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CAPÍTULO V – ESGOTAMENTO DA MADEIRA E DEGRADAÇÃO AMBIENTAL:

5.6 A CONTINUIDADE DA EXPLORAÇÃO DA ARAUCÁRIA

Na medida que aumentava o controle legal da atividade, e se reduziam os estoques exploráveis, possibilitava o surgimento de pressões pela conservação das florestas nativas existentes, passando-se a considerar a exploração da araucária degradante e ilegal, conflitando com a permanente utilização destas espécies. Mesmo depois do ciclo da araucária, as espécies nativas mantiveram significativa importância. Em 1998 13% da madeira em tora de araucária comercializada no Estado provinham da região, segundo dados oficiais (vide quadro), foram cerca de 4000 m³ de araucária, quase 10000 m³ de toras de outras espécies e perto de 130000 m³ consumidos como Lenha (ICEPA, 2003).

Estes valores não podem ser considerados com segurança, visto o alto grau de informalidade da atividade na região, principalmente no tocante ao comércio de madeira de espécies nativas sem manejo e corte controlado pelos órgãos ambientais. Outra razão para o desconhecimento do valor real de madeira comercializada é a alta taxa de sonegação fiscal, sendo o uso repetido de notas fiscais o caso mais comum. Esta produção exigiu áreas

significativas de remanescentes pouco explorados na década de 1970 em estágio médio ou avançado de regeneração.

Esta atividade, para líderes do setor madeireiro “faz parte do passado”. A exploração dos remanescentes florestais nativos manteve viva uma rede sócio-técnica com forte tradição e cultura de exploração de florestas, de formas comerciais e expectativas de uso do solo. Esta rede atua fortemente na busca da alternativas para a manutenção de regimes de exploração criados na década de 90, como os Planos de Manejo Sustentável, mediados pelo IBAMA e agora impedida por ação civil pública sobre o órgão.

Carvão Vegetal Lenha (m³) Madeira em tora

(m³)* Araucária (m³) 1998 2001 1998 2001 1998 2001 1998 2001 SDR Lages Santa 218 246 150.420 129.210 15.480 9.450 3.990 - Catarina 9.907 12.196 2.418.411 2.100.240 140.731 98.813 30.255 13.117 2% 2% 6% 6% 11% 10% 13% 0%

*Referente a produção em reflorestamentos de pinus.

Quadro 8 - Produção Florestal na Região por segmento consumidor entre 1998 e 2001. Fonte: ICEPA (2003).

A exploração atual da araucária pode ser objeto de interesse direto de proprietários rurais tradicionais. Neste momento, as empresas afirmam utilizar prioritariamente o pinus e a araucária transforma-se em objeto de proteção. Segundo um agricultor, as grandes empresas “querem proteger a araucária na terra dos outros”. Pois “agora que já tem alternativas com o pinus, as grandes firmas desejam proteger a araucária, como eles não precisam dela, é a gente que precisa parar de cortar”.

A diminuição e depois o fim das pequenas serrarias do interior não teve mais retorno, mesmo com o advento do reflorestamento e a contínua oferta, embora pequena e variável, de madeira de outras espécies nativas e eucalipto. A existência de serrarias pequenas de acesso comunitário poderia baixar o custo de exploração sem que houvesse maior dificuldade de fiscalização. Em São José do Cerrito as serrarias de modo geral, localizadas na sede ou no interior do município, operaram irregularmente em 2003 e 2004 Das serrarias localizadas nas sedes dos pequenos municípios é que a madeira segue para os centros urbanos maiores, como Lages.

Nas grandes cidades o risco de comercializar a madeira “fria” é menor que transitar com toras de araucária por serrar. Por outro lado, o aumento da especialização em toras menores de pinus levou a uma diferenciação das máquinas e poucas serras de grande dimensão mais apropriadas para serrar araucária existem nos centros maiores. A inexistência de serrarias pequenas no interior de Painel e Urupema foi contornada com o transporte de toras para serem beneficiadas em São José do Cerrito, aguçando o custo de operação que é custeado sempre pelo proprietário do pinheiro. Com o aumento dos custos burocráticos e tecnocráticos, aumento do frete, cuidados com a fiscalização com a desculpa que é “proibido”, o preço pago ao agricultor diminui. Em Painel, em 2004 chegou-se a pagar 20 reais por árvore, enquanto o preço da madeira ao consumidor final chegava a 15 reais uma única tábua.

Para justificar a viabilidade do corte da araucária, moradores locais apontam para matas de pinheiro que regeneraram em áreas ocupadas por roças. A resistência da araucária aos fatores que restringem o crescimento de árvores, associados ao valor da araucária resultam em um povoamento homogêneo, com grande semelhança de idade e porte das árvores. Em 2004 mais de um milhão de árvores foram cortadas utilizando-se esta característica para justificar o corte como se fossem plantios. A legislação era menos exigente e permitiu que se realizassem verdadeiros cortes rasos, resultando na mobilização de redes de ambientalistas e na Operação “Gralha Azul” da Polícia Federal em conjunto com o Ibama, seguida por mudanças legais promovidas no âmbito do CONAMA.

A diferença existente entre plantios e áreas nativas, resulta em uma legislação mais favorável para a liberação do corte para plantio, mas não de áreas de regeneração natural. A falta de alinhamento entre plantas comprovaria que o plantio não foi intencional, e a área se reflorestou por conta do abandono, e não do interesse do agricultor rever a floresta no lugar. Teria sido fruto da falta de mão-de-obra para manter a supressão da floresta causada pelo êxodo rural. Embora parte do êxodo rural também se justifique pela perda contínua da fertilidade natural associada a redução do valor de mercado dos produtos agrícolas. Outras razões apontadas que permitiram a regeneração da floresta foram disputas familiares que impedem o uso das áreas, ou manutenção da terra pelo patriarca sem condições de investir nos sistemas tradicionais de uso do solo, bem como as implicações legais que restringem o desmatamento. Chegou-se a dizer que “o pinheiro que a gralha planta não é do homem”130.

Em 2000, o segundo simpósio internacional sobre a araucária promovido pela UFSC e EPAGRI na UNIPLAC apresenta as lamentações do setor florestal e o relatório da UFSC

sobre a exploração da Araucária. Apresentadores reforçam a necessidade de pesquisa para viabilizar o uso da araucária (UFSC, UFPR e CNPF melhoramento genético e plantios mistos), mas a disputa entre a reabertura do corte não foi pacífica, a vitória dos ambientalistas encontrava eco científico, ou a capacidade de alianças dos ambientalistas, que fabricaram argumentos científicos, mais fortes que as ameaças do setor florestal. Este inicia uma ofensiva buscando derrubar o dec 750 para retirar araucária da Mata Atlântica, uma batalha perdida para os ambientalistas no início da década de 90. Mostrava-se a viabilidade do plantio e a necessidade de pesquisa para voltar a liberar o corte. Defendeu-se a moratória do corte em larga escala, que atravessava disputas judiciais de ONG contra IBAMA-madeireiros desde 1992.

O setor florestal, já baseado no pinus, encontra no Decreto 750 limitações para a ocupação de capoeiras e implantação de pinus. A aproximação com o setor ligado à araucária foi provisória.