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Ciênc. saúde coletiva vol.8 número1

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Academic year: 2018

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O que é bioética. D ébora D iniz & D irce Guilhem. Brasiliense, São Paulo, 2002, 69pp.

M arcelo M edeiros

Un iver sid ad e d e Br asília ( d ou tor an d o em sociologia)

A Co leção Pr im eir o s Passo s fez p ar t e d a fo r m a-ção acad êm ica d e algu m as ger ações d e p r ofissio-n ais ofissio-n o Brasil. A m ais receofissio-n te publicação, o livro O qu e é bioét ica, ser á u m m ar co p ar a t od os aqu eles qu e se in teressam ou pesqu isam bioética. Man ten do a lin ha editorial da coleção, qu e prim a pela lin -gu agem sim p les e p elo co m p r o m isso co m a d is-cu ssão teórica de qu alidade, o livro preen ch e u m a lacu n a im p o r t an t e d o m er cad o ed it o r ial b r asi-leir o em b io ét ica, qu e car ece d e p u b licaçõ es em lín gu a p or t u gu esa.

As au toras do livro, Débora Din iz e Dirce Gu i-lh em , são con h ecidas n a com u n idade bioética n a-cion al e in tern aa-cion al. Débora Din iz foi a prim ei-r a p esqu isad oei-r a bei-r asileiei-r a, p ei-r em iad a in t eei-r n acio-n alm eacio-n t e p elas p esq u isas em b io ét ica ( r eceb eu prêm ios da Organ ização Pan -Am erican a de Saú de e d a In t er n at ion al N et wor k on Fem in ist Ap p r oa-ch es to Bioeth ics) , além d e ser au tor a d e vár ios li-vr os. Dir ce Gu ilh em é con h ecid a p or su a at u ação edu cativa n o cam po da bioética e da en ferm agem , além de ser represen tan te de bioética dos m ais im -p or t an t es ór gãos oficiais ou associat ivos d e bioé-t ica n o p aís, com o a Com issão N acion al d e Ébioé-t ica em Pesqu isa ( Con ep) ou a Sociedade Brasileira de Bioét ica ( SBB) .

O livro está dividido em quatro capítulos, além d a in tr od u ção e con clu são. Segu n d o as au tor as, o objet ivo d o livr o é ou sad o: ...este livro redirecio-n a o est ilo t radicioredirecio-n al de apreseredirecio-n t ação da bioét i-ca n o Brasil, opt an do por part ir das t eorias e de su as crít icas, o qu e perm it e ao leit or se fam iliari-zar com o assu n t o e reflet ir sobre as sit u ações de con flit o m oral..., o u seja, ao co n t r ár io d as est r a-t égias a-t r ad icion ais d e ap r esen a-t ação d a bioéa-t ica, o livr o op t a p or aban d on ar a sed u ção d a casu íst ica b io ét ica e p ar t e p ar a a sed im en t ação t eó r ica d a disciplin a. O resultado é que o leitor se depara com u m p an or am a h ist ór ico e an alít ico d o su r gim en -to e d a con solid ação d a bioética n os Estad os Un i-d os, p r in cip al p aís i-d e p esqu isa bioética, e n o Br a-sil.

Mas o qu e qu er d izer aban d o n ar a casu íst ica bioética? Segu n do as au toras, os pesqu isadores de bioét ica n o Br asil d iscu t em ou escr evem sobr e as sit u ações d e con flit o m or al d a bioét ica, h aven d o p o u co esp aço p ar a a d iscu ssão t eó r ica so b r e o s fu n d am en t o s d a d iscip lin a. Regr a ger al, o s p es-qu isad or es br asileir os d a bioética an alisam casos, com o o abor to ou a eu tan ásia, defin in do-se com o im portadores de teorias dos países on de a pesqu isa bioét ica en con t r a se m ais avan çad a. Esisa afir -m ação d as au t or as p od e ser co-m p r ovad a p elo r e-gist r o bibliogr áfico r ecém - p u blicad o, Bibliogra-fia bioética brasileira: 1990- 2002, n a qu al se tem u m p an or am a d a p r od u ção in t elect u al br asileir a em bioética: sim , a bioética br asileir a é an tes u m a

an álise d e situ ações d e con flito m or al qu e m esm o u m a d iscu ssão t eó r ica so b r e co m o m ed iar essas sit u ações.

A In t r od u ção é br eve, ap r esen t a essa est r at é-gia d e d iscu ssão t eó r ica e n ão - casu íst ica, m as a prim eira n ota de rodapé é sign ificativa para a pes-qu isa cien t ífica br asileir a. Um a d as au t or as agr a-d ece a u m p ar ecer an ôn im o a-d e p u blicação, r ecebid o em m ead os d os an os 1990, p or t ê la con d u -zido à bioética. Esse é u m pon to im por tan te e qu e r ar am en t e é d iscu t id o n a ed u cação su p er io r n o Br asil: o p ap el o cu p ad o p elo s ed it o r es e p ar ece-ristas de revistas cien tíficas. Não sei qu an tos leito-r es p eleito-r d eleito-r ão algu n s m in u t o s n esse leito-r o d ap é, m as, n o m eu caso particular, esse foi um dos pon tos que m ais m e ch am o u at en ção n o livr o , o u seja, o p a-pel fu n dam en tal ocu pado a-pelos an ôn im os edu ca-d or es ca-d as r evist as cien t íficas p ar a a p r om oção ou m esm o d efin ição d a p esqu isa n o p aís ( o qu e Ar -thu r Meadows cham a por gatekeepers d a p esqu isa cien tífica). Se o livro tem m érito, esse m érito tam -bém é do periódico responsável por este parecer, os Cadernos de Saúde Pública, u m dos m ais sérios n a p esqu isa em saú d e p ú blica n o Br asil.

O p r im eir o cap ít u lo , o m ais h ist ó r ico e d es-critivo de todos, cham a-se “O n ascim en to da bioé-t ica”. N ele, D in iz e Gu ilh em d escr evem d esd e a cr iação d o n eo lo gism o b io ét ica p o r Van Ren sse-laer Po t t er at é o s p r in cip ais even t o s e fat o s q u e m ar car am o su r gim en t o acad êm ico d a b io ét ica n os Estados Un idos, en tre os an os de 1960 e 1970. As con tr ovér sias sobr e a p ater n id ad e d o con ceito bioét ica, se t er ia sid o r ealm en t e Pot t er o cr iad or , ou War r en Reich , p ela p r im eir a in st it u cion aliza-ção d a bioét ica em u m a u n iver sid ad e am er ican a, são ap r esen t ad as n est e cap ít u lo. Além d essa d is-p u t a acad êm ica so b r e q u em ser ia o is-p at r o n o d a bioét ica est ad u n id en se, u m t em a qu e foi r eacen -d i-d o ap ós a m or te -d e Potter , em 2001, o cap ítu lo discu te ain da a in flu ên cia dos m ovim en tos sociais or gan izad os p ar a o su r gim en t o d a bioét ica.

Mu ito em bora seja u m capítu lo de revisão his-t ór ica, as au his-t or as in his-t r od u zem o qu e acr ed ihis-t o seja a defin ição de bioética u tilizada n o livro: ...por ser a bioét ica u m cam po disciplin ar com prom issado com o con flit o m oral n a área da saú de e da doen -ça dos seres hum anos e dos anim ais não- hum anos, seu s t em as dizem respeit o a sit u ações de vida qu e n u n ca deix aram de est ar em pau t a n a hist ória da hum anidade... Defin ese bioética com u m discu r -so político e acadêm ico -sobre o con flito m oral em saú d e, ist o é, o s t em as b io ét ico s são , p o r d efin i-ção, qu estões on de n ão existe con sen so m oral. Os t em as d o abo r t o o u d a eu t an ásia são algu n s d es-ses exem p los.

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u m m ar co p ar a a in st it u cio n alização d a bio ét ica n os Est ad os Un id os e ao r ed or d o m u n d o. A t eo-r ia p eo-r in cip alist a, alcu n h a p ela qu al fico u co n h e-cid a a t eo r ia d o s qu at r o p r in cíp io s ét ico s, ain d a h o je é u m a t eo r ia h egem ô n ica em p aíses d e p es-qu isa bioét ica m ais t ar d ia, com o é o caso d o Br a-sil. Segu n do as au toras, a proposta do livro era se-d u t or a em u m se-d u p lo sen t ise-d o: p r im eir o, p er m it ia u m a t r ad u ção d o d iscu r so filosófico p ar a os p r o-fission ais da saúde, prin cipal público-alvo da bioé-tica, e, em segu n do lu gar, era de fácil aplicação em sit u açõ es d e co n flit o m o r al. A p o p u lar ização d a t eor ia p r in cip alist a foi t ão gr an d e qu e, em fin ais d os an os 1990, su r giu u m m ovim en t o d e cr ít ica à t eor ia p r in cip alist a.

N a an álise d as t eor ias cr ít icas ao p r in cip alis-m o est ão algu n s d o s ar gu alis-m en t o s alis-m ais o r igin ais d o livr o. As au tor as d iscu tem au tor es e p er sp ecti-vas an alít icas p ar a a bioét ica qu e, r ar am en t e, são citados n o con texto brasileiro. Au tores japon eses, filip in os e o qu e h á d e m elh or n o Br asil é d iscu t i-do com o parte da crítica prin cipalista. É n essa sesão qu e p ela p r im eir a vez su r ge a d efesa d e p er s-p ect ivas cu lt u r alist as s-p ar a o d iscu r so b io ét ico , u m a m ar ca r egist r ad a d as au t o r as e já d iscu t id o em o u t r as p u blicaçõ es, co m o Con flit os m orais e bioética. Din iz e Guilhem defen dem a im portân cia da sen sibilidade etn ográfica dos pesqu isadores da bioética com o for m a d e ap r oxim á-los d os valor es e cren ças de cada com un idade en volvida n o con fli-t o m o r al. Esse é u m ar gu m en fli-t o m u ifli-t o p r ó xim o d as id éias d e Tr ist r am En gelh ar d t , t em a d o qu ar -t o cap í-t u lo d o livr o , “O u -t r o s au -t o r es, o u -t r as id éias”. Mu it o em bor a a ed ição d o livr o seja p r i-m o r o sa, o n o i-m e d e Tr ist r ai-m En gelh ar d t fo i gr a-fad o d e for m a equ ivocad a ( n o livr o está Tr istam , ao in vés d e Tr istr am ) . O cap ítu lo qu ar to é o m ais o u sad o d o livr o . N ele, as au t o r as d iscu t em a in -flu ên cia de En gelhardt, de Peter Sin ger, e das pers-p ect ivas fem in ist as pers-p ar a a co n so lid ação d a bio ética. O s d ois p r im eir os au tor es, En gelh ar d t e Sin -ger, são con hecidos da bioética brasileira, pois são dos pou cos au tores in tern acion ais da bioética tra-d u zitra-d o s p ar a a lín gu a p o r t u gu esa. A esco lh a tra-d o s dois au tores n ão se deu apen as pelo fato de am bos en co n t r ar em se t r ad u zid o s n o Br asil, m as p r in -cip alm en t e p ela p er m an ên cia e im p o r t ân cia n o debate bioético in tern acion al de su as idéias. O cu -r ioso é qu e, m u ito em bo-r a p a-r te d a p u blicação d e En gelh ar d t e Sin ger est eja t r ad u zid a p ar a o p o r

-t u gu ês, a p r o d u ção b ib lio gr áfica b r asileir a p r a-t ica-m en t e ign or a as id éias d e aica-m bos os au t or es, h aven d o um a clara preferên cia pelo prin cipalism o. Din iz e Gui-lh em n ão discu tem esse traço da iden tidade da bibliografia bioética brasileira, sen do u m pon to in teressan -t e a ser an alisad o em p esqu isas fu -t u r as.

O m ais in t er essan t e d o cap ít u lo é, n o en t an t o , a d iscu ssão d as p er sp ect ivas fem in ist as p ar a b io ét ica. Fem in ism o n a bioét ica é u m a cat egor ia an alít ica, u m cam p o d e p esqu isa em filosofia ap licad a, e qu e as au -tor as assu m em , sem r eceio, su a filiação. Din iz e Gu ilh em são p esqu isad or as fem in ist as d a bioét ica, d en -t r e as p r ecu r so r as d esse m o vim en -t o -t eó r ico n o Br a-sil. Por t an t o, essa sessão d o livr o t em n ão ap en as u m m ér it o t eó r ico , ao ap r esen t ar id éias e au t o r as in t er -n acio -n ais d esco -n h ecid as p ar a a b io ét ica b r asileir a, m as p r in cip alm en t e u m p ap el h ist ó r ico n o p aís, ao recon h ecer a bioética fem in ista com o u m dos cam pos só lid o s e legít im o s d a p esq u isa b io ét ica in t er n acio-n al.

A con clu são d o livr o é br eve com o a in t r od u ção, m as assu m e u m tom n ostálgico sobr e o d esafio in ter -n acio-n al d e a bioét ica co-n st it u ir - se com o a -n ar r at iva sobr e os con flit os m or ais em saú d e. As au t or as r econ hecem qu e o desafio bioético econ ão é sim ples, tam pou -co fácil de ser executado, chegan do, até m esm o, a dizer qu e “...lidar com os tem as b io ét ico s n ão é u m a t ar efa agr ad ável...” Com o saída p ar a esse im p asse, o p r in cí-pio ético da tolerân cia é posto com o o m ecan ism o qu e poderá possibilitar a con solidação da bioética em u m a p er sp ect iva global.

Referências biblio gráficas

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