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2 DO GESTUAL AO LINGUÍSTICO

No documento CIÊNCIA E LINGUAGEM (páginas 87-90)

Há muito especula-se que os gestos teriam dado origem à linguagem verbal humana (HEWES, 1979; CORBALLIS, 2002, 2014; FOURNIER, 2017).

Entretanto, no plano evolutivo das línguas orais, que remontam a muitos séculos de existência, é impossível provar tal hipótese. Muitos já empreenderam esforços, às vezes antiéticos e que infringem os direitos humanos, fazendo experimentos para buscar uma língua que teria dado origem a todas as outras. Heródoto (2017) narra que, em torno do século VII a.C., um rei egípcio chamado Psamético III realizou um experimento cruel, separando do convívio social duas crianças recém-nascidas. Ele ordenou que elas fossem cuidadas por um camponês que foi terminantemente proibido de dirigir-lhes qualquer palavra. Com isso, ele buscava identificar a língua que, porventura, viessem a falar, descobrindo, assim, qual teria sido a língua primitiva. Após dois anos, de forma espontânea, a primeira palavra que as duas crianças produziram foi ‘bekos’ que, segundo interpretação posterior, provinha do frígio, uma língua de raiz indo-europeia que havia desaparecido. A cadeia sonora produzida pelas crianças parecia corresponder ao significado de

‘pão’ nessa língua antiga. Esse experimento resultou na errônea conclusão de que a primeira língua do mundo seria a língua dos frígios.

Na recusa de aceitar uma língua adâmica, aquela que teria sido dada por Deus ao primeiro homem (BICKERTON, 2009) e, na impossibilidade de atestar se os gestos vieram antes da fala, é na ontogênese (desenvolvimento individual do ser humano) que fica mais evidente a função que os gestos desempenham na aquisição de linguagem. Sabe-se que eles precedem a fala ou os sinais antes que a maturação biológica tenha permitido as capacidades motoras da fala ou sinais e os aspectos cognitivos necessários.

Fournier (2017, p. 25), em seu capítulo As origens da comunicação humana:

do gestual ao gestual, defende que

[...] a criança gesticula primeiro com as mãos e os braços para gradualmente aprender a gesticular com seus órgãos fonatórios.

Insisto nesse ponto: há continuidade evolutiva e continuidade na aprendizagem entre o gesto manual e o gesto oral: do ponto de vista midiático, passa-se progressivamente do totalmente visível para o parcialmente invisível, sendo alguns gestos sempre perceptíveis, os movimentos da boca essencialmente, mas também certas expressões faciais, como a elevação ou contração das sobrancelhas que acompanham tanto a expressão oral quanto a expressão sinalizada.

Para o autor, o desenvolvimento da capacidade verbal da criança é um parâmetro para entender a continuidade evolutiva do gesto corporal para a fala.

Note que ele considera as articulações da fala como gestos também. Assim, do médium visual passa-se para o médium acústico, do que é mais global e externo para o que é mais localizado e interno (cavidade oral). Todavia, mesmo com o advento da fala, os gestos farão parte da comunicação ao longo de toda a vida do indivíduo, sejam ouvintes ou surdos sinalizantes. Com efeito, Correa (2007), na sua dissertação de mestrado, defende a complementaridade dos gestos também nas produções sinalizadas, ou seja, a língua de sinais, assim como a linguagem oral, tem seu estatuto gestual. Entretanto, se o continuum da fala e gestos corporais, manuais e faciais é facilmente discriminado, a separação do continuum sinal/gesto é comumentemente mais complexa, visto que os mesmos receptores e articuladores cinésicos estão envolvidos. Trata-se de efeitos de modalidade, fenômeno que foi estudado por Petitto (1987). A autora argumenta que a criança surda produz gestos que diferem dos sinais. Conforme Quadros (2008, p. 71), Petitto “sugere que nesse período parece ocorrer uma reorganização básica em que a criança muda o conceito da apontação inicialmente gestual (pré-linguística) para visualizá-la como elemento do sistema gramatical da língua de sinais (linguístico)”. Em um estudo posterior, Petitto e Bellugi (1988) complementam que haveria uma descontinuidade entre o gesto de apontação e o elemento pronominal que têm a mesma forma. Nesse ínterim, haveria uma ruptura no uso do gesto, que desapareceria no estágio do primeiro sinal.

Segundo Morgenstern, Leroy e Mathiot (2008, p. 1805),

Alguns gestos convencionais aparecem muito cedo na criança. A apontação, observável antes dos doze meses, pouco antes das primeiras palavras, é uma delas. Segundo Cabrejo Parra (1992), esse gesto representa uma condição necessária para a construção da linguagem.

De fato, dá à criança a oportunidade de designar um objeto como um lugar de atenção compartilhada e de intercâmbio com o adulto [...]

A apontação permite que a criança organize o olhar conjunto, que é uma primeira triangulação, uma entrada real na dêixis. O gesto de apontação indica que a criança é capaz de construir a alteridade psíquica [...].

A apontação cumpre, assim, funções comunicativas de duas naturezas: na presença do referente tem valor de dêitico, mas, quando esse está ausente, possui valor simbólico (veja os exemplos na figura a seguir). Um dos fatores importantes para que a criança comece a reconhecer que seus gestos, uma vez compreendidos

pelo interlocutor, têm poder para convencê-los a fazer o que ela deseja, é o próprio feedback dado pelo adulto. Por exemplo, ao tentar aproximar-se de um brinquedo, percebe que sua ação de tentar alcançá-lo foi compreendida pela mãe que prontamente lhe oferece o objeto de sua volição. Algum tempo depois, usará da estratégia de estender a mão de forma intencional a fi m de modifi car o comportamento das pessoas que lhe ajudarão a atingir seu objetivo. Da mesma forma, ela pode espelhar-se nas ações gestuais do outro, dando sentido às suas intenções comunicativas.

FIGURA 1 – EXEMPLO DE SINAL DÊITICO (NA PRESENÇA DO REFERENTE) E SIMBÓLICO (NA AUSÊNCIA DO REFERENTE)

FONTE: Disponível em: <https://itunes.apple.com/fr/book/animais-emmovimento/

id605083781?mt=1>. Acesso em: 20 maio 2018.

Contrariamente ao que defende Petitt o, a pesquisadora Pizzuto e seus colaboradores (PIZZUTO, 1990; PIZZUTO; CAPOBIANCO, 2005; DEVESCOVI, 2005) não compartilham da mesma opinião sobre a descontinuidade entre a apontação gestual e a apontação pronominal, esclarecendo que

a) As apontações para objetos aparecem no fi nal do primeiro ano e são acompanhadas pela direção do olhar para o referente; os demonstrativos e os nomes dos objetos as complementam.

b) As apontações "pessoais" aparecem mais tarde tanto em crianças surdas sinalizantes como em ouvintes (fi nal do segundo ano) e têm um desenvolvimento muito semelhante ao dos pronomes pessoais da língua oral. Os pronomes de terceira pessoa (apontando para a pessoa de quem se fala) são acompanhados da direção do olhar para o interlocutor e não do alvo da apontação, ou seja, já há indícios de gramaticalização (MORGENSTERN; LEROY; MATHIOT, 2008).

Para Morgenstern, Leroy e Mathiot (2008), o gesto cumpriria as seguintes funções na aquisição de linguagem:

• “Segundo Greenfield e Smith (1976), Bates et al. (1977), a apontação corresponde a uma transição no curso da aquisição de linguagem e facilita o acesso às combinações e à sintaxe!” (p.1808).

• Para Goldin-Meadow e Butcher (2003), “a apontação tem um papel crucial na transição entre os enunciados de uma para duas palavras” (ibidem), ou seja,

“o gesto fornece para a criança um veículo importante para informações ainda não expressas na fala e, como tal, fornece ao ouvinte (ou ao experimentador) uma janela única para a mente da criança” (GOLDIN-MEADOW E BUTCHER, 2003, p. 104).

Os gestos, embora sejam concomitantemente produzidos com os discursos falados, foram relegados a um domínio exterior à Linguística. Entretanto, antropólogos (BIRDWHISTELL, 1952; 1970), psicólogos (EFRON, 1941; KENDON, 1972, 1980, 2000) e psicolinguistas (BATES; DICK, 2005; MCNEILL, 1992, 2005), além dos autores que foram anteriormente destacados, perceberam o potencial do sistema comunicativo gestual, dando um passo além para a sua compreensão. A seguir, veremos que em comunidades desprovidas de inputs linguísticos orais ou sinalizados, os gestos podem fazer emergir uma língua de sinais primária, usada para a comunicação e interação entre membros de uma família ou comunidade.

No documento CIÊNCIA E LINGUAGEM (páginas 87-90)