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FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: FAIRCLOUGH

2.1. Modelo de análise

2.1.2. Aspectos dos sentidos ideacionais.

2.1.2.2. Transitividade e tema.

A transitividade, dimensão ideacional da gramática normalmente referida na linguística sistêmica, trata dos tipos de processos que são codificados em orações e os tipos dos elementos envolvidos nessas orações. A transitividade, para o autor, recebe muita atenção por parte da análise crítica.

Fairclough (2001) cita os processos relacionais em que o verbo marca uma relação entre os participantes e os processos de ação em que um agente atua para alcançar um determinado objetivo. O tema é uma dimensão da gramática destinada aos modos de os elementos da oração ser posicionados com base na sua ênfase informacional.

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Para ele, o que acontece é que também podem ocorrer temas implícitos nos tempos em que os verbos são utilizados — como no imperativo — ou o agente ser omitido na voz passiva. O grau de nominalização também é uma característica importante da transitividade. Para ele, a nominalização é a conversão de processos em nomes, os quais caracterizam a ação em si em segundo plano porque o tempo e a modalidade não são indicados, além de normalmente não deixar claro quem são os participantes, ou seja, os agentes e pacientes são deixados implícitos.

Para Kress (1997) existem conjuntos de recursos linguísticos que são apresentados de acordo com determinadas configurações sociais, a fim de produzir textos que vão dar forma a essas estruturas, processos e relações sociais. Os indivíduos constroem suas experiências nos textos conforme suas ocasiões sociais de produção e, a partir dessa experiência, estabelecem representações específicas do que é a “sua” linguagem.

Acrescenta que a distinção transitivo/intransitivo à descrição gramatical pode causar uma variação nas analogias porque pode conter, em alguns casos, uma aparência superficial. Para uma diferença demasiadamente rígida encontramos outras categorias mais precisas na orientação semântica, pois elas podem revelar distinções mais sutis, embora possam surgir também para complicar a questão. O autor não tem pretensão de debater o que ele chama de ‘testes sintacticos experimentais de passivas’, ele expõe que leituras diferentes irão atribuir descrições diferentes, mas nos termos específicos desses verbos. Ele ainda reafirma o conceito de língua como sistema autônomo, e da linguística também como disciplina autônoma, considerando-se os pressupostos políticos, ideológicos e teóricos essenciais.

Relacionado com a constituição a-histórica’ e ‘a-social’ das teorias lingüísticas actuais e, necessariamente, parte dessa posição teórica, é o facto de a lingüística não ter tido em conta o utente lingüístico individual como

91 sujeito formado social e culturalmente. Um utente lingüístico não chega à linguagem como indivíduo não formado e cultural ou socialmente vazio; chega com uma história complexa de experiências particulares da linguagem como texto, uma história social particular e uma história linguística particular (KRESS, 1997, p.64).

Para o autor, existem variações entre os discursos porque os utentes linguísticos trazem diversos conjuntos de recursos no sentido de realizarem uma interação dinâmica, porque essa dinâmica da interação de recursos é parcialmente diferente, o que resulta numa das principais causas da mudança linguística.

De acordo com sua teoria, “os recursos linguísticos são o produto de interações de utentes linguísticos socialmente formados e posicionados, actuando em estruturas de poder e, por conseguinte, a forma linguística e os múltiplos e complexos sistemas de recursos apresentam os traços de ação de um poder superior” (KRESS, 1997, p.67).

De acordo com este autor, a frase pode ser aplicada como uma unidade cujo interesse pode ser mais textual do que sintático. Argumenta que as mudanças de sintaxe têm de ser elucidadas de um ponto de vista sócio-textual.

É interessante analisarmos a transitividade a partir da formulação de fatores sociais, culturais, ideológicos, políticos ou teóricos que determinam como ocorre o significado de um processo num tipo particular de discurso. Nesse conjunto de condições, a nominalização pode ser abstrata, ameaçadora ou mistificadora para as pessoas leigas.

O autor destaca os tipos de processos de elaboração do discurso como ‘ação’, ‘evento’, ‘relacional’ e ‘mental’.

A ação pode ser subdividida em ‘ação dirigida’ e ‘ação não-dirigida’. A primeira acontece quando o agente atua em direção a um objetivo, concretizando-se na superfície do texto como uma oração transitiva (sujeito-verbo-objeto). Na ação não-

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dirigida, há o envolvimento de um agente e de uma ação que não deixa explícito nenhum objetivo e geralmente se realiza por meio de uma oração intransitiva (sujeito- verbo).

Os processos de evento estão relacionados a um fato e um objetivo, e normalmente se efetiva como orações intransitivas. As orações de ação não-dirigida e as de evento nem sempre podem ser identificadas, mas podemos diferenciá-las ao descobrir o que o agente fez antes da produção textual, no sentido da ação cometida, e para identificarmos o evento precisamos desvendar o que aconteceu para que se moldasse essa ação.

Os processos relacionais da transitividade estão associados ao entrosamento entre entidades ligadas a ser, tornar-se ou ter (posse) e processos mentais, representados por cognitivos (verbos como ‘saber’ e ‘pensar’), perceptivos (‘ouvir’ ou ‘notar’) e afetivos (‘gostar’ ou ‘temer’) que geralmente se consolidam como orações transitivas. Cabe ressaltar que, quando se escolhe um ou mais desses desdobramentos para designar um processo real, a sua significação pode ser cultural, política ou ideológica.

O tema é a parte inicial da oração e a parte final pode ser referida como rema. Tais determinações ordenam a análise por meio de funções textuais. O tema é o ponto inicial do produtor do texto quando apresenta um tópico frasal, que pode corresponder a uma informação já conhecida e estabelecida para os produtores e intérpretes do texto.

O tema é considerado como informação já conhecida ou estabelecida para os produtores e intérpretes dos textos. As escolhas efetuadas marcadas pelo tema podem acenar para os pressupostos de senso comum ou ainda sobre as estratégias de

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retóricas. Dessa forma, quando optamos pelos elementos dos temas marcados é uma estratégia para colocá-los em primeiro plano, como elemento de destaque.

Examinar o que tende a ser selecionado como tema em diferentes tipos de texto pode jogar luz sobre os pressupostos de senso comum a respeito da ordem social e das estratégias retóricas. Vamos considerar, primeiro, os pressupostos do senso comum. A escolha ‘não marcada’ do tema numa oração declarativa (uma afirmativa) é o sujeito da oração; essa é a escolha feita se não há razão especial para escolher alguma outra coisa” ( FAIRCLOUGH , 2001, p. 228 ).

De acordo com Halliday (1985, apud FAIRCLOUGH, 2001), nem sempre a forma gramatical constante em uma oração é uma orientação objetiva, há casos, por exemplo, considerados como ‘metáforas gramaticais’ quando um determinado tipo de processo admite a realização gramatical típica de outro. Muitas orações de ações dão a impressão de atividade com propósito (sujeito-verbo-objeto), realização típica de ação dirigida, entretanto podem ser uma alternativa metafórica. Do mesmo modo, podemos considerar orações de ação não-dirigidas também metafóricas.

Quanto à ação dirigida, a ‘voz’ pode ser ativa ou passiva. Na oração passiva, o objeto é sujeito e o agente é agente da passiva que se inicia com o termo ‘por’ ou pode ser omitido. São vários os motivos de escolha da voz passiva, dentre os quais a omissão do agente, muito embora este possa ser evidente em si mesmo, irrelevante ou desconhecido. Entretanto, essa escolha pode também pretender omitir o agente e evitar a responsabilidade ou causalidade.

As orações passivas podem estar relacionadas com a função textual da oração. Assim, a voz passiva modifica o objeto para a posição inicial de ‘tema’, o que normalmente passa a significar a apresentação de uma informação já exposta ou conhecida; também muda o agente, caso este não estiver omitido, para a posição relevante ao final da oração, onde geralmente encontramos a informação nova.

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Na nominalização, há possibilidade de omissão do agente. Tanto a voz passiva quanto a nominalização trabalham nesse sentido. As nominalizações podem contribuir para a omissão de outros participantes além dos agentes, como o objeto, bem como transformar processos e atividades em estados e objetos, e ações concretas em abstratas.

Analisar as orações dessa maneira significa que estamos examinando as funções textuais e como são estruturadas as informações de forma geral.

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Fairclough (2001) esclarece que os temas marcados na frase mostram não só os pressupostos do senso comum, mas as estratégias retóricas, como os termos ‘inevitavelmente’ e ‘portanto’ que podem ser marcados em primeiro plano, ou seja, inseridos primeiramente no excerto passam a funcionar como tema. Cabe ratificar que é importante observar o que é posto em primeiro plano, no início das orações, para verificarmos quais os pressupostos e estratégias colocadas explicitamente.