Nesta seção, vamos revisitar alguns dos aspectos gramaticais das línguas de sinais, iniciando uma reflexão sobre a importância de fornecer boas bases linguísticas aos nossos futuros aprendentes, surdos ou ouvintes. Para isso, faz-se necessário distinguir o que é e o que não é língua de sinais.
Até aqui, foi possível compreender como uma língua de sinais, motivada pelo uso de uma comunidade, passa dos aspectos gestuais idiossincráticos para uma estrutura mais evoluída, gramaticalizando-se. Do mesmo modo, uma língua só pode ser aprendida no uso regular e no contato assíduo com interlocutores proficientes nessa língua.
Ouvintes, por não estarem predispostos a uma aquisição natural, a não ser em raríssimos casos em que nascem em família surda, precisam estar imersos nas práticas linguageiras sinalizadas para um bom desenvolvimento linguístico.
Igualmente, crianças surdas precisam receber um ensino prioritariamente em uma língua de sinais desenvolvida e por usuários que sejam fluentes.
Pessoas ouvintes, ou mesmo surdas oralizadas, que não tiveram experiência suficiente com a língua de sinais ou receberam inputs de pessoas não fluentes, podem vir a desenvolver e, às vezes permanecer, em um código intermediário, que comumente é chamado de Português sinalizado. Esse fenômeno existe em vários contextos em que há contato linguístico entre uma língua oral e uma língua sinalizada. Por isso, há o inglês sinalizado, o francês sinalizado e outros.
Comparemos, então, a diferença entre Português/ Inglês/ Francês ou qualquer outra língua oral sinalizada e a Língua de sinais propriamente dita.
Acompanhe a tabela abaixo que teve como base o texto de Leila Boutora (2008).
Português / Inglês / Francês
sinalizados Línguas de Sinais
1 Varia conforme a situação e a
competência do usuário. Tem variações sociolinguísticas inerentes como em qualquer língua, mas geralmente foi normalizada e convencionada.
2 É uma interlíngua que pode ser um fenômeno natural na sinalização de iniciantes ou, ainda, pode ser uma espécie de pidgin.
É uma língua que já atingiu um processo histórico de estabilização gramatical.
3 Exclui os elementos espaciais, concentrando-se na linearidade da língua oral.
Os aspectos espaciais são ricos e produtivos nos diversos níveis:
fonológico, morfológico, sintático, semântico e discursivo.
4 A ordem dos sinais segue a
organização da língua oral. Tem sintaxe própria e se caracteriza pela espacialidade e simultaneidade.
5 A expressão facial é pouco ou
raramente usada. A expressão facial é importante para a distinção de significados no nível lexical, além de ser essencial para a gramática, como a topicalização, por exemplo.
6 Trata-se de uma estrutura com
lacunas. Estrutura linguística consolidada.
7 Atrapalha a compreensão dos
surdos. Favorece a compreensão dos surdos.
8 Evidencia-se o acréscimo de formas para a comunicação espontânea em situação de contato linguístico.
Permite neologismos que seguem as regras internas ao sistema linguístico.
9 Não é transmissível de uma
geração a outra. Totalmente transmissível entre gerações.
QUADRO 3 – COMPARAÇÃO ENTRE LÍNGUA ORAL SINALIZADA E LÍNGUA DE SINAIS
FONTE: Elaboração pela conteudista, a partir da leitura de Boutora (2008)
Vale ressaltar que o Português sinalizado não deve ser motivo de preconceito, pois, como se trata de uma interlíngua, é um fenômeno natural em processos iniciais de aprendizagem. Ele ocorre devido à interferência da língua materna que serve de trampolim para o desenvolvimento linguístico em segunda língua. Entretanto, se o aprendente não tiver a oportunidade de cursar aulas com qualidade e com boa metodologia de ensino e se não tiver contato consistente com usuários com certa competência, a condição pode perdurar.
Imprescindível alertar também para o fato de que a prática de português sinalizado não é adequada para servir de input na aquisição de linguagem nem para o ensino de crianças surdas, pois isso poderia dificultar ou tornar o processo de aquisição de conhecimento mais demorado.
Após essa breve explanação, vamos adentrar no aprofundamento de alguns aspectos gramaticais da Libras. Para isso, foi escolhido o tema sobre a marcação de plural.
Há diferentes formas de marcar a pluralidade, dependendo da intenção e do estilo discursivo que se adota: com a junção de dois léxicos, com repetição de movimento e ainda com o uso de classificadores. O primeiro exemplo fica mais próximo do português sinalizado, mas, mesmo assim, é muito usado, os outros dois modos são mais visuais, pois fazem uso de estratégias próprias da Libras, como o uso de classificadores e a exploração do espaço. Veja um exemplo de cada um nas figuras 6, 7, 8, 9 e 10.
FIGURA 6 – COMPOSIÇÃO LEXICAL PARA O PLURAL DE “PESSOA”
FONTE: Aplicativo Prodeaf. Acesso em: 31 jul. 2018.
O primeiro sinal é de PESSOA com a configuração de mão em
deslizando o dedo médio na testa, seguido do sinal MUITO, que se realiza com a mão semiaberta, repetindo o movimento de unir os dedos que se tocam nas pontas.
No segundo exemplo, verifica-se uma variação do sinal, que dessa vez tem a mão aberta com o dedo médio na perpendicular. O outro sinal é realizado com a mão espalmada, fazendo movimentos circulares no espaço neutro.
FIGURA 7 – COMBINAÇÃO DE SINAIS COM VALOR DE PLURAL
FONTE: Aplicativo Hand Talk. Acesso em: 31 jul. 2018.
O exemplo abaixo usa o mesmo sinal de PESSOA anterior, mas dessa vez utiliza o sinal de entidade, que é repetido quantas vezes forem necessárias. Mais de quatro vezes, infl ando as bochechas e cerrando um pouco os olhos, dá-se a noção de intensidade, por isso signifi ca que há realmente uma multidão. Essa estratégia é bem produtiva em Libras.
FIGURA 8 – COMBINAÇÃO DE SINAIS COM VALOR DE PLURAL, USANDO O MORFEMA DE ENTIDADE
FONTE: O Pequeno Príncipe. Timecode 1:20:00. Disponível em: <https://
youtu.be/foMiwFlVHCc>. Acesso em: 31 jul. 2018.
DICAS
Sempre que houver capturas de tela de vídeo, será fornecido o timecode em que é possível ver a cena cinemática, ou seja, na altura em que o vídeo estava sendo visualizado no momento em que o print foi feito. O timecode tem o seguinte formato 00:00:00 (os dois primeiros dígitos referem-se às horas; os segundos aos minutos e os terceiros aos segundos).
É aconselhável visualizar a sequência fílmica para ter uma boa compreensão de como os sinais são realizados.
Quando se trata de pessoas, as CMs podem ser usadas para indicar o número de referentes que se deseja mostrar. São chamados de classifi cadores de pessoa. Na fi gura a seguir, temos duas sequências que mostram essa possibilidade. Na primeira, vê-se uma pessoa e, na segunda, há várias pessoas (nesse caso também pode designar o coletivo CARAVANA). Na sequência da narrativa, a inclusão da segunda mão e a expressão labial remetem a várias pessoas que se deslocam em grupo.
FIGURA 9 – COMBINAÇÃO DE SINAIS COM VALOR DE PLURAL, CLASSIFICADORES COM SELEÇÃO DE DEDOS
FONTE: O Pequeno Príncipe. Timecode 01:19:48 e 2:20:09, respectivamente. Disponível em: <https://youtu.be/foMiwFlVHCc>.
Acesso em: 31 jul. 2018.
Uma outra possibilidade é o deslocamento da forma inicial no espaço, que se realiza por um morfema de movimento. Veja a fi gura a seguir, em que se estabelece o sinal ÁRVORE seguido de um deslocamento para o lado oposto, trazendo o signifi cado de várias árvores ou, ainda, numa extensão semântica, o substantivo FLORESTA.
FONTE: O Pequeno Príncipe. Timecode 00:02:43. Disponível em:
<https://youtu.be/foMiwFlVHCc>. Acesso em: 31 jul. 2018.
FIGURA 10 – EXTENSÃO DE MOVIMENTO COM VALOR DE PLURAL
Como vimos, há várias formas de marcar o plural que só é possível aprender na interação ou na pesquisa de vídeos registro em Libras, pois um dicionário difi cilmente especifi cará os aspectos espaciais envolvidos. Continuemos nosso aprendizado, estudando as próximas seções.