5 OS EFEITOS DE SENTIDO EM TORNO DA NOÇÃO DE
5.2 O FUNCIONAMENTO DA HIPERONÍMIA E DA HIPONÍMIA: OS
5.2.1 A competência como hiperônimo de Capacitação
A capacitação, através de seus tradicionais “cursos de capacitação”, ainda é um dos grandes temas em torno do discurso da competência no IFRN. É precisamente esse enunciado que tem circulado no Discurso Institucional: “capacitação com foco nas competências”. Ou seja, competência funciona no texto como hiperônimo de capacitação. E aqui é interessante ver o surgimento, no discurso de gestão empresarial dos últimos anos, das expressões “seleção por competência” e “gestão por competência” (BERNARDO, 2006, p. 51), em que o termo competência tem sido apresentado como mais apropriado do que a noção de qualificação. Enunciativamente, não é qualquer capacitação, é aquela com “foco nas competências”. E para se sustentar no Discurso Institucional, essa capacitação encontra alicerce no que está contido na Lei de Diretrizes Orçamentarias, exercício financeiro de 2019 (BRASIL, 2019), em que os números apresentam o IFRN como a instituição federal que recebeu o maior aporte de recursos destinados à capacitação de servidores públicos federais entre todos os demais63 institutos, superando até mesmo renomadas universidades federais no volume de recursos64.
63 De acordo com a Lei de Diretrizes Orçamentarias (BRASIL, 2019) o valor destinado ao IFRN é 2.900.000 (dois
milhões e novecentos mil reais), ficando atrás apenas da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSH), que recebeu um aporte de 8.093.145 (Oito milhões noventa e três mil cento e quarenta e cinco reais).
64 Como já dissemos, embora haja certo silenciamento do discurso da competência no Discurso Institucional do
Posta em um enunciado repetido à exaustão (SD 5.2 “O IFRN é a instituição federal de ensino que mais investe em capacitação”)65, a questão da capacitação tem sido apresentada como uma forma consensual de se obter sucesso profissional. Mas o que fica por significar quando analisamos sua relação com a competência na dispersão enunciativa? Sendo a capacitação “pela competência”, uma primeira leitura do enunciado já pode nos trazer alguns elementos, na forma do que não se diz: se o IFRN é o instituto federal que mais investe em capacitação, logo é aquele que mais precisa de capacitação. Seria, dessa forma, o que possui o maior número de sujeitos “não-capacitados”. Isso é o que procede do que se enuncia. Ora, se a capacitação é pela competência, pode-se dizer, por ilação, que uma suposta “incapacitação” é pela “incompetência”.
Chega-se, assim, ao que Geraldi (1997) chama de “inculcação da ideologia da incompetência”, ou seja, quando é interesse do sistema escolar que seus sujeitos se deem por incompetentes para assim cumprirem o papel de fazê-los ver, por uma inculcação constante, a “falta” que lhes fazem cursos de treinamento, reciclagem, atualizações para constituírem-se como profissionais. Conforme Geraldi (1997, p. 224, grifos nossos) adverte, é importante se dizer que não há nenhum “mal em si” nesses cursos, mas o que é prejudicial é o fato de não serem “parte de uma política mais ampla de formação [e não de capacitação] no trabalho”, pois, sendo vistos como uma “ilha” nos processos de desqualificação, um curso de capacitação acaba por dizer, implicitamente, o quanto o sujeito se desqualificou no tempo de trabalho. A capacitação, nesses termos, aparece como se, uma vez “esvaziado” dos conhecimentos que o processo de trabalho lhe “retirou”, o sujeito tivesse que “se capacitar” para “reaver” os conhecimentos (competências?) para o “bom desempenho” de seu trabalho. Geralmente aligeirados, esporádicos e emergenciais, esses cursos muitas vezes não têm continuidade e buscam atingir a totalidade através das minorias: após seu término, os sujeitos devem “repassar” o que aprenderam, muitas vezes em poucas horas e no ambiente de trabalho, o que trouxeram de “inovação/atualização”. Ao pretender uma dita “formação em serviço” (até por questões de racionalização de recursos), “permite a manutenção do sistema como um todo” (GERALDI, 1997, INTRODUÇÃO, p. XXI). Mostra-se aqui, dessa forma, que a competência funciona, na materialidade documental do nosso arquivo, como hiperônimo de capacitação.
Para mostrar esse funcionamento, tomemos ainda a sequência abaixo, retirada do documento de 1995, para análise:
muito presente na instituição, demonstrando, dessa forma, instabilidades em sua circulação no espaço político- educacional do IFRN, mas força em seu funcionamento.
SD 1.1 – Uma maior disponibilidade de recursos financeiros e a definição de uma política de capacitação dos servidores, [...] sem dúvida, concorrerão para a melhoria da qualidade das ações da Escola, sobretudo para uma maior competência pedagógica e administrativa, com repercussões positivas na formação profissional do aluno (p. 47, grifo nosso)
É interessante observar, como uma primeira aproximação, que a sequência acima se constitui por enumerações (a + b + c + n). Mas, ao mesmo tempo, e mais especificamente, contém uma relação de causa/efeito. Temos na sequência uma construção tal que A + B = C, ou seja, se houver “maior disponibilidade de recursos” e a “definição de uma política de capacitação” tem-se uma “melhoria da qualidade das ações da escola”, que, por ilação, significa “uma maior competência” (pedagógica e administrativa). Assim:
Competência, dessa forma, é o resultado de uma “maior disponibilidade de recursos” somado à “uma política de capacitação”. Poderíamos dizer ainda que o resultado desta enumeração contém outra enumeração: C (competência), enquanto resultado da enumeração acima, constitui uma outra do tipo C = C1 + C2, ou seja, a designação (por justaposição) de competência (C) como sendo pedagógica (C1) e administrativa (C2). C1 e C2 especificam e qualificam C, ou seja, a competência é pedagógica e administrativa.
Um aspecto que é interessante de se notar aqui é que toda esta construção enunciativa se articula em torno de uma futuridade, no sentido que Guimarães ([2002] 2017, p. 15) dá ao termo, ou seja, a discursivização do termo se dá tanto pelo funcionamento da língua como por sua temporalidade: um presente que abre em si uma latência de futuro, funcionando por um passado que os faz significar. É o discurso recortando um passado como memorável (GUIMARÃES ([2002] 2017, p. 15). No enunciado em análise, podemos dizer que essa futuridade, ou seja, a possibilidade de tudo isso acontecer (disponibilidade de recursos e política de capacitação) projeta sentido ao enunciado. Haverá, dessa forma: (D) “repercussões positivas na formação profissional do aluno”. Assim, toda a sequência pode ser parafraseada pelos seguintes enunciados:
(1) Se houver recurso e capacitação dos servidores, haverá competência pedagógica e administrativa;
A (maior disponibilidade de recursos) + B (definição de uma política de
capacitação) =
(2) O sucesso profissional dos alunos depende da competência pedagógica e administrativa dos servidores.
(3) Os alunos só terão sucesso se houver capacitação dos servidores.
Ou seja, o sucesso do aluno está diretamente condicionado à “disponibilidade de recurso” e à “uma política de capacitação”. A soma desses dois elementos determinará o sucesso profissional do aluno. E aí é interessante ver, nessa articulação dos elementos discursivos, que o sentido de “repercussão positiva na formação profissional do aluno” (D) é associado à um conjunto de relações de sinonímia66 em que “recursos” está para “competência administrativa” assim como “capacitação” está para “competência pedagógica”, ou seja, recursos é sinônimo de competência administrativa (recursos – competência administrativa) e capacitação é sinônimo de “competência pedagógica” (capacitação – competência pedagógica), na forma que segue:
Poderíamos dizer que competência, no dizer acima, funciona como uma reescritura de “recursos” e “capacitação” determinando o “sucesso profissional dos alunos”. Para avançarmos na análise da capacitação como um efeito de sentido da competência, tomaremos aqui a sequência discursiva abaixo (SD 5.1), retirada dos MDIs:
SD 5.1
Quando tomamos esta postagem, publicada no dia 28 de fevereiro de 2019, em sua relação discursiva com a SD 1.1, retirada do documento de 1995, logo constatamos que o que dissemos em nossa análise, ou seja, que a capacitação (determinada pela disponibilidade/otimização e de recursos), na discursividade do arquivo, predica competência e vice-versa. Embora não se diga explicitamente, quando se deslineariza as construções, fazendo ver o jogo de sentidos entre as palavras, pode-se dizer que só é possível adquirir competência por meio da capacitação (e de recursos). Isso nos leva a retomar a relação causa/efeito que mencionamos mais acima: se não houver recursos, não haverá capacitação,
66 Estamos utilizando aqui as convenções para análise de texto conforme Guimarães ([2011] 2012), ou seja, (hífen
logo não haverá competência. A competência, nesses termos, engloba capacitação. E esta relaciona-se discursivamente à recursos. A partir de nossa perspectiva, consideramos que o que ocorre aí é um funcionamento hiperonímico: competência funciona como hiperonímia de capacitação, abarcando-a, englobando-a.
Tomemos ainda outra sequência, retirada do documento de 2004, mas com a mesma constituição de sentidos, ou seja, competência como hiperônimo de capacitação.
SD 3.1 – O desenvolvimento econômico é indispensável e, para que ele ocorra faz-se mister a presença de trabalhadores capacitados não apenas tecnicamente, mas que percebam as constantes mudanças que ocorrem na sociedade e no mundo do trabalho e estejam preparados para enfrentá-las (p. 86, grifo nosso)
O aspecto que logo chama nossa atenção é a fala genérica do enunciador de que “O desenvolvimento econômico é indispensável”. O próprio caráter segmental do enunciado nos faz ver que, para se obter o desenvolvimento “faz-se mister” dispor não apenas de “trabalhadores capacitados” (no sentido técnico), mas também “preparados” e que “percebam mudanças”. Se isolarmos aqui “[trabalhadores capacitados] que percebam as constantes mudanças”, e o tomarmos na discursividade do arquivo, atribuindo a ele o sentido com que se tem pensado o termo “mudanças” no campo da Educação e do Trabalho, logo teríamos trabalhadores flexíveis67. E o que isso significa em termos parafrásticos? Significa que todo o enunciado pode ser reescriturado por:
3.1a. Para se alcançar o desenvolvimento econômico deve-se ter trabalhadores capacitados (pela competência), flexíveis e preparados.
Se, mais uma vez, tomarmos a força discursiva do termo capacitação na dispersão enunciativa dos MDIs e relacioná-la à sequência 5.2 (“O IFRN é a instituição federal de ensino que mais investe em capacitação”), e também a sequência 5.6 (“IFRN é reconhecido como melhor instituto do Brasil”), nossa análise pode ser ainda melhor sustentada. Vejamos: no primeiro caso, o enunciador da sequência discursiva fala de um lugar de dizer que se apresenta como o apagamento do lugar social, ou seja, como um enunciador-genérico, simulando ser a origem do que se diz. Porém, o que aí se diz é dito “do lugar de um acordo sobre o sentido de repetir” (GUIMARÃES, 2012, p. 33) o que já foi dito antes (neste caso, o que foi apresentado antes) por meio de números, na LOA (2019), ou seja, que o IFRN é a instituição federal de ensino que mais recebeu aporte financeiro para capacitação. O que se diz na LOA (2019) é dito
67 Trataremos a questão da flexibilidade como um dos efeitos de sentidos da competência mais à frente neste
por meio de números e agora é dito como aquilo que todos dizem, mas de maneira reformulada: O IFRN é a instituição federal de ensino que mais investe em capacitação. Já no segundo caso, pela discursividade do nosso arquivo, como poderíamos entender enunciativamente essa relação? Diríamos que, por ilação, os enunciados a seguir podem parafrasear aspectos das sequências acima:
3.1b. O IFRN é o melhor instituto país porque investe em capacitação ou ainda,
3.1c. O IFRN é a instituição federal de ensino que mais investe em capacitação. Assim, podemos dizer que o sentido que esses enunciados produzem são efeitos da memória na discursividade do arquivo. E, tomando-o dessa forma, como memória do dizer (ORLANDI, 1992), assumimos a posição de que o efeito de sentido que aí se produz (capacitação) é que para ser o melhor Instituto do Brasil deve-se ter competência (pedagógica e administrativa), ou seja, deve-se ter recursos e/para capacitação. Segundo Orlandi (2016, p. 69 – 70), ao ser assim colocada (como uma questão de capacitação, de treinamento), a educação é entendida na perspectiva do humanismo reformista, ou seja, ligada a uma questão de desenvolvimento, de acesso ao trabalho e ao mercado. Não é colocada como uma questão de estrutura. Tem um papel fundamental de vincular-se “ao programa de desenvolvimento do país e não da formação do sujeito social de maneira mais ampla”, tendo, por isso mesmo, não que “ser reformada, mas transformada, rompida” (ORLANDI, 2016, p. 69 – 70).
Uma política pública, como tem sido encarada a Educação Profissional Técnica, desde sua origem destinada aos “desvalidos da sorte”, distingue discursivamente as posições-sujeito em suas práticas sociais, definindo “a dinâmica da sociedade na história e na política e os percursos sociais dos sujeitos” (ORLANDI, 2016, p. 69 – 70). Por isso divide os cidadãos entre os que podem e os que não podem ter empregos, por exemplo, funcionado como elemento “discriminador e discriminatório”. Ou seja, constitui-se em um modo de “individuação” do sujeito (ORLANDI, 2016, p. 69 – 70).