Em seu livro Vendo vozes, Oliver Sacks cita alguns fragmentos da história de Massieu, o aluno cuja trajetória foi descrita por seu professor, o Abade Sicard, em seu livro Album d’un sourd-muet. Notice sur l’enfance de Massieu, sourd-muet (Diário de um surdo-mudo. Notas sobre a infância de Massieu, surdo-mudo), por Susan Schaller em seu livro A man without words (Um homem sem palavras) e por si mesmo, em uma obra biográfica na qual relata que
Até os treze anos e nove meses, permaneci em casa sem receber educação de espécie alguma. Eu era totalmente analfabeto. Expressava minhas ideias com sinais e gestos manuais [...] os sinais que eu usava a fim de expressar minhas ideias para minha família eram muito diferentes dos sinais dos surdos-mudos [sic] instruídos. As pessoas estranhas não nos compreendiam quando expressávamos nossas ideias com sinais, mas os vizinhos, sim. [...] As crianças de minha idade não queriam brincar comigo, desprezavam-me, eu era como um cão. Passava o tempo sozinho, brincando de pião, com um bastão e uma bola ou andando com pernas de pau (SACKS, 2010, p. 32).
Nesse pequeno excerto, é possível identificar muitos problemas sociais e emocionais que Massieu enfrentava, como resultado do despreparo societal em acolher a sua especificidade psicofisiológica: falta de comunicação, falta de instrução, isolamento, desprezo e baixa autoestima. As crianças não queriam brincar com Massieu simplesmente porque ele não podia articular vocalmente os sons e não podia perceber as frequências sonoras da língua falada.
Essa atitude de julgar e excluir uma pessoa do convívio social devido à cor de sua pele, sua classe econômica, suas especificidades físicas, mentais ou sensoriais e sua língua é algo muito recorrente em uma sociedade que geralmente adota um modelo deficitário para caracterizar aqueles que não se enquadram em uma ‘norma’ ou ‘padrão’ preestabelecidos. A concepção de homogeneidade leva,
O conceito de estereótipo está intimamente ligado ao conceito de crenças. O fenômeno do estereótipo, segundo Pérez-Nebra e Jesus (2011), se configura como uma atribuição de crenças que se faz a grupos ou pessoas. Essas crenças compartilhadas são generalizações que se fazem sobre grupos, pois segundo Allport (1954/1979), a estereotipia é uma tendência cognitiva a supergeneralizar e deformar os fatos a partir de similaridades percebidas. Pelo fato de o sujeito ter de reagir de maneira diferente, o mesmo baseia-se no que lhe é comum e a partir daí faz suas generalizações.
Com efeito, o imaginário social, formado por um conjunto de representações, atitudes, comportamentos e valores sociais coloca a surdez em uma condição de deformação, de desvio. Segundo essa tendência supergeneralizada, as reações são diversas e incluem o paternalismo, a imposição às técnicas medicais e reparatórias, a subestimação da capacidade intelectual, a negação e a exclusão social do surdo. Ademais, os comportamentos e atitudes humanos são enviesados por ideologias dominantes e tendem a uma avaliação negativa do outro a partir daquilo que é considerado como deficiência. Quando alguém encontra uma pessoa que não conhece, uma tentativa de identificação e de reconhecimento é iniciada e se concretiza segundo as normas sociais que essa pessoa aprendeu. A partir de alguns poucos elementos, dá-se uma extrema importância a certos atributos ou certas características físicas e funcionais daquele que é observado. Toda manifestação percebida como diferente reveste- se, então, de uma reação estigmatizante.
Uma contrarreação por parte dos estigmatizados pode se apresentar ou sob forma de vitimização ou de uma motivação para se sobressair. Uma das respostas dos surdos alçou a língua de sinais como o estandarte de uma militância em prol do reconhecimento dos seus direitos. Construiu-se, assim, a noção “povo surdo” ou “nação surda” (BERTHIER, 1852; RÉE, 1999; LACHANCE, 2002).
Novamente, os oponentes da língua de sinais retrucaram, valendo-se de fortes argumentos para desvalorizá-la, perpetuando muitos mitos que veremos mais adiante. A maior resistência encontrada foi na área médica e educacional com a prática do oralismo. Como representantes históricos dessas áreas, pode-se citar (cf. LEGENT, 2005):
Jean-Konrad Amman – Médico suíço que foi um dos primeiros a reforçar a importância da leitura labial e considerado o verdadeiro inventor do método oral pelos adeptos dessa filosofia. Acreditava que os surdos eram desgraçados e estúpidos que pouco diferenciavam dos animais e que para torná-los humanos era necessário que aprendessem a falar. Sua obra Dissertatio de loquela surdorum et mutorum, de 1700, foi usada como referência por muitos outros educadores de surdos.
• Jacob-Rodrigue Pereire – Foi o primeiro instrutor de surdos na França. De origem espanhola, em 1741 ele percorreu algumas regiões francesas até se estabelecer em Paris. Ali ganhou reputação por ter educado alguns surdos que apresentaram um bom desenvolvimento, recebendo benefícios e a gratidão da nobreza. Seu método era mantido em segredo, mas foi parcialmente revelado por um dos seus ex-alunos. Ele fazia uso de um alfabeto manual para ensinar seus alunos a ler, escrever e falar. Sua reputação foi rapidamente suplantada pela entrada fulgurante do Abade de l’Épée no cenário da educação de surdos.
• Abade Charles Michel de l’Épée – Considerado o pai espiritual do ensino de surdos pelo método visual, foi o primeiro a reconhecer que os surdos produziam gestos e por eles interagiam. Todavia, mesmo tendo boas intenções, mostrou- se preconceituoso pelo fato de ter “aperfeiçoado” os gestos usados pelos surdos, criando sinais próprios por meio dos quais lhes fazia ditados. Suas aulas eram abertas ao público e receberam visitas das mais ilustres, inclusive de outros países que adotaram o seu modo de ensinar. Em 1776 publicou uma obra na qual havia duras críticas ao ensino de Pereire. Já em 1784, sob outro nome de capa, apresentou o seu método, mas omitiu grande parte de suas críticas ao instrutor que o antecedera. Além do mais, de l’Épée, em uma carta enviada a seu sucessor, Sicard, reconhecia a fragilidade de seu método, argumentando que para os surdos, que aprendiam o francês como L2, não seria jamais possível pensar e transmitir seus pensamentos nessa língua, assim como para eles, ouvintes, era difícil de se expressar em uma língua estrangeira, apesar de conseguir lê-la ou traduzi-la. Ele era constantemente confrontado por filósofos, eclesiásticos e homens das ciências sobre a impraticabilidade dos códigos representativos para dar conta de explicar, por exemplo, a metafísica para os surdos acreditavam que isso estava muito à frente da inteligência do surdo.
• Samuel Heinicke – Foi um instrutor de surdos alemão, considerado, em 1778, o primeiro professor a criar a primeira escola oficial do mundo para a educação de surdos. Ignorando completamente o fato de que o abade de l’Épée já havia inaugurado o seu instituto em 1760, em Paris, o seu método de ensino consistia em ensinar fonética a partir da identificação dos gostos alimentares. Reprovava o uso do alfabeto manual, a leitura e a escrita, focando apenas na fala. O abade de l’Épée criticava veementemente esse método.
• Jean Marc Itard – Foi o primeiro médico-cirurgião a se interessar pelo estudo da surdez, classificando-a em cinco categorias em função do nível de compreensão da língua falada por seus pacientes. Essas categorias foram descritas em duas obras (1821 e 1824) e são consideradas como os primeiros tratados sobre otologia (estudo das patologias do ouvido). A fim de descobrir as causas da surdez, ele fazia alguns experimentos, como dissecar o crânio de cadáveres de surdos ou perfurar os tímpanos de surdos vivos. Foi também inventor de instrumentos de ampliação acústica como os cornets, que podem ser visualizados na figura a seguir.
Cornets acoustiques. – Les cornets acoustiques sont destinés à recueillir, à renforcer et à
transmettre au
F. – CORNETS ACOUSTIQUES
Fig. 111. – Manche de schech.
Fig. 112. – Cornet d'Itard.
FIGURA 6 – INSTRUMENTOS INVENTADOS POR ITARD
FONTE: <https://goo.gl/uP2rwi>. Acesso em: 9 jul. 2018.
• Alexander Graham Bell – Designado como professor de fisiologia vocal, tinha como objetivo ensinar a língua falada aos surdos, por meio de um método fonético. Ao fazer ensaios experimentais de um aparelho que permitia registrar as vibrações sonoras, ele acabou inventando o telefone, em 1876, e o aparelho de audiometria, em 1879 (LANE, 1979). Foi defensor do “método oral puro”
e influenciou toda a sua geração a exterminar e proibir a língua de sinais ou gestos. Segundo Lane (ibidem, p. 115), todas as propostas defendidas por Graham Bell consistiam em “destruir o grupo minoritário surdo, interpretar sua diferença como um fato patológico e tratar essa patologia com próteses, pela reabilitação, a eugenia etc.” Essa última medida se concretizava com a interdição de casamentos entre surdos, a fim de evitar que a incidência de surdez aumentasse. Sua influência repercutiu nas resoluções do Congresso de Milão sobre a educação de surdos, onde adotaram o método oralista e lançou a língua de sinais em um período centenário de escuridão.
DICAS
Lembre-se de que o Congresso de Milão foi um evento que, em 1880, reuniu muitos instrutores de surdos a fim de discutir o futuro da sua educação, colocando em votação qual seria o método mais adequado a utilizar. Estavam presentes, sobretudo, eclesiásticos católicos que mantinham grande parte das escolas da época. Os melhores alunos surdos foram selecionados e levados para serem submetidos a testes diante do grande público. Ao demonstrar resultados positivos do método oral puro, muitos foram convencidos de que esse era o método mais ‘eficaz’ a adotar. Inclusive, a maioria desses alunos era surda pós- lingual, ou seja, já tinha experiência com a fala antes de perder a audição. Subentende-se, por esse fato, que não havia muita transparência nos propósitos ali discutidos, principalmente porque tudo indicava que havia uma trama política por trás dessa posição. As escolas católicas francesas temiam a decisão do Ministro da Instrução Pública que havia publicado um relatório intitulado ‘Escola laica e obrigatória para todos’ e a única forma de preservar a sua doutrina nos seus estabelecimentos era de estar ao lado do Ministro do Interior francês que se encontrava no evento e que cumpria ordens em defender o método oral puro. Os opositores dessa prática, sendo a minoria, ficaram impotentes ante o grande número que foi favorável à sua adoção (LEGENT, 2005).
Infelizmente, as repercussões do Congresso de Milão foram refletidas e refratadas em toda a Europa e Américas. Desde então, muitos mitos sobre o surdo e a língua de sinais vêm se perpetuando em nossa sociedade. Vale salientar que, como foi visto anteriormente, nem mesmo as mentes mais abertas, como a de l’Épée, estavam neutralizadas ao preconceito e à estigmatização do surdo e de sua língua. Apesar disso, conclui Legent (2005, s.p) que
graças à ação do Abade de l’Épée, os surdos e mudos [sic] não eram mais os excluídos. O Abade de l’Épée continua a figura emblemática da “mímica”, se bem que tenha aprendido “a língua natural de sinais”, por estar em contato com os surdos-mudos, mas que ele não ensinava.
No entanto, ele permitiu a difusão entre os surdos, reunindo-os e tolerando sua língua natural.
E atualmente, ainda persistem certos mitos? Esse será o foco dos próximos subtópicos.