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Mana vol.9 número1

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Academic year: 2018

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RESEN HAS 151

LANDES, Ruth. 2002. A Cidade das M u-lheres. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ. 352 pp.

Regina Abreu

Profe ssora , UN IRIO

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o-çõe s e se n tim e n tos sã o e xp ostos e m u m a n a rra tiva e m q u e é p rivile g ia d a a id é ia d o e n con tro com o ou tro, d o q u a l e la re tira o m a te ria l p a ra p rod u zir su a ob ra . O fa la r d e si e o con stru ir a si m e s-m a n e ssa n a rra tiva torn a s-m -se in d issociá ve is d a p rod u çã o d o te xto, n a con tra -m ã o d e u -m a tra d içã o h e g e -m ôn ica n a s ciê n cia s socia is q u e b a n e a p rim e ira p e ssoa d os re la tos cie n tíficos e , com o a ssin a lou Wa lte r Be n ja m in , su b stitu i a e xp e riê n cia p e la in form a çã o e a n a rra -tiva p e la h istória . A Cid ad e d as M u lh e re s , e scrito n a con tra m ã o d a s te n d ê n cia s cie n tífica s vig e n te s n o fin a l d a d é -ca d a d e 40, sig n ificou a re vita liza çã o d o e stilo n a rra tivo, con trib u in d o ta m b é m p a ra a con stru çã o d e u m m od o d e fa ze r a n trop olog ia m a rca d o p e la va loriza çã o d a e xp e riê n cia (a p e sq u isa d e ca m p o), p e la se n sib ilid a d e p a ra com a s q u e stõe s d e g ê n e ro e , sob re tu d o, p e la a firm a çã o d a sin g u la rid a d e d o su je ito n o p roce sso d e con stru çã o d o con h e cim e n to.

Ru th La n d e s ch e g ou a o Bra sil e m 1938 p a ra re a liza r u m a “ p e sq u isa a n -trop ológ ica sob re a vid a d os n e g ros” com o ob je tivo d e com p le ta r se u d ou tor a d o e m a n t tor o p o lo g ia n a U n iv e tor s id a -d e d e C olu m b ia . C om u m a p e rsp e ctiva com p a ra tiva , a a n trop ólog a n ova iorq u in a p re te n d ia in ve stig a r a s d ife re n -ça s e n tre a situ a çã o in te r-ra cia l b ra si-le ira e a a m e rica n a : “ O u víra m os con ta r q u e a g ra n d e p op u la çã o n e g ra [n o Bra -sil] vivia fá cil e livre m e n te e m m e io à p op u la çã o g e ra l e q u e ría m os sa b e r d e q u e form a a situ a çã o in te r-ra cia l d ife ria d a n ossa , n os Esta d os Un id os. Tra ta va -se d e u m p r o je t o q u e e x c it a v a a im a -g in a ç ã o d e p o u c a s p e s s o a s ” (:3 5 ). A p e s q u isa a ca b ou tom a n d o ru m o com-p le ta m e n te d ive rso d o orig in a lm e n te p re te n d id o. Ap ós u m a b re ve e sta d a n o Rio d e J a n e iro, a a n trop ólog a e m b a r -cou p a ra a Ba h ia , on d e p e rm a n e ce u p or a lg u n s m e se s. Lá , com o a u xílio d e Éd

ison C a rn e iro, Ru th La n d e s foi a os p ou -c o s p e n e tra n d o o u n ive rso d a -cu ltu ra n e g ra . Éd ison C a rn e iro, n a é p oca com 26 a n os, e ra já u m in te le ctu a l re sp e ita -d o, a u tor -d e -d ois livros sob re cu ltu ra e re lig iã o n e g ra n a Ba h ia , re p órte r d o jor-n a l O Estad o d a Bah ia, in te g ra n te , ju n ta m e n te com J org e Am a d o e in te le c -tu a is loca is, d a Aca d e m ia d os Re b e ld e s e sim p a tiza n te d o Pa rtid o C om u n ista . A a p roxim a çã o e n tre os d ois d e u in ício a u m a lon g a a m iza d e e , com o a p róp ria Ru th La n d e s re con h e ce u , a b riu -lh e a s p orta s d a socie d a d e loca l, via b iliza n d o su a p e sq u isa d e ca m p o.

O Bra sil vivia , e n tre ta n to, sob a d i-ta d u ra d e G e tu lio Va rg a s. A a n trop ólo-g a a m e rica n a foi se ólo-g u id a d e p e rto p or p olicia is d u ra n te tod o o se u p e rcu rso. N o in ício d e 1939, foi força d a p e la p olí-cia b a ia n a a d e ixa r à s p re ssa s o e sta d o, te n d o d e e scon d e r se u m a te ria l d e p e s-q u isa . Pa ira va m sob re e la su sp e ita s d e e sp ion a g e m e d e filia çã o a o com u n is -m o. C h e g a n d o a o Rio d e J a n e iro, Ru th La n d e s r e c o r r e u a a m ig o s b r a s ile ir o s e con se g u iu visto d e p e rm a n ê n cia p or m a is a lg u m te m p o. N ã o lh e foi p ossíve l, p oré m , re torn a r à Ba h ia , p ois a s a u tori-d a tori-d e s q u e a h a via m e xp u lsa tori-d o n ã o e s-ta va m e m com p le to a cord o com a a d m i-n istra çã o ce i-n tra l. Ap ós p e rm a i-n e ce r a l-g u n s d ia s n o Rio d e J a n e iro, on d e , e m com p a n h ia d e Éd ison C a rn e iro, visitou a lg u n s te rre iros d e “ m a cu m b a ” , p a rtiu p a ra os Esta d os Un id os.

Som e n te e m 1947, ou se ja , oito a n os d e p ois, La n d e s p u b licou os re su lta d os d e su a p e sq u isa n o livro in titu la d o Th e City of W om e n . N a oca siã o, u m a p a rce -la im p orta n te d o e st ab lis h m e n t a n tro -p o ló g ico sob re o Bra sil, ta n to d o la d o b ra sile iro q u a n to d o a m e rica n o, p rocu -rou d e sq u a lifica r su a s d e scob e rta s. Ar-th u r Ra m os, e n tã o p rofe ssor ca te d rá ti-co d e a n trop olog ia n a Un ive rsid a d e d o Bra sil, e M e lville H e rsk ovits, d a N orth -RESEN HAS

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RESEN HAS 153

w e ste rn Un ive rsity, troca ra m corre sp on -d ê n cia com p a rtilh a n -d o o -d e sp re zo p e lo tra b a lh o d a a u tora , q u e , visto com o m e -ro re la to d e via g e m , foi re je ita d o p or e le s com o n ã o cie n tífico. C om o ob se r -vou a a n trop ólog a ca n a d e n se Sa lly C o-le , a com u n id a d e a n trop ológ ica a m e ri-ca n a tra b a lh a va n a é p ori-ca n o se n tid o d e e xp a n d ir su a b a se in stitu cion a l n a s u n i-ve rsid a d e s, p rofission a liza r se u s p ra ti-ca n te s e cu ltiva r su a re sp e ita b ilid a d e com o a “ ciê n cia d a cu ltu ra” , n oçã o q u e , e n tre os a n os 30 e 60, su b stitu ía a d e ra-ça com o p a ra d ig m a ce n tra l d a d iscip li-n a . N e sse q u a d ro, os a li-n trop ólog os p rocu ra va m ca ta log a r tra ços rocu ltu ra is e re -p re se n ta r a s cu ltu ra s e m “ m on og ra fia s cie n tífica s” , e o te xto d e Ru th La n d e s a p a re cia com o p rob le m á tico: p rim e iro, p or se u in te re sse te órico e m q u e stõe s d e ra ça , g ê n e ro e se xu a lid a d e , q u e fu -g ia m a o d e b a te p rin cip a l; se -g u n d o, p or-q u e e la in se ria su a p róp ria e xp e riê n cia e fa la va d e su a s re la çõe s in te rp e ssoa is. La n d e s re cu sou se a p rod u zir u m re tra to e tn og rá fico d o ca n d om b lé e d a cu ltu ra a frob ra sile ira com o h om og ê n e os, in -te g ra d os e e stá ticos, con form e o p a d rã o d a a n trop olog ia d e se u s p a re s, e d e s -cre ve u os con flitos in te rn os, d iá log os e con te sta çõe s d o sig n ifica d o d o ca n d om-b lé e m u m con te xto d e m u d a n ça e flu i-d e z, situ a n i-d o h istorica m e n te a cu ltu ra a fro-b ra sile ira . C om u m a p e rce p çã o fi-n a e se fi-n síve l, e la foi ca p a z d e a p ofi-n ta r a lg u m a s sin g u la rid a d e s d o ca n d om b lé b a ia n o, com o a te n d ê n cia a o a u m e n to g ra d u a l d o p od e r fe m in in o e d o n ú m e -ro d e m ã e s-d e -sa n to, n os ca n d om b lé s m a is tra d icion a is, e d o d e “ h om osse xu a is p a ssivos” , n os ca n d om b lé s d e ca -b oclo. En tre ta n to, com o a ssin a la M a risa C orrê a n o Pre fá cio d e sta e d içã o, a a n trop ólog a e sta va re m a n d o con tra a m a -ré . “ A visã o corre n te e ra a d e q u e a d om in a çã o om a scu lin a , vig e n te n a socie -d a -d e b ra sile ira com o u m to-d o, e ra ta

m-b é m vig e n te n os cu ltos a fro-m-b ra sile iros. Ao d e sm on ta r e ste e sq u e m a sim p lista […] La n d e s e xp ôs u m a fra tu ra d e g ê n e -ro n a a n á lise d os cu ltos a f-ro-b ra sile i-ros q u e m e re ce a te n çã o a té h oje ” (:15).

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M ã e M e n in in h a n o Te rre iro d o G a n tois, e m q u e m e la p e rce b e u m a m u lh e r in -d e p e n -d e n te , a -d m ira -d a , -d on a -d e si. O ca n d om b lé e , e sp e cia lm e n te , o lu g a r d a s m ã e s-d e -sa n to n a socie d a d e b a ia n a im p re ssion a m Ru th La n d e s. É a p a rtir d e ssa s m u lh e re s q u e e la p a ssa a re fle tir sob re a p róp ria con d içã o fe m in in a , fa -ze n d o u m a le itu ra se n síve l d o p od e r q u e d e tin h a m . Essa im p re ssã o p ositiva com re la çã o a o ca n d om b lé é a lim e n ta -d a p or se u s -d iá log os com É-d ison C a r-n e iro, q u e cor-n sid e ra o ca r-n d om b lé “ u m a força cria d ora . Dá à s p e ssoa s cora g e m e con fia n ça e fa z com q u e se con ce n tre m n a solu çã o d os p rob le m a s d e sta vid a , e n ã o n a p a z d o ou tro m u n d o. N ã o se i on -d e e sta ria m os n e g ros se m o ca n -d om-b lé !” (:149).

A e xp e riê n cia d a a n trop ólog a a fa z d ia log a r com su a s p róp ria s tra d içõe s e se u m u n d o e m p e rm a n e n te tra n sform a -çã o. Fica e vid e n te o m od o com o a e x-p e riê n cia d e ca m x-p o x-p a re ce tra n sform a r se u s p on tos d e vista : “ A filosofia , o m is-ticism o e a e m ocion a lid a d e d o ca n d om-b lé se m p re m e in trig a ra m . Ap re n d i a con h e cê -lo d o m od o rotin e iro, com o a l-g u é m q u e a p re n d e u m a n ova lín l-g u a n a e scola , e m e torn e i u m d os se u s a d e p -tos; a s m in h a s re a çõe s, p oré m , e ra m tã o d ista n te s com o a s d e u m a m á q u in a d e ca lcu la r p a ra com os n ú m e ros.” Ain d a e m d iá log o com Éd ison C a rn e iro, e la re fle te critica m e n te sob re su a p róp ria cu ltu ra : “ […] a n ossa g e ra çã o a m e rica -n a foi -n u trid a com u m a d ie ta d e ra zã o e d e ce ticism o. As g e n e ra liza çõe s cie n tífica s n ã o n os d ã o m u ita se n sib ilid a -d e p a ra a n a tu re za -d a fé ou -d o -d e stin o […]” . Ru th La n d e s e xp lora ta m b é m a d ife re n ça d e m od o d e p e n sa r d e a m e ri-ca n os e b ra sile iros. Re la ta n d o u m a d is-cu ssã o a ca lora d a com Éd ison C a rn e iro, q u e se e xa lta va a firm a n d o q u e os n or-te -a m e rica n os se im p orta va m a p e n a s com o “ vil m e ta l” , d e sp re za n d o a cu ltu

-ra , La n d e s re tru ca va : “ os n orte -a m e ri-ca n os p e n sa m e m te rm os d e ra ça . Um p re to é in fe rior a u m b ra n co p or ca u sa d a su a ra ça . […] N ã o se im a g in a q u e u m n e g ro te n h a cu ltu ra a lg u m a , a n ã o se r a q u e lh e ve m d o b ra n co” .

Ru th La n d e s te rm in a se u livro te -ce n d o u m e log io à s m u lh e re s b a ia n a s d o ca n d om b lé e p rom e te n d o a u m a a m ig a b ra sile ira q u e , a o ch e g a r a os Es-ta d os Un id os, e scre ve ria sob re e la s: “ Pe n so q u e e la s a ju d a m a e n g ra n d e ce r o Bra sil. Acre d ita rã o os a m e rica n os q u e h a ja u m p a ís e m q u e a s m u lh e re s g os-ta m d os h om e n s, se se n te m se g u ra s e à von ta d e com e le s e n ã o os te m e m ?” (:316).

A a n trop ólog a cu m p riu a p rom e ssa . Ao ch e g a r a os Esta d os Un id os, e scre -ve u a lg u n s a rtig os sob re o lu g a r d e d e sta q u e d a s m u lh e re s n o ca n d om b lé , e n tre e le s, “ M a tria rca d o C u ltu ra l e H o -m osse xu a lid a d e M a scu lin a ” ; “ O C u lto Fe tich ista n o Bra sil” e “ Escra vid ã o N e g ra e ‘Sta tu s’ Fe m in in o” , tod os tra d u -zid os p a ra o p ortu g u ê s e in corp ora d os e m se u livro q u e , n e sta b e la e d içã o d a

UFRJ, ve m a com p a n h a d o d e im a g e n s re g istra d a s p e la p róp ria a u tora e m su a p a ssa g e m p or u m a Ba h ia id ílica on d e a vid a p a re cia d e liciosa m e n te “ re m ota e fora d o te m p o” .

Referências

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