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3 MITOS SOBRE O SUJEITO SURDO

No documento CIÊNCIA E LINGUAGEM (páginas 113-117)

DICAS

Lembre-se de que o Congresso de Milão foi um evento que, em 1880, reuniu muitos instrutores de surdos a fim de discutir o futuro da sua educação, colocando em votação qual seria o método mais adequado a utilizar. Estavam presentes, sobretudo, eclesiásticos católicos que mantinham grande parte das escolas da época. Os melhores alunos surdos foram selecionados e levados para serem submetidos a testes diante do grande público. Ao demonstrar resultados positivos do método oral puro, muitos foram convencidos de que esse era o método mais ‘eficaz’ a adotar. Inclusive, a maioria desses alunos era surda pós- lingual, ou seja, já tinha experiência com a fala antes de perder a audição. Subentende-se, por esse fato, que não havia muita transparência nos propósitos ali discutidos, principalmente porque tudo indicava que havia uma trama política por trás dessa posição. As escolas católicas francesas temiam a decisão do Ministro da Instrução Pública que havia publicado um relatório intitulado ‘Escola laica e obrigatória para todos’ e a única forma de preservar a sua doutrina nos seus estabelecimentos era de estar ao lado do Ministro do Interior francês que se encontrava no evento e que cumpria ordens em defender o método oral puro. Os opositores dessa prática, sendo a minoria, ficaram impotentes ante o grande número que foi favorável à sua adoção (LEGENT, 2005).

Infelizmente, as repercussões do Congresso de Milão foram refletidas e refratadas em toda a Europa e Américas. Desde então, muitos mitos sobre o surdo e a língua de sinais vêm se perpetuando em nossa sociedade. Vale salientar que, como foi visto anteriormente, nem mesmo as mentes mais abertas, como a de l’Épée, estavam neutralizadas ao preconceito e à estigmatização do surdo e de sua língua. Apesar disso, conclui Legent (2005, s.p) que

graças à ação do Abade de l’Épée, os surdos e mudos [sic] não eram mais os excluídos. O Abade de l’Épée continua a figura emblemática da “mímica”, se bem que tenha aprendido “a língua natural de sinais”, por estar em contato com os surdos-mudos, mas que ele não ensinava.

No entanto, ele permitiu a difusão entre os surdos, reunindo-os e tolerando sua língua natural.

E atualmente, ainda persistem certos mitos? Esse será o foco dos próximos subtópicos.

DICAS

É sempre muito delicado falar sobre a surdez, a paralisia cerebral, a cegueira e outros impedimentos neurofisiológicos, uma vez que, mesmo sem intenção, acaba-se por rotular aqueles que as portam. Ao evitar o termo “deficiência” e toda a carga semântica negativa que ela carrega, escolho o termo anglófono e francófono “handicap”. Embora esse termo tenha sofrido modificações de sentido ao longo do tempo, carregando também uma conotação negativa, a sua etimologia, entretanto, revela uma visão menos preconceituosa na época em que foi criado. Handicap é um termo inglês que significa Hand in cap (mão no chapéu), que se referia a um jogo que tinha como propósito compensar as desigualdades de condições de certas pessoas para participar, de forma igualitária, das trocas de produtos e serviços. Assim, originariamente, estava relacionada a uma desvantagem do indivíduo em alguma transação comercial (século XVII) ou em uma competição esportiva (século XVIII).

Já no século XIX, uma noção negativa lhe é acrescida, a de inferioridade, que continuou até o século XX, agregando ainda a noção de enfermidade. No século XXI, sobretudo na França, não se usa o termo pessoa com handicap, mas pessoa em situação de handicap, ou seja, uma pessoa que enfrenta limitações em termos de atuação no seu papel social.

Esse termo foi acolhido pela Organização Mundial da Saúde em 1980. Esta pesquisa foi feita no site francês Handicap & Société, disponível em: <http://www.fondshs.fr/vie-quotidienne/

accessibilite/origines-et-histoire-du-handicap-partie-1> e no site da Associação Signes des Sens, disponível em: <https://www.signesdesens.org/wp-content/uploads/2015/09/

Participez-HandicapCulture2015-Valenciennois-etymologie-handicap.pdf>. Acesso em: 10 jul. 2018.

Serão apresentados, portanto, alguns mitos que envolveram, e que envolvem até hoje o surdo e sua especificidade psicofisiológica: a ausência ou restrição da audição. A surdez, segundo a perspectiva da qual é concebida, cria no imaginário social muitas representações negativas em relação à pessoa surda.

Por causa disso, o surdo já foi considerado como louco e, ao serem rejeitados por um sistema escolar inadequado às suas necessidades, foram internados em hospitais psiquiátricos, devido à ignorância em relação à surdez e à língua de sinais (VIROLE, 1996). Além disso, no meio religioso da época acreditava-se que o surdo não poderia ser salvo, pois era impedido de fazer a confissão de seus pecados. Apesar de existirem muitos outros estigmas, serão expostas com mais detalhes apenas as concepções que veiculam até hoje.

• A surdez concebida como patologia conduz à ideia de que o surdo é doente e precisa ser ‘curado’.

A concepção da surdez como patologia surge no final do século XVIII e início do século XIX, na Europa, exatamente no momento em que a educação de surdos começa a tomar uma orientação em direção a um ensino misto (oral e gestual/sinalizado) devido à iniciativa do abade de l’Épée. Esse modelo persiste mais do que nunca em todo o mundo até hoje e se concentra na falha do mecanismo auditivo, o que implica colocá-lo em funcionamento por meio de

uma correção. Para isso, não são medidos esforços para aperfeiçoar as técnicas reparadoras, conforme o que já foi discutido anteriormente quando foi tratado sobre o implante coclear.

• A surdez, quando associada à mudez, promove a interpretação errônea de que “todo surdo é mudo”.

O termo surdo-mudo estabelece uma relação que veicula uma falsa ideia.

Assim como a defi nição de um dicionário português do termo, como é possível observar na fi gura a seguir.

FIGURA 7 – DEFINIÇÃO DO TERMO SURDO-MUDEZ

FONTE: Surdo-mudez, 2003 – 2018

O surdo tem apenas impedimento no ouvido e não nas cordas vocais e aparelho fonador, por isso, o termo mudo foi abolido dessa composição, uma vez que todo surdo pode emitir sons e muitos até fazem uso da oralização, ou pelo menos, raríssimos são os casos em que ambos ocorrem juntos, por causas distintas. Na verdade, essa mudança ocorreu ainda no século XIX, quando, para defender sua tese de que surdos podiam falar, os próprios investigadores da anatomia, fi siologia e patologias do ouvido, os otólogos, que se dedicavam à oralização do surdo, propuseram a retirada. A palavras surdo-mudo e mudinho são pejorativas e não condizem com a realidade, ela implica uma representação de que o surdo não teria a linguagem verbal, que muitos associam somente com a fala. Entretanto, o termo surdo-mudo ainda é muito utilizado até hoje.

Outro fator que pode veicular mitos é a crença sobre a inferioridade de uns em relação a outros ou ainda a supremacia de uma língua hegemônica sobre uma língua minoritária.

A ausência da fala foi, muitas vezes, relacionada à ausência de pensamento e de inteligência e superior a qualquer outra modalidade expressiva.

“a língua falada e a audição são as condições sine qua non do desenvolvimento da inteligência” (ENCREVÉ, 2011, p. 26). Assim, os surdos e outras pessoas que não podiam usar a fala eram vítimas de preconceito. A língua de sinais torna possível o desmantelamento desse estigma, uma vez que por meio dela o surdo expressa os seus pensamentos, suas emoções, seus julgamentos de valor e verdade. Entretanto, se essa for alvo dos preconceitos, que veremos mais adiante, essa falsa crença pode ainda perdurar.

A partir do momento em que se sabe um pouco mais sobre o sujeito surdo:

que a maioria faz uso de amplificadores auditivos, que alguns usam o implante coclear e que outros usam a língua de sinais, são feitas generalizações como as seguintes:

• A leitura labial substitui a audição e todos os surdos são capazes de usá-la.

Não é verdade, a leitura labial é apenas um instrumento de complementação que pode ajudar na compreensão da fala, mas somente alguns surdos, salvo raras exceções, que fizeram terapias fonoaudiológicas, podem fazer as relações entre as articulações e determinadas pistas de significado, uma vez que não é a relação com os sons que é feita, mas com os traços visuais da articulação que podem remeter às palavras e, posteriormente, ao seu significado. Dependendo do contexto, da habilidade, do jeito de expressão do falante, essa compreensão não é superior a 30% do conteúdo total. Além disso, é um recurso que despende muita energia cognitiva, pelo fato de exigir bastante atenção, concentração e memória.

● Com uma aparelhagem correta, o surdo pode tornar-se ouvinte.

Nenhuma aparelhagem é suficiente para estabelecer a funcionalidade do ouvido humano. Tratam-se de medidas paliativas, mas não substitutivas. Os resultados são muito variáveis de pessoa para pessoa, porque estão em jogo a etiologia da surdez, o grau de surdez e de resíduo auditivo, o tipo de aparelhagem, a adaptação neurossensorial, entre outros.

● Todos os surdos comunicam-se com a língua de sinais.

Não, nem todos os surdos ou as pessoas com redução auditiva fazem uso da língua de sinais e isso por diversas razões: nunca estiveram em contato com a língua de sinais, entraram em contato, mas não a aderiram ao seu repertório oro-facial, não revelam interesse, vivem bem no estilo e se adaptaram à vivência oralizada e apoiada por gestos, entre outros motivos.

Esses são apenas alguns dos estigmas e falsas crenças dos quais o surdo é alvo. A seguir, informações adicionais serão fornecidas, dessa vez, referentes aos mitos sobre a língua de sinais, que, inevitavelmente, refratam sobre os seus próprios usuários.

No documento CIÊNCIA E LINGUAGEM (páginas 113-117)