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2 FUNCIONALISMO EM LINGUÍSTICA

No documento CIÊNCIA E LINGUAGEM (páginas 159-165)

Antes de iniciar o estudo do Funcionalismo em Linguística, cumpre ressaltar que há diversos funcionalismos circunscritos em várias disciplinas e áreas do conhecimento: em Antropologia, em Sociologia, em História, em Arquitetura e até mesmo em Relações Internacionais. O Funcionalismo em Linguística tem uma longa data. Segundo Pezatti (2004), a concepção funcional da linguagem verbal é mesmo anterior ao Estruturalismo, sendo Whitney (1827-1894) e Herman Paul (1846-1921) dois de seus precursores.

A partir da década de 1920, Vilém Mathesius fundou o Círculo Linguístico de Praga, que passou a ser uma das mais reconhecidas escolas funcionalistas até hoje.

Fizeram parte do círculo os russos Roman Jakobson, Nicolaï Troubetzkoy e Sergeï Karcevski e os tchecos René Wellek e Jan Mukařovský. Geralmente, considera- se essa escola como o berço do Funcionalismo, tendo ali sido concebida a noção de ‘função’ da linguagem verbal, entretanto, os seus pressupostos também foram desenvolvidos em algumas tradições antropológicas, filosóficas e cognitivistas não ligadas ao contexto de Praga. Foram contribuintes do Círculo outros linguistas europeus, como Louis Hjelmslev, André Martinet, Émile Benveniste, Karl Bühler, Simon Dik e os representantes britânicos John Rupert Firth e Michael Halliday.

Pode-se citar também algumas escolas norte-americanas, com trabalhos como os de Edward Sapir, Kenneth Pike, Dell Hymes, John Austin e John Searle. Ainda dentro desse contexto, Pezatti (2004, p. 167) complementa que

Nos EUA, um movimento muito importante surgiu nos anos de 1970 a partir do trabalho de um grupo de pesquisadores centrados na Califórnia, que inclui Talmy Givón, Charles Li, Sandra Thompson, Wallace Chafe, Paul Hopper, Scott DeLancey, John Dubois entre

No Brasil, os estudos funcionalistas iniciaram na década de 1980, ampliando-se em 1990, tendo como representantes Evanildo Bechara, Ataliba T. de Castilho e Rafael Hoyos-Andrade, Rodolfo Ilari, Carlos Franchi, Sebastião Votre, Anthony Julius Naro, entre outros.

Vale salientar que tratar o Funcionalismo de um ponto de vista unificado é impossível, pois, apesar de diversos trabalhos se definirem como funcionalistas, muitos deles apresentam princípios significantemente díspares. Com efeito, não se pode crer na existência de um Funcionalismo unitário e análogo, pois cada um dos representantes anteriormente citados inseriu seus estudos na perspectiva funcionalista comum ao seu domínio de pesquisa, à sua tradição e aos seus próprios objetivos e modelos teóricos, ou seja, não se pode caracterizar o Funcionalismo de forma homogênea, mas composto por várias tendências e várias perspectivas. A base comum que os aproxima é “a de que uma análise linguística deve levar em conta a interação social, isto é, a consideração metodológica de que o componente discursivo desempenha um papel preponderante na gramática de uma língua”

(PEZATTI, 2004, p. 176).

Assim, o Funcionalismo contrasta com as correntes Estruturalista e Gerativista, pois passa das análises formais e sem o aporte do uso efetivo da língua para uma análise funcional em que relaciona a estrutura gramatical aos diferentes contextos comunicativos (CUNHA, 2012). A linguagem verbal é, então, um instrumento de interação social e a estrutura gramatical é considerada não de forma homogênea e imutável, mas que se atualiza e é condicionada pela situação comunicativa. As estruturas linguísticas operam com os significados, visto que, assim como a situação comunicativa, visam cumprir propósitos comunicativos contextualizados. Com isso, a própria noção de função pode ser considerada sob três aspectos distintos:

a) A função da linguagem verbal em relação à intencionalidade e propósito de um sujeito (emissor) que passa uma informação a um interlocutor (receptor), por meio de uma mensagem (o conteúdo ou assunto) oral, escrita ou sinalizada (um código linguístico), em determinado contexto discursivo (a situação comunicativa).

b) A função externa da língua, de um ponto de vista macro, que estaria relacionando o sistema de formas e o seu contexto de uso (função pragmática).

c) A função interna dos elementos linguísticos, de um ponto de vista micro, é estabelecida pela relação entre uma forma e outra (função distintiva e combinatória), entre a forma e seu significado (função semântica), ou ainda entre a forma e o lugar que ela ocupa na estrutura (função sintática).

Para ilustrar o primeiro tipo de função, veja a figura a seguir.

FIGURA 1 – OS ELEMENTOS DA COMUNICAÇÃO

FONTE: Adaptada de: <https://img.freepik.com/vetores-gratis/pessoas-com-design-plano- falando-linguas-diferentes_23-2147868516.jpg?size=158c&ext=jpg>. Acesso em: 26 jul. 2018.

Veja que em a) há o envolvimento de aspectos mais gerais de uma situação comunicativa. Há uma interação discursiva entre duas pessoas que se conhecem, pois o emissor chama a interlocutora pelo nome. A mensagem transmitida pelo emissor tem o propósito de elogiar e mostrar sua apreciação sobre a aparência da sua interlocutora, ou seja, cumpre uma função, ligada ao seu propósito comunicativo.

De fato, a mudança de perspectiva para os modelos funcionais considera a linguagem verbal como “uma ferramenta cuja forma se adapta às funções que exerce e, desse modo, ela pode ser explicada somente com base nessas funções que são, em última análise, comunicativas” (PEZATTI, 2004, p. 168). Essas funções comunicativas estão sujeitas ao contexto de uso linguístico e sociointeracional que envolvem o falante, o ouvinte e a informação a ser veiculada num contexto pragmático.

Em relação às funções associadas ao código, veja o exemplo do diálogo na fi gura a seguir, que ilustra a função b) externa da língua.

FIGURA 2 – EXEMPLO DE DIÁLOGO DESCONTEXTUALIZADO

FONTE: Adaptada de: <https://cdn.pixabay.com/photo/2016/11/02/11/05/

cashier-1791106_960_720.jpg>. Acesso em: 24 jul. 2018.

O seu conhecimento de mundo já foi certamente acessado em sua memória, revelando que o diálogo das duas personagens só pode estar ligado a um contexto específi co. A diferença dessa imagem da anterior é que foram inseridos turnos de conversação, ou seja, ambas as personagens serão, cada uma na sua vez, emissora e receptora. Trata-se de uma situação em que uma personagem é a cliente e a outra a atendente, ambas estão fi nalizando uma compra e cada uma desempenha uma função social diferente, usando o tipo de discurso adequado à situação e à sua atividade. A estrutura utilizada é curta e objetiva para os seus propósitos. Em outras palavras, a estrutura linguística escolhida cumpre uma função e está vinculada a um contexto comunicativo adequado, obedecendo a regras pragmáticas e sociais de uso.

Veja novamente o diálogo na fi gura a seguir, dessa vez, dentro do seu contexto de uso.

FIGURA 3 – EXEMPLO DE DIÁLOGO CONTEXTUALIZADO

FONTE: Adaptada de: <https://cdn.pixabay.com/photo/2016/11/02/11/05/

cashier-1791106_960_720.jpg>. Acesso em: 24 jul. 2018.

Agora, leia atentamente as duas sentenças nas caixas a seguir.

Sabemos que as duas sentenças estão relacionadas a uma situação típica de réplica e que, para compreendê-las, precisaríamos suas referências informativas anteriores, tais como: ‘Foi você que quebrou o vaso?’ ou ‘O vaso está quebrado’

(contextualizando a réplica 1); ‘Você foi ao show no fi m de semana?’ ou ‘Eu fui ao show no fi m de semana’ (contextualizando a réplica 2). Essa questão está ligada à coesão discursiva que focaliza o conhecimento temático da conversa.

O que é preciso destacar aqui é que ambas as sentenças contêm os mesmos elementos: o pronome pessoal de primeira pessoa do singular (‘eu’), o verbo ‘ir’

conjugado na primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo (‘fui’) e o advérbio de negação (‘não’). Entretanto, embora tenham os mesmos elementos, elas não possuem o mesmo signifi cado, pois cumprem funções semânticas distintas e suas formas cumprem funções morfossintáticas diferentes dentro da estrutura.

Note que não se pode formular uma sentença do tipo: *‘Eu no fi m de ao show fui semana’. Essa estrutura é agramatical, por isso é marcada com o asterisco. Isso signifi ca que os elementos cumprem funções dentro de uma sentença e só podem ser substituídos por elementos com a mesma função. Os dois últimos exemplos se referem à função c) interna ao código, ou seja, estabelece- se nas relações entre os signos que compõem a mensagem e que podem estar organizados no nível paradigmático (referente à possibilidade de escolhas de substituição), semântico e sintático.

Ainda do ponto de vista interno, pode-se citar os aspectos fonológicos e a noção de traços distintivos que foi desenvolvida no Círculo de Praga. Tomemos o exemplo de ‘pato’ [´patʊ] e ‘bato’ [´batʊ], cujo contexto de realização de /p/ e /b/ e local de articulação é idêntico (os lábios). O único traço que os distingue é o de sonoridade, assim, embora muito semelhantes, eles possuem signifi cados diferentes.

Evidentemente, os três aspectos (comunicativo, pragmático e estrutural) estão, em certa medida, ocorrendo simultaneamente e, novamente, é justifi cada a necessidade de fazer recortes daquilo que se quer investigar. É como se observássemos um objeto e, com o auxílio de uma lupa, focássemos nas diferentes partes que o compõem. Pois bem, os funcionalistas escolheram partes diferentes de um mesmo objeto, mas com o objetivo comum de analisá-lo em seu contexto de uso ou de realização, como no caso dos elementos fonológicos. Alguns deles não completamente dissociados da vertente estruturalista, como Dik e Halliday, reconheceram que o Formalismo era inadequado e limitado para a compreensão dos fenômenos linguísticos, por isso, propuseram a incorporação da semântica e da pragmática à análise sintática, que, para o Funcionalismo, são domínios interdependentes (CUNHA, 2012).

Nessa seção foi feito um sobrevoo bem sucinto sobre o Funcionalismo, a seguir, será dada especial atenção às funções comunicativas da linguagem [verbal].

No documento CIÊNCIA E LINGUAGEM (páginas 159-165)