E D I T O R I A L
C I R C Ü N C I S Ã O F E M I N I N A
Custa a c r e r q u e , a i n d a nos dias de h o j e , e m d e t e r m i n a d o s países, se pratique a c i r c u n c i s ã o f e m i n i n a , u m q u a d r o sombrio e melancólico da existência h u -m a n a .
I n f e l i z m e n t e , centenas de eventos p r o v a m que o H o m e m t e n d e , como d i r i a Heidegger, a f u g i r d e si m e s m o , m e r g u l h a n d o da a l t u r a da solidão aos baixos t e r r e n o s públicos dos m u i t o s , isto é, n a despersonalização. A c i r c u n c i s ã o f e m i n i n a representa m a i s u m triste episódio do m a c h i s m o laico com q u e os séculos de d o m i n a ç ã o m u ç u l m a n a i m p r e g n a r a m v á r i o s povos, c o m distorções até nos pró-prios costumes religiosos. A o l o n g o de nossa civilização, j á o disse Tristão de A t h a y d e , o sexo f e m i n i n o f o i s e m p r e m a r g i n a l i z a d o . E m sentença m e m o r á v e l , o famoso geógrafo e h i s t o r i a d o r cearense C a p i s t r a n o de A b r e u , r e s u m i u o t r i â n g u l o clássico de nossa f a m í l i a colonial: m a r i d o t i r a n o , m u l h e r submissa e filhos assus-tados.
U r g e u m m o v i m e n t o , e m escala m u n d i a l , capaz de e l i m i n a r d a face da ter-r a este c ter-r i m e contter-ra a m u l h e ter-r indefesa. E m ceter-rtos t e ter-r ter-r i t ó ter-r i o s da Á f ter-r i c a , n a p a ter-r t e sul da P e n í n s u l a Á r a b e , n a M a l á s i a e Indonésia, a i n d a se p r a t i c a este v e r d a d e i r o v a n d a l i s m o , segundo i n f o r m a M a h e r M a h r a n , professor do D e p a r t a m e n t o d e Obs-tetrícia e Ginecologia da U n i v e r s i d a d e A i n S h a m s ( C a i r o , E g i t o ) . Não se pode a v a l i a r , e m toda sua extensão, a m a g n i t u d e do p r o b l e m a . No Egito, onde se pensou q u e esta g r a v e e triste ocorrência h a v i a desaparecido, verificouse r e c e n t e m e n -te q u e 9 5 % das m u l h e r e s , de u m g r u p o de 2 . 0 0 0 e q u e e s t a v a m n a i d a d e d e con-ceber, ao serem e x a m i n a d a s e m u m a c l í n i c a ginecológica, p o r m o t i v o s diversos, e s t a v a m circuncisas.
S e g u n d o sua f o r m a ç ã o religiosa, c u l t u r a l e d e tradições, cada p a í s adota u m a técnica especial p a r a a circuncisão f e m i n i n a , consistindo n a e l i m i n a ç ã o , sem anestesia, dos órgãos genitais, e m m e n o r ou m a i o r extensão, chegando-se até a c h a m a d a "circuncisão f a r a ô n i c a " . S ã o os chefes de t r i b o q u e , e m pobres c r i a t u -r a s de 5 a 1 0 a n o s , com i n s t -r u m e n t o s toscos e p -r i m i t i v o s p -r a t i c a m este t i p o de operação, causando-lhes t e r r í v e i s t r a u m a s psíquicos, com e v e n t u a l c h o q u e , san-g r a m e n t o e q u a d r o s infecciosos d i v e r s o s . E m certos povoados de K e n i a , a operação constituise e m v e r d a d e i r a c e r i m ô n i a . Despojadas de sua f e m i n i l i d a d e , c r i a m se sérios p r o b l e m a s psicosociais, com transtornos n a u n i d a d e f a m i l i a r . Os m a r i -dos d a s m u l h e r e s circuncisas passam, e n t ã o , a f u m a r m a i s " m a r i h u a n a " .
reli-giosas, tradições tribais, superstições e conceito de castidade. É preciso despertar a atenção da Organização M u n d i a l da S a ú d e p a r a este g r a v e p r o b l e m a . Infelizmen-te, o h o m e m passa a ser o ú n i c o a n i m a l a agir contra si p r ó p r i o . P a r a p r o v a r a sua fé religiosa, ou com outros f i n s , é de se p a s m a r todo esse absurdo. C o n f o r m e assinala V a s c o n n e , não existe pior m á c u l a à face h u m a n a 'do que a aplicação de u m a t o r t u r a , q u a l q u e r que ela seja, sobre u m a c r i a t u r a indefesa, sob que pretexto for. Sacrifícios h u m a n o s não d e v e m m a i s existir sobre a face da t e r r a . Não pode-mos m a i s assistir o f a n a t i s m o e a selvageria a d q u i r i r e m foros de civilização.
Prof. C a r l o s da S i l v a Lacaz
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. MAHRAN, M. Peligros para la salud de la circucisión femenina. Bol. med. IPPE, Londres, 15 (2): 1-2, abr. 1981.