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A Santa Ceia

No documento celeideagapitovaladaresnogueira (páginas 79-84)

2.1 A eucaristia na sua gênese

2.1.2 A Santa Ceia

Contudo, é efetivamente na Santa Ceia que Jesus sela este gesto como sacramental, quando pede: “Fazei isto em minha memória” (Lc 22,15-20). A Santa Ceia tornou-se o marco efetivo para a instituição da eucaristia. A Ceia da Páscoa Cristã, onde Cristo torna-se o verdadeiro cordeiro pascal, onde o binômio pão-vinho, no relato de Lucas, substitui o clássico cordeiro-vinho da celebração pascal dos judeus baseada no Antigo Testamento.149 Acontece

147 Cf. SCHNEIDER, Teodor (org.). Idem, p.idem. 148 ALDAZÁBAL, José. Op.cit., p.41.

então, um deslocamento da ceia judaica para a ceia cristã que, posteriormente, irá se consolidando com os cristãos primitivos. Este fato contribuirá para o sentido dado pelas primeiras comunidades neotestamentárias ao mandamento do Senhor de celebração como anamnese e “fração do pão”. Assim, “fração do pão” (Lc, 24) foi o termo usado originalmente para designar a eucaristia pelos primeiros cristãos, ao primeiro dia da semana ou “dia do Senhor” reuniam-se todos para “comer e beber juntos” em memória do Kyrios (Senhor). Essas reuniões para fração do pão aconteciam em casas e não em templos ou sinagogas:

O véu do templo rasgou-se por ocasião da morte de Jesus (Mt 27,51); doravante, Deus pode estar presente e manifestar-se em qualquer lugar: a distinção, até então fundamental, entre espaço sagrado e espaço profano se desfez, como a pregação de Jesus já o havia dado a entender.150

Jesus Cristo é o fundador do cristianismo. A Santa Ceia ou Última Ceia é um marco decisivo da sua caminhada terrena, que se torna o mistério central da igreja. O evento Jesus vida-morte-ressurreição constituiu-se um modelo exemplar, arquétipo a ser seguido como possibilidade de ascensão ao nível trans-humano. Não obstante, no ocidente é também um marco no calendário que divide a história antes e depois da aparição de Jesus Cristo no tempo, dando ao calendário uma ideia e conotação da temporalidade humana, inovando a noção temporal cósmica.

Os quatro relatos sobre a instituição da eucaristia no Novo Testamento encontram-se em Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,15-20 e 1Cor 11,23-26. E, no evangelho de João, embora não seja uma narrativa direta dos gestos e com as palavras da última ceia de Jesus, no capítulo 6 traz o discurso do pão da vida. No capítulo 13 o relato do lava-pés e, no 15, o simbolismo da videira.151

Segundo José Aldazábal, dos quatro relatos Mt, Mc, e Lc fazem uma relação da última ceia com a história da paixão de Jesus. E, 1Cor fala da última ceia como fundamento, demonstrando o distanciamento em Corinto da fraternidade pregada por Jesus.

Destes quatro relatos, na visão de Aldazábal, há razões para agrupar em duas tradições: Mt/Mc e a de Lc/1Cor. Aldazábal ressaltou ser importante a exegese de tais fontes primárias básicas, daí então, partir para a análise das interpretações teológicas e literárias de forma crítica. Na comparação literária entre os quatro relatos há coincidências importantes, mas também diferenças notórias. E, sobre a pergunta de qual destes relatos seria o mais

150 LÉON-DUFOUR, Xavier. O pão da vida: um estudo teológico sobre a Eucaristia. Trad. Frei Ary E.Pintarelli. Petrópolis: Vozes, 2007, p.25.

antigo, originário e próximo da realidade da realidade histórica. O fato é que vários estudiosos se dividem na resposta a esta pergunta. Num paralelo exegético entre a instituição das duas tradições, a de Mt/Mc e Lc/1Cor encontram-se muitos pontos convergentes, mas também alguns pontos divergentes.

De acordo com Aldazábal os relatos da instituição eucarística segundo Mateus 26,26- 29 e Marcos 14,22-25:

Quadro 1 – O relato da Instituição Eucarística segundo Mateus e Marcos

Mateus Marcos 26 Enquanto comiam Jesus tomou um pão,

pronunciou a benção e o partiu; e o deu dizendo: “Tomai e comei, Isto é o meu corpo”.

27 E tomando um cálice, pronunciou a ação de graças e deu-lhes dizendo: “Bebei dele todos,

28 pois este é o meu sangue da aliança, que é derramado por [pelos] muitos para o perdão dos pecados.

29 Digo-vos que já não beberei desde agora deste fruto da videira até que chegue o dia em que o beberei convosco de novo no Reino de meu Pai”.

22 Enquanto comiam, tomou um pão, pronunciou a benção, o partiu e o deu a eles dizendo: “Tomai, isto é o meu corpo”.

23 E tomando um cálice, pronunciou a ação de graças e deu-lhes e todos beberam.

24 E disse-lhes: “Este é o meu sangue da aliança, que é derramado por [pelos] muitos.

25 Asseguro-vos que não beberei mais do fruto da videira até o dia em que o beberei de novo no Reino de Deus”.

Fonte: Elaborado pela autora Cf. ALDAZÁBAL, José. A eucaristia. Trad. Lucia Mathilde Endlich Orth. 2ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 2009, p.56.

Segundo Aldazábal nos relatos de Lucas 22,15-20 e 1Cor 11,23-26:

Quadro 02 – Relatos da Instituição Eucarística segundo Lucas e 1Cor

Lucas 1 Cor

15 E disse-lhes: Quanto desejei Comer convosco esta páscoa antes de minha paixão!

16 Porque vos digo que nunca mais a comerei até que ela se cumpra no Reino de Deus.

17 Tomando um cálice, deu graças e disse: Tomai e distribuí-o entre vós: 18 porque vos digo que desde agora não beberei mais do fruto da videira

23 O Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomando um pão

24 deu graças, o partiu e disse: “Isto é o meu corpo por vós: fazei isto em minha memória”.

25 Depois de cear fez o mesmo com o cálice dizendo: “Este cálice é a nova aliança em meu sangue. Cada vez que o beberdes, Fazei-o em minha memória”.

até que chegue o reinado de Deus.

19 Tomando um pão, deu graças, o partiu e deu-lhes dizendo: “Isto é o meu corpo entregue por vós: fazei isto em minha memória”.

20 Depois de cear fez o mesmo com o cálice dizendo: “Este cálice é a nova aliança em meu sangue que é derramado por vós.

18 Porque vos digo que não beberei desde agora do fruto da videira até que chegue o reinado de Deus.

Continuação Quadro 2

26 Pois cada vez que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha.

Fonte: Elaborado pela autora Cf. ALDAZÁBAL, José. A eucaristia. Op.cit., p.57.

Nos dois relatos de Marcos e Mateus, Jesus primeiro abençoou o pão partiu dando aos seus discípulos e em seguida tomando o cálice pronunciou a ação de graças. O que difere o relato de um e de outro? Nas palavras de Marcos, Jesus disse: “Este é o meu sangue da aliança que é derramado por [pelos] muitos”. Nas palavras de Mateus disse Jesus: “Bebei dele todos, pois este é meu sangue da aliança, que é derramado por e [pelos] muitos para o perdão dos pecados”. Acrescenta-se então no evangelho de Mateus “para o perdão dos pecados”.152 A este respeito, em nossa hermenêutica e exegese dos quatro textos bíblicos constatamos, porém, somente Mateus refere-se às palavras: “para o perdão dos pecados”.

No evangelho de Lucas e em 1Cor, nas palavras de Jesus é acrescentado: “Fazei isto em minha memória”, o acento é sobre a anamnese do Senhor. O caráter escatológico é evidenciado nos quatro evangelhos: no evangelho de Lucas esse trecho é narrado antes da benção do pão e do cálice, enquanto nos outros três evangelhos – Mateus, Marcos e Coríntio, esta narrativa se dá ao final. A ordem das palavras da benção do pão e do vinho também varia nos relatos.

Segundo Aldazábal, nos quatro relatos as coincidências são importantes:

• Jesus se reúne com os apóstolos para a ceia da despedida;

• era de noite (1Cor), ao cair da tarde (Mt,Mc), quando chegou a hora (Lc);

• num contexto de refeição, quer pascal ou não (para os três sinóticos, mas não para Paulo);

• em conexão com a morte próxima, sobretudo pelo anúncio da traição

de Judas;

• nesta ceia Jesus fez gestos sobre o pão e o vinho: “tomou, partiu, deu graças, distribuiu;

• e pronunciou palavras de bênção ritual sobre eles (“eucharistesas”, “eulogesas”), relacionando o pão com seu corpo entregue e o vinho com seu sangue derramado e, além disso, com a nova aliança; • nos quatro relatos há palavras de alcance escatológico, embora

situadas em lugares diferentes.153

Mas, Aldazábal assinala as diferenças notórias:

• Lc/1Cor acrescentam, a respeito do pão: “entregue por vós”;

• Lc/1Cor também acrescentam “fazei isto em memória de mim”; 1Cor, tanto para o pão como para o vinho; Lc só depois do pão;

• Lc/1Cor parecem colocar um espaço entre o pão e o vinho, porque o vinho foi oferecido “depois de cear”, enquanto que Mt/Mc não citam

essa ceia intermediária;

• as palavras sobre o vinho, para Mt/Mc são: “este é o meu sangue da aliança” (o sangue em primeiro lugar); para Lc/1Cor “este cálice é a nova aliança em meu sangue” (primeiro a aliança e acrescentando ainda o qualificativo “nova”);

• Mt/Mc dizem do vinho e do sangue: “por muitos”; Lc/1Cor trazem: “por vós” (Lc, do pão e do vinho; 1Cor, só do pão);

• Mt/Mc detalham a respeito do vinho: “bebei todos” (Mt), “todos beberam” (Mc);

• Mt acrescenta: “para o perdão dos pecados”;

• a alusão escatológica ao Reino, onde beberá o fruto da videira, está em Lucas antes do duplo gesto do pão e do vinho, enquanto que Mt e Mc a trazem depois, e em 1Cor alguns versículos mais adiante, com a expressão “até que ele venha”.154

É fato que estes relatos nos evangelhos são estruturados com a interpretação captada pelos que narraram o evento com suas próprias percepções e experienciações do acontecimento. De certa forma, matizam a linguagem, esta matização se mostra em alguns trechos como díspares. Temos nestes relatos o evento histórico – escritos pelo ano de 54 – apesar da tradição que o recebeu, o captou e o transmitiu segundo já a liturgia convencionada. Mas, isto não o invalida como um documento histórico com veracidade. Ademais, estes são os relatos mais próximos que temos do acontecimento histórico que nos narram as palavras de Jesus.155 Ainda que não possamos dizer quais foram as palavras exatas de Jesus, isso não foi o determinante que influenciou e inspirou a instituição da eucaristia cristã.156 O que inspirou

153 ALDAZÁBAL, José. Op.cit., p.59. 154 Idem, p.60.

155 Cf. ALDAZÁBAL, José. Op.cit., p.75.

156 Não é o objeto da nossa pesquisa um estudo histórico ou etiológico da instituição da Eucaristia. Para maior aprofundamento desse assunto ver: ALDAZÁBAL, José. Op.cit., p.60-70.

estas comunidades primitivas foi o Jesus histórico e sua vida de ação, oração, pregação. Falam mais alto as curas, os milagres e os gestos simbólicos que testemunharam sua diferença qualitativa perante aos demais. Por isso, espelho e modelo a ser seguido em seus gestos simbólicos. Jesus não fechou o seu mandamento numa verdade totalmente desvelada, para além disso, deixou o mistério. Utilizou-se de gestos simbólicos e símbolos para que a posteridade doasse sentido, respeitando assim a liberdade humana no exercício do seu livre arbítrio. Portanto, fica-nos a pergunta: Qual é o sentido dado por Jesus aos gestos simbólicos da Santa Ceia? Como foi interpretada pelas primeiras comunidades cristãs sua Última Ceia? Como reunião fraterna para celebrar a memória do evento ou como fração do pão?

No documento celeideagapitovaladaresnogueira (páginas 79-84)