2. VISÃO CONTEMPORÂNEA DAS RELAÇÕES CIVIS NA PERSPECTIVA DOS
2.5. O PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E SEUS EFEITOS NA
2.5.1. A multiplicidade conceitual da dignidade da pessoa humana
Árdua tem sido a tarefa daqueles que pretendem estabelecer uma definição precisa e unívoca acerca do princípio da dignidade da pessoa humana, em virtude da multiplicidade conceitual de tal instituto.
Com efeito. O princípio da dignidade da pessoa humana possibilita variadas acepções, a partir do prisma que for enxergado, podendo ser objeto de estudo de diversas ciências, como a Filosofia, a História, a Teologia e, especialmente, o Direito.
Embora muito se tenha afirmado acerca da contribuição religiosa, notadamente a católica, no continente europeu na evolução do conceito do princípio da dignidade da pessoa humana, em razão dos ideais de fraternidade e solidariedade presentes no Cristianismo, não se pode olvidar que tal referencial não pode ser utilizado como único válido historicamente, sob pena de não só restringir geograficamente o fenômeno, bem como reduzir o conceito a um referencial que não é necessariamente idêntico em relação a outras religiões.
Para Immanuel Kant, sempre citado como pensador de referência no tema sobre a dignidade, o homem, como ser racional, “existe como um fim em si mesmo e não apenas como meio para o uso arbitrário, desta ou daquela vontade”64, e diante de tal constatação, a não utilização do ser humano como meio representa um limite ao arbítrio.65
Entende o filósofo francês Jean-Marc Ferry, que há significativa diferença entre a perspectiva cristã e a de Kant sobre a dignidade, porque, embora em ambas exista uma atribuição de uma dignidade inata ao homem em razão da posição que este ocupa no mundo, para o filósofo alemão, esta se estabelece na própria autonomia do sujeito, ou seja; na capacidade que o homem tem de se submeter às leis por ele mesmo criadas e de estabelecer para si um projeto de vida baseada em sua consciência e vontade, enquanto que a visão cristã da dignidade se justifica por “uma certa representação da natureza divina do homem, isto é,
63 Op. cit, p. 16.
64
Kant, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2008, p. 58.
65
no fato de este representar uma unidade substancial entre matéria e espírito, criada conforme a imagem e semelhança de Deus.”66
Para Kant, “no reino dos fins tudo tem ou um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem preço, pode ser substituída por algo equivalente; por outro lado, a coisa que se acha acima de todo o preço, e por isso não admite qualquer equivalência, compreende uma dignidade”67.
Assim sendo, constrói-se a idéia de que a dignidade do homem, reflexo do seu projeto de vida autônomo e consciente, o faz merecer de tratamento que não possa ser coisificado, diminuído em sua esfera pessoal necessária à consecução deste plano por ele traçado.
2.5.1.1 O conceito jurídico da dignidade da pessoa humana
A reflexão sobre as atrocidades perpetradas durante a 2ª Guerra Mundial (1939- 1945) constitui-se marco significativo para a evolução e consolidação da ideia da dignidade humana, através da sedimentação dos direitos humanos, notadamente com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela Assembléia Geral das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948 e a reprodução de seu conteúdo nas principais constituições dos países democráticos promulgadas após a Carta da ONU.
E tal repercussão pode ser vislumbrada na Lei Fundamental de 1949, da Alemanha, nas Constituições portuguesa e espanhola, entre outras, que consignaram como valores fundantes de suas sociedades, o princípio da dignidade da pessoa humana.
Como afirma Maria Berenice Dias, tal preocupação decorreu justamente pela noção de que, diante da flagrante possibilidade e viabilidade do ser humano de se autodestruir, seria necessário garantir “não o indivíduo contra o indivíduo, mas a humanidade contra a própria humanidade”68 e, por via de conseqüência, os direitos humanos internacionalizaram-se com o escopo de “reconstruir paradigmas éticos e restaurar o respeito à dignidade da pessoa humana pelo implemento de todas as condições gerais e básicas que lhe sejam necessárias”.69
66
FERRY, Jean-Marc, apud ARAÚJO JÚNIOR, Francisco Milton. Dano moral decorrente do trabalho em condição análoga à de escravo: âmbito individual e coletivo. Cd Juris Síntese nº 79, set/out 2009.
67
KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2008, p. 65.
68
DIAS, Maria Berenice. A discriminação sob a ótica do direito. Revista Brasileira de Direito de Família nº 13, abr-mai-jun/2002, p. 5.
69
Estabelece Ingo Wolfgang Sarlet, um conceito sobre a dignidade da pessoa humana, entendendo que a mesma é:
“[...] a qualidade intrínseca e distintiva reconhecida em cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa e co-responsável nos direitos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos.”70
Percebe-se, portanto, que o princípio da dignidade da pessoa humana não é um dado jurídico, no sentido de ser decorrente do Direito, mas, por ele reconhecido, uma vez que, no plano filosófico, notadamente desde Kant tem se estabelecido a noção da dignidade como um corolário da autonomia ética que goza o ser humano, sendo ele um fim em si mesmo e não um objeto ou um meio para uso de uma vontade decorrente do arbítrio alheio.
Neste sentido, assevera Helder Martinez Dal Col que “a dignidade da pessoa humana é um dado ôntico; está no mundo do ser e opera como um valor fundante, ou valor fonte, que paira sobre todas as Ciências e inspira o ordenamento jurídico, nele se enraizando através dos preceitos objetivados”.71
Daí que a interpretação de tal princípio deve conduzir a caminhos em que se possa concretizar a proteção dos direitos e garantias cujo conteúdo esteja fundamentado em tal princípio, sob pena de esvaziamento do mesmo.
2.5.1.2 A discussão sobre a supremacia do princípio da dignidade da pessoa humana
Vale registrar que a doutrina72 tem se inclinado no sentido de admitir a prevalência do princípio da dignidade humana diante de outros princípios73, mesmo reconhecendo a inexistência de princípios absolutos, havendo forte celeuma, todavia, quando
70
SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal
de 1988. 6ª ed., rev. atual. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2008, p. 63.
71
COL, Helder Martinez Dal. O princípio da dignidade da pessoa humana, o direito ao trabalho e a prevenção da infortunística. Jornal Síntese nº 88 - junho/2004, p. 15.
72
Vide, por exemplo, Morais, Maria Celina Bodin de. O princípio da dignidade humana. In _______(Coord).
Princípios do direito civil contemporâneo. Rio de Janeiro: Renovar, 2006, p. 14-17. SARMENTO, Daniel.
Direitos Fundamentais e Relações Privadas. 2ª ed., 2ª tiragem. Rio de Janeiro: Lumen Júris. 2008, p. 85-89. BONAVIDES, Paulo, no prefácio à obra de SARLET, Ingo Wolfgang Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988. 6ª ed., rev. atual. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2008.
73
O próprio Sarlet menciona a discussão sobre a possibilidade de se falar no choque entre tais princípios e a eventual prevalência, por vezes, até diante do bem jurídico vida, quando a manutenção desta poderá ser tida como violadora da dignidade (Dignidade da pessoa humana e direitos ..., p. 134-135).
do conflito entre tal princípio diante do bem jurídico vida, o que, contudo, foge ao objeto da presente discussão.
Afirma Fábio Konder Comparato que “a proteção da dignidade da pessoa humana é a finalidade última e a razão de ser de todo o sistema jurídico.”74
Em decorrência dos valores envolvidos e pela afirmação de que o princípio da dignidade seria uma espécie de grundnorm, tem-se como certo, a nosso ver, que a resolução de problemas oriundos da eventual colisão entre os mesmos, dá-se através da dimensão de peso (dimension of weight), sendo exercidos os juízos relativos à proporcionalidade (adequação, necessidade e proporcionalidade em sentido estrito ou razoabilidade), para aferição do valor prevalente.
Ocorre, contudo, que, considerando o objeto do presente trabalho, inclinamo-nos a admitir a supremacia do princípio da dignidade humana quando em conflito com os valores envolvidos nas situações de superendividamento, porque versam precipuamente sobre conteúdo patrimonial, matéria que será abordada no item seguinte e no tópico 5.5 (A possibilidade da eventual limitação de concessão de crédito como proteção da dignidade do contratante).