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A afloração de sentimentos no momento do silêncio sacro e da música

No documento celeideagapitovaladaresnogueira (páginas 179-184)

3.4 A Experiência Religiosa do eixo do amor ancorada na Memória

3.4.1 A afloração de sentimentos no momento do silêncio sacro e da música

A função mediadora da música durante a celebração eucarística é algo que dá um toque especial ao encaminhamento do rito. Segundo Jorge: “Hoje é algo impensável a realização de uma celebração eucarística sem o recurso da música. A música toca a gente...” (ANEXO 1, Questionário 6). Este toque musical pelos cantos litúrgicos durante a celebração provoca um efeito na psichê humana. Dois espaços tão distantes – o espaço do silêncio e o espaço da música – são, ao mesmo tempo, tão próximos durante a celebração eucarística. Nos espaços interiores da alma têm um efeito similar para interiorização a música e o silêncio sacro. Como se a música expandisse a energia contida em “a melodia da alma” – como expressou Regina. Neste espaço interior “a palavra cantada ela fixa mais no seu coração e alimenta mais” (ANEXO 1, Questionário 2). Regina vê o canto ou o hino religioso como um meio condutor de ânimo:

A música na liturgia ela dá ânimo para as pessoas. Às vezes, a pessoa nem tem voz para cantar. Ninguém não quer nem saber se o outro tem voz pra cantar. Ela tá cantando, como diz: quem canta seus males espanta, quem canta reza duas vezes, como dizia Santo Agostinho. A melodia da alma! Entendeu? Você começa a cantar, eu acho que você aprende muito mais cada palavra. O evangelho todo ninguém grava. Eu conheço pessoas que começaram a cantar e foram para a igreja por causa da música. A palavra cantada ela fixa no seu coração e alimenta mais. Ai você está falando a palavra de Deus. Porque se você gosta de uma música, você lembra dela e começa a cantar. “Prova de amor maior não há que doar a vida ao seu irmão. Eis que eu vos dou o meu novo mandamento”. Você escuta isso no Evangelho, mas canta pra vê? O sentimento! A palavra de Deus é proposta e não imposta. É a liberdade da fé. (ANEXO 1, Questionário 2)

O coração humano capta as teofanias e hierofanias levando o ser humano tanto pela música quanto pelo silêncio a uma sinergia com o numinoso. O coração é o órgão que propicia a emanação das energias do universo ou sinais do Espírito Santo: “O duplo movimento (sístole e diástole) do coração faz dele ainda o símbolo do duplo movimento de expansão e reabsorção do universo”.305 Para captar as energias cósmicas é necessário uma sintonia introspectiva e contemplativa por parte do coração humano numa disponibilidade receptiva de tais energias.

Na celebração eucarística a função mediadora dos recursos musicais e do silêncio orante se intercalam operando um efeito de interiorização e comunicação entre o ser humano e o seu espaço sagrado – o espaço da religiosidade. Ali, aonde tem o sentimento de estar diante de algo sublime “o sagrado se nos revela”.306

Raquel disse que a música leva-a por um caminho de interiorização:

Acho que a música é um importante instrumento para abrir o coração da gente para receber a graça e sentir a sua presença. A renovação carismática usa muito deste recurso, e para aquelas pessoas mais agitadas é bom porque acalma. O silêncio também é importante porque proporciona como que uma volta pra dentro da gente e ali encontro Jesus, como se estivesse na minha consciência. No momento da comunhão, a música pode estar alta, mas é como se eu estivesse num profundo silêncio e a música estivesse ao longe, sem me perturbar. No momento da consagração é um silêncio diferente. Diferente, de o simples calar, ou fazer silêncio, é um silêncio que parece recolher a nossa consciência para o mais profundo de nós. As leituras são muito importantes porque nos fazem refletir. (ANEXO 1, Questionário 3)

E o silêncio e o canto são mediadores para a sintonia e o diálogo ser humano/numinoso. Ainda segundo Jean Cheevalier: “O canto é o símbolo da palavra que une a potência criadora à sua criação, no momento em que esta última reconhece sua dependência de criatura, exprimindo-a na alegria, na adoração ou na imploração. É o sopro da criatura a responder ao sopro do criador”.307 Na celebração litúrgica da eucaristia o canto é a exteriorização e a interiorização em uma dialética no decurso do culto. Jorge vê o momento do silêncio como o ponto alto da missa para interiorização e reflexão:

Nessa doutrina cristã, nessa caminhada cristã é o que a gente chama de silêncio orante. Eu acho que o momento ponto alto da missa: é o silêncio. Quando as pessoas escutam a palavra de Deus, após o evangelho e, traz isso para a vida delas. Tentam refletir, repensar o que foi feito de lá pra cá, e o que vai ser feito daqui pra frente. Este é o ponto alto da missa. É fundamental a parte tocada, cantada e musical da missa, mas o silêncio é muito importante para que as pessoas consigam interiorizar isso e aplicar isso no seu dia-a-dia. Não adianta você ouvir, porque senão fica uma coisa muito vazia, você escuta o padre ler o Evangelho e faz de fato uma reflexão sobre a palavra e não leva nada disso pra casa. É o momento que você interioriza isso e canaliza para a sua vida. O que eu acho até importante na religião católica essa coisa de não ter essa imposição de verdades. Nada é verdade absoluta. Cada um escuta e absorve para si da maneira que acha correta. Se não for fazer bem para você tudo bem. (ANEXO 1, Questionário 6)

306 ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. Op.cit., p.29. 307 CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT. Op.cit., p.176.

Jorge chamou de silêncio orante o silêncio sacro. É o recolhimento à profundidade abissal da alma onde o sentimento de união com Deus é tão intenso que o ser humano sente como que elevado a um nível de traspassamento trans-humano. No sentido de que o sentimento de leveza e interiorização com o si-mesmo é tão profundo que a sensação é estar num outro espaço – transcendente – ao qual não se encontra formas de designação. Um sentimento tal que assola a alma humana, no qual a psichê pressente estar diante de algo inexplicável dentro dos padrões do imanente existencial humano. O ganz andere ou numinoso, como algo diferente de todas as emoções experimentadas rotineiramente, revela-se mostrando que aqui há um espaço sagrado reservado com fontes energéticas renovadoras da alma.

Estes espaços reservados, ou ante-câmaras da experiência religiosa, aos quais tanto a música sacra quanto o silêncio sacro elevam tais fiéis a uma dimensão diferente da ordinária ou cotidiana. Como nos aponta Eliade, é diferente qualitativamente o espaço ordinário do espaço sagrado, como no caso templo: “o centro do mundo”. Diferentemente, por se tratar aqui de um espaço espiritual e não um espaço físico há uma vibração energética percepcionada pela consciência humana diferente dos outros espaços ordinários, como intuiu a fiel Raquel: “Quando entrei aqui senti uma energia diferente”. E, adiante ela enfatiza o silêncio sentido ali diferente de todos os silêncios já vividos: “Como se eu voltasse para dentro de mim mesma...” (ANEXO 1, Questionário 3).

Isto é parte do mistério inexplicável do acontecimento da experiência religiosa durante o culto eucarístico. Esta interiorização que dá a alma humana a sensação de estar no âmbito do sagrado – um espaço sagrado. É um fato que é percepcionado e vivenciado pelo fiel como mediadores para este encontro reflexivo sobre si mesmo e estar diante de um poder soberano – uma força diferente – o totalmente outro.

Regina retrata muito bem, em suas palavras, o momento cultual onde o espaço da música e o espaço do silêncio se co-fundem: “Quando recebo a hóstia entro num mergulho profundo e é como se a música estivesse ao longe... Inexplicável! Sei que parece que estou fora de mim, fora da igreja, ao longe...”. Segue adiante dizendo que os momentos que mais tocam o seu coração durante o culto é o momento de louvor e o momento da consagração:

Para mim é de louvor, o canto. Como dizia Santo Agostinho: cantar é rezar duas vezes. No canto eu acho você está começando a alimentar sua alma. Quantas pessoas choram ao ouvir a musica, né? A música da igreja toca demais o coração da gente. Que ela é feita pra isso. Os momentos que mais me tocam é o de louvor e a Eucaristia. Depois, no final a paz, eu acho que a gente não pode ficar sem porque aquilo é o ápice de tudo. Você sente necessidade de doar para o seu irmão. Como se eu aceito o meu irmão eu quero dar a paz pra ele, eu quero dar o que eu estou sentindo. (ANEXO 1, Questionário 2)

Indo na mesma direção do já dito por Regina, o fiel Jorge também crê que a música tem a propriedade de desencadear um processo fraternal comunitário e necessidade de doação. Em um diálogo: Por que você acha que a música sacra tem essa propriedade de fazer com que o fiel se interiorize e tenha sentimentos diferenciados no templo?

Eu. Isso é pessoal. Eu acho, que o ser humano, em si, se emociona com a música, a música em diferentes vertentes: do samba ao jazz. E, isso não é diferente num culto religioso, numa celebração religiosa. Eu acho que a pessoa, às vezes, a música acaba dizendo aquilo que a pessoa não consegue expressar com palavras. Então ela escuta aquilo e se emociona, e acaba se transformando em algo fraternal assim, em algo fraternal que é comunitário. E, hoje não se tem uma celebração sem a parte musical, ela fica muito pobre. Pobre no seu todo. O ser humano se emociona com a música de uma maneira geral e não é diferente no culto religioso. As músicas tocam as pessoas de uma maneira geral. (ANEXO 1, Questionário 6)

Você falou desse amor comunitário fraternal. Você acha que a música desencadeia este sentimento fraternal para com o outro?

Sinceramente, eu acredito que sim. Eu já vi, por diversas vezes, as pessoas se abraçarem assim em momentos de celebração em função da música. Tem até uma parte da celebração católica que a gente chama de abraço da paz, as pessoas que nunca se viram antes se cumprimentam, se abraçam, se olham nos olhos. A meu ver, é um processo fraterno que acontece mesmo que momentâneo, mas ele ocorre. (ANEXO 1, Questionário 6)

Durante a celebração da missa é interessante a alternância entre o silêncio e os cânticos e hinos religiosos. São recursos usados durante o rito para a sintonia do humano com Deus. São também manifestações próprias do espírito diante dos sentimentos que vão lhe acometendo durante o ritual. No momento da consagração estabelece-se um silêncio solene, de acordo com a Dirce, é o “silencio respeitoso”. Em outro diálogo pergunto-lhe: Esse silêncio da igreja é diferente?

O silêncio respeitoso. Eu acho. É um silêncio assim como quando você entra na casa de alguém muito importante na sua vida. Sabe? Que você só de entrar ele sabe que você está, né? E que você veio pra visitá-lo. Eu tinha até mania de entrar no sacrário e falar: Boa tarde Jesus! Ou bom dia, boa noite Jesus! Mas, daí algumas pessoas me chamaram a atenção: Oh, você não tem que falar isso não! Mas, eu sinto Jesus como um amigo. (ANEXO 1, Questionário 5)

Indaguei-lhe: Por que a senhora conversa com ele como um amigo pessoal, e presente? Dirce: “É! Presente! Pessoal mesmo! Amigo, eu falo, não tem outro em todas as situações alegres ou tristes, não tem outro. Ai de mim, se não fosse ele!”.

Há uma aproximação entre a música e o sentimento do sagrado. Como nos apontou Rudolf Otto, a música suscita no espírito humano o sentimento do sublime. A música aflora na alma humana um sentimento de interiorização contemplativa. Mais do que a palavra falada, a música possui um “non sé qué” mágico que enleva a alma aos espaços sublimes da psichê humana. A vibração musical é um veículo pelo qual conduz o ser humano aos sentimentos mais íntimos e mais profundos. É uma ponte de comunicação que tem o poder de despertar na consciência humana emoções para a elevação espiritual, a ascensão e a purificação da alma.

Esta melodia da alma aflora sentimentos já contidos dispositivamente trazidos pelos fiéis no momento em que vêm ao templo para o culto:

A música mexe com o seu sentimento e depende do dia. Se você chega na igreja, tem dia que você chega mais triste. Então, de acordo com a música, vem uma vontade de chorar lembrando de alguém. Se você está alegre, sente vontade de cantar. Às vezes uma letra de uma música te faz chorar. Tudo é o momento, o jeito que você chegou na igreja. Saiu de casa pra vim. Tem que vim com o coração aberto. Mas muitas vezes está com uma doença em casa, tem uma preocupação com um filho. Então você chega assim meio triste, a letra de uma musica te faz chorar. Tudo é o momento. (ANEXO 1, Questionário 5)

A manifestação do sentimento do fiel no momento do silêncio e da música é efeito da carga afetiva que este já traz do seu estado de espírito. Por isso, Dirce fala que depende do dia como será sua afloração emocional.

No documento celeideagapitovaladaresnogueira (páginas 179-184)