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REVISTA
BRASILEIRA
DE
REUMATOLOGIA
Artigo
original
Prevalência
de
doenc¸a
isquêmica
cardíaca
e
fatores
associados
em
pacientes
com
artrite
reumatoide
no
Sul
do
Brasil
Rafael
Kmiliauskis
Santos
Gomes
a,∗,
Ana
Carolina
Albers
b,
Ana
Isadora
Pianowski
Salussoglia
b,
Ana
Maria
Bazzan
b,
Luana
Cristina
Schreiner
b,
Mateus
Oliveira
Vieira
b,
Patrícia
Giovana
da
Silva
b,
Patrícia
Helena
Machado
b,
Cynthia
Mara
da
Silva
b,
Mauro
Marcelo
Mattos
ce
Moacyr
Roberto
Cuce
Nobre
daCentrodeEspecialidadesdosMunicípiosdeBlumenaueBrusque,Blumenau,SC,Brasil
bFundac¸ãoRegionaldeBlumenau,FaculdadedeMedicina,Blumenau,SC,Brasil
cFundac¸ãoRegionaldeBlumenau,DepartamentodeSistemaseComputac¸ão,Blumenau,SC,Brasil
dUniversidadedeSãoPaulo,FaculdadedeMedicina,UnidadedeEpidemiologiaClínica,UniversidadedeSãoPaulo,SãoPaulo,SP,Brasil
informações
sobre
o
artigo
Históricodoartigo:
Recebidoem31demarçode2016 Aceitoem8denovembrode2016
On-lineem21dedezembrode2016
Palavras-chave:
Artritereumatoide Doenc¸acardiovascular Infartoagudodomiocárdio Prevalência
r
e
s
u
m
o
Objetivo:Estimaraprevalênciadadoenc¸aisquêmicacardíacaeosfatoresassociadosem pacientescomartritereumatoide.
Métodos:EstudotransversalqueusouocritériodiagnósticodoColégioAmericanode Reu-matologiaparaselecionarpacientesatendidosnasunidadesdesaúdedaatenc¸ãoprimária ousecundáriaemBlumenau,SantaCatarina,suldoBrasil,em2014.Apresenc¸adedoenc¸a cardíacaisquêmicafoidefinidacominfartoagudodomiocárdiocomintervenc¸ão coronari-anapercutâneaoucirurgiaderevascularizac¸ãodomiocárdioquetenhaocorridodepoisdo diagnóstico.Paratestarasassociac¸õesusou-seotesteexatodeFischer,otestedetendência lineardeWaldeaanálisederegressãologísticamultivariada.
Resultados:Entre296pacientes,83,1%demulheres,commédiade56,6anos,tempomédio deartritereumatoidede11,3anos,13relatamtertidoinfartoagudodomiocárdioque necessitoudeprocedimentodereperfusãopercutâneaoucirúrgica,prevalênciade4,4% (IC95%2,0-6,7).Odiabetesmelittus(razãodechancede4,9[IC95%1,6-13,8])eotempode doenc¸amaiordoque10anos(razãodechancede8,2[IC95%1,8-39,7])foramosúnicos fato-resassociadoscomadoenc¸aisquêmicaquepermaneceramnomodelofinalapósanálise multivariada.
Conclusão:A prevalência de infarto agudo do miocárdio foi semelhante com a obser-vadaemoutrosestudos.Entreosfatoresderiscotradicionaiseentreosfatoresrelacionados àartritereumatoide,odiabetesmelittuseotempodedoenc¸aforamasvariáveisassociadas àcomorbidade
©2016PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eumartigoOpenAccesssobuma licenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
∗ Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](R.K.Gomes). http://dx.doi.org/10.1016/j.rbr.2016.11.002
Prevalence
of
ischemic
heart
disease
and
associated
factors
in
patients
with
rheumatoid
arthritis
in
Southern
Brazil
Keywords:
Rheumatoidarthritis Cardiovasculardisease Acutemyocardialinfarction Prevalence
a
b
s
t
r
a
c
t
Objective: Toestimatetheprevalenceofischemicheartdiseaseandassociatedfactorsin patientswithrheumatoidarthritis.
Methods: Across-sectionalstudyusingtheAmericanCollegeofRheumatology diagnos-ticcriteriainordertoselectpatientsseenatprimaryorsecondaryhealthcareunitsin Blumenau,SantaCatarina,SouthernBrazil,in2014.Thepresenceofischemicheartdisease wasdefinedasanacutemyocardialinfarctionwithpercutaneouscoronaryinterventionor coronaryarterybypassgraftsurgerythathasoccurredafterdiagnosis.Fischer’sexacttest, Wald’slineartrendtest,andmultivariatelogisticregressionanalysiswereusedtotestthe associations.
Results: Among296patients(83.1%female)withameanageof56.6yearsanda mean rheumatoidarthritisdurationof11.3years,13reportedhavingacutemyocardialinfarction requiringapercutaneousorsurgicalreperfusionprocedure,aprevalenceof4.4%(95%CI 2.0-6.7).DiabetesMellitus(oddsratio[OR]4.9(95%CI1.6-13.8)anddiseaseduration>10years (OR8.2[95%CI1.8-39.7])weretheonlyfactorsassociatedwithanischemicdiseasethat remainedinthefinalmodel,afterthemultivariateanalysis.
Conclusion: Theprevalenceofacutemyocardialinfarctionwassimilartothatobservedin otherstudies.Amongthetraditionalriskfactors,DiabetesMellitus,andamongthe fac-torsrelatedtorheumatoidarthritis,diseaseduration,werethevariablesassociatedwith comorbidity.
©2016PublishedbyElsevierEditoraLtda.ThisisanopenaccessarticleundertheCC BY-NC-NDlicense(http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
Introduc¸ão
A artrite reumatoide (AR) é uma doenc¸a autoimune infla-matória sistêmicacaracterizada pelocomprometimento da membrana sinovial das articulac¸ões periféricas que leva à destruic¸ãoelimitac¸ãofuncional.1AprevalênciadaARvariade 0,24%a1%dapopulac¸ãoadulta,compredomínioemmulheres emaiorincidêncianafaixade30-50anos.2–4Hádoisestudos deprevalêncianoBrasil.Oprimeirovariade0,2a1%conforme aregiãodopaís;5ooutroestabeleceprevalênciade0,46%.6
Estudosapontamummaiorriscodedoenc¸a cardiovascu-lar(DCV)empacientesportadoresdeARquandocomparados comapopulac¸ãogeral.7–9 ADCVtemumgrandeimpactoe representaumaimportantemorbidadenaAR,oinfartoagudo domiocárdio(IAM)éoeventomaiscomum.9,10Estudosfeitos emdiferentespaísesapontamqueaprevalênciapodevariar de1a17%.10–12
Omaiornúmero deeventoisquêmicocardíaco em paci-entes com ARnão é inteiramente explicado somente pela presenc¸adefatoresderiscotradicionais.10Estudosuecocom duascoortesdepacientescomARdemonstrouquenãohá aumentodaocorrênciadedoenc¸acardíacaisquêmicaantes do diagnóstico reumatológico.13 Em contrapartida, rapida-menteapósoinício14eaolongodadoenc¸a,15essatempapel importanteparadesencadearIAM,emespecialquandoháum acúmulodemarcadoresdeseveridade.10Desse modo,aAR passouaserconsideradaumfatorderiscoindependentepara odesenvolvimentodedoenc¸aarterialcoronariana.16,17
Apesardaimportantemelhoriadodiagnósticoedos trata-mentosdisponíveis,aindapermaneceumaaltamorbidadede
DCV.10Issoocorredevidoàcombinac¸ãodocaráterdedoenc¸a inflamatória crônica que predispõe ao desenvolvimeto de comorbidades,dosmedicamentosusadosnotratamento,por exemplooglicorticoide,11oaumentodaprevalênciadefatores deriscotradicionaisaolongodotempodedoenc¸a18,19ea per-sistenteatividadededoenc¸aquandoessaémaisagressiva.7
Opresenteestudotevecomoobjetivoestimaraprevalência autorreferidadeeventoisquêmicocoronarianoeidentificaros possíveisfatoresassociadosempacientescomARem Blume-nau,SantaCatarina,suldoBrasilem2014.
Material
e
métodos
Trata-se de um estudo transversal, de base populacional, feito entre julho de 2014 e janeiro de 2015 com indiví-duos de20anosoumais,portadores deartritereumatoide segundo os critérios do Colégio Americano de Reumatolo-giade1987,deambosossexos,residentesnomunicípiode Blumenau,RegiãoSuldoBrasil.Omunicípioapresentavao índice de desenvolvimento humano municipal (IDH-M) de 0,806em2010,ocupavaa25aposic¸ãodentretodosos
municí-piosbrasileiros.20Segundoocensonacionalfeitoem2010,o númerodehabitantesnafaixaetáriadoestudocorrespondia a221.839pessoas,equivalentea71,7%dototaldapopulac¸ão domunicípio.21
336
296
286 Amostra calculada
Pacientes identificados
Pacientes entrevistados
Perdas – total 40 pacientes
Obito – 20
Recusa – 12
Mudou de cidade ou não Encontrado – 8
1.110
População estimada de pacientes com artrite reumatóide em blumenau considerando a prevalência de 0,5%
Figura1–Diagrama.
de 95% de confianc¸a. O valorda amostra calculado foi de 286indivíduos.Oprocessodeobtenc¸ãodaamostrafoifeito por meio de revisão de prontuários nas unidades bási-casde saúde eno ambulatóriode especialidadesmédicas, além da identificac¸ão dos pacientes na sala de espera na farmáciadedispensac¸ãodemedicamentosdealtocustono município(fig.1).
Consideraram-se perda os domicílios visitados porpelo menosduasvezessemqueoentrevistadorencontrassea pes-soa,inclusiveumavisitaemfimdesemanaeoutranoturna oumudanc¸adeenderec¸o,oucasohouvesserecusaporduas ocasiões.
AequipefoicompostaporoitoacadêmicosdaFaculdade deMedicinadaFundac¸ãoUniversidadeRegional de Blume-nau(FURB)previamentetreinadosparafazerumaentrevista domiciliarpré-estruturadae,casonecessário,posteriormente portelefone,alémdeumsupervisordocentelocal.Ocontrole dequalidadefoifeitoem20%dospesquisadosquandoforam entrevistadospelasegundavezcomusodeumquestionário reduzido.
Avariáveldependentefoiapresenc¸adehistóricopositivo deeventoisquêmicocoronarianoapósdiagnósticodeartrite reumatoide definido por infarto agudo do miocárdio diag-nósticopelomédicoquenecessitoudecateterismocardíaco paraangioplastiaouimplantedestentoucirurgiacardíacade revascularizac¸ãodomiocárdio.
As variáveis independentes foram definidas como: a)demográficas:sexo,idadeemanoscompletoscategorizada em20-59paraadultose60anosoumaisparaidosos;b)fatores deriscocardiovascularestradicionaisrelatadosnaentrevista: diagnóstico prévioou usode medicac¸ões parahipertensão arterialsistêmica, diabetes mellitus, dislipidemia; tabagismo
prévio ou atual, prática prévia e atual de atividade física de lazer, história familiar positiva de mãe, pai, irmãos ou irmãsparainfartooucirurgiaoucateterismodocorac¸ãoem qualqueridade;categorizadosdeformadicotômica;índicede massacorporalatual(kg/m2 –IMC),deacordocomopesoe
alturaecategorizadosegundorecomendac¸ãodaOrganizac¸ão MundialdeSaúde(baixopesoenormal≤24,9kg/m2, sobre-peso 25-29,9kg/m2 e obesidade ≥ 30kg/m2); e c) variáveis
relacionadas a AR: tempo de doenc¸a em anos e presenc¸a de fator reumatoide, ambascategorizadas respectivamente entre0a10ou11oumaisanosdedoenc¸aevalordofator reumatoidemenor(negativooubaixotítulo)oumaior(alto título)doque60.
Os dados foram digitadosem umsistema desenvolvido para este estudo com saída no formato da tabela Excel e posteriormente o arquivo final foi exportado para o pro-gramaStata10.0(StataCorp.,CollegeStation,EstadosUnidos). As variáveis de interesse foramanalisadas quanto àssuas distribuic¸ões com ousode média,desviopadrão,mediana paraasvariáveiscontínuas;efrequênciaepercentualparaas variáveiscategóricas.Paratestaraassociac¸ãoentrehistórico deeventoisquêmicocoronarianocomasvariáveis indepen-dentes,usou-seotesteexatodeFischere,quandoadequado, testedetendêncialineardeWald.Emseguida,fez-seaanálise deregressãologísticamultivariadaparaverificaraassociac¸ão dosfatoresestudadoscomavariáveldependente, estimaram--seasrazõesdechance(OR)brutaseajustadaseosrespectivos intervalosde95%deconfianc¸a.
Paraaentradanomodelofinalmultivariada,foram leva-das emconta todasasvariáveis que apresentaramovalor dep<0,20naanáliseunivariada.Permaneceramnomodelo deregressãomultivariávelaquelasvariáveisquemantiveram o valorde p≤0,05 ouque ajustaramomodelo final. Para a inclusão das variáveis no modelo de regressão logística, ospesquisadoresoptaramdeformasequencialporprimeiro incluirasvariáveisdemográficas,apósosfatoresderisco tra-dicionais paradoenc¸a arterialcoronariana,eporúltimoas relacionadasadoenc¸a.
Esta pesquisafoi submetidaaocomitê deéticaem pes-quisadaUniversidadedeSãoPaulo(USP)edaFurb(protocolo n◦.339/13 e 133/12, respectivamente) e aprovada; todos os
participantes assinaram o termo de consentimentolivre e esclarecido.
Resultados
Foramentrevistados296pacientescomAR.Amaiorparteera compostapormulheres(83,1%)eadultos(60,8%)comidade médiaeodesviopadrão(DP)de56,6anos(DP:11,7),variac¸ão de25a91anos,emédiadetempodedoenc¸ade11,3anos (DP:9,2),variac¸ãode1a51.OIMCmédiofoiiguala26,4kg/m2
Tabela1–Descric¸ãodaamostraedaprevalênciadeinfartoagudodomiocárdiodeacordocomasvariáveis independentesempacientescomartritereumatoide.Blumenau,SantaCatarina,Brasil,2014
Variáveis Amostra Infartoagudodomiocárdio
n % Prevalência(%) IC95% p
Total 296 100,0 4,4 (2,0-6,7)
Sexo(n=296) 0,619a
Masculino 50 16,9 4,0 (1,5-9,5)
Feminino 246 83,1 4,4 (1,8-7,0)
Idadeemanos(n=296) 0,400a
20-59(adultos) 180 60,8 3,8 (1,0-6,7)
≥60(idosos) 116 39,2 5,1 (1,1-9,2)
Hipertensãoarterialsistêmica(n=296) 0,017a
Não 164 55,4 1,8 (0,2-3,8)
Sim 132 44,6 7,5 (3,0-12,5)
Diabetesmellitus(n=296) 0,010a
Não 262 88,5 3,0 (0,9-5,1)
Sim 34 11,5 14,7 (2,5-26,8)
Dislipidemia(n=296) 0,071a
Não 223 75,3 3,1 (0,8-5,4)
Sim 73 24,7 8,2 (1,8-14,5)
Índicedemassacorporal(kg/m2)(n=296) 0,364b
≤24,9 113 38,1 3,5 (0,8-6,9)
25-29,9 124 41,9 4,0 (0,5-7,5)
≥30 59 20 6,7 (0,1-13,2)
Tabagismo(n=296) 0,053a
Nuncafumou 167 56,4 2,3 (0,5-4,7)
Tabagismoprévioe/ouatual 129 43,6 6,9 (2,5-11,4)
Atividadefísicadelazer(n=288) 0,214a
Nuncapraticou 114 39,6 3,4 (0,7-6,1)
Praticoue/oupratica 174 60,4 6,1 (1,6-10,5)
Históriafamiliarpositiva(n=296) 0,136a
Não 169 57,1 2,9 (0,3-5,5)
Sim 127 42,9 6,2 (2,0-10,5)
Tempodedoenc¸a(n=296) 0,001a
0a10anos 175 59,1 1,1 (0,4-2,7)
≥11anos 121 40,9 9,0 (3,9-14,2)
Presenc¸adefatorreumatoide(n=266) 0,603a
0a60(negativooubaixostítulos) 164 61,6 4,8 (1,5-8,2)
≥61(altostítulos) 102 38,4 4,9 (0,6-9,1)
a TesteexatodeFischer.
b TestedetendêncialineardeWald.
dedoenc¸afoiaúnicacomassociac¸ãoestatisticamente signi-ficante(tabela1).
Na análise bruta verifica-se que a variável dependente apresentouumatendência de associac¸ãocom dislipidemia etabagismo,enquantoocorreuumasignificânciacom hiper-tensãoarterialsistêmica,diabetesmellitusetempodedoenc¸a. Na análise ajustada, a variável hipertensão arterial sistê-micaperdeupoderdeassociac¸ão,foiretiradadomodelofinal composto pordiabetes mellitus etempo de doenc¸a. Ambas apresentaramrespectivamente3,5e8,2maioreschancesde apresentarodesfechoquandocomparadascomospacientes quenãotêmdiabetesemenosde10anosdedoenc¸a(tabela2). Essasduasvariáveisjuntasestabeleceramumcoeficientede determinac¸ãode17%.
Discussão
ApesquisaidentificouumamaiorchancedeIAMsubmetidos aumcateterismocardíacoparaangioplastiaouimplantede stentoucirurgiaderevascularizac¸ãodomiocárdioem paci-entescomARqueapresentaramdiabetesmellitusemaisde 10anosdedoenc¸a.
Tabela2–Análisederegressãologísticabrutaeajustadadepacientescominfartoagudodomiocárdioeasvariáveis independentesempacientescomartritereumatoide.Blumenau,SantaCatarina,Brasil,2014
Variáveis Análisebruta Análiseajustada
OR IC95% p OR IC95% p
Sexo 0,882a 0,864
Masculino 1,0 1,0
Feminino 1,1 (0,2-5,2) 1,0 (0,4-2,3)
Idadeemanos 0,600a 0,595
20-59(adultos) 1,0 1,0
≥60(idosos) 1,3 (0,4-4,1) 1,3 (0,4-4,1)
Hipertensãoarterialsistêmica 0,027 0,116b
Não 1,0 1,0
Sim 4,3 (1,1-16,3) 3,0 (0,7-12,4)
Diabetesmellitus 0,005 0,006
Não 1,0 1,0
Sim 5,4 (1,6-17,8) 3,5 (1,7-21,2)
Dislipidemia 0,076 0,379b
Não 1,0 1,0
Sim 2,7 (0,8-8,5) 1,7 (0,5-6,0)
Índicedemassacorporal(kg/m2) 0,367a 0,846
≤24,9 1,0 1,0
25-29,9 1,1 (0,2-4,3) 1,0 (0,2-3,6)
≥30 1,9 (0,4-8,2) 1,1 (0,2-5,4)
Tabagismo
Nuncafumou 1,0 0,068 1,0 0,108b
Tabagismoprévioe/ouatual 3,5 (0,9-10,1) 2,7 (0,8-9,1)
Atividadefísicadelazer 0,288a 0,399
Nuncapraticou 1,0 1,0
Praticoue/ouprática 1,8 (0,5-5,5) 1,6 (0,5-5,0)
Históriafamiliarpositiva 0,175 0,221b
Não 1,0 1,0
Sim 2,2 (0,7-6,9) 2,0 (0,6-6,5)
Tempodedoenc¸a 0,005 0,005
0-10anos 1,0 1,0
≥11anos 8,6 (1,8-39,7) 8,2 (1,9-43,6)
Presenc¸adefatorreumatoide 0,993a 0,946
0a60(negativooubaixostítulos) 1,0 1,0
≥61(altostítulos) 1,0 (0,3-3,1) 1,0 (0,2-3,2)
a Excluídasdaanálisemúltipla(valorp>0,20).
b Excluídosdomodelofinal(valordep>0,05).
AméricadoNorte(EstadosUnidos)entre3,7%e5%10,11epor fimaAméricaLatinaentre2%(ArgentinaeVenezuela)e7% (Uruguai).11,23Ainda,umestudoderevisãodaliteraturapara DCVrestritoparapaíseslatino-americanosrevelouuma pre-valênciamaiorde doenc¸a arterialcoronarianade 9%.24 Na Oceania,umestudocombancodedadosdohospitaldacidade deChristchurchestabeleceuumaprevalênciade8,3%.15
OestudoCoronna10 demonstraumadiferenc¸a significa-tivanoriscodeeventoisquêmicoentreosexofemininoRR 3,1eomasculinoRR6,5.Aamostrafoicompostade75%de mulheres,oquefoidiferentedonossoestudo,com83%.Isso poderiaexplicaradiferenc¸adosresultadosentreosgêneros. Aidaderevelouumatendênciademaiorchanceentreos ido-sos,porémsemsignificância.Nestapesquisa,foramobtidos resultadoscomunsaoestudoQUEST-RA,12que,apósanálise
multivariada para IAM, não apontaramdiferenc¸a quantoa idade.
Entreosfatoresderiscotradicionais,ospacientescom his-tóricodehipertensãoarterialsistêmicooudislipidemianão tiverammaiorchancedeIAMporqueapósanáliseajustada parasexoeidadenomodelofinalperderamassociac¸ãocomo desfecho,apesardeoutrosestudosinternacionaisapontarem paraessaassociac¸ão.25,26
Outros estudos corroboram que os fatores de risco obesidade e atividade física não apresentaram associac¸ão comamorbidadecardíacaisquêmica.8,12,27Otabagismofoi avaliadoemumhospitalfrancêsentreospacientescomAR paraassociac¸ãocomodesfechoisquêmico.28Oresultado reve-lounãohaverassociac¸ãocomDCV,domesmomodoqueos resultadosdesteestudo.Ahistóriafamiliarpositiva apresen-tou umaprevalêncianaamostra de 43%.Apesar dissonão apresentourelevânciaestatísticacomodesfecho,enquanto outrosdoisestudosindicamrelac¸ãocontrária.29,30
Ospacientescomtempodedoenc¸amaiordoque10anos apresentaram8,2vezesmaiorchancedeIAMquando compa-radoscomosdemenortempo.Essaassociac¸ãosemanteve após análiseajustadaepermaneceu nomodelo final.Uma pesquisajaponesacomseguimentode571pacientesemum hospital universitário por uma década estabeleceu que o tempodedoenc¸a(>10anos)foiumfatorderisco indepen-dentede eventocardiovascular.31 Issoresultadeummaior tempo de processo inflamatório para gerar consequências como aterosclerose e disfunc¸ão endotelial.32 Em oposic¸ão, estudofeitonaHolanda não indicoudiferenc¸a no riscode eventoisquêmicoemdecorrênciadadurac¸ãomenoroumaior doque10anos.33
Nesteestudo,ovalordofatorreumatoide(FR)emaltos títu-losfoi usado como marcador de mauprognóstico(FR >60) pelo fato de serum preditor de doenc¸a cardiovascular34 e porque poderiapromover instabilidade e ruptura da placa aterosclerótica dentroda artéria coronária.35 Algumas pes-quisasrevelam que a presenc¸ade FR tanto em indivíduos semdoenc¸a36quantoempacientescomAR37conferemaior chancedeIAM.Entretanto,osresultadosdesteestudonão evi-denciaramassociac¸ãodeFRcomodesfechodamesmaforma queapontaoutroestudo.14
Algumas limitac¸õesdevem ser consideradas nesta pes-quisa. O desenho transversal do estudo impossibilita a determinac¸ãodecausaeefeitoentreasvariáveisexploratórias e o desfecho. Com base nos resultados obtidos, ressalta--seapossibilidadedecausalidadereversacaracterísticanos estudosdedelineamento transversal.Outrofatoraselevar emcontadizrespeitoàpossibilidadedeviésdememóriana coletadealgumasinformac¸õesatenuadopelacaracterística comumdaARserumagravocrônico. Porúltimo,osdados de autorrelato das comorbidadesnão tiveram confirmac¸ão diagnóstica por um médico. Por outro lado, inquéritos de saúde revelam que as informac¸ões obtidas sobre a preva-lência de doenc¸as crônicas apresentam boa concordância quando comparadas com os registros médicos ou exames clínicos, especialmente para algumas patologias crônicas, comohipertensãoarterialsistêmica(HAS)ediabetesmelittus
(DM).38,39Ainda,osdadosrelacionadosaARforamcoletados conformerecomendac¸ãodoEuropeanLeagueAgainst Rheu-matism(Eular) para detecc¸ãoemonitoramento anualpara riscocardiovascular.40
Este éo primeiroestudo brasileiro que estabelece uma prevalênciadeIAM entrepacientes comAR.Entre os fato-resderiscotradicionaiseentreosfatoresrelacionadosaAR, odiabetes melittuseo tempode doenc¸a foram asvariáveis associadas.Sugerem-senovosestudosdebasepopulacional comoobjetivodeaumentaraconsistênciadasinformac¸ões sobrea doenc¸a arterialcoronariananos pacientes com AR
e para investigar fatores associados em outras regiões do Brasil.
Financiamento
Fundac¸ão de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp),processo2013/12979-1.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
Agradecimentos
Aoscolegasreumatologistasquecontribuíramcompacientes paraobteraamostradoestudo,Dra.AnaMariaGallo,Dr.João EliasdeMouraJúnioreDr.JeronimoS.BenitesJúnior.
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