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A eucaristia a partir do Concílio Vaticano II

No documento celeideagapitovaladaresnogueira (páginas 107-109)

2.2 A evolução histórica da eucaristia como dogma

2.2.5 A eucaristia a partir do Concílio Vaticano II

E, no Concílio do Vaticano II até os dias atuais foi se retomando o sentindo de vivência eucarística comunitária participativa, promovendo uma visão da Igreja como unidade mística do corpo de fiéis alimentada pelo Espírito Santo.224 No Concílio Vaticano II houve uma volta da compreensão dada pelos primeiros cristãos: “Se houve um deslocamento na compreensão da eucaristia ‘da mesa ao altar e do altar ao sacrário’ com o Concílio Vaticano II volta-se agora a dar prioridade à mesa, ao altar e a comunidade”.225 A eucaristia então volta a contemplar a sua gênese. O momento do seu nascedouro, onde havia uma maior interação entre a comunidade e a mesa: “A eucaristia aparece mais claramente como o memorial da morte pascal de Cristo”.226

É importante ressaltar que, pós Concílio Vaticano II, a teologia da eucaristia voltou-se para uma ênfase com o compromisso social227, importando-se também com a dimensão social deste sacramento, como um desdobramento da íntima relação entre a prática deste sacramento e a justiça social. O que implica, não somente a adoração do santíssimo e discussões intermináveis sobre a Transubstanciação, mas a sua práxis no eu/tu na práxis ético-social. Agora, o engajamento efetivo do fiel para a transformação de si mesmo e do mundo, com

221 Ibid., p.69. 222 Ibid., p.77. 223 Ibid., p.idem.

224 Cf. SCHNEIDER, Teodor (org.). Op.cit., p.241-263. 225 ALDAZÁBAL, José. Op.cit., p.216.

226 Idem, p.idem.

maior vigor em busca de uma sociedade justa e fraterna, que fracione o pão em termos igualitários, voltando a ter uma visão mais escatológica, é um imperativo. Uma visão de corpo nesse sentido, onde todos sejam um em condições de igualdade na “fração do pão”, unidos no sentido de comunhão em realizar o “reino de Deus”, na busca comum de uma vida plena e feliz.

Desse modo, a igreja forma um “corpo”228 de fiéis que buscam a unidade na fé da celebração e na práxis deste sacramento. O fiel é aquele que confia e crê, acolhendo na atitude de fé e aceitando como verdade o sacramentum/mysterion, experienciando-o a partir da experiência vivida, primeiro pela atitude de fé (verticalmente), num segundo momento, o desencadeamento de um sentimento comunitário (horizontalmente) na práxis cotidiana no exercício da sua liberdade. Este fenômeno, que se evidencia a partir do sacramento da eucaristia, é peculiar da tradição cristã católica. Diríamos que o sacramento da eucaristia é a fonte de identidade do cristão católico e o “coração” da igreja. Este sacramento constitui-se como marco referencial do cristão católico. Pode-se dizer que a eucaristia é de onde emana o espírito que anima o corpo de fiéis, é a fonte onde os cristãos católicos buscam a experiência religiosa. A identidade do fiel católico está intimamente imbricada à experiência individual e coletiva deste sacramento como anamnese, ou seja, o rito reatualiza o mito, tornando-o sempre vivo e operante com o mandato do senhor. Celebrando este sacramento até que Ele venha o olhar do cristão voltando-se para a esperança num futuro escatológico onde “Deus será tudo em todos”. A esperança num futuro de felicidade plena é a meta dos cristãos. Esse mundo de felicidade plena é um projetar-se tanto individualmente na prática individual da eucaristia, quanto na unidade da comunhão coletivamente. Um projeto humano seguindo um projeto Divino.

Este projetar-se foi entendido por Paulo VI no Concílio Vaticano II como proposta de uma nova eucaristia para um novo homem. Voltando para a societas fraternal que luta pelo desenvolvimento da pessoa na sociedade. Para tanto, é necessário excluir a fome e a miséria, para que todos tenham condições igualitárias no desenvolvimento de suas potencialidades como um todo.

Esta expansão da eucaristia como dimensão social que luta pela justiça social e pela paz no mundo, resgatando esta vertente do mistério da eucaristia em Carta a Coríntios com o sentido comunitário de Koinonia e fraternidade.

228 Segundo Boff, “corpo” pode ser entendido no sentido de unidade mística da Igreja e o Cristo Cósmico derivada da concepção de Paulo. BOFF, Leonardo. Evangelho do Cristo cósmico: a busca da Unidade do Todo na Ciência e na Religião. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.85-98.

Segundo Antônio Haddad, em Eucaristia e compromisso Social, Paulo VI com seus discursos e seu pensamento influenciou bastante o Concílio Vaticano II numa retomada da eucaristia como íntima relação de vivência pessoal da fé e vivência ética comunitária. Na visão de Paulo VI, a ação contemplativa e fração do pão eucarístico tinha que se estender para uma ação comunitária no social.

Assim, as potencialidades abertas com este tipo de concepção do mistério eucarístico respondem a profundas questões do homem contemporâneo e abrem um caminho formidável para a penetração desse mistério em relação a toda uma situação de injustiça estrutural, sobretudo nos países do Terceiro Mundo. Cada vez mais aumenta a sensibilidade em favor da coerência e sintonia entre ortodoxia e ortopráxis eucarística: uma teologia da graça eucarística deve levar a uma viva consciência de que o conjunto doutrinal torna-se um peso morto, se não for tematizador e articulador da práxis eucarística libertadora.229

Estes ideários sensibilizados serão um forte impulso ao movimento da Teologia da Libertação. Onde a eucaristia é repartir efetivamente o pão, alimento necessário para a sobrevivência. Onde a eucaristia é a libertação do espírito humano das amarras ideológicas de uma maioria dominante, de uma sociedade dividida entre ricos e pobres. Onde a eucaristia seja promissora da libertação do domínio político, ideológico, econômico, cultural, etc. Ao momento histórico corresponde à eucaristia, sem perder o seu fundamento. O que muda não é o fundamento da eucaristia, mas o significado e interpretação dada pelo ser humano na história.

A eucaristia abrange todos os âmbitos da existência, é uma questão de engajamento pessoal do sujeito que experiencia a vida toda como sacramento no seguimento dos passos de Jesus. O modelo de histórico de vida de Jesus é um caminho a ser seguido. Há um modelo arquetípico que, ao mesmo tempo, tem uma face divina e humana.

No documento celeideagapitovaladaresnogueira (páginas 107-109)