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O iluminismo vai se colocar contra a uma natureza humana e sombria, uma ideia de natureza desconhecida e um Deus que não se permite compreender. É possível conciliar uma noção de felicidade humana e o mundo? A filosofia do iluminismo demonstra em grande parte, que a maior virtude humana está ligada à sua capacidade de praticar com a maior harmonia possível a sociabilidade. Com essa exigência, há uma nova tentativa de se conciliar a noção de cultura e a ideia de natureza.

Na sua Resposta à pergunta: que é o Iluminismo, Kant (2005), em um dos mais famosos enunciados do pensamento humano, declara que o “iluminismo é a saída do homem da sua menoridade, de que ele é próprio culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem orientação de outrem”. (KANT, 2005, p.1). A obra kantiana nos serve como registro histórico de que há uma crença na capacidade humana de raciocinar, e que possa então alcançar o entendimento. Por isso, é importante destacar qual o significado do entendimento em Kant, e porque esta ideia se torna importante quanto à emancipação humana.

No texto Sobre a Pedagogia, Kant (2002, p. 15) escreve defendendo “que o homem não pode se tornar verdadeiramente homem senão pela educação. Ele é aquilo que a educação faz”. Kant parece buscar uma demonstração de que não existiria outro caminho para o desenvolvimento pleno da razão humana, mesmo nas exigências desse novo padrão de humanidade que surge a partir do século XVIII. O

uso da razão, e uma “razão pública”, parece ser o modo apontado pelo pensamento kantiano para promover esta noção de entendimento. Cada um se faz independente em sua própria forma de pensar, na medida em que assume publicamente o que pensa sobre qualquer tema que seja.

Este produto do pensamento, essa atitude intelectual, este voo do entendimento, são as ações planejadas e necessárias para que o homem escape de sua menoridade intelectual. Contemporaneamente o problema da razão pública virou um dilema do espaço público, cada vez menos aberto e mais escasso. A razão, não tendo mais um local adequado para o seu exercício, e não cessando a sua atividade, fica cada vez mais reduzida ao âmbito estritamente particular do indivíduo. O isolamento do exercício da razão, que ocasiona cada vez mais o perigoso ilhamento dos sujeitos, nos conduz enquanto sociedade a um modo de vida fragmentado, tornando-nos incapazes de exercer plenamente nosso livre pensar em uma comunidade.

Sobre este momento, Bauman (2008, p. 140) esclarece que “para o indivíduo, o espaço público não é muito mais do que uma tela gigante sobre a qual as preocupações privadas são projetadas sem perderem, apesar da magnificação, a condição de particularidades”. O desafio é conciliar o sujeito em sua condição privada com o sujeito em sua condição de cidadão do mundo. O que Kant propõe é que o status do sujeito jurídico determinado pela ideia de liberdade (indivíduo de jure) seja efetivamente concretizado em uma sociedade de indivíduos autônomos (indivíduo de facto). Sobre isso, Bauman (2008, p. 141) afirma que

Não existem indivíduos autônomos sem uma sociedade autônoma, e a autonomia da sociedade requer uma auto constituição deliberada e decidida, que só pode ser uma realização compartilhada de seus membros. A sociedade sempre uma teve uma relação ambígua com a autonomia individual: ela tem sido ao mesmo tempo sua inimiga e sua condição sine qua non, mas as proporções relativas de ameaças e chances, no que está destinado a permanecer como uma relação ambivalente mudaram depressa no curso da história moderna. Menos do que uma inimiga, a sociedade é a condição que os indivíduos precisam, mas muitas vezes perdem, em sua vã e frustrante luta para transformar de novo seu status de jure numa autonomia genuína e numa capacidade da auto afirmação.

Ao servir-se do seu próprio intelecto para determinar suas escolhas, sobretudo a escolha sobre uma postura ética, o sujeito assume o controle do seu pensar, portanto determina a sua própria visão de mundo. Não é simples nem fácil escapar ao outro para refletir por si próprio. Há de se saber em que medida a escola contribui de forma efetiva para que se constituam sujeitos que utilizem o seu próprio pensar para promover suas escolhas. Podemos afirmar que a tolerância, enquanto capacidade de perceber no outro a sua própria maioridade, nos encaminha para o exercício de uma razão pública e comprometida com os valores humanos.

Por essa razão, em nome de nossa capacidade de nos servir do nosso próprio pensamento enquanto nossa liberdade de consciência, é que Kant (2005, p.5) volta a afirmar que,

tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tenha coragem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do iluminismo.

Uma das finalidades primordiais de sua filosofia é demonstrar o quanto são importantes e inevitáveis em nossas vidas as questões morais. A todo instante somos impelidos a decidir entre alternativas, promovendo sínteses, separações, classificações e exclusões, que muitas vezes são baseadas em valores que para nós são totalmente obscuros. Por essa razão, a tentativa de conciliar, senão fundir as esferas da razão e da moralidade torna-se um dos pontos altos do projeto filosófico kantiano. Por isso, com a maioridade, o homem, além de obter a sua autonomia, não depender de nenhum outro para emitir suas próprias opiniões, torna- se minimamente esclarecido, atinge com uma certa qualidade racional na sua condição moral.

A razão pública se apresenta como uma razão universal e determina assim os critérios de ação e de escolha de todos os sujeitos que conquistaram a sua maioridade intelectual. O adágio kantiano que determina que só podemos escolher uma determinada ação se esta puder ser universalizada é o objetivo maior a ser cumprido pelo processo educativo e civilizatório ao qual estamos submetidos. O iluminismo, com Kant, toma proporções ainda maiores, pois torna-se uma obrigação

do homem de razão a uma conduta política ética, e que não tenha outro objetivo senão a elevação moral da humanidade. Tanto a escola quanto a universidade na sua prática educativa cotidiana, de certa forma, prometem receber um sujeito totalmente desprovido de capacidade de operacionalizar os recursos lógicos, semânticos e hermenêuticos propostos por cada disciplina. Na medida em que avança, o aluno então, vai se encaixando pouco a pouco neste modelo pré- estabelecido de humanidade determinado por estas instituições.

Ao passar por esse processo de formação, a sua finalidade é não apenas reproduzir os discursos e preconceitos apreendidos durante o seu percurso intelectual, mas também, de criar novos sistemas de pensamento e propor outras visões de mundo. A autonomia intelectual pressupõe um trabalho árduo, e no final do seu processo permite àqueles que conseguiram a sua liberdade intelectual vislumbrar, nos outros que estão a caminho, que todos estão de uma forma ou outra engajados neste projeto de formação humana. “É, pois, difícil a cada homem desprender-se da minoridade que para eles se tomou quase uma natureza” (KANT, 2005, p. 2), por isso, “[...] preceitos e fórmulas, instrumentos mecânicos do uso racional, ou antes, do mau uso dos seus dons naturais são os grilhões de sua minoridade perpétua”. (ibid., p. 2).

Sendo assim, a difícil tarefa de educar um ser humano para ser livre em si mesmo, ter a consciência plena do seu lugar no mundo, assumir o seu papel de auxiliar a própria liberdade de outrem, e ainda, o mais difícil de se alcançar, agir conforme os preceitos morais dessa autonomia e desta liberdade conquistada, é o resultado final de todo esse árduo processo de esclarecimento. Kant usa apenas uma vez a palavra tolerância em seu texto, ao elogiar a atitude do rei Frederico que deixou os seus súditos livres para seguirem a religião que bem entendessem. No entanto, quando fala das atitudes de escolha de acordo com a liberdade, ele sempre toma a precaução de alguma forma ou outra ao prever que essas ações sejam devidamente cometidas com cuidado. Isto é, agir cuidadosamente sem ferir a liberdade, e de acordo com o entendimento construído.

Kant utiliza a expressão “ilustrar” para determinar precisamente a destituição dos preconceitos que até então guiavam o nosso entendimento e formavam a nossa visão de mundo. Quando o sujeito é destituído de pensamento, os preconceitos sempre estão se renovando, preenchem esse espaço “vazio”. O filósofo defende que

“para essa ilustração, nada mais se exige do que a liberdade; e, claro está, a mais inofensiva entre tudo o que se pode chamar liberdade, a saber, a de fazer um uso público da sua razão em todos os elementos”. (KANT, 2005, p.2). Este uso da razão é o caminho natural do qual podemos fazer o uso de nosso próprio entendimento e viver de fato a nossa liberdade.

A nossa liberdade consiste sobretudo em podermos nos orientar sempre que tivermos necessidade, pelo uso da reta razão. Esta é uma proposta de caminho que em grande parte foi aceita pelo sistema escolar e universitário, mas que ainda não se realizou em sua plenitude. Podemos afirmar então, que a violência pode ser o resultado da falta do uso da razão, que por não ter sido libertada e nem praticada, não proporcionou a oportunidade de apontar melhores caminhos para determinadas situações na vida escolar.

Quando o filósofo alemão opõe os termos ilustração e preconceito, ele procura apontar que a solução para a nossa ignorância, que se manifesta em pré- juízos dogmáticos e opiniões irrefletidas, é a busca incessante pelo desenvolvimento da razão e do entendimento. Ao enquadrar o outro em seus preconceitos fechados, o sujeito nega do outro e também de si mesmo a possibilidade que tem de utilizar-se de uma razão pública e universal, fechando assim as portas para qualquer entendimento. Esse é o caminho que as instituições de formação devem necessariamente apontar, resguardando sempre o importante espaço público da razão e o seu uso em comum.

Desta forma, estabelece-se uma maneira de pouco a pouco enfraquecer os rótulos, as marcas, e os símbolos construídos pelos pré-conceitos advindos de todos os espaços, mostrando que sua alternativa, ou seja, o uso da racionalidade é uma medida que contempla universalmente todos os sujeitos envolvidos na comunidade. Esse é o caminho, segundo Kant, para extirparmos de vez o dogmatismo das opiniões e instituirmos uma cultura da racionalidade, que propunha um caráter cada vez mais abrangente e até mesmo, mais universal.

O modelo alemão da razão, que chegou até as últimas consequências com Kant e Hegel, e que vai moldar em grande parte uma nova concepção de educação nos séculos XIX e XX, começa sua decadência ou crítica com o que consideramos a época romântica. Nomes de peso como Goethe, Lessing e Herder na Alemanha, e Kierkegaard, na Europa em geral, vão demonstrar o quanto a razão humana está

ligada à natureza, e o quanto esta relação amplia a razão para além de uma lógica fechada, e torna ainda mais complexa uma noção de subjetividade.

As teorias políticas, sobretudo o marxismo, também se servirão do desenvolvimento da racionalidade humana para procurar demonstrar a necessidade de supressão do indivíduo em relação à comunidade. Uma nova ideia de espírito é formada durante este período, concepção esta que propõe ao homem assumir os rumos da história, e submeter de vez a natureza aos seus pés.

A grande crítica dessa ideia de razão suprema dar-se-á com os frankfurtianos, em especial destacamos em nosso texto, Adorno, Horkheimer e Marcuse. A experiência derradeira que colocara em cheque os super poderes da razão é sem dúvida todo o processo de construção do clima e da cultura de guerra na Alemanha, e como finalmente esta guerra se processou. A experiência da II guerra mundial foi determinante para os destinos das reflexões filosóficas, sociológicas, econômicas e culturais do ocidente.