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A escolha dos códigos que representam os temas

No documento marinaaparecidasadalbuquerquedecarvalho (páginas 85-92)

Nos dois jornais, a escolha dos códigos que serão utilizados a cada momento da reportagem acontece durante todo o processo de produção, mas a definição final, geralmente, se dá após a apuração. Segundo o repórter especial da Folha Marcelo Leite, há algumas orientações, como buscar bons personagens, tanto para o texto quanto para o vídeo. “Não é uma coisa folclórica, escolher gente curiosa. É encontrar pessoas que sejam realmente decisivas para contar aquela história”, explica. Para exemplificar, ele cita personagens em A Batalha de Belo Monte, como o primeiro engenheiro canadense que propôs a construção de

uma usina no rio Xingu, e o engenheiro da Eletronorte que teve um facão colocado no rosto por uma índia, em uma reunião pública sobre a construção da usina. Marcelo também ressalta que o vídeo deve “tentar, um pouco, espelhar a mesma história, contar a mesma história ou, pelo menos, mostrar isso de outra maneira”.

Além disso, durante as reuniões e em conversas informais, Leite pede atenção aos infográficos, perguntando aos repórteres sobre as ideias que já tiveram e os chamando para pensarem juntos sobre esse código. Segundo o repórter, desde o início do planejamento da reportagem A Batalha de Belo Monte, já havia ficado decidido que o funcionamento da usina seria mostrado em um infográfico. Em Desmatamento Zero, Marcelo diz que foi feito um vídeo curto apresentando, em detalhes, o processo de corte de uma árvore, já que, para ele, era uma cena que a maior parte das pessoas nunca veria na vida.

Não é bem uma receita, mas tem uma série de demandas, as vezes demandas bem abertas. Eu não falo: “Eu quero isso”. “Eu quero tal tipo de coisa”. Algumas [ideias] dão certo, outras, não, porque a informação não existe ou porque é impossível realizar a filmagem do jeito que gostaríamos, porque o orçamento para voo de helicóptero não foi aprovado, coisas desse tipo. Vamos nos adaptando.

O repórter especial reflete, então, que as decisões sobre o código que será utilizado a cada momento acontece antes, durante e depois da execução da pauta. Para a reportagem A Batalha de Belo Monte, por exemplo, Marcelo Leite e o fotógrafo Lalo de Almeida retornaram à obra para atualizar algumas informações e colher mais material para fotografia e vídeo, cuja necessidade só foi percebida após se iniciar a edição. “Mesmo depois do processo de edição, se percebemos a possibilidade de melhorar um pouco, corremos atrás para fazer um infográfico novo, uma estatística, uma imagem nova, às vezes, até durante o próprio processo de edição vamos incrementando”, conclui.

O repórter colaborador da Folha, Marcelo Soares, também diz que as decisões sobre os códigos a serem utilizados vão sendo conversadas durante o processo e são definidas a partir do tema tratado. Em Belo Monte, por exemplo, para ele, o texto permite explicar melhor as transações burocráticas da construção; já para mostrar o tamanho da obra, funciona mais uma animação Folhacóptero do que um infográfico estático; o dia a dia de um trabalhador da obra é mais facilmente representado no vídeo do que no texto. De acordo com o repórter, a experiência profissional conta muito nesse momento, contudo, segundo ele, um jornalista tradicionalmente de impresso precisa tomar cuidado para não pensar mais no texto, por já estar acostumado com este código. “Além do que pode ser tirado do texto para virar

infográfico, também tem o que funciona melhor em vídeo do que como texto, como sobrevoo, como interatividade. Mas, o primeiro instinto do repórter de jornal é pensar no texto, sempre foi, e está mudando aos poucos”, conclui.

Em relação aos roteiros dos vídeos, eles são trabalhados no que o editor de vídeo Douglas Lambert chama de pós-produção. “Isso quer dizer que o repórter, quando vai para a pauta, tem pouquíssima informação sobre o que de fato precisará ser filmado”, explica. Esse modelo pode ser positivo, segundo Douglas, pois permite uma apuração mais aberta, a partir do que é visto no local, mas também é negativo, porque pode gerar muitas horas de filmagem e sobrecarregar o editor, tornando a edição mais demorada, além de não haver muito controle sobre o material que será produzido. Adicionalmente, ele diz que os repórteres, originalmente do impresso, faziam entrevistas longas, permitindo até que os entrevistados divagassem, dificultando a edição dos vídeos que, nestes tipos de matéria, geralmente são mais curtos.

De acordo com o editor, não havia um parâmetro ou normas para se definir o que seria representado em vídeo, em texto ou infografia, e repete que as decisões relativas ao vídeo eram tomadas a partir do material gravado. Em A Batalha de Belo Monte, por exemplo, a partir das gravações, optou-se por posicionar entrevistas entre o texto, na visão de Douglas, de forma totalmente arbitrária.

Parece mais alguma coisa para mostrar a capacidade de produzir aquilo, porque essas entrevistas não necessariamente acrescentam algo que o texto não coloca. Em vários casos sim, mas não é obrigatório. Pragmaticamente, o vídeo não faz a menor diferença dentro de Belo Monte. Então, ele serve só como ilustração. E isso vale para todos os Tudo Sobre que a Folha fez, eles nunca são pensados, desde o começo, integrados com o texto, isso vem do acaso, depois da produção.

Na visão de Douglas, texto e vídeo eram colocados apenas na mesma página, no que Salaverría (2014) denomina multimidialidade por justaposição, conforme vimos na introdução. Na opinião do editor de vídeos, para que esses dois códigos se complementassem de fato, criando uma multimidialidade mais por integração (SALAVERRÍA, 2014), seria necessário um roteiro de pré-produção que pensasse no vídeo verdadeiramente como parte integrante da reportagem o que, segundo ele, ocorreu na GRM Snow Fall, do The New York Times. Diferente dele, Marcelo Soares considera que o vídeo não é só um acessório.

Para o ex-editor adjunto de arte, Mário Kanno, os códigos eram escolhidos com base na história que estava sendo contada. Em A Batalha de Belo Monte, por exemplo, Kanno relembra que solicitava o texto ao coordenador do projeto, Marcelo Leite, pois era a partir desse código que ele pensaria nos demais: quais seriam os infográficos, onde entrariam fotos,

onde poderia ser construída uma galeria, onde ficariam os vídeos e assim por diante. Nesse caso, segundo ex-editor, o texto serviu como espinha dorsal, em uma expressão usada também por Salaverría (2014), porque Marcelo Leite é um repórter de texto. No entanto, ele afirma:

o texto é uma das maneiras de contar a história. Você não conta tudo com o texto. Você mesmo, na sua vida pessoal, você não conta, você aponta, você mostra, você gesticula. (... ) Você mostra as fotos, as melhores fotos, você conta um detalhezinho. Então, é do mesmo jeito que vamos tratar o leitor. Se tem foto, vamos mostrar foto, se é melhor ser contada com vídeo, vamos dar vídeo, se é melhor você fazer um diagrama, um esquema para contar a história, vamos fazer um infográfico. E se é melhor escrever um texto, vamos fazer um texto, mas não vamos partir do texto.

Neste processo de escolha dos códigos que representarão os temas, a equipe de Design e Desenvolvimento se define como “ponta do funil”, de forma a expressar que, ao final da produção, são esses profissionais que realmente verificam se os códigos não estão brigando entre si. Eles conferem ainda se texto, foto, vídeo e infografia estão se encaixando na página, promovendo o que Thiago Almeida denomina por curadoria gráfica. “Você tem que acabar editando conteúdo, editando um pouco de foto, coordenando um pouco de vídeo, fazendo o design, porque somos designer também”, explica Rogério Pilker. Rubens Alencar diz que em Crime sem Castigo até o título da reportagem foi escolhido pela própria equipe de Design e Desenvolvimento.

Já em O Tempo, quando se fala em multicódigos, a grande preocupação parece ser, principalmente, o vídeo. A definição dos códigos que serão usados começa ainda na reunião de pauta, em que surgem as primeiras ideias, segundo a coordenadora de cross media, Karol Borges, sempre na intenção de encontrar a melhor forma de retratar o tema da reportagem. No entanto, Karol destaca que é o repórter quem mais atua neste processo. “Nos programamos, planejamos, mas, muitas vezes, as coisas acontecem quando se está na rua. Aí o repórter fala: ‘teve uma personagem incrível. Fiz um multimídia63 dele. Acho que rende um multimídia’. Não é só uma coisa unilateral”, explica. O fotógrafo Lincon Zarbietti compartilha as ideias de Karol: são os repórteres e fotógrafos que acabam definindo a forma como os conteúdos serão apresentados, aquilo que funcionará melhor a cada momento.

Karol acrescenta que há uma tentativa de evitar a redundância, conforme recomenda Salaverría (2014), de forma que vídeo e texto não se repitam, por exemplo. “Porque uma coisa tem que completar a outra, não adianta ficar falando a mesma coisa em cada lugar. (...) E que eles [códigos] funcionem sozinhos também”, conclui. No entanto,

conforme observaremos mais à frente, nem todos os jornalistas de O Tempo pensam dessa forma, o que acaba refletindo em um conteúdo muitas vezes repetitivo. Para Karol, a dificuldade não é trabalhar os códigos e sim a falta de tempo para editar uma gravação que poderia se tornar um vídeo interessante, por exemplo, devido à equipe reduzida, conforme tratado no capítulo anterior.

O secretário de redação Murilo Rocha confirma que há um planejamento para a produção dos diferentes códigos, mas o repórter é quem vai de fato sentir, durante a sua apuração, o que pode se tornar um vídeo expressivo. “Às vezes conversamos com a pessoa e percebemos na hora: esse cara é o personagem, tem expressão corporal, falou uma coisa contundente. Aí pensamos: tem que ter um vídeo dele”. Ele diz que o trabalho desenvolvido por Karol Borges também é de extrema importância neste sentido, pois é ela que coordena a utilização dos códigos, informa a viabilidade de utilização de cada um e o posicionamento deles na reportagem, de forma a tentar deixar a matéria harmônica e sem recursos que a tornem lenta na hora de o usuário acessar. “(...) estamos aprendendo. Isso é uma coisa meio erra e acerta, bem empírica mesmo, não tem um modelo”, conclui.

A repórter Natália Oliveira, que atualmente se dedica praticamente só aos especiais multicódigos, relata que, no início, sentia mais dificuldade para definir o que contar por meio de cada diferente código e que, hoje em dia, essas escolhas já se tornaram mais naturais. Para decidir o que será apresentado em vídeo, Natália observa quais são os elementos mais visuais da história e que, portanto, não ficam tão adequados em texto. “Eu penso muito nisso, do que vai ser esse visual, o que eu não consigo mostrar no texto, vai se tornar vídeo. Isso é o mais forte. (...) Eu posso apresentar aquilo no vídeo e mostrar um texto de uma outra maneira”, esclarece. Ela ressalta, contudo, que tais escolhas nascem de acordo com o material apurado. Natália apresenta alguns exemplos de temas que rendem vídeos, os quais foram produzidos para especiais de O Tempo: a reforma de um hospital, a moça que promove o dia de noiva na favela e as meninas dançarinas dessa mesma favela, em um especial sobre o aniversário de Belo Horizonte64, além da vivência dos adolescentes em Menino de Abrigo.

Assim como Karol Borges, Natália diz que se preocupa em não repetir o texto no vídeo ou vice e versa para que o conteúdo não fique desinteressante para o usuário e “para que o vídeo seja realmente um complemento”, explica. As repetições não devem ser evitadas apenas entre esses dois códigos. A repórter conta, por exemplo, sobre uma matéria em que o

64 Disponível em <http://www.otempo.com.br/polopoly_fs/1.1418375.1483397854!/index.html>. Acesso em 28 jun. 2017

texto com as entrevistas de especialistas ficou muito grande e, por isso, ela decidiu apresenta- las na forma de arte. “Vamos pensando nessas estratégias para dividir, para que não fique aquele monte de texto e seja desinteressante”, conclui.

Para ela, atualmente, as dificuldades são mais relacionadas a conseguir personagens que aceitem ser gravados, o que não era necessário no impresso, além da montagem de um vídeo para a internet e não para a TV. Segundo a repórter, um vídeo para a web tem que ser mais dinâmico, não necessita de momentos com off65, exemplifica. O fotógrafo Lincon Zarbietti reforça a ideia de Natália, dizendo que, para ele, a principal diferença é a maior dinamicidade de um vídeo para a GRM. Ele acrescenta ainda que os planos de filmagem e o tempo das falas são diferentes nestes dois meios; na internet, não há a presença do repórter fazendo pergunta, é a narrativa do entrevistado que comanda o enredo.

A repórter Joana Suarez concorda que encontrar personagens para o conteúdo multicódigos é uma das dificuldades. “O personagem que não vai aparecer na TV, que vai falar comigo em off, é muito mais fácil de conseguir do que um personagem que queira falar em on, porque eu preciso do vídeo”, esclarece. No entanto, para Joana, que é uma repórter do impresso, também produzindo com múltiplos códigos, há muitas outras dificuldades. Quando ela escreve uma matéria para o impresso, já pensa no desenho das páginas, nas fotos e nas artes, além do texto. No entanto, no caso da reportagem multicódigos, a repórter confessa que não conhece todos os elementos que podem ser utilizados já que, segundo ela, nenhum repórter passou por um treinamento para isso e que, na redação, apenas a jornalista Natália raciocina com vários códigos.

“Multimídia, na minha cabeça, além do impresso, é o vídeo que eu vou fazer. Como se fossem duas reportagens, uma escrita e uma, não televisionada, uma online, porque os vídeos possuem um formato completamente diferente da televisão”, explica Joana. Ela diz que isso traz outra dificuldade, a de produzir uma reportagem para o impresso acumulada com a produção audiovisual. Contudo, a repórter esclarece que tem até facilidade em decidir o que vai ser apresentado por meio desse último código, por já ter trabalhado anteriormente em TV, e acrescenta que já pensa nas situações e lugares que podem ser filmados, visualizando um vídeo pronto e tudo o que ele precisa ter. Já em relação ao texto, para Joana, a dificuldade é escrever para um meio em que não há limites de tamanho, fazendo com que queira produzir textos muito grandes.

Para o fotógrafo Lincon Zarbietti, que também grava e edita vídeos, o melhor é produzir todos os códigos possíveis, para que estejam disponíveis, o que facilita a decisão sobre qual deles utilizar:

Se você saiu com a cabeça pensando em um multimídia para um portal, você tem que fazer tudo o que está no seu alcance. Se você vai entrevistar, (...) você vai filmar as entrevistas, vai colocar uma câmera fixa e rodar com outra para ter uns cortes legais. Acabou a entrevista, vamos fazer uma foto, porque vai precisar de foto, vídeo e texto.

O fotógrafo defende que não há problemas na repetição de conteúdo em texto e vídeo, porque, para ele, nem todas as pessoas assistirão o vídeo e percorrerão também o texto. “Então, é bom que um seja irmão do outro, falem a mesma coisa, com linguagens diferentes”, explica.

Para Lincon, a maior dificuldade na hora de produzir esses códigos acaba sendo a de acumular as funções de fotógrafo, cinegrafista e editor, pois, segundo ele, é necessário pensar nos diferentes ângulos da filmagem e prestar atenção no que o entrevistado está dizendo para facilitar a posterior edição. Além disso, é preciso “pensar em uma foto que seja plasticamente bonita e que passe a mensagem do texto do repórter”. É o mito do jornalista multitarefa que, mais uma vez, vai apresentando problemas, conforme apontou Canavilhas et al (2016).

Enquanto repórteres e fotógrafos se preocupam mais com texto, foto e vídeo, as webdesigners Aline Medeiros e Larissa Ferreira parecem se atentar mais para a utilização de outros códigos como ilustrações e infografias, além do posicionamento de cada linguagem de forma a deixar o layout mais agradável. Os softwares e linguagens de programação, segundo elas, permitem uma ampla gama de possibilidades. Diante dessa facilidade, os códigos são escolhidos com base nas temáticas a serem trabalhadas, pois, segundo Aline e Larissa, alguns assuntos rendem mais vídeos, enquanto outros, mais texto, por exemplo. Elas dizem que a dificuldade enfrentada por Joana Suarez, do texto sem limite na internet, é um problema constante, muitos repórteres querem fazer textos enormes, esquecendo-se de que os usuários podem não estar interessados em ler um conteúdo tão grande. Em assuntos ligados a esporte, elas dizem que há mais liberdade de movimento, com a utilização de uma interface com muitos efeitos, enquanto em temas mais pesados, como em Um Adeus ao Rio Doce, já não cabem as mesmas ideias.

No documento marinaaparecidasadalbuquerquedecarvalho (páginas 85-92)