atividades, a fim de ajudarmos a desencadear as lembranças deles sobre os diferentes momentos. Foram as atividades: o Registro Coletivo do Horizonte Local, o Globo Paralelo, a Sessão do Planetário, a Esfera Celeste de Vidro e as Peças Móveis Ilustrativas do Sistema Solar.
Sobre o Registro Coletivo do Horizonte Local e o Globo Paralelo, atividades realizadas no primeiro encontro, vínham recebendo já muitos destaques positivos ao longo dos dois últimos encontros, sendo consideradas particularmente enriquecedoras pelos participantes, por trazerem nova forma de se perceberem no planeta, opinião que foi novamente reforçada nesse último momento do Minicurso. Alguns participantes sugeriram que na atividade de Registro do Horizonte Local fosse orientado às pessoas que levassem protetor solar e/ou outros meios de proteção
contra a radiação solar, para um maior conforto físico em relação à atividade. De fato, durante as interações, que se prolongaram bastante, fomos levados a buscar sombras por perto para conseguirmos nos manter confortáveis e dispor do céu aberto, ao mesmo tempo. Para a realização do Globo Paralelo local houve a sugestão de formação de grupos para que cada um pudesse manipular um globo terrestre. A sugestão veio de uma observação feita pelo participante P5, que achava que mais gente deveria ter passado pela situação do manuseio do globo, para poder sentir o que ele experimentara na atividade; ele mencionou que não estava certo de que todos tinham passado pelo processo de reconstrução que ele vivenciou, e que seria muito importante. Outro participante comentou que mesmo mentalmente, eles também tinham se percebido participando do manuseio do globo e tinha sido possível passar pelas transformações a que P5 se referia, mas concordou, e em seguidas os demais, que seria mais interessante cada um ou pequenos grupos disporem de um globo, mesmo que fossem globos menores, para fazerem a atividade diretamente. Como uma possibilidade de estratégia didática para a sala de aula, foi proposta a construção de um globo terrestre pelos alunos.
Quanto às considerações sobre as atividades do segundo dia, nas sugestões deles sobre a Sessão, destacaram situações associadas a (des)conforto físico, com alguns deles mencionando incômodo na coluna e cabeça, para visualizar as imagens. Sobre essa observação, em geral o público encontra uma posição confortável na sessão, mas é o caso de ser observado se esse incômodo estaria associado a algum lugar específico dentro da cúpula, em função de alguma parte desta estar sendo mais explorada na narrativa, para se analisar se não caberia alterar um pouco altura das imagens, ou algum outro tipo de ação, como o tempo de interação numa mesma posição do céu. Em todo caso, cabe também reforçar nas orientações ao público que procurem ficar à vontade para buscar a posição mais confortável, eventualmente girando o corpo, em alguns momentos, o que é viável quando temos grupos menores. Alguns participantes sugeriram ainda a inserção do uso de algo que pudesse funcionar como encosto.
Quanto a sessão em si, com exceção de P5 afirmar ter ficado encantado com o que havia vivenciado dentro da cúpula, os participantes não se manifestaram com comentários. Acreditamos que uma possível razão para isso, seja o fato de muitos já conhecerem outros planetários ou o próprio Planetário Barca dos Céus, e já terem assistido a sessões reproduzidas com projetores digitais, os quais apresentam uma
imersão característica bem evidenciada pelos visitantes diferentemente do projetor óptico utilizado na sessão do Minicurso. Contudo, destacamos que essa questão precisa ser melhor investigada junto a eles posteriormente.
Na atividade com a Esfera Celeste de Vidro, para a etapa com a representação da Terra em seu interior, sugeriram enfatizar mais a interpretação da esfera como uma representação da Terra, tendo em vista que durante as mediações pelo menos um participante não havia compreendido, por um bom tempo, o papel da mesma. Além disso, foi sugerido que coloquemos uma representação de uma pessoa sobre essa Terra. Alguns participantes mencionaram também a possibilidade de reproduzir o objeto com materiais utilizados no cotidiano. Sugeriram, por exemplo, a utilização de um cobre-bolo para representar a esfera celeste em que os alunos pudessem demarcar as linhas do Equador Celeste e da Eclíptica e desenhar as constelações.
A última atividade que retomamos com os slides foi a manipulação das peças ilustrativas dos planetas, para a organização do Sistema Solar. Essa foi considerada pelos participantes como uma excelente atividade, destacada por eles como um possível “museu interativo”. Foi interessante a discussão sobre a mesma porque o participante P5, que durante o Minicurso se mostrou com um perfil bastante reflexivo sobre os processos de aprendizagem pelos quais passavam, ressaltou o fato de se poder manipular as peças pelo espaço da sala, como um diferencial. Os demais participantes se juntaram a ele para tentarem localizar, com palavras, o que aquele aspecto abria para a aprendizagem: parecia possibilitar que saíssemos da perspectiva da Terra para olhar os astros do espaço, mas também o próprio fato de se estar entre as peças, e movê-las. Ele inclusive se desculpou porque sentiu a necessidade de usar uma palavra que, dissera ele, não sabia se era apropriada, mas ia usá-la assim mesmo, ou seja, que acreditava ser algo “cinestésico”, que estava em jogo ali, com o que ele sentira na atividade. Achamos muito interessante essa colocação dele, conforme colocamos para o grupo, pois desde que iniciamos a realização dessa atividade, a partir das reflexões que desenvolvíamos no mestrado em conexão com as práticas da equipe do planetário, tínhamos evoluído do uso dos banners para um conjunto pequeno de peças móveis, dando uma perspectiva mais espacial, até o conjunto realmente maior, justamente com essa ideia de que o movimentar as peças tinham um grande valor na aprendizagem; maior do que, por exemplo, se usássemos peças que se movessem por si só. E ainda, achamos que a pessoa mover-se por entre as peças também ativaria mais conexões para uma melhor aprendizagem. Conforme
relatado pela coordenadora do Minicurso, há inclusive estudos em sessões de planetário onde se avalia a influência cinestésica (e a palavra que se usa é aquela, mesmo) na aprendizagem de crianças, quando se aborda o movimento do Sol na cúpula, durante um dia.
A nosso pedido, alguns aspectos mais gerais relacionados ao formato do Minicurso também foram destacados por eles na roda de conversa. Indagamos sobre tempo de duração e dias escolhidos para o desenvolvimento do Minicurso, por exemplo. Foi colocado então, por alguns deles: a necessidade de um momento do Minicurso para eles elaborarem um experimento ou atividade; e a possibilidade do Minicurso ser desenvolvido com um turno a mais, para que algumas atividades propostas tivessem um tempo maior de interação.
A participante P3 destacou, em particular, que o Minicurso tivera um grande impacto na sua prática docente, gerando um grande interesse em torno do tema e incentivando ao desenvolvimento de atividades práticas. A mesma relatou que a partir do Minicurso, incentivará mais seus alunos a participarem de atividades que envolvam a temática, como por exemplo, a Olímpiada Brasileira de Astronomia e Astronáutica. A participante ainda sugeriu a continuação de um contato entre todos os envolvidos no Minicurso para que continuássemos a trocar experiências, sobretudo, acerca de nossas práticas no campo da Educação em Astronomia. Inclusive, após a finalização do Minicurso, ela nos enviou um registro de uma atividade que realizou semelhante a um Gnomon.
Ainda destacamos uma articulação entre os participantes para irem juntos visitar o Planetário fixo em Parnamirim-RN no final de semana seguinte, além de uma das participantes, representante da Secretaria de Educação de Parnamirim-RN, ter procurado a coordenadora do Minicurso, no intervalo desse encontro, a fim de verificar a possibilidade de realizarmos outras edições do Minicurso para os demais professores vinculados àquela secretaria.
5.2.2.5. Avaliação do Minicurso conforme dados sistematizados nos