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Ciênc. saúde coletiva vol.8 número4

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Academic year: 2018

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1 Pontifícia Universidade Católica de Campinas. lilian vm @terra.com .br

Enfrentando a globalização:

construin-do o novo, muito além construin-dos protestos

Challen gin g globalization : buildin g the

new era beyond protests

Lilian Vieira M agalhães

1

A gestação do novo, na história, dá-se,

freqüente-mente, de modo quase imperceptível para os

con-temporâneos, já que suas sementes começam a se

impor quando ainda o velho é

quantitativamen-te dominanquantitativamen-te. É exatamenquantitativamen-te por isso que a

“qua-lidade” do novo pode passar despercebida

(Mil-ton Santos, 2000).

A análise proposta pelos autores oferece ex-celente oportunidade para aprofundar um da-queles temas sobre os quais todos temos, de um jeito ou de outro, uma posição, até porque esta-mos todos submetidos aos seus efeitos, seja no plano das nossas vidas cotidianas, seja porque o espaço acadêm ico tem constituído um espaço privilegiado para a sua legitimação/questiona-mento.

O artigo propõe uma discussão do impacto da cham ada

globalização por cim a

, delineando suas formas de difusão e sublinhando seus im-pactos perversos. A partir dessa análise, o estu-do se propõe a identificar eventuais movimen-tos de resistência ao referido m odelo, buscan-do altern ativas ao aprofu n dam en to das desi-gualdades geradas nesse processo.

Seguin do o eixo de an álise proposto pelos autores, a prim eira observação que m e parece opor tu n a diz respeito à n ecessidade de um m aior detalham ento da própria noção de glo-balização, a partir de sua contextualização his-tórica.

Con form e n os m ostra Arrighi (2003), há pelo m enos três outros períodos de globaliza-ção política e econôm ica no últim o m ilênio: o Império Mongol no século 13, a expansão mili-tar e com ercial européia que ligou o Ocean o Índico ao Caribe no século 16, e o impulso im-perialista europeu do século 19, que colocou 4/5 dos territórios mundiais sob seu domínio.

No entanto, é forçoso reconhecer que a pre-sente onda contém um elemento inovador que exige reflexão, pois, ao transpor os lim ites pu-ramente econômicos para se tornar um dogma atem poral, a globalização contemporânea

apon-ta, de fato, para uma economização e monetarização da vida pessoal e social sem preceden -tes (Santos, 2000).

É justamente a sujeição dos corpos-mentes tornados coisa no “novo” mercado transnacio-nal que me importa enfatizar, dados os persis-tentes e cruéis desdobramentos que o fenôme-n o opera, forjafenôme-n do fenôme-n ovos paradigm as para a saúde, recriando a própria noção de qualidade de vida e, por fim , reorien tan do os papéis da ciência e da técnica num esforço de dissemina-ção desse sistema, para ficar só nos estritos do-mínios do setor saúde.

A vida coisificada, vista exclusivamente em seu aspecto material (econômico), suprime em prim eira in stân cia a n oção de diversidade e so beran ia, ju stifican do a n ecessidade de pa-dronização e controle de cima para baixo. Esta imposição de com portam entos, valores e m o-delos conduz à intolerância e ao arbítrio, dan-do suporte a práticas violentas, discrim inató-r ias e inató-r eginató-r essivas qu e p od em seinató-r id en t ifica-das, por exem plo, nas políticas antiim igração atu alm en te praticadas por diversos países ri-cos. Ou n os sistem as de opressão qu e con sti-tu em os racism os de várias n asti-tu rezas ain da presentes na “ordem” internacional contempo-rânea.

A deterioração dos hábitos alimentares, dos estilos de vida, dos comportamentos e dos mo-dos de trabalhar, aliada às dificuldades de aces-so a medicamentos e cuidados de saúde, cons-titui outra face do acirramento das desigualda-des (Buss, 2002; Loewenson, 2001). Mas cons-titui, sobretudo, um processo de m assificação de com portam entos e valores que confronta a idéia de diversidade apesar da aparência mun-dializante, chegando a ser recebida pelos cha-m ados

globalistas

(Lucchese, 2003) com extre-m o otiextre-m isextre-m o.

Ora, é exatamente nesse contexto aparente-m en te in exorável que os autores do artigo si-tuam a em ergên cia de sin ais de resistên cia. O texto apresen ta en tão u m a am pla gam a de fren tes de luta n as quais se recon hece a con s-trução de alternativas à globalização corporati-va. Isto, segun do os autores, dem on straria a em ergên cia de um n ovo “superpoder” global que seria a prova de vitalidade de um a agenda democrática e pacifista, indicativa do confron-to entre dois grandes blocos de forças.

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1 Departamento de Medicina Preventiva, UFBA. plpen [email protected] .br e pen [email protected]

Tratase do debate exem plarm en te desen -volvido por Arrighi (2003), ao descrever a cha-mada Economia Política dos Sistemas Mundo, segundo o qual estaríamos vivendo um proces-so de transição entre “as antigas vantagens que sustentam a hegemonia do Ocidente” para “um retorn o ao balan ço relativo dos cen tros m úl-tiplos exibidos n o sistem a m un dial do século 12”

.

Isto em resposta ao recente fortalecimento econômico de estados muito distantes dos cen-tros hegem ônicos do Ocidente, com o o que se observa n a Ásia Orien tal atu alm en te. Assim , em bora con cen tran do u m in egável poderio militar, os estados ocidentais não contam com recursos humanos ou financeiros para centrali-zar um poder global. Tensão que pode ser resu-mida nos seguintes termos:

Será que muitos dos

problemas enfrentados pelos Estados Unidos não

decorrem do fato de que, diferentemente da

Grã-Bretanha na onda de globalização do século 19,

os EUA não dispõem de um Império Indiano

pa-ra cobrir seus déficits no balanço de pagamentos

e para fornecer a mão-de-obra militar de que

ne-cessita para policiar o mundo?

(Arrighi, 2003).

Ora, este aspecto, que den ota a con stan te crise e in stabilidade n o sistem a, n ão deixa de existir, em outras bases, tam bém n o in terior dos próprios m ovim entos antiglobalizantes.

Cham o a aten ção aqui para a in stigan te an álise sobre a Con ferên cia Mun dial sobre o Racism o, Discrim in ação Racial, Xen ofobia e Intolerâncias Correlatas, realizada em 2001, na África do Sul (Blackwell & Naber, 2002). As au-toras m ostram que aquele encontro reiterou a dependência entre globalização neoliberal e es-tratificação racial, discrim in ação sexual e ex-ploração de classe. Entretanto, as autoras assi-nalam a multiplicidade de arenas e relações de poder no interior do encontro, que ultrapassa-ram largamente as esferas comerciais e macro-políticas para criar ruídos que perpassaram a própria articu lação dos m ovim en tos sociais, porque estes, via de regra, reproduzem a estru-tu ra m esm a das sociedades con tem porân eas, notadamente no que diz respeito ao confronto ocidente

versus

oriente.

Assim , os m ovim en tos an tiglobalizan tes estão, eles próprios, submetidos às tensões cul-turais, religiosas, filosóficas que têm sido dura-m ente atingidas pela chadura-m ada globalização li-beral. Fica evidente, então, que o jogo de forças é ainda extremamente duvidoso e intrincado e que a balança penderá, historicamente, para os que forem capazes de agregar respeito à diver-sidade, tolerân cia e solidariedade em escala

planetária. Em term os históricos trata-se, cer-tamente, de um desafio inteiramente novo.

Referências bibliográficas

Arrighi G 2003. Globalização e macrossociologia históri-ca. Revista de Sociologia e Política 20:13-23

Blackwell M & Naber N 2002. In terseccion alidade em um a era de globalização. Revista Estudos Fem inistas 10(1):190

Buss PM 2002. Globalização e doença: num m undo de-sigual, saúde desigual! Cadernos de Saúde Pública 18(6) nov-dez.

Loewen son R 2001. Globalization an d occu pation al health: a perspective from Southern África. Bulletin of the W orld Health Organization 79(9):863-868. Lucchese G 2001. A internacionalização da regulam en

-tação sanitária. Ciência & Saúde Coletiva 8(2):537-555 Santos M 2000. Por uma outra globalização: do pensamen-to único à consciência universal. Record, Rio de Ja-neiro.

Por uma agenda global

para movimentos sociais

Toward a global agenda

for social m ovem ents

Paulo Gilvane Lopes Pena

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Referências

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