5. A TUTELA JURÍDICA CONTRA O SUPERENDIVIDAMENTO COMO
5.2 OS EFEITOS SÓCIO-ECONÔMICOS DO SUPERENDIVIDAMENTO
O superendividamento é um fenômeno fático de ampla repercussão em múltiplas esferas do indivíduo por ela afetado, causando um nefasto impacto social, porque não se restringe tão-somente ao efeito jurídico da inadimplência, mas, traz consigo outras conseqüências danosas, como a redução da auto-estima, a depressão, crise familiar, alcoolismo, entre outros, causados pelo descalabro financeiro ocorrido na vida do superendividado.
O consumismo que se instalou nas sociedades capitalistas modernas, inclusive a brasileira, faz com que os desejos ganhem a feição de necessidade e, uma vez não satisfeitos, ensejam uma perda psicológica ao seu interessado, o que se reflete nas suas relações com terceiros, particularmente com os mais próximos do seu meio social327.
As dificuldades financeiras daí decorrentes, via de regra, deflagram uma série de problemas familiares, por conta da ausência de capacidade econômica de honrar os compromissos mais essenciais, ou serem feitos à custa de extremos sacrifícios, gerando insatisfações, discussões, intranqüilidades, e, também, em muitos casos, a redução do poder aquisitivo do consumidor, porque privado do seu crédito, não conseguirá capital suficiente para honrar seus compromissos.
Como relatam Maria Manuel Leitão Marques e Catarina Frade:
O sobreendividamento das famílias não se reduz, pois, a um problema de falta de liquidez. Ele susceptível de se transformar num problema social grave. Acresce que, a exclusão do mercado do crédito e do mercado de outros bens e serviços implica, frequentemente, a exclusão do convívio social e familiar dos sobreendividados e tem repercussões na actividade laboral. Como um círculo vicioso, esse colocar-se e ser colocado à margem acaba por influenciar
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BONAVIDES, Paulo. Teoria constitucional da democracia participativa (Por um Direito Constitucional de luta e resistência, por uma nova hermenêutica, por uma repolitização da legitimidade). São Paulo: Malheiros Editores, 2001, p. 217.
negativamente a capacidade e a vontade de reorganização financeira e profissional destas pessoas.328
Daí que elas entendem que para a solução do problema, muitas vezes, não cabe apenas uma abordagem meramente jurídica, pois envolve questões metajurídicas a reclamar a intervenção de profissionais de outras áreas do conhecimento:
Por isso, tratar este problema pode implicar, em muitos casos, uma abordagem multidisciplinar e abrangente, capaz de promover a auto-estima e ajudar a manter os sobreendividados económica e socialmente integrados. Esta colaboração de vários profissionais (economistas, juristas, médicos, psicólogos, mediadores) justifica-se, por isso, tanto pela complexidade dos processos (operações financeiras ou contabilísticas podem exigir um conhecimento especializado), como pela debilidade psicológica de que podem sofrer muitos destes devedores e seus familiares.329
Embora não seja o ponto principal deste trabalho, a análise da problemática social decorrente do superendividamento, cabe registrar a pesquisa efetuada pelo Instituto WCF- Brasil (Childhood), entidade internacional que atua no combate à exploração infantil, em parceria com a Universidade Federal de Sergipe, e divulgada em 06 de outubro de 2009, sobre o perfil de crianças e adolescentes vítimas de exploração sexual, que demonstrou que 65% delas usam o dinheiro recebido em troca de sexo para comprar objetos de consumo, como celular, tênis ou blusa da moda.330
Relatos colhidos pelos pesquisadores associam claramente a destinação do produto da exploração sexual ao consumo: “Se não tiver um celular não é gente!” (menina, 16 anos), “Eu ganho roupa, sapato, perfume [...] Coisas que eu não podia comprar antes. O que é que tem ganhar presente?” (menina, 16 anos).
Como enfatiza o relatório do referido estudo: “É clara a relação que as próprias vítimas fazem entre a manutenção da exploração e o ‘benefício’ econômico trazido, o qual é capaz de colocá-las mais próximas do(s) ‘objeto(s)’ desejado(s) e valorizado(s) pelo grupo”.
Percebe-se, destarte, a ampla dimensão da problemática envolvida nas situações de superendividamento e das conseqüências oriundas do consumismo desenfreado que é característico das sociedades atuais, que deverão ser enfrentadas por mecanismos jurídicos, ainda que estes não sejam a cura para os problemas sociais que também ocasionam o superendividamento.
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MARQUES, Maria Manuel Leitão e FRADE, Catarina. Regular o sobreendividamento. Disponível em: http://www.dgpj.mj.pt/sections/informacao-e-eventos/anexos/sections/informacao-e-eventos/anexos/prof- doutora-maria/downloadFile/file/MMLM.pdf?nocache=1210675423.37. Acesso em 13 fev. 2010.
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Ibidem.
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Vítimas da exploração sexual de crianças e adolescentes: indicadores de risco, vulnerabilidade e proteção. Disponível em: http://www.wcf.org.br/pdf/resumo_ESCA.pdf. Acesso em 13 dez. 2009.
Repita-se que não é intenção deste trabalho adotar uma postura maniqueísta, desprezando os aspectos positivos relacionados ao fornecimento de crédito e à necessidade do consumo. Até porque o crédito propicia a possibilidade de aquisição de bens e serviços que boa parte da população brasileira não teria acesso, por conta dos seus parcos rendimentos, se não houvesse esta opção.
Neste particular, pontua Luciano Benetti Timm que “são evidentes os aspectos positivos do crédito: facilita o consumo e, portanto, o bem-estar dos consumidores; pode facilitar mobilidade social e de status (educação, bens de consumo); pode ser fonte de autodesenvolvimento.”331 Em contrapartida, se não usado adequadamente ou havendo distorção no seu fornecimento, problemas podem advir da sua concessão:
Apesar disso, o crédito tem também um lado obscuro e perigoso e traz problemas de diversas ordens: a) sociais: aumento da vulnerabilidade daqueles mais pobres (menos renda e poupança e empregos menos estáveis); b) econômicos: aumento da inadimplência, taxa de juros; c) jurídicos: enfraquecimento na relação contratual entre consumidor e fornecedor do crédito.332
O que se pretende é apresentar uma discussão sobre os excessos eventualmente cometidos nas relações que envolvam a concessão de crédito e a abordagem jurídica na solução dos problemas ocasionados nas situações de superendividamento.