5.2 A educação audiovisual
5.2.1 Sensibilidade e imagem
A imagem nos afeta em duas situações distintas. Primeira, quando diante dela, ou seja, da imagem, a apreendemos com nossos sentidos. A segunda, quando aquele momento de encontro diante da imagem se desfenece, vira seu passado, formando uma outra imagem. A passagem de um momento a outro, entre uma imagem e outra, aquela que testemunhamos, e esta que agora está presente em nossa memória, demonstra de que forma esse processo nos afetou e quais são os resultados deste encontro. Este modo no qual está envolvido a nossa sensibilidade, que se aproxima e se distancia dos momentos vividos e que determina em grande medida o sentido dos acontecimentos, tem como resultado o seu processamento, ou seja, a linguagem.
Barthes (1987) recorre ao texto escrito (a teoria literária) para demonstrar esse espaço que existe entre o sujeito e o objeto, uma espécie de vazio que percorre uma linha entre a objetividade e a subjetividade, que carente de sentido, busca dar forma ao conteúdo que se apresenta a sua percepção.
Como diz a teoria do texto: a linguagem é redistribuída. Ora, essa
redistribuição se faz sempre por corte. Duas margens são traçadas:
uma margem sensata, conforme, plagiária (trata-se de copiar a língua em seu estado canônico, tal como foi fixada pela escola, pelo uso correto, pela literatura, pela cultura), e uma outra margem,
móvel, vazia (apta a tomar não importa quais contornos) que nunca é
mais do que o lugar de seu efeito: lá onde se entrevê a morte da linguagem. Estas duas margens, o compromisso que elas encenam, são necessárias [...] daí, talvez, um meio de avaliar as obras da modernidade: seu valor porviria de sua duplicidade. Cumpre entender por isto que elas tem sempre duas margens. A margem subversiva pode parecer privilegiada porque é a da violência; mas não é a violência que impressiona o prazer; a destruição não lhe interessa; o que ele quer é o lugar de uma perda, é a fenda, o corte, a deflação, o fading que se apodera do sujeito no imo da fruição. A cultura retorna, portanto, como margem: sob não importa qual forma. (BARTHES, 1987, p. 11-12).
Tanto a violência quanto o prazer atraem os sentidos para si. Barthes procura demonstrar que há uma dissociação entre ambos, tendo em vista a natureza distinta de cada um desses afetos ou ímpetos. Esta distinção expressa-se na linguagem, que ele nomeia de “dupla margem”, no sentido de que a sua satisfação formal não atinge necessariamente uma completude em relação aquilo que a linguagem descreve. O intermédio das palavras altera a realidade, sem, no entanto, nos dar acesso a ela. Este meio do caminho entre uma margem e outra, no qual de um lado existe uma realidade completa descrita pelas palavras, e de outro lado, há uma sensação de que a descrição dos acontecimentos não conseguiram ser fiéis a história, demonstra que a realidade é sempre interpretação.
O sujeito lançado entre as duas margens, busca sempre resolver esta tensão. Exatamente neste ponto é que podemos compreender como a imagem busca ser forjada no interior dos indivíduos, na qual ainda podemos ter uma dimensão, ainda que distante, de como a sensibilidade opera.
Uma análise da percepção passa necessariamente pela discussão sobre a imagem, e ainda, tal investigação desencadeia uma reflexão sobre a nossa
percepção. O termo imago ou imagem tem dois significados aparentemente distintos, mas que de certa forma são complementares: a primeira acepção vem da biologia que remete ao imago um estágio de desenvolvimento dos insetos. Quando a larva, depois de se alimentar o suficiente e armazenar a energia necessária para sua metamorfose, procura um lugar adequado para pendurar-se e formar o seu casulo. O que sairá dali - uma borboleta - será um animal totalmente distinto daquele do qual teve sua origem. É este momento da constituição do inseto adulto na sua fase evolutiva final, e no seu esquecimento enquanto larva, o que chamamos de imago.
Outra definição de imago vem da contribuição da psicologia de Jung18 (2013) que explica a título de exemplo, como uma determinada imagem inconsciente dos objetos é construída e desempenha função arquétipa e modelar nas nossas escolhas objetivas. É dessa maneira que poderíamos conceber o que significam amor maternal e fraternal. Não sendo possível defini-los do ponto de vista da ciência, só tomam sentido na medida em que se apresentam para nós como constituintes de nossa psique e que desempenham papel fundamental na nossa relação com o mundo.
Ao unir os dois significados de imagem, podemos concluir que, independentemente dos estágios anteriores de uma determinada imagem, apreendemos somente aquilo que momentaneamente nos aparece; e que a imagem tem força o suficiente na nossa construção de mundo porque de alguma forma esta organiza a nossa psique e nos prepara para que percebamos da forma menos caótica possível a realidade. A imagem, que é organizada pelos nossos sentidos, tem uma estreita relação com a sensibilidade.
18 Sobre o significado profundo da imagem, Jung (2013, p. 145) afirma que: “entre as coisas que
foram de maior importância na idade infantil tem papel preponderante, no que se refere à influência, à personalidade dos pais. Mesmo que os pais tenham falecido há muito tempo e poderiam ter perdido ou deveriam ter perdido toda a importância, modificando-se a partir daí talvez completamente a situação de vida dos doentes, eles continuam sendo importantes para o paciente e de certa forma presentes, como se ainda estivessem vivos. O amor e a veneração, a resistência, a antipatia, o ódio e a revolta do doente ainda se fixam na imagem deles, distorcida pela afeição ou aversão, e que muitas vezes não tem mais grande semelhança com a realidade do passado. Esse fato levou-me a não mais falar diretamente do pai e mãe, mas usar o termo „imago‟, pois nessas fantasias não se trata mais propriamente do pai e da mãe, mas de suas imagens subjetivas e frequentemente bastante distorcidas que, no entanto, marcam o espirito do doente uma presença fantasmagórica, ainda que muito influente”.
Neste caso, o sensível nos remete sempre a uma memória, uma imagem mental que tanto se apresenta como lembrança para nós na forma de uma pintura, de um som, de um movimento, entre outras, e nos remete diretamente à experiência dos fenômenos vividos em nossa vida. A imagem se apresenta à sensibilidade, ao mesmo tempo em que a sensibilidade se apresenta à imagem, formando um círculo, ainda que obscuro, na qual a nossa compreensão torna-se uma possibilidade. A visão, claro, constitui o foco central pela qual as imagens são construídas. Todo o esforço estético dos meios e do mercado se concentra neste sentido, pelo qual a “imagem é por excelência o lugar desta visibilidade”. (JUNG, 2013, p.79).
Benjamin (1980, p. 11) esclarece que “o gesto de pegar um isqueiro ou uma colher nos é aproximadamente familiar, mas nada sabemos sobre o que se passa verdadeiramente entre a mão e o metal, e muito menos sobre as alterações provocadas nesse gesto pelos vários estados de espírito”. O século XX e o avanço das técnicas em todas as frentes que por sua vez representam o desenvolvimento das ciências, também culminou na mudança das formas pelas quais nos relacionamos com o mundo.
A possibilidade de imersão na realidade em outras frentes de acesso, como exemplo a televisão e o computador, teve consequências importantes na nossa maneira de ver o mundo. Baudrillard, no seu estudo sobre a modernidade, já apontara com bastante propriedade esta nova sensibilidade do homem moderno. Sem dúvida, a pós-modernidade alterou e multiplicou esta sensibilidade muitas vezes, demarcando para sempre as novas fronteiras entre o homem e as coisas.
Baudelaire (1996), Bauman (2007), Serres (1994, 2016) e Hall (2006, 2009) também promoveram uma radiografia importante dessas novas interações e seus limites. Os processos de alienação, reitificação e coisificação, denunciados como o efeito colateral e perverso das novas sociedades industriais e financeiras, parecem marcar não apenas a nossa relação com os objetos do mundo, mas também novas formas de sociabilidade e de representações sociais características do nosso tempo. Existe um grande perigo em nos aliarmos aos objetos que facilitam a nossa vida cotidiana, na medida em que nos misturamos a eles sem muitas vezes distinguir qual a natureza de uma coisa ou outra.
Todo este processo comprometeu ou modificou de forma bastante significativa a nossa capacidade de ver o mundo, portanto, nossa sensibilidade.
Além do mais, a rapidez e a fluidez exigidas pelo mundo pós-moderno deixam nosso tempo escasso para tratarmos com mais qualidade, profundidade e reflexão toda a sorte de experiências em que estamos envolvidos. Esse mesmo aspecto de fluidez da realidade exige de nós que tenhamos reflexos compatíveis com os acontecimentos. A sensibilidade de nossos dias, em especial a visão, está imersa nesta cultura da liquidez, e assim como o paradigma da internet, exige de nós uma onipresença e uma onisciência das quais nos é impossível, humanamente falando, alcançar.
Por essa razão, Baudrillard (2004, p. 77) escreve que,
É verdade que existe uma violência da imagem, mas esta violência é largamente compensada pela violência feita à imagem. Sua exploração à fim de documentação, de testemunho, de mensagem, sua exploração com fins morais, políticos, publicitários, para efeitos de informação simplesmente...19. (tradução nossa).
A nossa sensibilidade é ao mesmo tempo repleta de imagens e formada por estas. O nosso contato com o mundo, seja através das pessoas ou dos objetos que os constituem, exige de nós uma organização desta gama imensa de dados que nos são transportados pela experiência. Baudrillard dimensiona esta relação descrevendo-a como violenta, no sentido de que a percepção do mundo nos é inevitável, tal qual já descrevemos em Leibniz (1982) no seu conceito de percepção. Os estímulos sofrem um processo no interior do sujeito, o que resulta na “apreensão final do destino da imagem, uma vez como ilusão fatal e como ilusão vital20”. (BAUDRILLARD, 2004, 78, tradução nossa). A ilusão fatal nos remete à discussão sobre o que é verdadeiro ou não, já que estamos imersos no mundo das aparências, e sem dúvida, todo o aparato audiovisual aliado às questões de mercado e manipuladoras do desejo, contribuem para forjar esta realidade simulada.
Por outro lado, a ilusão vital nos mostra como a nossa constituição intelectual, cognitiva e psicológica tem como traço fundamental a construção de imagens, sendo sem dúvida uma característica importante da racionalidade humana. Em outro
19 No original: “est vrai qu‟il y a une violence de l‟image, mais cette violence est largement compensée
par la violence faite à l‟image : son exploitation à fin de documentation, de témoignage, de message, son exploitation à des fins Morales, politiques, publicitaires, à des fins d‟information tout simplement...”
âmbito, este encontro é inevitável, entre o sujeito e o mundo, e tem como resultado sempre a imagem. No entanto, não é uma aproximação simples como aparenta, já que na concepção de Blanchot (1987) a imagem é sempre o sentido que nós damos sobre o mundo que experimentamos. A formação de uma imagem para nós torna-se a maneira como compreendemos algo que já passou, a história de um acontecimento que se deu a poucos instantes.
Portanto, este processo, fundamental para a constituição do sentido e da versão dos acontecimentos está sempre no passado, na qual aquela realidade do encontro que de alguma forma está perdida enquanto um acontecimento presente, só pode ser acessado por algum tipo de imagem que o constituiu. Desta forma, “a semelhança questiona-nos, portanto, também desde a morte: a imago é sempre a imagem daquele ou daquela que não existe mais. Ora, a própria morte é inesgotável e interminável para os viventes”. (DIDI-HUBERMAN, 2011, p. 31).
As imagens dos acontecimentos de nosso tempo dão-se sobretudo através dos recursos audiovisuais pelos quais esses fatos passados chegam até nós. O nosso entendimento sobre esses inúmeros dados operam sempre por semelhança, ou ainda, verossimilhança. Ou podemos ir mais além, pela „vontade de verdade‟, como sugere Foucault. “O devir real se desdobra no devir visível a todo preço21” (BAUDRILLLARD, 2004, p. 79, tradução nossa). É assim que algo supostamente estranho, quer seja uma notícia referente ao Japão ou à Índia, ou um filme sobre o velho oeste americano tem sempre algo de familiar conosco, mesmo que em certos aspectos, nossos habitus, nosso capital cultural, e nossas condições sócio econômicas sejam totalmente distintas.
De qualquer forma, a semelhança entre as nossas crenças, desejos e intenções com os acontecimentos que experienciamos no mundo determina qual tipo e o alcance de nossa sensibilidade em relação a estes. A visão aqui torna-se o caminho fundamental pela qual as informações nos chegam. Os outros sentidos, principalmente a audição, acompanham a imagem formando seu complemento e aumentando os elementos que cercam e determinam um certo fato social ou histórico.
Ver supõe a distância, a decisão separadora, o poder de não estar em contato e de evitar no contato a confusão. Ver significa que essa separação tornou-se, porém, encontro. Mas o que acontece quando o que se vê, ainda que a distância, parece tocar-nos mediante um contato empolgante, quando a maneira de ver é uma espécie de toque, quando ver é um contato a distância? (BLANCHOT, 1987, p. 22).
Por isso, entendemos que a percepção, e em especial a visão, passam longe de ser simplesmente um momento de passividade daquele que assiste algo, seja o espectador, ou aquele que testemunha o acontecimento. A visão interage com os fatos contribuindo de forma decisiva para a sua tomada de sentido. A todo momento a sensibilidade é forjada por meio dos sentidos que a transformam na medida em que estes estão sujeitos ao mundo e suas transformações. Podemos pensar em duas situações distintas diante do mesmo fato: aquele que sofre a violência em seu corpo físico, e aquele que assiste o outro ser agredido. Ambos estão passíveis a esta violência demonstrada? Incluindo ainda o agressor, de uma forma ou outra, todos os atores nesta situação comum encontram-se sujeitos ao universo da violência.
Nesta cena completa, “[...] a banalidade da imagem junta-se a banalidade da vida22”. (BAUDRILLARD, 2004, p. 79, tradução nossa). Isto nos revela que não somos capazes de escapar das percepções, e ao mesmo tempo, sempre damos um rumo conceitual para o que vivenciamos. A sensibilidade é construída neste universo amplo e determina a forma como os fenômenos são enquadrados. Novas maneiras de sensibilizar e chocar o público são sempre experimentados, por exemplo, pelo cinema. Basta vislumbrar a sua evolução. O som que lhe foi incluído, saindo da fase do cinema mudo.
Do preto e branco ao mundo em cores; da bidimensionalidade para a tridimensionalidade; nosso campo sensório se alastra na medida em que experimenta novidades e conclui como necessários esses novos avanços que permitiram o acesso a outros mundos. O audiovisual é só uma das maneias como temos acesso ao mundo e formamos sua imagem. Sejam imagens somente, ou imagens combinadas com sons, ou ainda, ambos em acordo com a liberdade de escolha e em acordo com o tempo disponível daquele que observa.
Em todos estes casos, esta é apenas mais uma ocasião na qual revelamos a forma como interagimos com o mundo. E ainda, uma canal único pelo qual temos acesso ao mundo que de outra forma se manteria distante e até mesmo isolado de nós. É por esse motivo que “uma imagem nos toca imediatamente, bem antes da representação: sobre o plano da intuição, da percepção. Neste nível, ela é sempre uma surpresa absoluta, ao menos, ela deveria ser23”. (BAUDRILLARD, 2004, p. 77, tradução nossa).