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Feixes de sentidos entre Otto/Eliade e a Teologia Eucarística

No documento celeideagapitovaladaresnogueira (páginas 145-148)

3.1 Os sentimentos espontâneos sobre a eucaristia

3.1.3 Feixes de sentidos entre Otto/Eliade e a Teologia Eucarística

No quadro elaborado, na página seguinte, com concepções sobre a experiência religiosa, seja dos autores primários desta pesquisa (Otto/Eliade), seja da tradição da teologia eucarística, procuramos elencar em feixes de sentido a compreensão destas duas vertentes que mais se aproximam da noção ou proposta que até agora consideramos como pontos fulcrais pelo sentimento do fiel diante do sacramento eucarístico. Nestes feixes de sentidos propostos pelas duas vertentes teóricas – a fenomenológica e a teológica –, por vezes, há uma confluência como também pode haver grandes divergências de pensamento ou concepção a respeito do objeto de pesquisa aqui abordado. Neste quadro representativo do questionário fechado buscou-se perceber a qual vertente está mais ligado ou sente mais afinidade o fiel praticante do rito eucarístico.

Quadro 5: Representativo do questionário fechado (diretivo) IGREJA DE

SÃO SEBASTIÃO

IGREJA DE SANTA LUZIA Sentimento de ser criatura de Deus. [O] 11 fiéis 7 fiéis Experiência do mistério de Deus [O] 7 fiéis 8 fiéis Sentimento de estar diante de algo inexplicável, um poder

soberano [O]

5 fiéis 6 fiéis

O sentimento do sagrado, estar diante de algo sagrado. [O/E] 2 fiéis 3 fiéis Experiência de participar de um sacramento proposto pela

Igreja [T] ____ 4 fiéis

Experiência de comparticipação e união cósmica: homem, mundo e Deus. [E]

4 fiéis 2 fiéis

Experiência de comunhão com Deus [T] 9 fiéis 11 fiéis Sentimento de estar cumprindo uma regra imposta pela igreja 1 fiel

Experiência de uma manifestação divina, de uma revelação divina através de símbolos e sinais. [E]

4 fiéis 1 fiéis

Sentimento de estar cumprindo o mandamento de uma instituição divina [T]

_____ 1 fiel

Experiência da presença real do divino. [O] 10 fiéis 11 fiéis Rememoração simbólica como mediadora para a experiência

religiosa. [E]

_____ _____

Sentimento de estar revivendo o momento da última ceia de Jesus [T]

1 fiel 2 fiéis

Participação em uma celebração do sacrifício como ação de graças [T]

4 fiéis 5 fiéis

Sentimento de agradecimento a Deus pela graça doada através do sacramento eucarístico [T]

11 fiéis 10 fiéis

Sentimento de pertença a um culto comunitário que dá sentido a sua vida. [T]

6 fiéis 3 fiéis

Fonte: Elaborado pela autora com base nos dados dos questionários.

O questionário fechado ou diretivo apontou para alguns feixes de sentido mais evidentes que outros nas duas comunidades. Sem demonstrar diferenças significativas entre uma paróquia e outra, como acontecera no questionário aberto, às sobreposições se dão aos feixes de sentidos paralelamente uma igreja para outra. Há uma predominância de alguns feixes de sentidos sobre os outros.

Alguns feixes de sentidos, durante a análise do questionário fechado, ficaram mais aparentes que outros. No que se refere ao feixe de sentido o “Sentimento de estar cumprindo uma regra imposta pela igreja” [T], um fiel apenas marcou este quesito na comunidade de Santa Luzia. Dando a entender assim que os fiéis destas duas comunidades participam da Eucaristia não porque é um dogma ou regra imposta pela igreja, mas porque se sentem bem

“ali”, há uma empatia sentimental que os move. No caso, o que importa ressaltar é que o sentimento vivido e sentido pelo fiel – como descrito pelo questionário aberto – é o que os leva a participarem da eucaristia. Deixando evidenciado que o fator que os move é a “A presença ou amor de Deus e/ou Jesus” e a “Força Regeneradora” que transborda em “Estados de ânimo”, recobrem a atitude de fé, cada vez mais prática. Levando a crer e mostrando empiricamente os efeitos benéficos recebidos durante o culto ou celebração comunitária da eucaristia que transbordam pelo seu ser e pela sua vida prática como uma verdade vivenciada na práxis.

Em decorrência de sentirem-se agraciados pelos benefícios recebidos pelo amor de Deus, os fiéis também marcaram expressivamente a opção “Sentimento de agradecimento a Deus pela graça doada através do sacramento eucarístico” [T], nas duas comunidades. O sentimento de agradecimento tanto se dá pelo fato da graça recebida pela vida (dom de Deus), e pela graça doada diariamente recebida através do sacramento. Graça sentida pelos fiéis como benção e doação de Deus em suas vidas cotidianas. Aqui, este feixe de sentido, vai ao encontro a origem etimológica da palavra grega εuχαριστία (eucharístia), composta pelos termos eú (bom) e cháris (graça).282

Assim, também o feixe de sentido “Experiência da presença real do divino” [O], foi um tópico expressivamente marcado em ambas as comunidades pesquisadas. Leva-nos a pensar como Otto: aquilo que se manifesta à consciência – o numinoso – sentido e vivido no fundo d’alma é sentido como presença real pelo âmbito do sentimento, é o que caracteriza a experiencia religiosa a priori. Não importando assim, a grande questão sobre símbolo (conforme Eliade), ou presença real (conforme a teologia: transubstanciação). Aqui, o que realmente importa é que o ser humano exprime que sente a existência de outra realidade diferente da humana, a experiência religiosa de um sentimento trans-humano, possível de ser comprovado apenas por aqueles que fazem a experiência do vivido, no âmbito do sentimento, anulando também a questão sinal /realidade tão enfaticamente debatido pela tradição teológica como visto no capítulo anterior. O que realmente importa é o vivido hierofanicamente no âmbito do sentimento.

282 No grego profano, a palavra tem um significado de dois pólos. Expressa tanto um benefício prestado, como também a grata resposta ao benefício. De modo semelhante, também no uso linguístico da Igreja o substantivo “eucaristia” não expressa apenas o evento litúrgico, mas também as oferendas, que se encontram no centro desse evento: pão e vinho. O (eucharistein) significa analogamente, “tomar a atitude de pessoa presenteada”. SCHNEIDER, Teodor (org.). Op.cit., p.255.

No documento celeideagapitovaladaresnogueira (páginas 145-148)