uma vez que, ao ser solicitada a copiar um desenho, ela o executava com precisão.
Esses resultados demonstravam as mesmas dificuldades que ouvintes com dano na área de Broca apresentam. Assim, verificou-se que as áreas de Broca e Wernicke são também ativadas para a língua de sinais, o que sugere que elas estariam implicadas no processamento da linguagem verbal, independentemente da modalidade (HICKOK; BELLUGI; KLIMA, 2002).
A seguir, entenderemos um pouco mais sobre a relação do cérebro com a surdez.
FIGURA 7 – EXEMPLO DE ATIVAÇÃO NEURAL OBTIDO POR NEUROIMAGEM EM RESSONÂNCIA MAGNÉTICA (IRMF)
FONTE: Disponível em: <https://goo.gl/TSNzpW>. Acesso em: 26 maio 2018.
DICAS
A expressão “potenciais evocados” corresponde às reações elétricas do cérebro a determinado estímulo, o que na neuroimagem é indicado por diferentes cores, como pode ser visualizado na figura anterior.
Atestadamente, haveria uma ‘compensação’, uma especialização da visão, permitindo a ampliação da visão periférica, espacial e do movimento no surdo usuário de língua de sinais (DWORCZAK, 2004), mas também no surdo que permanece no mundo da fala, como bem salienta David Wright (1969, p. 112 apud SACKS, 1998, p. 59)
Eu não percebo mais do que antes, porém percebo de um modo diferente. O que eu noto, e noto muito bem porque preciso fazê-lo, pois para mim isso compõe quase o total dos dados necessários para a interpretação e o diagnóstico dos eventos, é o movimento associado aos objetos; e no caso de animais e seres humanos, a postura, a expressão, o modo de andar e os gestos. [...] Por exemplo, assim como alguém que espera impacientemente um amigo terminar uma conversa telefônica com outra pessoa sabe quando ela está prestes a terminar pelas palavras ditas e pela entonação da voz, assim também um surdo — como uma pessoa que aguarda na fila do lado de fora da
a cabeça afastando-se um milímetro do receptor, um ligeiro mexer dos pés e aquela alteração de expressão que indica uma decisão tomada.
Isolado das pistas auditivas, ele aprende a ler os mais tênues indícios visuais.
Conforme o que evidenciou Wright, que ficou ensurdecido após adquirir a fala, mesmo não tendo aprendido a língua de sinais, ele percebeu uma diferença notável na sua percepção dos gestos humanos, sendo capaz de discriminá-los e reconhecer as intenções dos interlocutores. Provavelmente, o seu cérebro se reciclou de forma a tratar com os novos dados visuais provindos do meio e, na ausência de inputs auditivos, ampliou sua capacidade visual.
Com relação às intensificações da cognição do sujeito surdo, Neville buscou esclarecimentos sobre onde haveria reações elétricas no cérebro de um sujeito exposto a estímulos visuais periféricos. Assim, foram apresentados movimentos de sinais na região periférica desses sujeitos, a fim de verificar o comportamento cerebral por neuroimagem. A investigação indica que
Os surdos usuários da língua de sinais mostraram maior velocidade de reação a esses estímulos — associada a um aumento de potenciais evocados nos lobos occipitais do cérebro, as principais áreas de recepção da visão. Esses aumentos de velocidade e potenciais occipitais não foram observados em nenhuma das pessoas ouvintes estudadas, e parecem refletir um fenômeno compensatório: a intensificação de um sentido no lugar de outro (de modo semelhante, maiores sensibilidades auditivas podem ocorrer nos cegos) (SACKS, 1998, p. 59).
É sabido que os movimentos são essenciais à comunicação sinalizada e que, quando usamos a língua de sinais, é preciso olhar para o rosto do sinalizante.
Nessa circunstância, os movimentos de braços e mãos são recuperados pela visão periférica. Por isso, ouvintes que passam a fazer uso de uma língua sinalizada precisam desenvolver essa capacidade.
Na nota 76 do seu livro, Sacks (1998) narra que um experimento foi realizado com crianças ouvintes que estavam em fase de aprendizagem da língua de sinais no condado de Prince George, Maryland. Os resultados apontam que, à medida que se tornavam fluentes, essas crianças apresentavam uma significativa melhora na capacidade de leitura e em outras capacidades, reconhecendo mais facilmente as formas visuais das palavras e letras. O pressuposto é de que a língua de sinais favoreceria a intensificação da capacidade espacial-analítica.
Ouvintes adultos também afirmam ter ampliado o uso do corpo de forma mais livre e descontraída, além de desenvolver a capacidade de descrição visual mais refinada.
Em seu livro Os neurônios da leitura, Dehaene (2007) descreve as conexões neuronais envolvidas no reconhecimento das letras escritas, revelando que o cérebro não foi geneticamente equipado para reconhecer e tratar os segmentos discretos do sistema escrito, pelo contrário, a partir dos dados recebidos, o cérebro passou a se organizar de modo a aprender novas formas e estabelecer novas conexões relevantes que ligam essas formas às áreas existentes do reconhecimento de faces e objetos e da linguagem verbal. Isso corrobora com o exposto acima, pois evidentemente a aprendizagem da língua de sinais, ao favorecer a ampliação das habilidades espaço-visuais, pode melhorar as habilidades que envolvem outras formas visuais, como a discriminação das letras e, em consequência, a leitura de palavras e textos.
NOTA
Outra descoberta em estudos com neuroimagem indica que as pessoas surdas apresentam maior precisão para detectar a direção do movimento, especialmente quando esse ocorre no campo visual direito. Isso coincide com um aumento de potenciais evocados nas regiões parietais do hemisfério esquerdo.
Essas intensificações são encontradas igualmente nas crianças ouvintes filhas de pais surdos, conclui-se, então, que esse reforço da habilidade não é somente um efeito da surdez, como experienciado por Wright, mas da aquisição precoce da língua de sinais, haja vista que se exige uma percepção mais considerável dos estímulos visuais.
A expressão facial também é essencial para as línguas sinalizadas, exigindo do usuário a habilidade de discriminar rostos e reconhecer variações sutis de expressão que fazem parte da gramática dessa língua. Assim, além da capacidade de identificar os estados afetivos que são expressos facialmente, usuários de língua de sinais devem ser capazes de discriminar os valores linguísticos dos movimentos faciais. No intuito de investigar como se comporta a atividade neuronial de surdos e ouvintes, David Corina apresentou-lhes figuras com expressões faciais afetivas e linguísticas, medindo as reações com um taquistoscópio. Os resultados apontam que os ouvintes “processaram essas figuras no hemisfério direito, mas os surdos apresentaram predominância do hemisfério esquerdo na ‘decodificação’
das expressões faciais linguísticas” (Corina, 1989 apud SACKS, 1998, p. 103).
QUADRO 1 – SIGNIFICADO DE TAQUISTOSCÓPIO
FONTE: Disponível em: <http://www.dicionario10.com.br/taquistoscopio/>.
Acesso em: 28 maio 2018.
Como foi possível verifi car, o cérebro possui uma certa plasticidade para dar conta de novos dados perceptivo-visuais. Vale salientar que muitas das descobertas anteriormente descritas podem ser confi rmadas pelo estudo em sujeitos que apresentam lesões cerebrais. Verifi caremos como isso se dá em sujeitos sinalizantes, no próximo subtópico.