3.4 A Experiência Religiosa do eixo do amor ancorada na Memória
3.4.1 A afloração de sentimentos no momento do silêncio sacro e da música
A função mediadora da música durante a celebração eucarística é algo que dá um toque especial ao encaminhamento do rito. Segundo Jorge: “Hoje é algo impensável a realização de uma celebração eucarística sem o recurso da música. A música toca a gente...” (ANEXO 1, Questionário 6). Este toque musical pelos cantos litúrgicos durante a celebração provoca um efeito na psichê humana. Dois espaços tão distantes – o espaço do silêncio e o espaço da música – são, ao mesmo tempo, tão próximos durante a celebração eucarística. Nos espaços interiores da alma têm um efeito similar para interiorização a música e o silêncio sacro. Como se a música expandisse a energia contida em “a melodia da alma” – como expressou Regina. Neste espaço interior “a palavra cantada ela fixa mais no seu coração e alimenta mais” (ANEXO 1, Questionário 2). Regina vê o canto ou o hino religioso como um meio condutor de ânimo:
A música na liturgia ela dá ânimo para as pessoas. Às vezes, a pessoa nem tem voz para cantar. Ninguém não quer nem saber se o outro tem voz pra cantar. Ela tá cantando, como diz: quem canta seus males espanta, quem canta reza duas vezes, como dizia Santo Agostinho. A melodia da alma! Entendeu? Você começa a cantar, eu acho que você aprende muito mais cada palavra. O evangelho todo ninguém grava. Eu conheço pessoas que começaram a cantar e foram para a igreja por causa da música. A palavra cantada ela fixa no seu coração e alimenta mais. Ai você está falando a palavra de Deus. Porque se você gosta de uma música, você lembra dela e começa a cantar. “Prova de amor maior não há que doar a vida ao seu irmão. Eis que eu vos dou o meu novo mandamento”. Você escuta isso no Evangelho, mas canta pra vê? O sentimento! A palavra de Deus é proposta e não imposta. É a liberdade da fé. (ANEXO 1, Questionário 2)
O coração humano capta as teofanias e hierofanias levando o ser humano tanto pela música quanto pelo silêncio a uma sinergia com o numinoso. O coração é o órgão que propicia a emanação das energias do universo ou sinais do Espírito Santo: “O duplo movimento (sístole e diástole) do coração faz dele ainda o símbolo do duplo movimento de expansão e reabsorção do universo”.305 Para captar as energias cósmicas é necessário uma sintonia introspectiva e contemplativa por parte do coração humano numa disponibilidade receptiva de tais energias.
Na celebração eucarística a função mediadora dos recursos musicais e do silêncio orante se intercalam operando um efeito de interiorização e comunicação entre o ser humano e o seu espaço sagrado – o espaço da religiosidade. Ali, aonde tem o sentimento de estar diante de algo sublime “o sagrado se nos revela”.306
Raquel disse que a música leva-a por um caminho de interiorização:
Acho que a música é um importante instrumento para abrir o coração da gente para receber a graça e sentir a sua presença. A renovação carismática usa muito deste recurso, e para aquelas pessoas mais agitadas é bom porque acalma. O silêncio também é importante porque proporciona como que uma volta pra dentro da gente e ali encontro Jesus, como se estivesse na minha consciência. No momento da comunhão, a música pode estar alta, mas é como se eu estivesse num profundo silêncio e a música estivesse ao longe, sem me perturbar. No momento da consagração é um silêncio diferente. Diferente, de o simples calar, ou fazer silêncio, é um silêncio que parece recolher a nossa consciência para o mais profundo de nós. As leituras são muito importantes porque nos fazem refletir. (ANEXO 1, Questionário 3)
E o silêncio e o canto são mediadores para a sintonia e o diálogo ser humano/numinoso. Ainda segundo Jean Cheevalier: “O canto é o símbolo da palavra que une a potência criadora à sua criação, no momento em que esta última reconhece sua dependência de criatura, exprimindo-a na alegria, na adoração ou na imploração. É o sopro da criatura a responder ao sopro do criador”.307 Na celebração litúrgica da eucaristia o canto é a exteriorização e a interiorização em uma dialética no decurso do culto. Jorge vê o momento do silêncio como o ponto alto da missa para interiorização e reflexão:
Nessa doutrina cristã, nessa caminhada cristã é o que a gente chama de silêncio orante. Eu acho que o momento ponto alto da missa: é o silêncio. Quando as pessoas escutam a palavra de Deus, após o evangelho e, traz isso para a vida delas. Tentam refletir, repensar o que foi feito de lá pra cá, e o que vai ser feito daqui pra frente. Este é o ponto alto da missa. É fundamental a parte tocada, cantada e musical da missa, mas o silêncio é muito importante para que as pessoas consigam interiorizar isso e aplicar isso no seu dia-a-dia. Não adianta você ouvir, porque senão fica uma coisa muito vazia, você escuta o padre ler o Evangelho e faz de fato uma reflexão sobre a palavra e não leva nada disso pra casa. É o momento que você interioriza isso e canaliza para a sua vida. O que eu acho até importante na religião católica essa coisa de não ter essa imposição de verdades. Nada é verdade absoluta. Cada um escuta e absorve para si da maneira que acha correta. Se não for fazer bem para você tudo bem. (ANEXO 1, Questionário 6)
306 ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. Op.cit., p.29. 307 CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT. Op.cit., p.176.
Jorge chamou de silêncio orante o silêncio sacro. É o recolhimento à profundidade abissal da alma onde o sentimento de união com Deus é tão intenso que o ser humano sente como que elevado a um nível de traspassamento trans-humano. No sentido de que o sentimento de leveza e interiorização com o si-mesmo é tão profundo que a sensação é estar num outro espaço – transcendente – ao qual não se encontra formas de designação. Um sentimento tal que assola a alma humana, no qual a psichê pressente estar diante de algo inexplicável dentro dos padrões do imanente existencial humano. O ganz andere ou numinoso, como algo diferente de todas as emoções experimentadas rotineiramente, revela-se mostrando que aqui há um espaço sagrado reservado com fontes energéticas renovadoras da alma.
Estes espaços reservados, ou ante-câmaras da experiência religiosa, aos quais tanto a música sacra quanto o silêncio sacro elevam tais fiéis a uma dimensão diferente da ordinária ou cotidiana. Como nos aponta Eliade, é diferente qualitativamente o espaço ordinário do espaço sagrado, como no caso templo: “o centro do mundo”. Diferentemente, por se tratar aqui de um espaço espiritual e não um espaço físico há uma vibração energética percepcionada pela consciência humana diferente dos outros espaços ordinários, como intuiu a fiel Raquel: “Quando entrei aqui senti uma energia diferente”. E, adiante ela enfatiza o silêncio sentido ali diferente de todos os silêncios já vividos: “Como se eu voltasse para dentro de mim mesma...” (ANEXO 1, Questionário 3).
Isto é parte do mistério inexplicável do acontecimento da experiência religiosa durante o culto eucarístico. Esta interiorização que dá a alma humana a sensação de estar no âmbito do sagrado – um espaço sagrado. É um fato que é percepcionado e vivenciado pelo fiel como mediadores para este encontro reflexivo sobre si mesmo e estar diante de um poder soberano – uma força diferente – o totalmente outro.
Regina retrata muito bem, em suas palavras, o momento cultual onde o espaço da música e o espaço do silêncio se co-fundem: “Quando recebo a hóstia entro num mergulho profundo e é como se a música estivesse ao longe... Inexplicável! Sei que parece que estou fora de mim, fora da igreja, ao longe...”. Segue adiante dizendo que os momentos que mais tocam o seu coração durante o culto é o momento de louvor e o momento da consagração:
Para mim é de louvor, o canto. Como dizia Santo Agostinho: cantar é rezar duas vezes. No canto eu acho você está começando a alimentar sua alma. Quantas pessoas choram ao ouvir a musica, né? A música da igreja toca demais o coração da gente. Que ela é feita pra isso. Os momentos que mais me tocam é o de louvor e a Eucaristia. Depois, no final a paz, eu acho que a gente não pode ficar sem porque aquilo é o ápice de tudo. Você sente necessidade de doar para o seu irmão. Como se eu aceito o meu irmão eu quero dar a paz pra ele, eu quero dar o que eu estou sentindo. (ANEXO 1, Questionário 2)
Indo na mesma direção do já dito por Regina, o fiel Jorge também crê que a música tem a propriedade de desencadear um processo fraternal comunitário e necessidade de doação. Em um diálogo: Por que você acha que a música sacra tem essa propriedade de fazer com que o fiel se interiorize e tenha sentimentos diferenciados no templo?
Eu. Isso é pessoal. Eu acho, que o ser humano, em si, se emociona com a música, a música em diferentes vertentes: do samba ao jazz. E, isso não é diferente num culto religioso, numa celebração religiosa. Eu acho que a pessoa, às vezes, a música acaba dizendo aquilo que a pessoa não consegue expressar com palavras. Então ela escuta aquilo e se emociona, e acaba se transformando em algo fraternal assim, em algo fraternal que é comunitário. E, hoje não se tem uma celebração sem a parte musical, ela fica muito pobre. Pobre no seu todo. O ser humano se emociona com a música de uma maneira geral e não é diferente no culto religioso. As músicas tocam as pessoas de uma maneira geral. (ANEXO 1, Questionário 6)
Você falou desse amor comunitário fraternal. Você acha que a música desencadeia este sentimento fraternal para com o outro?
Sinceramente, eu acredito que sim. Eu já vi, por diversas vezes, as pessoas se abraçarem assim em momentos de celebração em função da música. Tem até uma parte da celebração católica que a gente chama de abraço da paz, as pessoas que nunca se viram antes se cumprimentam, se abraçam, se olham nos olhos. A meu ver, é um processo fraterno que acontece mesmo que momentâneo, mas ele ocorre. (ANEXO 1, Questionário 6)
Durante a celebração da missa é interessante a alternância entre o silêncio e os cânticos e hinos religiosos. São recursos usados durante o rito para a sintonia do humano com Deus. São também manifestações próprias do espírito diante dos sentimentos que vão lhe acometendo durante o ritual. No momento da consagração estabelece-se um silêncio solene, de acordo com a Dirce, é o “silencio respeitoso”. Em outro diálogo pergunto-lhe: Esse silêncio da igreja é diferente?
O silêncio respeitoso. Eu acho. É um silêncio assim como quando você entra na casa de alguém muito importante na sua vida. Sabe? Que você só de entrar ele sabe que você está, né? E que você veio pra visitá-lo. Eu tinha até mania de entrar no sacrário e falar: Boa tarde Jesus! Ou bom dia, boa noite Jesus! Mas, daí algumas pessoas me chamaram a atenção: Oh, você não tem que falar isso não! Mas, eu sinto Jesus como um amigo. (ANEXO 1, Questionário 5)
Indaguei-lhe: Por que a senhora conversa com ele como um amigo pessoal, e presente? Dirce: “É! Presente! Pessoal mesmo! Amigo, eu falo, não tem outro em todas as situações alegres ou tristes, não tem outro. Ai de mim, se não fosse ele!”.
Há uma aproximação entre a música e o sentimento do sagrado. Como nos apontou Rudolf Otto, a música suscita no espírito humano o sentimento do sublime. A música aflora na alma humana um sentimento de interiorização contemplativa. Mais do que a palavra falada, a música possui um “non sé qué” mágico que enleva a alma aos espaços sublimes da psichê humana. A vibração musical é um veículo pelo qual conduz o ser humano aos sentimentos mais íntimos e mais profundos. É uma ponte de comunicação que tem o poder de despertar na consciência humana emoções para a elevação espiritual, a ascensão e a purificação da alma.
Esta melodia da alma aflora sentimentos já contidos dispositivamente trazidos pelos fiéis no momento em que vêm ao templo para o culto:
A música mexe com o seu sentimento e depende do dia. Se você chega na igreja, tem dia que você chega mais triste. Então, de acordo com a música, vem uma vontade de chorar lembrando de alguém. Se você está alegre, sente vontade de cantar. Às vezes uma letra de uma música te faz chorar. Tudo é o momento, o jeito que você chegou na igreja. Saiu de casa pra vim. Tem que vim com o coração aberto. Mas muitas vezes está com uma doença em casa, tem uma preocupação com um filho. Então você chega assim meio triste, a letra de uma musica te faz chorar. Tudo é o momento. (ANEXO 1, Questionário 5)
A manifestação do sentimento do fiel no momento do silêncio e da música é efeito da carga afetiva que este já traz do seu estado de espírito. Por isso, Dirce fala que depende do dia como será sua afloração emocional.