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A esfera política e os gêneros do discurso

Os atores políticos envolvidos na realização de um discurso da esfera política inseridos no parlamento, no CN ou nas casas legislativas do Brasil, na esfera parlamentar (partidos, assessores, imprensa, parlamentares, empresários etc.), que participam da formulação de um enunciado que é posto em circulação nas redes de comunicação, também se preocupam com a interação entre o discurso e a esfera midiática, tendo em vista o fato de que os discursos do parlamento frequentemente são reproduzidos nos órgãos de imprensa do país. O discurso político está inserido em um jogo de interesses de setores oriundos de diversas esferas sociais socioeconômicas relacionadas à atividade do trabalho.

Os enunciados ditos por parlamentares, sobretudo, de cargos em alto escalão na república, como o presidente, são direcionados primordialmente à divulgação pela mídia, tanto a estatal, que envolve os próprios órgãos do governo, quanto as empresas de comunicação privadas, que se valem dos discursos dos parlamentares para a construção de matérias jornalísticas dos mais variados gêneros do discurso realizados nessa esfera. Cabe ressaltar que o Portal Planalto, plataforma da qual retiramos o corpus da pesquisa, os discursos de Temer, está presente na atividade midiática do Estado, sendo previsto e ordenado pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República.

Como cada enunciadopolítico está circunscrito por uma esfera ou um jogo de esferas políticas que o abrange, a ideia de esfera de atividade é determinante para entendermos que há um campo para a realização dos gêneros do discurso.

O conceito de esfera da comunicação discursiva (ou da criatividade ideológica, ou a atividade humana, ou da comunicação social, ou da utilização da língua, ou simplesmente da ideologia) está presente ao longo de toda a obra de Bakhtin e de seu Círculo, iluminando, por um lado, a teorização dos aspectos sociais nas obras literárias e, por outro, a natureza ao mesmo tempo onipresente e diversa da linguagem verbal humana. Portanto, a esfera ou o campo da comunicação discursiva é um conceito-chave para compreendermos o modo de articulação entre os domínios da Sociologia, da Linguística e da Teoria Literária (GRILLO, 2006, p. 133-134).

Neste trabalho, nos valemos da ideia de que sobre os discursos políticos de Michel Temer, realizados no parlamento, existem 3 esferas que são colocadas em jogo na atividade enunciativa: política, parlamentar e midiática.

A esfera política consiste em uma quantidade mais ampla de setores envolvidos, pois é o campo que reúne tanto os membros da atividade parlamentar quanto os membros da esfera midiática, repercutindo sobre os interesses da própria sociedade. Além das deliberações de um governo ou de um Estado, na atividade jornalística ou publicística, podem estar sendo realizados discursos políticos que favorecem setores específicos da política brasileira, não somente parlamentares, mas também órgãos que os apoiam ideologicamente ou financeiramente.

Todos os cidadãos ou membros da sociedade podem realizar enunciados políticos, a partir do momento em que obtiverem uma adesão de um público consideravelmente significativo e conseguirem exercer ou representar algum tipo de poder sobre a sociedade. Por esse motivo é que a esfera política é ampla47, pois apesar de se restringir às deliberações políticas de um Estado, também envolve interesses de variados setores da sociedade, não sendo possível a priori traçar para qual setor o discurso se orienta em maior favor, o que se dá somente após uma análise discursiva de um enunciado político.

Na esfera política existem discursos que dialogam com os mais próximos desta esfera. A própria esfera determina, de certo modo, o gênero do discurso:

O campo/esfera é um espaço de refração que condiciona a relação enunciado/objeto do sentido, enunciado/enunciado, enunciado/coenunciadores. [...] As esferas dão conta da realidade plural da atividade humana ao mesmo tempo que se assentam sobre o terreno comum da linguagem verbal humana. Essa diversidade é condicionadora do modo de apreensão e transmissão do discurso alheio, bem como da caracterização dos enunciados e de seus gêneros (GRILLO, 2006, p. 147).

Discursar entre políticos e deliberar decisões no interior da política de um país é ser condicionado pela esfera política a produzir um enunciado que não entre em desacordo com os moldes políticos vigentes. Nos discursos de Michel Temer, sabemos que há um estilo próprio do enunciador, no entanto, qualquer que seja o estilo de um enunciador, este tem

47 Consideramos como importante considerar também o conceito de campo político, posto em Bourdieu (2011, p. 195) como “[...] um pequeno mundo social relativamente autônomo no interior do grande mundo social. Nele se encontrará um grande número de propriedades, relações, ações e processos que se encontram no mundo global”. Consideramos, contudo, assim como Grillo (2006), que, embora esse conceito tenha similaridades com a noção de esfera, para o Círculo de Bakhtin, concebemos como pertinente, no interior da análise dialógica do discurso, utilizar a ideia de esfera como lugar específico da comunicação discursiva. A esfera política de que tratamos aqui se refere justamente ao âmbito político que abarca manifestações discursivas variadas.

necessariamente submeter o enunciado que realiza às coerções do gênero e da esfera de atividade discursiva.

No que se refere ao âmbito político, no caso brasileiro propriamente dito, que envolve o jogo entre os atores políticos de influência no parlamento, cabe ressaltar como se dá o jogo entre a oposição e o Congresso. Esse jogo é determinante para a organização das esferas política e parlamentar brasileiras. Segundo Gomes (2004, p. 92-93, grifo nosso):

[...] o centro real da luta política é a relação entre governo e oposição. O grupo que governa e os seus aliados, de um lado, e os grupos em oposição ao governo, de outro, que têm interesses diferenciados. A parte governista do parlamento aposta a própria sobrevivência nos êxitos do governo e quer o mesmo que o Executivo. Os grupos de oposição querem interferir na execução governamental, ao mesmo tempo em que pretendem aumentar o seu poder de realizar as decisões que lhes interessam além de incrementar o seu poder eleitoral. O antagonismo essencial que contrapõe os dois grupos faz com que o êxito de um, de alguma forma, sempre signifique que a frustração do outro [...] no nosso sistema, o autêntico núcleo de poder sobre o Estado é representado pelo Executivo, cabendo aos parlamentos o poder reativo de frear ou apoiar os seus programas, se puderem. [...] os partidos e a maior parte dos agentes políticos formataram as suas habilidades políticas para conseguir o mando e delegá-lo à sua rede de poder político, mantendo-a viva e forte enquanto se beneficiam do Estado, enquanto a outra parte desses agentes políticos busca participar das instâncias nucleares do Executivo. [...] Em geral, as instâncias nucleares se estabelecem em círculos concêntricos, constituindo-se no cerne da decisão de Estado um grupo pequeno que concentra a maior parte do poder político disponível, além de potencialmente constituir num dos polos agregadores de mais poder político.

Conforme observamos pelos apontamentos do autor, a política no nível do jogo entre os atores políticos, partidos e instâncias ligadas ao parlamento envolve o poder político sobre as deliberações relacionadas ao Estado e àqueles que estão no poder e se articulam para permanecerem nele. O diálogo entre Executivo e o Congresso Nacional é essencial para realizar a manutenção do poder do próprio Executivo, que gera círculos concêntricos de poder político. Com efeito, é essencial ao chefe de Estado, no caso brasileiro, se reportar ao CN de forma harmônica, pois com este último necessita travar acordos e dar seguimento à disputa pelo poder. A esfera política, segundo Gomes (2004), tem como especialidade “produzir a decisão política” situada no regime democrático. Conforme aponta o autor,

Uma democracia é basicamente uma forma de governo em que a esfera política é recomposta periodicamente através de eleições e em que a decisão política parlamentar, consensual ou decorrente de apoio da maioria, realiza-se por meio da deliberação. Por outro lado, os governos, que por força do ordenamento jurídico democrático dependem da decisão política parlamentar, hão de procurar sempre agregar, em negociações, as forças políticas efetivas para obter uma situação estável e sistemática de facilidades parlamentares: a chamada maioria estável no Congresso (GOMES, 2004, p. 96).

Com efeito, para haver um sucesso de um governo nas deliberações políticas, faz-se necessário o apoio da classe política. Esta pode ser trazida de diferentes modos no discurso de um parlamentar.

A esfera parlamentar, que dialoga frequentemente com a esfera política, diz respeito à instituição do parlamento, podendo também ser nomeada como esfera parlamentar-institucional, pois envolve os interesses dos parlamentares, como sua própria atividade de trabalho - a presença de um parlamentar ou outro em um dado acontecimento político. Os enunciados de Michel Temer na gestão do executivo, por exemplo, determinam o cotidiano do parlamento, influenciam nas relações entre parlamentares, nomeações, e decisões políticas e administrativas em geral. Podemos chamar de parlamentares todos aqueles que são eleitos por voto direto ou nomeados para cargos dentro do parlamento, concernentes aos três poderes da república (Executivo, Legislativo e Judiciário).

Um ponto de encontro entre a esfera política e parlamentar é o chamado presidencialismo de coalizão48, que se refere às práticas políticas de que um dado governo se vale para montar uma base governista visando manter um diálogo institucional com os setores políticos de interesses iguais ou distintos. Outro ponto é a prática do clientelismo49, que consiste na troca de favores e atos em favor da cooptação de setores políticos, sociais e econômicos para o favorecimento de um determinado setor político. Tais eixos típicos da realidade política brasileira são norteadores para entendermos como se processam as relações econômicas e políticas dentro da esfera política.

A esfera midiática, de certa forma, abarca a grande maioria dos discursos realizados por políticos dentro e fora do parlamento, pois é através dela que os discursos chegam à maior parte da sociedade civil. Entendemos por esfera midiática um território de divulgação e prestação de serviços amplo, que envolve órgãos de imprensa, setores empresariais e públicos, que se interessam pela circulação de informações. No caso do discurso político, como este constitui um campo de informações variadas, os atores ativos na esfera midiática costumeiramente utilizam dele para sua atividade de trabalho. No caso dos discursos de Temer, a plataforma Portal Planalto, da qual coletamos os enunciados do corpus, garante o serviço de prestação de serviços públicos do Estado à população, afirmando a presença da esfera midiática nas deliberações políticas do poder Executivo.

48 ABRANCHES, Sérgio. Presidencialismo de coalizão: o dilema institucional brasileiro. Dados, v. 31, n. 1, p. 5-38, 1988.

49 LENARDÃO, Elsio. Gênese do clientelismo na organização política brasileira. Lutas sociais, n. 11/12, 2004, p. 109-122.

É importante consideramos alguns pontos principais para esta reflexão. Primeiramente, cabe fazer a diferença entre discurso político realizado no parlamento e discurso político realizado na imprensa. Enquanto o primeiro envolve um enunciado preparado para constituir também uma atividade parlamentar, o segundo obtém interesses relacionados aos órgãos de imprensa. Em segundo lugar, cabe reconhecer que o discurso político situado em uma realidade social dada se materializa em gêneros distintos da esfera política, e se inscreve na história como atividade discursiva, que não se restringe somente à forma dos gêneros do discurso, mas, sobretudo, a interesses de grupos sociais.

A esfera política, como toda esfera, possui uma quantidade delimitada de gêneros do discurso que se instauram nela (pronunciamentos, comícios, abertura e fechamento de reuniões, declarações, discursos de nomeações e posses etc.). A língua, no interior de uma esfera, um campo de atividade, concretiza-se de formas variadas. Conforme Bakhtin mostra na célebre citação sobre os gêneros do discurso:

O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana. Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo da linguagem, ou seja, pela seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua, mas, acima de tudo, por sua construção composicional. Todos esses três elementos – o conteúdo temático, o estilo e a construção composicional – estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação. Evidentemente, cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros do discurso (BAKHTIN, 2003, p. 261-162, grifos no original).

Com efeito, o autor aponta para as características principais de toda e qualquer forma múltipla da linguagem verbal que compõem os moldes estabelecidos pelas trocas comunicativas entre sujeitos, materializadas nos gêneros do discurso.

O gênero parte de uma confluência entre a forma composicional, o conteúdo temático, a esfera e os estilos de um autor criador e de um enunciador que se colocam no plano discursivo. Cada discurso de uma determinada esfera de circulação da língua em sociedade, como é o caso do político, possui uma variedade de estilos, formas e temas, que podem ser captadas a depender dos propósitos comunicativos e ideológicos, bem como de um conjunto de palavras, signos ou manifestações de sentido de uma dada construção verbal.

Bakhtin (2016) traz a ideia de que os gêneros possuem uma função valorativa na expressão e um estilo próprio de acordo com sua atuação em um dado campo comunicacional. Tal concepção é colocada de modo a expressar tanto um modo dialógico de encarar a análise

dos gêneros, como uma crítica à sistematização da gramática russa, realizada por formalistas e linguistas com os quais o Círculo travava um diálogo polêmico, por reduzirem os estilos da linguagem em alguns tipos de discurso delimitados pela estilística clássica (BAKHTIN, 2016, p. 19).

Acerca da importância do estilo e do jogo entre a produção dos gêneros e estilos na relação com uma realidade histórica, o autor mostra que:

As mudanças históricas dos estilos de linguagem estão indissoluvelmente ligadas às mudanças dos gêneros do discurso. [...] Os enunciados e seus tipos, isto é, os gêneros discursivos, são correias de transmissão entre a história da sociedade e a história da linguagem. Nenhum fenômeno novo (fonético, léxico, gramatical) pode integrar o sistema da língua sem ter percorrido um complexo e longo caminho de experimentação e elaboração de gêneros e estilos. [...] Onde há estilo há gênero. A passagem do estilo de um gênero para outro não só modifica o caráter do estilo nas condições do gênero que não lhe é próprio, como também destrói ou renova tal gênero (BAKHTIN, 2016, p. 20-21).

Conforme os apontamentos do autor, vemos que o gênero é o aparecimento de estilos no jogo dos sentidos sociais já estabelecidos por uma consciência cultural dada, mas que assumem concretude na unicidade do aparecimento do texto como eixo de sentido. Há uma nova significação a cada gênero que se constitui como assimilação de um modo de expressão de um coletivo e se reporta ao sistema da língua, no plano da interação social, em formas específicas: textuais, fônicas, imagéticas, gestuais etc.

Nesse sentido, o gênero, assume uma atividade responsiva no exercício da linguagem e dialoga, de algum modo, com outros gêneros do mesmo ou de outros falantes/criadores. Bakhtin (2016) apresenta a relação do falante com a linguagem e o mundo:

Todo falante é por si mesmo um respondente em maior ou menor grau: porque ele não é o primeiro falante, o primeiro a ter violado o eterno silêncio do universo, e pressupõe não só a existência do sistema da língua que usa mas também de alguns enunciados antecedentes - dos seus e alheios - com os quais o seu enunciado entra nessas ou naquelas relações (baseia-se neles, polemiza com eles, simplesmente os pressupõe já conhecidos do ouvinte). Cada enunciado é um elo na corrente complexamente organizada de outros enunciados (BAKHTIN, 2016, p. 26).

Notamos que o autor aponta para a existência de uma força centrípeta, que faz com que o falante mobilize um dado de língua, que se encaixa no sistema cultural/social de que ele compartilha enquanto sujeito social; e ao mesmo tempo, o autor situa uma força centrífuga, que direciona o dizer para outros enunciados que o constituem, bem como interlocutores que dialogam de uma maneira polêmica ou não com o fragmento de linguagem reproduzido pelo falante.

O enunciado, enquanto instância particular de cada gênero, atua no corpo concreto da língua como real unidade da comunicação discursiva (BAKHTIN, 2003, p. 274) e está em relação intrínseca com o sujeito falante, parte essencial do discurso. O discurso, que segundo Bakhtin (2003, p. 274) “[...] só pode existir de fato na forma de enunciações concretas de determinados falantes”, possui limites dados pela construção comunicativa do diálogo.

Há um lugar de responsividade em todo e qualquer enunciado e gênero, uma relação memorável e dialógica entre gêneros, em diferentes momentos da história:

Os gêneros do discurso organizam o nosso discurso quase que da mesma forma que o organizam as formas gramaticais (sintáticas). Nós aprendemos a moldar o nosso discurso em formas e gênero e, quando ouvimos o discurso alheio, já adivinhamos o seu gênero pelas primeiras palavras, adivinhamos certo volume (isto é, uma extensão aproximada do conjunto do discurso), uma determinada construção composicional, prevemos o fim, isto é, desde o início temos a sensação do conjunto do discurso que, em seguida, apenas se diferencia no processo da fala. Se os gêneros do discurso não existissem e nós não os denominássemos, se tivéssemos de criá-los pela primeira vez no processo do discurso, de construir cada enunciado e pela primeira vez, a comunicação discursiva seria quase impossível (BAKHTIN, 2016, p. 39).

Com efeito, o autor aponta para o fato de que se pode depreender o conteúdo de um dado gênero pela observação de sua construção composicional e estilo. Tal acepção demonstra que possuímos um repertório cultural e linguístico de gêneros que nos permite compreender a organização de um gênero.

Durante as análises dos enunciados de Michel Temer, também observaremos se os enunciados (discurso de posse como interino, declaração à imprensa e pronunciamento televisivo) podem se constituir como gêneros do discurso. Tendo como premissa o fato de que os enunciados do corpus são realizações enunciativas da esfera política, ao longo das análises, mostraremos como o enunciador constrói os enunciados, de modo a se orientar a interlocutores e a signos da esfera política para delinear uma figura política.

2.7 Do sujeito pela língua ao sujeito pela história: é possível chegar ao sujeito dialógico