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A Secundidade da Matriz Verbal

No documento marinaaparecidasadalbuquerquedecarvalho (páginas 135-138)

4.3 A Matriz Verbal

4.3.2 A Secundidade da Matriz Verbal

Mas é em 3.2 Narração que podemos situar a maior parte do discurso das GRMs. Santaella (2005) diz que as modalidades não se preocupam com os temas, mas querem verificar as forças que comandam a sequencialidade da narrativa. Esclarece que a narrativa não é só a contiguidade linear dos fatos, mas não poderia existir sem eles e, por isso, foi posicionada como Secundidade. Para detalhar melhor a narrativa como Secundidade, a autora esclarece que ela significa registro linguístico de eventos ou ações. A ação existe no conflito, na ação e reação, de onde surge o acontecimento; o personagem, por exemplo, só existe porque desempenha uma ação, faz alguma coisa. Justifica, ainda, que a descrição é diferente, pois não pressupõe ação nem temporalidade definida, ou seja, não há definição sobre por que parte começar uma descrição, uma pessoa pode ser descrita a partir do pé ou da cabeça. Como Primeiridade, pode haver descrição sem narração, contudo, como Secundidade, a narração não pode existir sem a descrição. Aquela começa nos verbos de ação que darão início ao conflito.

A modalidade 3.2.1 Narração espacial, diz respeito à narrativa que não segue uma linearidade com começo-meio-fim, ao contrário, possui organizações paralelísticas — simetrias, gradações, antíteses – as quais permitem inúmeras visões simultâneas de um acontecimento e as sequências da narrativa formam diagramas por serem paralelas. São narradas, não o encadeamento de ações de uma situação, mas as várias visões e dimensões da ação, ou seja, uma história possível e não definitiva. Nela, destacamos a submodalidade 3.2.1.1 Espacialização icônica, em que há uma semelhança entre o espaço interno (diagramas relacionais) da narração com o espaço daquilo que é narrado. É o que ocorre nas narrativas em hipertexto e, portanto, em todas as GRMs. “O caráter reticular, alinear e multidimensional da estrutura do hipertexto dá à narrativa uma constituição espacializada que faciliza a iconização das seqüências narrativas em relação à história contada” (SANTAELLA, 2005, p. 235).

Mas é a partir da 3.2.2 Narração consecutiva que a maioria das reportagens são construídas. A narração consecutiva pressupõe que a sequência da história segue a ordem cronológica, como nas notícias. Encaixa-se na Secundidade por que é um acontecimento dividido em partes que vão se reunindo no tempo; o central na narrativa são os fatos sobre

fatos, sem interpretação. Santaella (2005) propõe que esse tipo possui duas temporalidades: a primeira, o tempo do acontecimento, que aparece de alguma forma do discurso; e a segunda, o tempo em que foi escrito, tempo da enunciação, que muitas vezes aparece no discurso, de forma ostensiva até, quando se narra a história da própria escrita.

Principalmente a submodalidade 3.2.2.3 Sucessividade cronológica diz respeito às notícias, em que os eventos são contados a partir da temporalidade. Já que uma sincronização perfeita entre os fatos e sua narração é impossível, “a notícia é assim o gênero de discurso que melhor representa o acomodamento da narrativa verbal a um nível otimizado de pura sucessividade” (SANTAELLA, 2005, p. 331). Segundo Santaella (2005), as notícias são construídas em cima de três etapas: apresentação geral do fato, momento central que mostra o confronto e, por fim, o pós-confronto. Para Lage (2005), a reportagem seria como uma notícia mais aprofundada. Por isso, podemos considerar que as reportagens estudadas, nascidas a partir das notícias, fazem uso da sucessividade para narrar. É assim, por exemplo, no terceiro capítulo de Crise da Água que narra a vida de um agricultor, fazendo uma cronologia dos acontecimentos em de 2008 a 201475:

Em 2008, quando soube que o reservatório da hidrelétrica Santo Antônio inundaria o seu sítio na vila de Teotônio, na margem direita do rio Madeira, 30 km acima de Porto Velho, o agricultor Francisco Barbosa de Oliveira começou a procurar terras em outro lugar.

A Santo Antônio Energia, empresa responsável pelo empreendimento, ofereceu-lhe ajuda de custo e uma casa na nova vila num morro ao lado do lago que se formaria, mas Oliveira recusou. Em 2010, após obter uma compensação de ‘um pouco mais de R$ 100 mil’, o agricultor comprou um lote de terra em Cujubinzinho, ainda na faixa fértil das margens do Madeira, mas abaixo do barramento da usina, em Porto Velho, onde acreditava que o rio não se alteraria.

Em março de 2014, após replantar boa parte das várias lavouras que havia deixado, seu novo sítio foi atingido pela cheia. (...).

Já em Um Adeus ao Rio Doce, o segundo capítulo, Rastro da morte, narra cronologicamente o percurso da lama:

“A morte do rio Doce começa em 5 de novembro, quando a barragem de Fundão se rompe. A estrutura integra o complexo da Mina Germano, da Samarco, que tem como controladoras a Vale e a anglo-australiana BHP Billiton. Foram 55 milhões de m³ de água e lama que devastaram um raio de 30 km ao redor da estrutura, destruindo completamente o subdistrito de Bento Rodrigues e afetando outras áreas da zona rural de Mariana, na região Central do Estado. Foram ao menos 11 mortes”.

75 O trecho também pode se encaixar na modalidade 3.2.3 Narração causal, submodalidade 3.2.3.2 Causalidade imediata, conforme veremos mais à frente, pois o agricultor só se mudou como consequência da inundação que seria causada em seu terreno. Mesmo assim, acreditamos que a narração sucessiva se sobressai à causal.

Em seguida, a reportagem narra o percurso da morte do rio com a chegada da lama, aos poucos, nos municípios de Barra Longa, Santa Cruz do Escalvado, Naque, Periquito/Pedra Corrida (distrito), Governardor Valadares, Galileia, Resplendor, Aimorés, Baixo Gandu (ES), Colatina/Itapina (distrito).

Por fim, na Terceiridade Narrativa, a modalidade 3.2.3 Narração causal pressupõe que uma ação desencadeia outra, mas as ações subsequentes têm uma implicação lógica, abstrata, tendendo para a terceiridade. Nas GRMs, percebemos a submodalidade 3.2.3.2 Causalidade imediata, em que uma ação determina outra que lhe dá continuidade, e 3.2.3.3 Causalidade mediatizada, na qual a ação consequente não vem logo após a precedente, mas há um espaço entre a causa e a consequência.

A submodalidade 2.3.2 Causalidade imediata aparece logo no primeiro parágrafo do segundo capítulo de O Golpe e a Ditadura:

“O governo João Goulart começou a desmoronar na madrugada do dia 31 de março de 1964, quando um general sexagenário que comandava uma divisão de infantaria em Juiz de Fora (MG) acordou irritado com um discurso feito pelo presidente na véspera. Antes mesmo de trocar o pijama pela farda, o general Olympio Mourão Filho telefonou a companheiros em outros Estados para avisar que enviara seus soldados na direção do Rio de Janeiro, com a missão de tirar o presidente do poder”.

O discurso de João Goulart teve como consequência a irritação do general Olympio Mourão Filho o que desencadeou o envio de soldados para tirar o presidente do poder. Já em Morte Invisível, a profissão de motorista fez Eduardo Henrique de Paiva não ter tempo de se alimentar corretamente e, consequentemente, ganhasse peso e ficasse com o colesterol alterado. Por isso, ele teve de mudar seus hábitos alimentares, o que resultou em perda de peso. É o que mostra o trecho abaixo, no terceiro capítulo:

“Cliente do consultório de Maísa, o motorista, 33, luta contra a balança e a tensão da profissão. Em seu micro-ônibus, ele é obrigado a dividir suas seis horas e meia de trabalho, entre os bairros Borba Gato (Sabará) e Industrial (Contagem), ambos na região metropolitana de Belo Horizonte, entre dirigir e cobrar a tarifa dos passageiros. Não há cobrador. ‘Essa rotina pesada acabava me levando a descontrolar o corpo todo. Me cansava à toa, o colesterol estava alterado, respirava mal porque eu descontava esse estresse na comida’, conta, sorrindo, depois de constatar a perda de 4,7 kg em um mês com a orientação nutricional. Ao lado do assento no ônibus, onde geralmente ficavam uma lata de refrigerante e pacotes de bolacha recheadas Eduardo agora mantém uma garrafa de água e frutas”.

No decorrer do segundo capítulo de O Golpe e a Ditadura, também temos 3.2.3.3 Causalidade mediatizada, pois, após o parágrafo inicial colocado acima, o discurso vem explicando a crise do governo de João Goulart e, depois de apresentar várias causas, somente no final há a consequência: a deposição do presidente. Do mesmo modo, em Menino de Abrigo, no segundo e terceiro capítulos, que contam a história de Paulo Mateus e Lucas Moreira, o desfecho da saída compulsória dos meninos do abrigo é apresentado somente ao final do capítulo.

No documento marinaaparecidasadalbuquerquedecarvalho (páginas 135-138)