JPediatr(RioJ).2014;90(5):437---439
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EDITORIAL
Early
life
factors
among
the
many
influences
of
child
fruit
and
vegetable
consumption
夽
,
夽夽
Fatores
nos
primeiros
anos
de
vida
que
influenciam
o
consumo
de
frutas
e
verduras
entre
crianc
¸as
Benjamin
W.
Chaffee
UniversityofCalifornia,SanFrancisco,EstadosUnidos
Mensurada em anos de vida ajustados à deficiência, um décimo da carga de doenc¸a pode ser atribuído a fato-res de risco alimentares e ao sedentarismo, superando a contribuic¸ão deconsumo de tabaco,hipertensão ou qual-queroutrofatorderiscodepredisposic¸ão.1Emespecial,a
baixaingestãodefrutaseverdurasestáassociadaàmaior ocorrência de doenc¸as cardiovasculares2 e determinados
tiposdecâncer,3representando,juntos,6,7milhõesde
óbi-tosanualmenteemtodoomundo.1Muitodoqueimpulsiona
oaltovolumedemorbidezemortalidadeglobaisatribuídoà ingestãoinadequadadefrutaseverdurasépersistênciacom aqualpadrõesdeconsumorecomendadosnãosãoseguidos. Em países ricos e pobres, a maioria dos adultos não consumeascincoporc¸õesdiáriasdefrutaseverduras reco-mendadaspelaOrganizac¸ãoMundialdeSaúde.Emtodosos 52 países de rendas baixa e média, quase 80% dos adul-tos ficamaquém decinco frutas ouverduras por dia,4 e,
da mesma forma, estão os adultos canadenses5 e
norte--americanos.6Amaioriadosadultostambémnãoatingeos
níveis recomendados de ingestão defrutas e verduras no
DOIssereferemaosartigos:
http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2014.06.001, http://dx.doi.org/10.1016/j.jpedp.2014.02.002
夽 Comocitaresteartigo:ChaffeeBW.Earlylifefactorsamongthe
manyinfluencesofchildfruitandvegetableconsumption.JPediatr (RioJ).2014;90:437---9.
夽夽VerartigodeValmórbida&Vitolonaspáginas464---71.
E-mail:[email protected]
Brasil;osmenosfavorecidossocioeconomicamentesãomais propensosasetornaremadeptos.7 Dentrecrianc¸ase
ado-lescentes brasileiros, estudosrecentes apontaram valores nutricionaisdesanimadoresparaoconsumodefrutase ver-duras:apenas 2,7%das crianc¸as entre6-10anos deidade atingiramcincoporc¸õescombinadaspordianosuldoBrasil;8
a frequênciade consumo de verduras ficou muito aquém daqueladerefrigerantes,doces,bolosebolachaspor ado-lescentesemtodoopaís.9 Esseéumproblemacomplexo,
comraízesprofundasnasforc¸as econômicasmundiaisque determinamo custo,a acessibilidade ea comercializac¸ão dealimentossaudáveisenãosaudáveis,tantoquantoéuma questãodecomportamentodosconsumidoresedetomada dedecisãopessoal.10
Estabelecendo
hábitos
na
infância
e
adolescência
Na última edic¸ão do Jornal de Pediatria, Valmórbida & Vitolo,11pesquisadoresdaUniversidadeFederaldeCiências
daSaúde de Porto Alegre(USCSPA), apresentaram outras notíciasnãoesclarecedoras.Das388crianc¸asdebaixarenda emidadepré-escolarestudadasnosuldoBrasil(idadesentre 2-3anos),parafrutaseverduras,amaiorianãoatingiunem mesmoumaporc¸ãodiária, emuitomenosastrês porc¸ões recomendadasparaessafaixaetária,referênciaatingidapor apenas9%desuapopulac¸ãoestudadaparafrutasepor ape-nasumacrianc¸a paraverduras.Éimpressionante como os hábitosalimentaresdascrianc¸asparecemsermoldadosno
438 ChaffeeBW
iníciodavida.OspesquisadoresdaUFCSPAacompanharam umacoortedenascimentodecrianc¸ascujasmães participa-ramdeumestudoseparadoqueofereceuumtreinamento nutricionalvoltadoaprofissionaisdasaúdetrabalhandoem centrosdesaúdemunicipaisemPortoAlegre.Napresente publicac¸ão, Valmórbida & Vitolo relatam que os hábitos alimentaresinfantisobservadosem suacoorteenvolvendo idadesentre12-16mesesprojetamumasombrasobreo con-sumoinfantildefrutaseverdurasporcrianc¸asde2-3anos. Quantomaiorafrequênciadefrutasconsumidasaos12-16 meses,menoraprobabilidadedeumacrianc¸aemidade pré--escolar relatar consumo inferior a uma porc¸ão diáriade frutas.11 Aintroduc¸ãodebebidascomaltoteordeac¸úcar
foiinicialmenteassociadaaumamenorchancedeconsumo deumaporc¸ãocompletadeverdurasnofuturo.11
Essesresultadospossuemimplicac¸õessobreomodocomo criamosestratégias paramelhorarmaushábitos alimenta-resemcrianc¸as.Emumaanálisesistemáticaemeta-análise recentes, intervenc¸ões escolares, me média, produziram pequenas melhorias no consumo de frutas pelas crianc¸as e uma pequena mudanc¸a no consumo de verduras.12 As
barreiras quanto ao sucesso de qualquer programa esco-lar são infinitas,13 incluindo, entre outros, a necessidade
dedesenvolver intervenc¸ões que possam ser mantidasde forma acessível, além de um compromisso pontual.12 Os
achadosdaUniversidadedePortoAlegresugeremque,para muitascrianc¸as,osprogramasescolarespodemabordar tar-diamentequaisquercarênciasalimentaresquetrac¸amsuas origensaoprimeiroanodevida.
Forc
¸as
socioeconômicas
Pelo menos parte das desigualdades socioeconômicas bem documentadas, ainda existentes na qualidade da alimentac¸ão, pode ser explicada pelos maiores custos, de maneira geral, associados aos alimentos ricos em nutrientes.14Essefatopossuiimplicac¸õesimportantessobre
osesforc¸os desaúde pública paramelhorar a questão da nutric¸ão em comunidades com poucos recursos, já que as intervenc¸ões que priorizam a educac¸ão e a tomada de decisões individual podem não ser efetivas, caso as famíliasconsideremhábitosmaissaudáveisinacessíveisou custosproibitivos.14Argumenta-seque,semesforc¸os
corres-pondentes para melhorar osambientes das comunidades, aumentandoadisponibilidadede produtosfrescose aces-síveis em bairrosdesfavorecidos, mudanc¸as individuais no conhecimentoenasatitudespoucocontribuirãopara desi-gualdadesnasaúdehámuitopendentes.15
Contraintuitivamente,Valmórbida&Vitolorelatamque, dentreasfamíliaspredominantementedebaixarenda par-ticipantesdeseuestudo,atingirnomínimoumbaixonível deconsumo de frutas pelas crianc¸as esteve inversamente relacionadoaosrecursosfinanceirosdoagregadofamiliar.11
Ascrianc¸asdefamíliasqueganhamquatrovezesmaisque osaláriomínimomensal apresentaramumamenorchance deatingirumaporc¸ãocompleta defrutas queascrianc¸as defamíliasque ganhammenos.11 Hácontrovérsiasquanto
a se famílias de baixa renda buscam maximizar o poder decompraadquirindoalimentosqueoferecemmaior quan-tidade de energia por custo unitário, considerando que hábitosalimentaressupostamentemaissaudáveisedebaixo
consumoenergéticopodem,defato,custarmenosem ter-mos absolutos.16 Em famílias de baixa renda, melhores
resultadosdasaúdeinfantilpodemnãoexigirmaioresgastos na alimentac¸ão infantil.Por exemplo,em umestudo bra-sileiro, famílias de crianc¸as que não apresentaram cáries dentárias até os quatro anos de idade não apresentaram maiores gastosna alimentac¸ãodesuascrianc¸as.17 Na
ver-dade, hábitos alimentares presumivelmente inimigos dos dentes, como maioringestão de doces, tiporefrigerantes echocolates,foramassociadosamaioresgastospelo agre-gado familiar na alimentac¸ão das crianc¸as.17 Valmórbida
& Vitolo investigam se,em comunidades socioeconomica-mente desfavorecidas,aumentos narenda familiarpodem levaràsubstituic¸ãodealimentosbásicosetradicionaispor opc¸õesaltamenteprocessadasericasemenergia.Essa hipó-tesepossuiimportantesimplicac¸õesnaáreadesaúdepara nac¸ões como o Brasil, que buscam associar rápido cres-cimento econômico a um maior potencial de ganho para populac¸õesmaispobres.
Apublicac¸ãoatual daUFCSPA possuipontos fortes sig-nificativos.Osdadosnutricionaisforamcoletadosdeforma prospectiva desde muito cedo,fornecendo uma oportuni-daderelativamenteraradeexaminarospadrõesnoshábitos alimentaresinfantisemumapopulac¸ãodebase comunitá-ria com o passar do tempo. As porc¸ões diárias de frutas e verduras foram calculadas utilizando recordatórios ali-mentares de24 horas e excluíram o consumo de batatas e suco de frutas, alimentosrelativamente ricos em ener-gia,porémnãonecessariamentericos emnutrientes.Esse estudopossuilimitac¸ões.Aotodo,87participantes,quase 20%daamostrapotencial,foramexcluídosdevidoà ausên-ciadepelomenosumrecordatórioalimentarde24horas, o que reduziu o poder estatístico e pode ter adicionado umviésdeselec¸ão,casoosfatoresquecontribuírampara osdadosausentesnãotenhamocorridoaleatoriamente.Os principaisresultadosdoestudo---porc¸õesdiáriasdefrutase verduras---aceitaramqualquerfrutaouverduraconsumida dequalquer forma(excetobatatase sucodefrutas) para representarumaporc¸ãoacumulada.Essaéumaforma per-feitamenterazoáveldeserealizarumaanálisenutricional, principalmenteseamaiorpartedasorientac¸õesdos especi-alistasenfatizaroaumentodoconsumodefrutaseverduras em termos dequantidades deporc¸ões. Contudo,também levanta uma questão relacionada à forma sobre como as recomendac¸õessãofeitasao público.Podemosquestionar se determinadosalimentados, como frutas em conservae vitaminas,quecomumentepossuemgrandesquantidadesde ac¸úcarrefinado,devemserconsumidosnamesmaproporc¸ão queopc¸õescommenoresquantidadesdeac¸úcaremaisricas em nutrientes,aotentaratingirasrecomendac¸õesquanto aonúmerodeporc¸ões.18
Analisando
mais
à
frente
Earlylifefactorsamongthemanyinfluencesofchildfruitandvegetableconsumption 439
um espac¸o importante noconjunto de medidas de saúde públicaparareduc¸ãodacargamundialdedoenc¸as relacio-nadasànutric¸ão.Contudo,assimcomoacontececommuitos esforc¸osde saúdepública, aumentar o conhecimentoe a conscientizac¸ão da populac¸ão-alvo é apenas umpasso no complexoprocesso dealcanc¸ar umamudanc¸ade compor-tamento sustentável. Por exemplo, o estilo parental com o qual cuidadorestentam facilitaro consumo defrutas e verduras em suas crianc¸as é um fator fundamental para determinarseoscomportamentosalimentaresdascrianc¸as responderãoconformepretendido.19
Além de determinantesfamiliares,melhoriasem longo prazo no nível de consumo de frutas e verduras exi-girão mudanc¸as generalizadas nos cenários políticos e nutricionais.15 A forte comercializac¸ão de alimentosricos
em energiaenãosaudáveiséumagrande barreiraparao aumentodoconsumodefrutaseverduras,eexigiráesforc¸os coordenadosentreosgovernos e outrosinteressadospara aumentararesponsabilidadeelimitarou,deoutraforma, conteressacomercializac¸ão.13Umapolíticadealimentac¸ão
saudáveljáestáseformandonoBrasil,ondepadrõesestão sendoconstituídosparagarantirquealimentosnão proces-sadose deorigemlocalsejamservidosemescolas,porém ainda há grandesdesafios nocontrole depropagandas de alimentosnão saudáveis.20 Para amaior parte domundo,
os padrões de consumo de frutas e verduras estão longe de serem atingidos. O recentetrabalho de Valmórbida & Vitolosugerequeumelemento-chaveparaalcanc¸arnossos objetivosnutricionaisseráatingirumaintroduc¸ãoprecoce.
Conflitos
de
interesse
Oautordeclaranãohaverconflitosdeinteresse.
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