desdobramento da assistência financeira aprovada pelo do GBM ao BNDES, e tem início no dia 29 de janeiro de 1985 e término no dia 31 de dezembro de 1990, sendo aprovado o valor de mais US$ 300 milhões. Visava este projeto prover fundos para dar prosseguimento aos projetos anteriores, ampliando a capacidade do BNDES nos seus procedimentos, para a realização de análises e avaliações econômicas em projetos de grandes empreendimentos
385 Ibid, p. 28.
industriais que seriam por ele financiados, definidos como políticas de crédito industrial, apoiando os programas das empresas, bem como reserva de novos recursos para empresas privadas, pequenas, médias e grandes387.
Esse terceiro projeto foi aprovado ainda por atos do regime militar num contexto que envolveu os últimos momentos da "transição passiva" para a redemocratização do país. A derrota da emenda constitucional "Dante de Oliveira" na Câmara dos Deputados que projetava a realização de eleições diretas para a escolha do sucessor do presidente general João Figueiredo, do Partido Democrático Social (PDS), foi uma das questões políticas importantes que marcaram o debate e a pressão popular, com o movimento das "Diretas Já". A oposição ao regime militar com Tancredo Neves (PMDB) a frente do Colégio Eleitoral, acaba mesmo assim derrotando Paulo Maluf (PDS) o candidato do governo da situação388.
Em 15 de janeiro de 1985, os membros do Colégio Eleitoral deram 480 votos a Tancredo Neves e apenas 180 a Paulo Maluf, tendo sido registradas 17 abstenções e nove ausências. Os cinco estados que mais contribuíram para a vitória da Aliança Democrática foram Minas Gerais (57 votos), São Paulo (50), Rio de Janeiro (42), Paraná (37) e Bahia (35). Além dos aliancistas, Tancredo recebeu os votos dos convencionais do PDT e de dissidentes do PDS e do PT. Proclamados os resultados eleitorais pela mesa do Congresso Nacional, Tancredo declarou que a primeira tarefa de seu governo seria a de promover a organização institucional do Estado. Ressaltou a importância da conciliação que "não exclui o confronto de idéias, a defesa de doutrinas divergentes", e concitou o país ao "grande mutirão nacional" para o qual, segundo ele: "não há um de vós que possa ser dispensado" 389.
Na primeira entrevista concedida após o pleito, o candidato eleito criticou os desequilíbrios decorrentes da expansão inflacionária, observando que as medidas de combate à deterioração da moeda e à elevação dos preços não deveriam se incompatibilizar com a aceleração do crescimento econômico, mas sim proporcionar a criação de novos empregos, melhorar a remuneração da força de trabalho e garantir uma distribuição mais justa da renda nacional. Afirmou ainda que o reconhecimento da plena soberania do Congresso Nacional,
387 THE WORLD BANK. "Documents & Reports - Development Banking Project (03) Brazil". Disponível em: http://web.worldbank.org/external/projects/main?pagePK=64312881&piPK=64302848&theSitePK=40941&Proj ectid=P006347 > Acesso em 28 set. 2006.
388 RAMOS, Plínio de Abreu. CAMPOS, Patrícia. Tancredo Neves. Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro - CPDOC - Fundação Getulio Vargas. Verbete Biográfico. Disponível em
<http://www.cpdoc.fgv.br/dhbb/verbetes_htm/3807_1.asp> acesso em 03 jan.2006. 389 Ibid.
associado a uma oposição permanente e livre, são atributos fundamentais para o êxito do grande projeto nacional de recuperação democrática e assegurou: "Vamos realizar uma obra que faça o homem brasileiro acreditar na sua nação, confiar nela e confiar no seu governo" 390. Entretanto, em 14 de março de 1985, véspera de sua posse, Tancredo foi submetido a uma cirurgia de urgência e depois de uma longa agonia veio a falecer em 21 de abril de 1985. Morto Tancredo de uma “diverticulite” de rara procedência, assumiu o vice José Sarney (PMDB).
Assim, destacamos estes fatos como uma mudança institucional importante para este contexto histórico, mas procurando observar a regularidade dos acordos anteriores no relato proposto por Carlos Augusto Vidotto de que a partir de 1985 o governo brasileiro e o GBM haviam aberto uma "frente de entendimento" visando estabelecer um programa específico de reformas que proporcionasse a desregulamentação do setor financeiro, e estava consensuada em torno da liberalização financeira e comercial da economia brasileira. Nesta frente de negociação uma proposta de acordo estava sendo definida para assistência financeira do GBM no valor de US$ 500 milhões, que seria sucedida em parcelas, caso o governo viesse a atingir metas de curto e longo prazo, se comprometendo com a "redução de todos os programas de
crédito oficial" e a "total liberação das taxas de juros391.
Para Vidotto este programa visava "eliminar as restrições à elevação das taxas reais de juro e suprimir os mecanismos de direcionamento dos depósitos bancários e do crédito, bem como os instrumentos de canalização de poupança compulsória". Esta redução dos créditos de caráter oficial dizia respeito a todas as instituições oficiais, e vinculava a tese de que os bancos estaduais deveriam ser "preferencialmente extintos", pois para o GBM estes bancos eram "instituições nocivas ao equilíbrio fiscal e à política monetária" por promoverem financiamentos aos seus respectivos governos controladores. Por outro lado, segundo Vidotto os bancos federais deveriam sofrer ajustes severos "em conseqüência da reforma dos subsistemas especializados de crédito", pois os subsídios proporcionados por eles "rebaixavam o custo de capital para a construção residencial e atividades rurais, entre outras".
390 Ibid.
391 VIDOTTO, Carlos Augusto. O Sistema Financeiro Brasileiro nos Anos Noventa. Um balanço das mudanças estruturais. Campinas-SP: IE-Unicamp, 2002, p. 206 (Tese de doutorado apresentada ao Instituto de Economia da Unicamp).
Embora esse projeto não tenha sido levado a termo neste período, para Vidotto ele serviu para influenciar o destino dos bancos estaduais no decorrer dos anos noventa392.
Com a continuidade da implementação do projeto aprovado para o BNDES no início do ano de 1985, as negociações com o governo brasileiro, segundo o GBM, só foram interrompidas em abril de 1987393. Neste momento, a equipe econômica do governo Sarney, liderada pelo Ministro da Fazenda Dilson Funaro, havia experimentado uma dose de heterodoxia econômica com congelamento de preços e o enfrentamento da "inflação inercial", proposto no Plano Cruzado em fevereiro de 1986 por Francisco Lopes, um dos idealizadores desta concepção394.
O rompimento das negociações com o GBM ocorreu, em tese, devido ao fato ocorrido no dia 20 fevereiro de 1987, quando o Ministro Funaro suspendeu temporariamente o pagamento dos juros da dívida externa junto aos grandes bancos comerciais internacionais, iniciando uma moratória unilateral. Enquanto isso, reafirmava a intenção do governo em negociar o reescalonamento plurianual, propondo uma rolagem da dívida externa diretamente com estes bancos credores sem a interferência direta do FMI e do GBM nas negociações.
O Ministro Funaro procurava no âmbito do Plano Cruzado, como observa Eric Nepomuceno, impor seus próprios critérios em relação à política econômica brasileira no trato das negociações da dívida externa. Este autor descreve os acontecimentos acerca das resistências políticas que o Ministro Funaro encontrou, entre agosto de 1985 e abril de 1987, quando do seu enfrentamento direto com o GBM e o FMI, sendo isto considerado uma "heresia" política nas relações internacionais395.
392 Ibid, p. 56.
393 GRUPO BANCO MUNDIAL, 1988, p. 51.
394 GOMES (1998, p. 9) destaca o perfil de Francisco Lopes: "Economista e consultor de empresas, diretor de Política Econômica e Monetária do Banco Central. Filho de Lucas Lopes, que foi ministro da Fazenda durante o governo JK e sócio de Roberto Campos na empresa Consultec. Foi consultor do Banco Denasa de Investimentos e diretor-presidente da empresa de consultoria Macrométrica Pesquisas Econômicas. Juntamente com Edmar Bacha, foi um dos organizadores do curso de pós-graduação em Economia da PUC/Rio, que se transformou num dos mais importantes núcleos formadores de quadros acadêmicos e de executivos seguidores do pensamento hegemônico neoliberal no país. Doutorou-se em Economia pela Harvard University (EUA). É um dos principais operadores da política monetária do governo". Chico Lopes foi um dos idealizadores do Plano Cruzado e para maiores referências às concepções da inflação inercial e congelamento de preços nos delineamentos do "choque heterodoxo", consultar o conjunto de textos produzidos por ele em: MACROMÉTRICA. "Francisco Lafaiete de Pádua Lopes - (Chico Lopes)". Disponível em: <http://www.macrometrica.com.br/ChicoLopes.htm> Acesso em 24 out. 2006.
395 NEPOMUCENO. Eric. O outro lado da moeda - Dilson Funaro: histórias ocultas do Cruzado e da Moratória. São Paulo: Siciliano, 1990. 212 p.
De acordo com Nepomuceno, o contexto do Plano parecia propício ao Ministro Funaro alavancar decididamente duas idéias estratégicas defendidas por ele: a primeira era a de que havia a possibilidade concreta de retomada do crescimento econômico brasileiro com o novo plano, se houvesse uma revisão do papel desempenhado por essas grandes instituições financeiras internacionais, ou seja, o Ministro Funaro questiona as funções desempenhadas pelo Banco Mundial e pelo FMI ao país; a segunda idéia estratégica era a de que havia motivos bastante sólidos e óbvios na implementação do plano de estabilização, pois ele continha “elementos de redistribuição de renda”, e isto por si só já era motivo para que a equipe econômica do governo encarasse, de frente e de "peito aberto", a crítica situação externa da dívida devendo adotar uma postura firme e convicta no enfrentamento das adversidades internacionais396.
Para Nepomuceno, o Ministro Funaro acreditava que estava “fazendo a história avançar” mudando com seu Plano Cruzado a realidade econômica e social do país, marcadas historicamente pela inflação elevada e pela má distribuição da renda. O Ministro acaba então recusando-se a ceder às pressões internacionais para realização de um acordo de urgência, prioritariamente nas bases do receituário do FMI e do GBM. Desta forma, suspende novamente o pagamento da dívida, só que desta vez do principal contratado antes de março de 1983. Entretanto, continua pagando os juros junto ao Clube de Paris. Segundo Nepomuceno, uma saída simples para o Ministro seria a de ter assinado o acordo por um prazo de 18 meses e ter acessado um crédito de US$ 1,5 bilhão. Mas não era bem nestes termos que o Ministro raciocinava, pois para Funaro “isso significaria também um rigoroso programa de austeridade a ser cumprido – e o que Funaro pretendia era criar aqui mesmo no Brasil, por decisão própria, as bases para esse programa" 397.
Como se vê, as estratégias de Funaro não foram levadas a termo no âmbito das negociações com o GBM e com o FMI, e as negociações foram interrompidas para fazer pressão frente ao governo de José Sarney, e o Ministro Funaro, obviamente, perdeu na queda de braços e saiu do governo em abril de 1987. Com a saída de Funaro assume Luiz C. Bresser Pereira398, e no governo as preocupações do Ministério da Fazenda se voltaram para a
396 Ibid.
397 Ibid.
398 GOMES (1998, p. 4) também traça o perfil do economista, empresário e um dos fundadores do PSDB, Luiz Carlos Bresser Pereira: “De 1963 a 1983, foi diretor administrativo do Grupo Pão de Açúcar, a segunda maior rede de supermercados do país, controlada pelo empresário Abílio Diniz. A partir de 1988, passou a integrar o comitê executivo do Pão de Açúcar. (...) coordenador financeiro da campanha de FHC. Foi ministro da
normalização das relações com os organismos multilaterais, demonstrando claramente que o programa de liberalização financeira, acordado inicialmente, coadunava-se com um "retorno à ortodoxia" econômica centrada na normalização das relações com os credores internacionais, ainda mais depois desta "experiência" com a moratória unilateral do Ministro Funaro, e o encerramento da experiência heterodoxa do Plano Cruzado.
As negociações com o Banco Mundial são retomadas em julho de 1987 e na avaliação realizada esta retomada do diálogo acontece “numa base nova e substantiva” e desde então foi “intenso o diálogo sobre as políticas entre o Banco Mundial e as autoridades brasileiras" com o foco estabelecido no "desenvolvimento de políticas" visando "melhorar a eficiência do sistema financeiro do Brasil”. Assim, a missão oficial do GBM retornou ao Brasil em agosto de 1987 e procurava retomar o diálogo, sensibilizando as autoridades governamentais e os pesquisadores, que prestavam assessoramento independente ao Banco, para a necessidade de um "pacote de medidas" em apoio a um programa governamental de "reformas institucionais de longo prazo", especificamente para o “ajustamento do setor financeiro” 399.
Assim sendo, a proposta elaborada pelo governo brasileiro objetivava um primeiro empréstimo para o aprimoramento do SFN a partir do incentivo ao "desenvolvimento de políticas" que pudessem resultar em ações concretas para o aprimoramento e eficiência do sistema financeiro ajustando-o no âmbito do Plano Brady ao contexto das negociações e propostas prevendo uma solução definitiva para o problema da crise da dívida brasileira400.
As discussões foram retomadas somente em junho e julho de 1988 e uma proposta solicitando um primeiro empréstimo para o ajustamento do setor financeiro foi entregue formalmente ao GBM pelo governo brasileiro401. A proposta foi submetida aos Diretores Executivos do GBM, Ping-Cheung Loh (Vice-Presidente em exercício para a região da América Latina e Caribe) e Moeen A. Qureshi (vice-presidente de operações), que se mobilizaram para avaliar e organizar a documentação para a concessão de uma nova Assistência ao Brasil e formular os diagnósticos para apoiar o programa governamental de
Administração e Reforma do Estado (MARE) de FHC e, no governo Sarney, ministro da Fazenda, quando
lançou o Plano Bresser. Foi professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (SP), fez o mestrado na universidade de Michigan (EUA) e doutorou-se em economia pela USP. É um dos ideólogos da reforma do Estado proposta pelo PSDB".
399 GRUPO BANCO MUNDIAL, 1988, p. 51.
400 Sobre as propostas do Plano Brady envolvendo ações do Banco Mundial, ver LICHTENSZTEJN et. BAER, 1987, op. cit; COELHO, 2002, op. cit.
401 GRUPO BANCO MUNDIAL, 1988, p. 51. Este Documento aborda as propostas do programa governamental de reforma e seus objetivos na Seção IV, nas p. 23 a 25.
reformas, incluindo políticas econômicas e institucionais para o setor financeiro402. Assim, pode-se observar no Quadro IV.5 o cronograma elaborado pelos Diretores Executivos do GBM e que teriam um prazo de seis meses para que a proposta feita pelo governo brasileiro pudesse ser apreciada e avaliada até a aprovação pelo Conselho Diretor.
Quadro IV. 5 - Banco Mundial: cronograma para ajustamento (1988-1989)
Cronograma Situação de encaminhamento
15.11.1988 Saída da missão de avaliação
30.01.1989 Relatório de capa amarela para o Presidente
20.02.1989 Documentação ao Comitê Regional de Empréstimo
27.02.1989 Documentação ao Comitê de Operações
06.03.1989 Início das negociações
10.04.1989 Distribuição da documentação aos Diretores Executivos
02.05.1989 Apresentação ao Conselho Diretor
Fonte: Banco Mundial, 1988
Segundo o GBM, após os intensos diálogos com o governo as estratégias da assistência já haviam sido elaboradas no "Memorando de Iniciação" de 02 de novembro de 1988 e procurava conter um "pacote de políticas" propondo desenvolver o aprimoramento, a eficiência e a amplitude dos ajustes necessários, bem como as "condicionalidades" exigidas para a liberação dos recursos403. Não se pretende aqui descrever os elementos constituintes destas fases, e o quadro pretende apenas ilustrar a situação do encaminhamento realizado e suas fases sucesivas, mas a situação concreta desse cronograma a ser realizado, pode ser melhor detalhado no âmbito da Matriz de Políticas, demonstrada no próximo item desse capítulo.
402 Ibid, p. 12.
IV.5.1.3.1- Pacote de políticas para o ajustamento do setor financeiro (1988-1990)