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Alimentação infantil: além dos aspectos nutricionais.

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www.jped.com.br

ARTIGO

DE

REVISÃO

Infant

feeding:

beyond

the

nutritional

aspects

Giselia

A.P.

Silva

a,∗

,

Karla

A.O.

Costa

a

e

Elsa

R.J.

Giugliani

b

aProgramadePós-Graduac¸ãoemSaúdedaCrianc¸aedoAdolescente,UniversidadeFederaldePernambuco(UFPE),

Recife,PE,Brasil

bDepartamentodePediatria,UniversidadeFederaldoRioGrandedoSul(UFRGS),PortoAlegre,RS,Brasil

Recebidoem15dejaneirode2016;aceitoem27dejaneirode2016

KEYWORDS

Responsivefeeding; Parentalfeedings practices; Parentingstyles; Infantfeeding

Abstract

Objective: Todrawattentionto theimportanceofinteractionbetweencaregiverandchild duringfeedingandtheinfluenceofparentingstyleondietaryhabitformation.

Sourceofdata: A search was performed in the PubMed and Scopus databases for articles addressing responsive feeding; the articles considered most relevant by the authors were selected.

Synthesisofdata: Thewaychildrenarefedisdecisivefortheformationoftheireatinghabits, especiallythestrategiesthatparents/caregiversusetostimulatefeeding.Inthiscontext, res-ponsivefeedinghasbeenemphasized,withthekeyprinciples:feedtheinfantdirectlyandassist olderchildrenwhentheyalreadyeatontheirown;feedthemslowlyandpatiently,and encou-ragechildrentoeatbutdonotforcethem;ifthechildrefusesmanytypesoffoods,experiment withdifferentfoodcombinations,tastes,textures,andmethodsofencouragement;minimize distractionsduringmeals;andmakethemealsanopportunityforlearningandlove,talking tothechildduringfeedingandmaintainingeyecontact.Itisthecaregiver’sresponsibilityto besensitivetothechild’ssignsandalleviatetensionsduringfeeding,andmakefeedingtime pleasurable;whereasitisthechild’sroletoclearlyexpresssignsofhungerandsatietyandbe receptivetothecaregiver.

Conclusion: Responsivefeeding isvery importantindietary habit formation andshould be encouragedbyhealthprofessionalsintheiradvicetofamilies.

©2016SociedadeBrasileiradePediatria.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Thisisanopen accessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense(http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/ 4.0/).

DOIserefereaoartigo:

http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2016.02.006

Comocitaresteartigo:SilvaGA,CostaKA,GiuglianiER.Infantfeeding:beyondthenutritionalaspects.JPediatr(RioJ).2016;92(3 Suppl1):S2---7.

Autorparacorrespondência.

E-mail:[email protected](G.A.P.Silva).

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PALAVRAS-CHAVE

Alimentac¸ão responsiva;

Práticasalimentares parentais;

Estilosparentais; Alimentac¸ãoinfantil

Alimentac¸ãoinfantil:alémdosaspectosnutricionais

Resumo

Objetivo: Chamaraatenc¸ãoparaaimportânciadainterac¸ãoentrecuidadorecrianc¸adurante aalimentac¸ãoeainfluênciadoestilodeparentalidadenaformac¸ãodohábitoalimentar.

Fontesdosdados: FoifeitabuscanasbasesdedadosPubMedeScopusdeartigosque abordas-semaalimentac¸ãoresponsivaeforamsidoselecionadosaquelesjulgadosmaisrelevantespelos autores.

Síntesedosdados: Omododealimentarascrianc¸asédecisivonaformac¸ãodohábito alimen-tar,sobretudoasestratégiasqueospais/cuidadoresusamparaestimularaalimentac¸ão.Nesse contexto,aalimentac¸ãoresponsivatemmerecidodestaque,tem comoprincípios-chave: ali-mentaracrianc¸apequenadiretamenteeassistirasmaisvelhasquandoelasjácomemsozinhas; alimentarlentaepacientementeeencorajaracrianc¸aacomer,masnãoforc¸á-la;seacrianc¸a recusarmuitosalimentos,experimentardiferentescombinac¸õesdealimentos,degostos, tex-turas emétodos de encorajamento;minimizardistrac¸ões duranteas refeic¸ões;e fazerdas refeic¸õesoportunidadesdeaprendizadoeamor,falarcomacrianc¸aduranteaalimentac¸ãoe mantercontatoolhoaolho.Cabeaocuidadoraresponsabilidadedesersensívelaossinaisda crianc¸aealiviartensõesduranteaalimentac¸ão,alémdetorná-laprazerosa;enquantoépapel dacrianc¸aexpressarossinaisdefomeesaciedadecomclarezaeserreceptivaaocuidador.

Conclusão: Aalimentac¸ãoresponsivaémuitoimportantenaformac¸ãodoshábitosalimentares e deve serincentivada pelosprofissionais desaúde, que orientarão asfamíliassobre como praticá-la.

©2016SociedadeBrasileiradePediatria.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eumartigo OpenAccesssobumalicenc¸aCCBY-NC-NDlicense( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

Introduc

¸ão

Aalimentac¸ãoinfantiléumtemaquenosúltimosanostem despertado grande interesse em várias áreas do conheci-mentoporenvolverdiferentesaspectosalémdos nutricio-nais.Oconhecimentodasrepercussõesimediatasedelongo prazodeumaalimentac¸ãoinadequadatemcontribuídopara abuscademelhorentendimentodecomoohábito alimen-taréformadoechamadoaatenc¸ãoparaaimportânciadas práticasalimentaresnosprimeirosanosdevida.1,2

Os hábitos alimentares são influenciados por inúme-ros fatores de ordem genética, socioeconômica, cultural, étnica, religiosa, entre outros. Com início já no período gestacional, por meio do contato do feto com o líquido amniótico,3 a formac¸ão dos hábitos alimentares continua

duranteainfância,sobretudonosprimeiros2-3anosdevida, eirásofrerinfluênciadediferentesfatoresaolongodavida: família,amigos,escola,mídia.4---7

Oslactentes,devidoasuaimaturidadebiológica, depen-demtotalmentedeoutraspessoasparasealimentar.Essas pessoas,especialmenteasmães,porserasprincipais cui-dadorasdascrianc¸as,têmpapelfundamentalnaconstruc¸ão do hábito alimentar infantil. Além de decidir o que as crianc¸asirão comer,elasdeterminamcomo acrianc¸aserá alimentada.4,6

Ainterac¸ãoentreamãe/cuidadoreacrianc¸aduranteo atodealimentar/seralimentadotemsidonosúltimosanos focodeinteresseempesquisa,poiscaracterísticasdo cui-dadoredecomoeleserelacionacomacrianc¸aimpactam diretamentenaformacomoacrianc¸airálidarcomos ali-mentos.Nessaperspectiva,oshábitosdevidadospais,os estilosparentaiseaformacomoelesinteragem comseus filhossãoimportantesparaaformac¸ãodoshábitos alimen-taresinfantis.4,8,9

Nocontextodaalimentac¸ãoinfantil,ainterac¸ãodurante arefeic¸ão podeterduas vertentes:positivae negativa.A vertentepositivacorrespondeàalimentac¸ãodotipo respon-siva,naqual,paraBlack&Aboud,10‘‘devehaveratenc¸ãoe

interessenaalimentac¸ãodacrianc¸a;atenc¸ãoaosseussinais internosdefomeesaciedade;asuacapacidadede comuni-car suas necessidades com sinais distintos e significativos e a progressão bem-sucedida para alimentac¸ão indepen-dente’’.Avertentenegativa,porsuavez,podeserchamada de alimentac¸ão sem resposta, caracterizada por falta de reciprocidade entre o cuidador e a crianc¸a, pois a cada momentoumdos dois atoresenvolvidos torna-se domina-dornasituac¸ãoalimentar,ouseja,oraocuidadorassumeo controleedomina,oraacrianc¸acontrolaasituac¸ão;ouo cuidadorignoraacrianc¸a.

Nestarevisão,oobjetivoserámostrarcomoainterac¸ão entrecuidadorecrianc¸aduranteaalimentac¸ãoeoestilode parentalidadeinfluenciamnaformac¸ãodohábitoalimentar.

Alimentac¸ãocomplementar:alémdosaspectos nutricionais

Oshábitosalimentares nos primeiros anos irão repercutir de diferentesformas ao longo de toda a vida dos indiví-duos. No primeiro semestre de vida recomenda-se que a crianc¸asejaamamentadaexclusivamente,poisduranteesse períodooleitematernoéoúnicoalimentocapazde aten-der a todasas necessidades nutricionais e emocionais do lactente,alémde proporcionar intensovínculomãe-filho. Alémdisso,especula-seaexistênciadeassociac¸ãopositiva entredurac¸ãodoaleitamentomaternoexclusivoeconsumo dedietamaissaudávelemfasesposterioresdainfância.11

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nutricionaisdacrianc¸ajánãosãomaisalcanc¸adas,é neces-sária a introduc¸ão gradual de outras fontes alimentares, pormeiodosalimentoscomplementares.11,12 Adurac¸ãoda

amamentac¸ão, cuja recomendac¸ão é de 2 anos ou mais, tambémpareceinfluenciarhábitosalimentaresfuturos.11

Ultimamente,emtodoomundo,tem-seobservadomaior incentivo à prática adequada de introduc¸ão dos alimen-tos complementares; porém, os avanc¸os nesse sentido ainda são incipientes quando comparados, por exemplo, com a promoc¸ão da amamentac¸ão.13 Essa constatac¸ão é

corroborada por estudos que mostram a alta prevalên-ciade alimentac¸ão complementarinadequada, taiscomo, segundo o Comitê de Nutric¸ão da Sociedade Europeia deGastroenterologia,HepatologiaeNutric¸ãoPediátrica:14

introduc¸ão precoce de alimentos, como o leite de vaca integral;alimentoscom consistênciainapropriada e baixa densidadecalórica;baixabiodisponibilidadede micronutri-entes; oferta insuficiente de frutas, verduras e legumes; contaminac¸ão no preparo e armazenamento dos alimen-tos; acréscimode carboidratos simplesao leite; e oferta dealimentosindustrializadosricosemcarboidratossimples, lipídeosesal,consumidoscomfrequênciapelafamília.

Não há dúvidas de que uma alimentac¸ão saudável é fundamentalnapromoc¸ãodesaúdedacrianc¸a.Daía neces-sidadede se analisarem os vários aspectos envolvidos na alimentac¸ão infantil, osquais vão determinar as práticas alimentares,que,porsua vez,sãoumreflexodepráticas sociaiseculturais.7,15

A prática alimentar do lactente, caracterizada funda-mentalmentepeloaleitamentomaternoe pelaintroduc¸ão denovosalimentos,sofreforteinfluênciadocontexto fami-liar. Nesse, a mãe tem papel predominante, por ser a principalresponsávelpeloscuidadoscomacrianc¸a.Aforma como ela cuida doseu filho é determinantepara a saúde desse e se relaciona com o seu grau de escolaridade, as informac¸ões recebidasacercade saúdepelos profissionais e/oumídia,oapoiosocialrecebido,bemcomoa disponibi-lidadeparacumpriropapeldecuidadora.2,15---18

Outrofatoraserconsideradoéaadequac¸ãodos alimen-tos--- variedade, consistência, textura ---bem como o uso decopoe colher,respeitar odesenvolvimentodacrianc¸a. Éimportanteestimulá-la,apartirdecertaidade,ase ali-mentarcomasprópriasmãos.19

Dopontodevistadacomposic¸ãonutricional,nãoé reco-mendadaaintroduc¸ãodealimentoscomaltosteoresdesal eac¸úcarrefinadoeexcessodegordurassaturadas,alémdos industrializados,sobretudoosultraprocessadoseos consi-deradossupérfluos,oque incluiosdoces easguloseimas. Éconsensualqueaintroduc¸ãodefrutas,legumese verdu-rasnoprimeiroanodevidacontribui paraainstalac¸ãode hábitosalimentaressaudáveis.20,21

Àmedidaqueacrianc¸acresce,eladefinesuas preferên-ciasalimentares;daí aimportância deseestimulardesde oinícioumaalimentac¸ãovariada,adequadaequereflitaa culturaalimentarregional.7,19,20

A famíliatem papel decisivo na forma como acrianc¸a iráaprenderasealimentar,sobretudopelasestratégiasque ospais/cuidadores usam paraestimular aalimentac¸ão. O reconhecimento dossinais de fomee saciedadee a com-preensãoacercadacapacidadedeautocontroledacrianc¸a pequenaemrelac¸ãoàingestãoalimentarcontribuempara aformac¸ãodeumcomportamentoalimentaradequado.2,15

Esseprocesso,comojáfoidito,seiniciaprecocementeese estabeleceaolongodosprimeirosanosdevida.

A Organizac¸ão Mundial da Saúde22 adota os seguintes

princípios para a alimentac¸ão complementar saudável de crianc¸asemaleitamentomaterno:

1. Praticaraleitamentomaternoexclusivodonascimento aos6mesesdeidadee,após,introduziralimentos com-plementares,masmanteroaleitamentomaterno. 2. Continuar com o aleitamento materno em livre

demanda,frequente,atéos2anosoumais.

3. Praticaralimentac¸ãoresponsiva,aplicaroprincípiode cuidadopsicossocial.

4. Praticarboahigieneemanipulac¸ãoapropriadados ali-mentos.

5. Iniciaraos6mesescompequenasquantidadesde ali-mentoseaumentaraquantidadeàmedidaqueacrianc¸a cresce,masmanteramamentac¸ãofrequente.

6. Aumentar gradualmente a consistênciae variedade à medidaqueacrianc¸acresce,adaptaraos requerimen-tosehabilidadesdacrianc¸a.

7. Aumentaronúmerodevezesquea crianc¸aé alimen-tadacomalimentoscomplementaresàmedidaqueela cresce.

8. Alimentarcom umavariedadedealimentosnutritivos paraassegurarque todasasnecessidadesnutricionais sejamatingidas.

9. Usar alimentoscomplementares fortificadosou suple-mentosvitamínicosparaacrianc¸a,senecessário. 10. Aumentar a ingestão delíquidos durante asdoenc¸as,

incluindoaleitamentomaternomaisfrequente,e enco-rajaracrianc¸aacomeralimentosprediletos,macios. Apósadoenc¸a,ofereceralimentoscommaisfrequência queohabitualeencorajaracrianc¸aacomermais.

Observa-seque umdos princípios é dedicado ao modo dealimentaracrianc¸a,talaimportânciaqueédadaaesse aspecto.Ainterac¸ãoentreapessoaquealimentaacrianc¸a eessavaideterminarseaalimentac¸ãoéresponsivaounãoe iráinfluenciaroshábitosalimentaresearelac¸ãodacrianc¸a comosalimentos.

Interac¸ãoentrepais(cuidadores)efilhos:oato dealimentareseralimentado

A forma como se dá a interac¸ão entrepais/cuidadores e filhosnosprimeirosanosdevidarepercutepositivaou nega-tivamentenanutric¸ãoenocrescimentoedesenvolvimento cognitivoesocialdacrianc¸a.1,4,10,23,24

O comportamento e a interac¸ão que ocorrem durante o momento da refeic¸ão entre mãe-filho/cuidador-crianc¸a foi tipificado como responsivo, autoritário e passivo. Os dois últimos caracterizam a alimentac¸ão não responsiva. Oestiloresponsivoestámaisassociadoàformac¸ãode práti-casalimentaresadequadas,assimcomoodesenvolvimento daautorregulac¸ãodoapetitepelacrianc¸a.25,26

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alimentac¸ão, quandoo cuidador apresentacapacidade de respostaecomportamentoativo,diz-sequeaalimentac¸ãoé dotiporesponsivaousensível,definidaporBlack&Aboud10

como a ‘‘reciprocidade entre a crianc¸a e o cuidador’’. Nessetipodealimentac¸ão, acrianc¸asinalizapormeiode movimentos,expressõesfaciaise vocalizac¸ões;ocuidador reconhece os sinais e responde prontamente sob a forma de apoio;a crianc¸a percebeque houve respostaaos seus sinais,estabelece-se umacomunicac¸ão intermediada pela linguagemverbalenãoverbal.

Algunsdoscomponentesdaalimentac¸ãoresponsivaque sãoeficazeseestimulamaingestãodealimentoseincluem: responderpositivamenteàcrianc¸acomsorrisos,fazer con-tatovisualeusarpalavrasdeincentivo;alimentaracrianc¸a lentaepacientemente,combomhumor;esperaracrianc¸a parar de comer e observar atentamente se a crianc¸a expressasinaisdesaciedade;ofereceralimentosparaquea crianc¸apossasealimentarsozinha.27

Éimportanteanalisarocontextoemqueaalimentac¸ão dacrianc¸aocorre,demodoa propiciarumambiente pra-zeroso.Para isso,é necessáriocriarcondic¸õesparaque a crianc¸a desenvolva interesse em se alimentar, taiscomo: sentir-seconfortável;nãohaverdistrac¸ão;refeic¸ãoservida emlocaladequado;cuidadorplenamenteenvolvidonoato e, depreferência,em posic¸ão facea facecoma crianc¸a; alimento saudável e com boa apresentac¸ão, de forma a permitir à crianc¸a distinguir diferentes sabores e textu-ras; alimentos saudáveis para todos quando a refeic¸ão é compartilhada.28

Dessaforma,pode-sedizerqueainterac¸ãoalimentaré plena quando osenvolvidos conseguem expressar os seus sinaiseooutroosreconhecer.Paraocuidadorocorrequando ele alimenta a crianc¸a de forma bem-sucedida e para a crianc¸a quando ela é capaz de ter autonomia alimentar, atravésdaemissãodesinaisquereflitamseusdesejos,de forma clara,o que permite que ela própria regule o cui-dado que recebe, constitui dessa forma uma vinculac¸ão altamenteinterativa.29Mentroecol.30descreveramos

atri-butosessenciaisdeumaalimentac¸ãoresponsivaótimapor parte da crianc¸a. São eles: contato visual com o cuida-dor, como indicado pela abertura dos olhos e fixac¸ão do olharnocuidador;expressãoagradáveldeafetoaocuidador, como evidenciado por sorriso; expressão de vocalizac¸ões agradáveis dirigidas para o cuidador, tal como evidenci-adopela ausência dechoro ouirritac¸ão; respostamotora àstentativasdealimentac¸ão, comoevidenciadopela pos-turarelaxada,movimentostranquilosemoldagemaocorpo do cuidador. A existência desses atributos contribui para uma interac¸ão positiva entre cuidador/crianc¸a durante a alimentac¸ãodacrianc¸a.

Outro aspecto que deve ser considerado é o compar-tilhamento das refeic¸ões. Nos dias atuais, é um desafio estimularascrianc¸as paraque,nofimdoprimeiroanode vida,fac¸amsuasrefeic¸õesjuntocomosdemaismembrosda famíliae compartilhem docardápio familiar, quandoesse é adequado. Arefeic¸ão familiar é um hábito que vem se tornando raro nomundo contemporâneo. Outro fato pre-ocupante é observar que com frequência a crianc¸a e os adultostêmasuaatenc¸ãodesviadaduranteaalimentac¸ão, porse alimentar assistindo televisão oumanuseando apa-relhos eletrônicos. Isso contribui para que a sinalizac¸ão dasaciedadepelacrianc¸asejanegligenciada.Além disso,

sabe-seque oestímulodepropagandasrelacionadasa ali-mentosnãosaudáveistemmaiorimpactoquandoveiculadas duranteasrefeic¸ões.2,20,31,32

AOMS22elaborouquatropontos-chaveparacaracterizar

osprincípiosdaalimentac¸ãoresponsivaeenfatizaqueo ali-mentodacrianc¸adeveserservidoempratoseparado,para queamãeououtrapessoaqueestejaalimentandoacrianc¸a possaveroquantodealimentoelaestáingerindo.Sãoeles:

1. Alimentar a crianc¸a pequena diretamente e assistir as crianc¸asmaisvelhasquandoelasjácomemsozinhas. Ali-mentar lentae pacientementee encorajara crianc¸aa comer,masnãoforc¸á-la.

2. Se a crianc¸a recusar muitos alimentos, experimentar diferentescombinac¸õesdealimentos,degostos, textu-rasemétodosdeencorajamento.

3. Minimizar distrac¸õesdurante as refeic¸ões sea crianc¸a perdeinteressefacilmente.

4. Lembrar que a hora daalimentac¸ão deveser períodos deaprendizadoe amor---falar comacrianc¸adurantea alimentac¸ão,mantercontatoolhoaolho.

Algumas pesquisas têm abordado as consequências da alimentac¸ãonãoresponsiva,emqueoscuidadoressão pou-cossensíveisereceptivosaossinaisdacrianc¸a,oquegera falta de estímulo à alimentac¸ão. Isso ocorre quando os cuidadoresassumemo controledaalimentac¸ão,não reco-nhecem ou valorizam os sinais emitidos pela crianc¸a em relac¸ãoàfomeesaciedade.Poroutrolado,ocuidadorpode se tornar negligente ou permitir que a crianc¸a domine a situac¸ão,pornãoentenderouvalorizarasexpectativasda crianc¸a.4,8,15,33

Quandoarecusadacrianc¸aasealimentaré entendida comoumarejeic¸ãoeelaéobrigadaaconsumirarefeic¸ão, podehavertensãoefrustrac¸ão,tantoparaquemalimentaa crianc¸aquantoparaela.Nessasituac¸ão,cadaumexpressa umdesejo quenãoé compreendido pelooutro, acrianc¸a perdesuaautonomiaeospaissefrustrampornão concluí-rema tarefa de alimentar o filho. Comoconsequência, a crianc¸a pode deixar de valorizar os seus estímulos inter-nos de saciedade e perder o interesse em se comunicar com os pais. Esse fato também pode contribuir para um comportamentoobservado com relativa frequência e que secaracterizapelareac¸ãonegativa aexperimentar novos sabores,aneofobia.7,15

Outroaspectoquemerecesermencionadoéofatodea alimentac¸ão nãoresponsiva contribuirtanto parao rápido ganhodepesoe,consequentemente,excessodepeso,seja nainfânciaouna idadeadulta,comoparaainstalac¸ãode déficits nutricionais, se o cuidador não ficar atento para ossinaisdefome e saciedadeemitidospelacrianc¸a. Tem sido relatado que o cuidador de crianc¸as menores de 2 anos responde melhor à sinalizac¸ão da fome do que da saciedade.5,8,26,29,30

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de sua preferência, nem sempre adequados do ponto de vista nutricional.1 Daí a importância do apoio dos

profis-sionais de saúde no sentido de esclarecer e informar as reac¸ões esperadas nesse momento e ajudar a superar as dificuldades.34 Em média,são necessárias nomínimo oito

exposic¸õesaumalimentoinicialmenterejeitadoparaque elesejaaceitopelacrianc¸a.35

Estilosparentaisnocuidadoealimentac¸ãoinfantil

Parentalidade é entendida como um conjunto de com-portamentos que objetivam garantir a sobrevivência e o pleno desenvolvimento da crianc¸a, o que permite a ela maior seguranc¸a e autonomia. Não depende apenas de fatores individuais, pois sofre influência direta do meio sociocultural.10,29,36

Tornar-sepaioumãepodeserumdosmaisexigentese desafiadorespapéissociaisqueosindivíduosencontramnas suasvidas,fatoquelevaaumconjuntoderespostas,sejam comportamentais, cognitivas e emocionais, que exigem a adaptac¸ãoparaumnovopadrãodevida.36

Em 1961, Recamier propôs, a partir do termo mater-nidade, o neologismo parentalidade. Porém, por maisde 20anosessetermoficouemdesuso,reapareceuem1985, quando René Clement definiu como ‘‘estudo dos vínculos deparentescoedosprocessospsicológicosquese desenvol-vemapartirdaí[ressaltandoqueaparentalidade]necessita deumprocessodepreparac¸ão,atédeaprendizagem’’.37A

partirdasuadefinic¸ão,pode-seentenderquea parentali-dadenãoéapenasagerac¸ãobiológicadeumfilhoenemas representac¸õessociaisdeserpaioumãe,maséumprocesso complexo,dinâmico, integrador, consciente e, por vezes, inconsciente.Exigemudanc¸aseadaptac¸õesquenecessitam deinvestimento emocional, poisos paisdevem conhecer, saberedesejarcuidardosfilhos.38

A necessidade de entender as questões do comporta-mento dos pais em relac¸ão aos filhos, seja no aspecto alimentar ou geral, tem estimulado novas abordagens quantoaessatemática.6,9,10,17,31,36

Hádécadas,foi introduzidona literaturaoconceitode estilosparentais.4Nessaperspectiva,Gomide39descreveos

estilosparentaiscomoum‘‘conjuntodeatitudeseducativas queoscuidadoresirãoadotarcomacrianc¸a,comoobjetivo deeducar,socializarecontrolar’’.Setepráticaseducativas compõemo estilo parental:cinco estão relacionadascom o comportamentoantissocial (negligência, violênciafísica epsicológica, disciplinarelaxada,punic¸ão inconsistentee monitorianegativa)eduasaodesenvolvimentode compor-tamentospró-sociais(monitoriapositivaecomportamento moral).

Aprimeirapráticapositivadizrespeitoàatenc¸ãoaolocal ondeofilhoestáeaatividadequeexerce,bemcomooapoio eafetodadopelospais.Asegundacontemplaasatitudesdos paisquetransmitemjustic¸a,responsabilidade,valores cul-turalmenteaceitosqueauxiliamnodiscernimentodocerto eerrado.

A prática negativa da negligência envolve ausência de atenc¸ão e afeto, falta de atenc¸ão dos pais às necessida-des dos filhos, ausentam-se assim da responsabilidade. A violênciacompreendeousodeameac¸a,chantageme cas-tigos,sejamfísicosoumorais.Aterceirapráticaantissocial (disciplinarelaxada)implicaonãocumprimentodasregras

preestabelecidas. Ospais ameac¸am, mas nomomento de aplicac¸ão das regras cedem aos filhos. A quarta prática ocorrequandoohumordospaisinterferenocomportamento para punir ou reforc¸ar as atitudes dos filhos; assim, é o estadoemocionaldos paisquedeterminaasac¸ões educa-tivas,enãoasac¸õesdacrianc¸a.Amonitorianegativa,por sua vez,compreende oexcesso deregras e a fiscalizac¸ão porpartedospaiseonãocumprimentodelaspelosfilhos, oquecriaumclimadehostilidadeefaltadediálogo.

Pode-seassimconstatarqueotiporesponsivoounãode alimentac¸ãoadotadopelospaisestádiretamenteassociado aotipodecuidadoparental.Observa-sequeosestilosque parecemmaisassociadosaprejuízosalimentaresdacrianc¸a sãoosqueserelacionamaformascontroladorase/ou negli-gentes.Poroutrolado,oestiloparentaldeapoiopareceser positivo,poisbuscaentenderossinaisedesejosinternosdo filho e estimulasua integrac¸ão como meiosocialao qual estáinserido.7,31,36,40---43

Aoanalisaremconjuntoaspráticasdesocializac¸ão, res-ponsividade materna e escolaridade e renda, percebe-se que aeducac¸ão ea condic¸ão geral desaúdematernasão essenciais no processo de cuidado. Estudos mostram que quantomaioraescolaridade,maiorapercepc¸ãoacercado desenvolvimentoinfantil e menosconflituosasas relac¸ões comosfilhos,oquegerapráticasmenospunitivas, coerci-tivas enegligenciais.A baixarenda,abaixa escolaridade, a violência doméstica explicam a maior vulnerabilidade das famílias a não adotar um cuidado mais responsivo e atencioso.6,8,18,41,42

Considerac¸õesfinais

Nãosóo queacrianc¸acome éimportante,comotambém como,quando,ondeequemaalimenta.Cadavezmaistem sidodadaadevidaimportânciaàinterac¸ãoentreapessoa quealimentaacrianc¸aeela.Essainterac¸ãodeveresultar nachamadaalimentac¸ãoresponsiva,cabeaocuidadora res-ponsabilidadedesersensívelaossinaisdacrianc¸aealiviar tensõesduranteaalimentac¸ão,alémdefazerdasrefeic¸ões momentosagradáveis;enquantoépapeldacrianc¸a expres-sarossinaisdefomeesaciedadecomclarezaeserreceptiva àstentativasdealimentac¸ão.

Aalimentac¸ãoresponsivadevesermaisvalorizadapela família,profissionais desaúdeeformuladoresdepolíticas públicasemsaúde.Aosprofissionaisdesaúdecabeorientar asfamíliascomo praticá-la,o queexigedelesiralémdas questõesmaisgeraisem relac¸ãoàalimentac¸ãoeprocurar entenderainserc¸ãosociocultural dafamíliaeosaspectos psicossociaisdocuidadorparafazerumaorientac¸ão indivi-dualizada.Aosformuladoresdepolíticaspúblicascabedar maisdestaqueaomododealimentarascrianc¸as.

Conflitos

de

interesse

Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.

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