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6 APRENDIZAGEM BILÍNGUE BIMODAL PARA SURDOS

No documento CIÊNCIA E LINGUAGEM (páginas 147-157)

Como foi dito anteriormente, ao chegar em uma escola, muitos surdos, mesmo que sejam implantados ou aparelhados, a quantidade de interações em língua oral ou escrita é muito restrita, senão inexistente. Assim, a relação com a escrita da língua portuguesa é muito problemática. Vamos ver os aspectos principais que servem de argumento para que uma metodologia específica seja empregada ao ensinar uma L2 para um surdo. Observe o quadro a seguir.

Diferenças de aquisição/aprendizagem de língua portuguesa entre surdos e ouvintes

Ouvintes Surdos

1

Recebem input auditivo de língua

portuguesa desde o nascimento. Não possuem acesso aos inputs linguísticos de língua portuguesa e, mesmo implantados, não há garantias de que o acesso aos sons seja estável e operativo.

2 A língua portuguesa é sua língua

materna. A língua portuguesa é uma língua

‘estrangeira’.

3

Comunicam em sua língua e têm a possibilidade de aprender outros repertórios.

Em sua maioria, sua comunicação é rudimentar, pois poucos têm acesso a uma língua que lhes seja natural, com isso, o acesso a outros repertórios é dificultado.

4

Adquirem a língua portuguesa oral

naturalmente. Aprendem a língua portuguesa por

instrução sistemática: oral, nas terapias fonoaudiológicas; escrita, quando as famílias lhes incentivam a desenvolver práticas de leitura desde cedo ou, na QUADRO 3 – DIFERENÇAS DE AQUISIÇÃO/APRENDIZAGEM DE LÍNGUA PORTUGUESA ENTRE SURDOS E OUVINTES

5

Possuem conhecimento prévio da língua portuguesa falada e escrita antes de entrar no processo de alfabetização.

Seu contato prévio em contextos linguísticos significativos de língua portuguesa é insuficiente.

6

Desenvolverão sua consciência fonológica por meio de analogias entre o conhecimento fonológico prévio e as estratégias de leitura e escrita.

Não podem ter consciência fonológica de uma língua oral auditiva, a não ser que desenvolvam por meio de habilidades visuais.

7

As escolas estão preparadas para recebê-los a fim de proporcionar-lhes práticas de ensino de L1 satisfatórias.

As escolas, em grande parte, não estão preparadas para recebê-los, pois as práticas de ensino em língua portuguesa e língua de sinais são incipientes.

8 As metodologias são voltadas para o

ensino de sua L1. Geralmente, as metodologias são voltadas para o ensino de uma L1, ou seja, não são adequadas para esses aprendentes.

9

Têm professores e interlocutores na

sua L1. Geralmente, não têm professores e

interlocutores em L1, nem em L2, visto que a primeira não é promovida na escola, inclusiva, e a segunda é parcialmente praticada devido à necessidade de este aprendente receber input prioritariamente em material escrito.

10

Têm a possibilidade de acessar à

sociedade letrada. Dificilmente poderá acessar à sociedade letrada em língua oral, caso as condições acima apresentadas não sejam modificadas.

FONTE: A autora

DICAS

O quadro acima não se trata de uma generalização, há de se ter consciência de que nem todos os estabelecimentos de ensino fogem à responsabilidade social e pedagógica de oferecer um estudo compatível com a especificidade do surdo, entretanto, grande parte das escolas falha nos quesitos 7, 8 e 9 elencados no quadro.

Para o surdo, o direito da igualdade passa pelo reconhecimento de sua especificidade. Mas o que é diferente no surdo? O modo de percepção, o modo de produção linguística e a representação mental por meio da visualidade/

espacialidade. Tudo isso gera diferenças na apreensão, representação, organização e reprodução do conhecimento de mundo, além de, cognitivamente, haver uma

maneira diferenciada de atenção, memória, sensação, conceituação, dedução, associação e linguagem. Assim, como todo ser humano, ele tem direito de desenvolver suas competências que se apoiam sobre quatro registros cognitivos: o desenvolvimento da experiência (o saber), a prática (o saber fazer), a socialização (o saber interagir) e as atitudes (o saber ser). Essa base está em consonância com os quatro pilares do conhecimento propostos pela UNESCO: aprender a conhecer, a fazer, a viver juntos e a ser. Essa construção só pode ser erigida pela mediação de uma língua, no caso do surdo, a língua de sinais.

A linguagem verbal está associada à natureza humana, tanto no aspecto biológico como no aspecto psicossocial, por isso o desenvolvimento de uma língua será bem-sucedido à medida que considerarmos a predisposição biológica e a interação que se estabelece em determinada língua. Enquanto uma criança ouvinte poderá receber inputs auditivos de qualquer língua oral, a criança surda, por sua vez, só poderá receber inputs linguísticos mais naturalmente se estes estiverem adaptados à sua percepção. Nisso consiste a diferença entre aquisição natural e aprendizagem sistemática: a primeira é espontânea e confortável, enquanto que a segunda é um processo lento, gradual e, muitas vezes, penoso. Do ponto de vista biológico, sabe-se que o ser humano possui uma predisposição genética para adquirir a marcha sobre os dois pés e a linguagem verbal, entretanto, no que concerne ao desenvolvimento da habilidade de andar de bicicleta e a habilidade com a escrita, esses usos dependem de processos específicos de aprendizagem, ou seja, de instrução e treino, já que ambos são artefatos culturais.

As diferenças elencadas no quadro anterior são apenas generalizações que, certamente, não condizem com a realidade de todos os ouvintes e todos os surdos, pois questões econômicas, sociais e familiares específicas podem afetar, negativa ou positivamente, o contexto educativo de uns e de outros. Além do mais, não se pode desconsiderar alguns progressos na educação de surdos nos últimos tempos, tampouco ignorar alguns retrocessos da educação brasileira de modo geral.

É importante ressaltar que muitos dos pontos abordados poderiam ser sanados de forma eficaz pela simples adoção de algumas medidas adequadas, essas serão, de forma indicativa e sugestivas, detalhadas no quadro a seguir.

Possíveis medidas para uma efetiva educação bilíngue para surdos

Constatações Medidas

1

Não possuem acesso aos inputs linguísticos de língua portuguesa e, mesmo implantados, não há garantias de que o acesso aos sons seja estável e operativo.

É por meio de inputs visuais que os surdos acessam o mundo e criam suas representações mentais, por isso, a língua de sinais e os signos visuais de diversas naturezas são eficazes para o seu desenvolvimento. A língua portuguesa pode ser introduzida por meio de literatura escrita e imagética.

A família e a sociedade são responsáveis de fornecer esse acesso.

2

A língua portuguesa é uma língua

‘estrangeira’. A língua portuguesa pode tornar-se uma língua adicional (LA), caso os surdos tenham acesso a práticas de ensino consistentes e que façam sentido para eles. É dever da família e da escola proporcionar isso.

3

Em sua maioria, sua comunicação é rudimentar, pois poucos têm acesso a uma língua que lhes seja natural, com isso, o acesso a outros repertórios é dificultado.

A língua de sinais é o repertório natural do surdo, por meio da qual ele poderá ter acesso a outros repertórios, mesmo que de modalidades diferentes.

A família e a sociedade como um todo devem favorecer a aquisição da Libras pelas crianças surdas.

4

Aprendem a língua portuguesa por instrução sistemática: oral, nas terapias fonoaudiológicas; escrita, quando as famílias lhes incentivam a desenvolver práticas de leitura desde cedo ou, na maioria dos casos, tardiamente na escola.

A oralização não pode preceder a aquisição natural de uma língua sinalizada, mas, a partir dela, o surdo pode sentir-se motivado a desenvolvê-la.

A escrita deveria ser introduzida desde cedo por meio de literatura.

A sociedade ouvinte não deve impor o tipo de comunicação que o surdo irá adotar, mas deve oferecer-lhe possibilidades de escolhas, mostrando-lhe a importância de cada uma delas.

5 Seu contato prévio em contextos linguísticos significativos de língua portuguesa é insuficiente.

As práticas linguísticas em língua adicional devem ser contextualizadas e significativas.

6 Não podem ter consciência fonológica

de uma língua oral auditiva. Podem vir a desenvolver a consciência fonológica de uma LA por meio de sua língua natural (LN).

7

As escolas, em grande parte, não estão preparadas para recebê-los, pois as práticas de ensino em língua portuguesa e língua de sinais são incipientes.

Um projeto verdadeiramente bilíngue poderá dar conta dessa situação.

QUADRO 4 – POSSÍVEIS MEDIDAS PARA UMA EFETIVA EDUCAÇÃO BILÍNGUE PARA SURDOS

8

Geralmente, as metodologias são voltadas para o ensino de uma L1, ou seja, não são adequadas para esses aprendentes.

Uma pedagogia surda ou uma pedagogia da diferença deve contemplar uma metodologia adaptada às experiências perceptuais, cognitivas e práticas dos surdos.

9

Geralmente, não têm professores e interlocutores em L1, nem em L2, visto que a primeira não é promovida na escola inclusiva e a segunda é parcialmente praticada devido à necessidade de este aprendente receber input prioritariamente em material escrito.

A escola deve proporcionar ao surdo a interação com professores bilíngues, com modelos identitários surdos e com pares que se identifiquem em sua condição cultural e linguística.

10

Dificilmente poderá acessar a sociedade letrada, caso as condições acima apresentadas não sejam modificadas.

As medidas acima propostas podem permitir o real letramento do surdo e, com isso, proporcionar-lhe o seu direito à plena cidadania. Isso só será possível por meio de iniciativas de políticas públicas e linguísticas em âmbito nacional.

FONTE: Adaptado de Quadros e Schmiedt (2006)

A escrita de uma língua não é uma capacidade inata, a escrita é uma invenção, uma tecnologia que só faz sentido na interação social. A escrita cumpre uma função social, mas permite que esta inter-relação seja incorporada internamente. Como todo aparato tecnológico, a escrita não é uma aquisição natural, mas sistematizada e que, obrigatoriamente, precisa estar relacionada à experiência primeira de uma criança: a língua materna que é adquirida naturalmente na interação com a família e no círculo de convivência da criança.

Há de se considerar que o modelo de escrita do surdo não deve ser o do ouvinte, devido a todas as questões discutidas nas tabelas, é preciso criar “um método pedagógico que considere os diferentes processos de aprendizagem e níveis do desenvolvimento dos alunos [...]”, fazendo uso “[...] de uma forma de avaliação diferenciada, considerando as particularidades de cada indivíduo”

(FREITAS; CARDOSO, 2015, p. 162). Por exemplo, no que concerne à avaliação das produções escritas dos alunos surdos, os ‘desvios’ que eles apresentam em relação ao português podem estar vinculados à pouca fluência da Libras por parte dos professores, dificultando a atribuição de sentidos ao texto do surdo.

Em outras palavras, o aluno surdo apresenta o processo de interlíngua, ou seja, o aluno pega aquilo que sabe para fazer generalizações em L2, e o professor, desconhecendo esse fenômeno, avalia erroneamente a sua produção. O primeiro repertório linguístico de um surdo vai interferir no novo repertório até que as regras desse estejam totalmente conhecidas, e isso só é possível se o professor tiver uma boa metodologia para aproveitar o conhecimento que o aluno já

Com relação à metodologia de ensino de Libras como L1 não é diferente, precisamos repensar no que podemos aproveitar de todo o conhecimento que foi acumulado nas práticas de ensino das línguas orais, aplicando-os para o ensino de Libras. Entretanto, a modalidade exige que outros aspectos sejam considerados e, neste sentido, a Pedagogia Visual foi concebida, agora é necessário que a prática possa dar subsídios necessários para desenvolvê-la e transformá-la em uma metodologia de ensino para a criança surda. Ela precisa estar em igualdade de condições, assim como preconizam Freitas e Cardoso (2015, p. 160):

A igualdade diz respeito ao direito, mas não que todos vão se beneficiar dos mesmos métodos e procedimentos. Por isso, a inclusão fundamentada na neuropsicologia considera que a avaliação que proporcione a identificação dos limites e potencialidades do funcionamento cognitivo de uma criança é uma oportunidade para direcionar os processos de ensino e aprendizagem para as necessidades específicas, evitando assim a exclusão.

Em conclusão, é imprescindível que o aluno surdo não seja colocado em situação de desvantagem, em condição de handicap.

Com isso, encerramos a Unidade 2. Tenha um excelente estudo!

RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico, você aprendeu que:

• Em meados da década de 1980, a pesquisa em língua de sinais começava a despertar a sociedade para a necessidade do seu reconhecimento a fim de oferecer ao surdo o seu direito à educação e à acessibilidade. A partir desse momento, inicia-se uma militância que culmina na criação da Lei de Libras, gerando demandas de cursos para as quais foram necessárias ações emergenciais.

• Assim, no princípio, bem mais do que hoje, surgiram várias problemáticas, como a falta de capacitação de professores surdos para o ensino de L1; a falta de ter um currículo específico para a Libras; a falta de material pedagógico;

as falsas crenças de que basta ser fluente para ensinar uma língua; a falta de metodologias próprias para o ensino de Libras, entre outras.

• A Psicologia da Aprendizagem é uma disciplina muito importante para os cursos de licenciatura, uma vez que ela pode servir de guia para as ações e escolhas pedagógicas, reduzindo o número de incertezas e estimulando a reflexão referente às práticas profissionais. Ela permite despertar o senso crítico do professor para que ele desenvolva seu trabalho de forma que tenha um impacto durável na aprendizagem dos seus alunos.

• São diversas as teorias que podem embasar o trabalho do professor, evidentemente, nenhuma delas tem as respostas de que ele necessita, muitas delas possuem limitações e precisam ser reavaliadas, mas sempre há aspectos que podem ser aproveitados, ou então associados a outras abordagens.

• Associado a uma base epistemológica consistente, o projeto de ensino e aprendizagem serve para delimitar o trabalho em sala de aula, de forma planejada e com objetivos claros. A prática pedagógica precisa de um bom planejamento ou corre-se o risco de se perder na improvisação, mas também não deve ser muito estrita, uma vez que o contexto de sala de aula lança outros desafios que necessitarão de uma ação não prevista.

• O bilinguismo intermodal de surdos e ouvintes se desenvolve diferentemente, visto que cada um tem suas especificidades cognitivas e perceptivas. Conhecer essas diferenças ajudará no momento de se adequar uma boa metodologia de acordo com o tipo de aluno que vai recebê-la.

• O surdo tem direito à igualdade de condições, isso não significa que será utilizada a mesma metodologia, mas sim que precisamos eliminar de sua

1 De acordo com o conteúdo do tópico, responda:

a) Um Projeto de Ensino-Aprendizagem é o planejamento mais próximo da prática do professor e da sala de aula. Diz respeito mais estritamente ao aspecto didático. Quais são os elementos que ele deve conter?

b) Em que aspectos a linguagem verbal está associada à natureza humana?

c) Por que a escrita não pode ser considerada uma aquisição, mas uma aprendizagem?

d) O que é necessário para a aprendizagem de uma língua adicional?

e) Por que o bilinguismo do surdo pode ser considerado um caso atípico?

AUTOATIVIDADE

UNIDADE 3 FUNÇÕES COMUNICATIVAS E FUNDAMENTOS LINGUÍSTICOS E DISCURSIVOS DA LÍNGUA DE SINAIS

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

PLANO DE ESTUDOS

A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• estudar as funções comunicativas da linguagem verbal;

• aprender sobre os textos e gêneros discursivos;

• conhecer algumas estratégias de análises textual e discursiva;

• vislumbrar como a Linguística Aplicada pode contribuir para o estudo do ensino-aprendizagem do surdo;

• conhecer as diversas perspectivas da língua de sinais: gramática, expressi- vidade e funções comunicativas;

• entender a relevância da corporalidade na língua de sinais;

• conhecer e diferenciar alguns aspectos das narrativas em língua de sinais;

• investigar a função poética em língua de sinais;

• conhecer os fundamentos linguísticos e discursivos em língua de sinais;

• estudar a teoria de Cuxac sobre as estruturas altamente icônicas;

• discutir sobre a simultaneidade em língua de sinais;

• refletir sobre as estratégias dêiticas e anafóricas em língua de sinais.

Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você en- contrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 – FUNÇÃO COMUNICATIVA DA LINGUAGEM VERBAL TÓPICO 2 – EXPRESSIVIDADE E FUNÇÕES COMUNICATIVAS DA

TÓPICO 1

No documento CIÊNCIA E LINGUAGEM (páginas 147-157)